A voz tradicional na contemporaneidade : Considerações sobre a cultura popular em Matarandiba, Bahia

Imprimer

 

Edil Silva Costa

Thaís Aparecida Pellegrini Vieira

UNEB (Universidade Estadual da Bahia-Brasil)

 

Pois a voz, de fato, é mais que a palavra.

Sua função vai além de transmitir a língua.

Paul Zumthor

 

 

Num momento de tantas incertezas e temeridades em que a vida comunitária, tão coesa em outros tempos, se esgarça; momento este em que as pessoas se afastam por força das dificuldades do cotidiano e das novas estruturas sociais às quais as comunidades de caráter tradicional se adequam, a voz continua a ser um importante elo. A voz une pessoas. Tanto aquelas próximas, que compartilham o mesmo meio social, quanto aquelas distantes no tempo, pessoas de hoje com seus antepassados. Desse modo, a voz da  tradição estabelece elos entre o tempo contemporâneo e o passado ancestral. Uma questão que delineamos a partir dessa constatação diz respeito à permanência da voz no mundo contemporâneo. Nossa investigação caminha, pois, no sentido de compreender essa permanência e os modos como se dá esse fenômeno, uma vez que os recursos tecnológicos ampliam as possibilidades de transmissão e de registro, alterando, portanto, os modos de construção e preservação da memória.

O acesso às novas tecnologias, assim como aos meios de comunicação de massa cada vez mais diversificados e ampliados, não se restringe aos centros urbanos e suas periferias. Assim, os modos de vida das comunidades tradicionais vão sofrer alterações mais rapidamente e novas formas de relações se estruturam.

O enfoque deste artigo é direcionado para questões  que se esboçaram ao observar a permanência da voz tradicional na Vila de Matarandiba, uma comunidade  tradicional, cujos habitantes estão ligados por fortes laços comunitários e de parentesco. A referida Vila é próxima de Salvador, capital do Estado da Bahia, Brasil. Pretendemos analisar como essa comunidade, dispondo de todos os recursos tecnológicos e do acesso à cultura de massa, mantém suas tradições e de que modo a aproximação da cultura oral tradicional vai se (re)construindo a partir das relações com a cultura do espetáculo.


O Cenário: entre peixes e conchas

 

A Vila de Matarandiba constitui uma comunidade de pescadores e marisqueiras situada na contracosta da Ilha de Itaparica, Recôncavo da Bahia, Brasil. A pequena vila encontra-se nas águas da Baía de Todos os Santos e, apesar de não ser conhecida como ponto turístico, possui alguns destinos para passeio, como a Barra Falsa, que se destaca pelas dunas de areia alvíssima e água transparente; caminhadas ecológicas pela mata atlântica e a fonte do Tororó, próxima à ponte do Funil, que liga a Ilha de Itaparica ao continente pela BA-026.

Segundo o historiador Ubaldo Osório, “a vila de Matarandiba também já foi chamada de Ilha dos Burgos, por haver pertencido aos descendentes do ouvidor Cristóvão de Burgos, o que foi Vedor Geral das fortificações da Bahia” (1979, p.448).  Atualmente,  Matarandiba é um povoado que conta aproximadamente 700 habitantes. Por não existir terreno livre para venda, são as mesmas famílias que moram na vila. O lugar é pacato, com baixos índices de violência. As práticas econômicas que movimentam a vila são a pesca e, principalmente, a mariscagem.

As comunidades da Ilha de Itaparica localizadas na contracosta nunca tiveram um acesso privilegiado,  sendo assim, o entrar e sair de Matarandiba sempre foi difícil. Segundo Angelina Santiago Costa, nascida e criada na comunidade, até os anos de 1970, o acesso se dava por navio e saveiro, porque Matarandiba era uma ilhota separada da ilha de Itaparica. Saindo do continente (no caso, do porto de Salvador),  os navios ou saveiros atravessavam a costa da Ilha de Itaparica, fazendo um percurso que durava aproximadamente duas horas e meia, até  chegar à contra-costa e consequentemente à vila.  Os alimentos, as informações e a presença da cultura externa demoravam de chegar àquela localidade. Naquela época, o único meio de comunicação acessível à vila  era o rádio, já que não existia energia elétrica.

Até hoje, principalmente em épocas de chuva, o acesso continua problemático por existir um único meio de transporte, para entrar e sair da vila, apenas três vezes ao dia. Saindo de Bom Despacho [1], são aproximadamente vinte e oito quilômetros pela rodovia estadual BA 001, até chegar ao portão de acesso que indica a via de chegada à comunidade. Do portão até a localidade são oito quilômetros em uma estrada rústica.

 

Fig. 1: O pescador

Fig. 1: O pescador

 

O lugar é aconchegante e encantador.  Sua geografia é um pouco acidentada, marcada pela presença de pequenas montanhas, possibilitando um vislumbre do local. De longe, são visíveis dois elementos importantes da paisagem : as conchas e os peixes. As conchas estão por toda parte : nas ruas, servindo de calçamento; nas varandas das casas, como enfeites e acabamento nas paredes; na pequena produção artesanal; nos mariscos, atividade econômica local e também como nome da moeda social que circula na vila[2]. Além das conchas, os peixes compõem o cenário através dos pescadores, que saem pela manhã com seus barcos e canoas, e  voltam, ao pôr do sol, contando causos, onde peixes aparecem como verdadeiros personagens.

A realidade dos moradores de Matarandiba começou a ser alterada quando a Dow Química[3] comprou grande parte da área de Matarandiba e aterrou a vila, que passou a ter uma ligação terrestre com a Ilha de Itaparica. Isso aconteceu por volta dos anos 1970. Para a extração de salgema, foi instalada uma fábrica, hoje proprietária majoritária de Matarandiba, sendo que 97% do território da ilha pertence à Dow e 3% aos moradores da vila que tiveram seus terrenos preservados. A industrialização chegou de forma imponente, invadindo um espaço marcado por memórias e significações, uma vez que, até aquele momento, a força de trabalho dos moradores da vila se concentrava na pesca artesanal e na mariscagem e as relações de trabalho se baseavam na economia solidária. Atualmente, alguns moradores dizem que o aterramento ajudou, contribuiu para que a vida deles melhorasse, porque facilitou o acesso ao continente. Para outros, o aterramento prejudicou a pesca, pois afastou os peixes de maior valor comercial. Segundo os pescadores, “hoje não se acha mais peixe grande, só tem peixe miúdo e ninguém quer comprar”.

Para uma rápida apresentação, eis o cenário. Complementando essas informações e apresentando a cultura da Vila de Matarandiba, trazemos a voz de Marivalda Purificação dos Santos, do grupo de samba “Voa Voa Maria”. O samba “Eu vi dizer” [4], de sua autoria, exalta a cultura popular da Vila, listando as manifestações marcantes da identidade do lugar:

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar

Que Matarandiba é boa,

É boa de se brincar.

(refrão)


Nossa cidade é pequena,

Mas tem história decente.

Tem um grupo de senhoras

Que se sente adolescente.

 

Nós temos muita cultura

E vou contar pra vocês:

Formamos samba de roda

Também o Terno de Reis.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Nós temos o São Gonçalo,

Uma festa religiosa.

Saímos com uma imagem,

Cantando de porta em porta.

 

Essa festa é no Natal.

É tudo muito bonito,

As roupas padronizadas,

Os chapéis são coloridos.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Também tem o Boi Janeiro

Que muita gente conhece.

Quando ele está na rua

Todo mundo se diverte.

 

Com vaqueiro, com baliza

E com o povão que é bom,

Também tem o Aruê

Que é festa no Reveillon.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Fazemos um cunzinhado,

Somente uma vez no ano.

Formado pelas mulheres,

O que contrareia os homens.

 

É levado a guaraná,

Cerveja e feijoada.

Passamos o dia inteiro

Numa praia encantada.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Tem a lavagem na fonte,

Ressaca no São João,

Com licor de jenipapo

Também o de Jamelão.

 

Nós temos o candomblé

E nós temos que falar,

Com o presente nas águas

Que é dado pra Iemanjá.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Fundamos samba mirim,

Eu nunca vi coisa igual.

Também tem o Zé do Vale

Que é uma peça teatral.

 

Nossa cidade é rica,

É o que falam por aí.

Quem vem pra passar dois dias

Não quer mais sair daqui.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar...

 

Os homens dessa cidade

Também tem os seus valores.

Representando a cultura,

Nós temos os tocadores.

 

Nossa cidade é pequena,

Porém é muito bonita.

Tenho orgulho de dizer

Que sou de Matarandiba.

 

Eu vi dizer,

Eu vi falar

Que Matarandiba é boa,

É boa de se brincar.

Que Matarandiba é boa,

É boa de se brincar,

Eu vi dizer,

Eu vi falar.

Eu vi dizer,

Eu vi falar

Que Matarandiba é boa,

É boa de se brincar.

 

A letra do samba “Eu vi dizer” estabelece um verdadeiro inventário das manifestações culturais locais. Não sem razão, o samba serviu de trilha musical para uma reportagem sobre Matarandiba exibido no programa de variedades “Soterópolis”, da TVE (TV Educativa), rede de televisão local e mantida pelo IRDEB (Instituto de Rádio Difusão do Estado da Bahia), órgão de comunicação oficial do Governo do Estado[5].

Acompanhamos durante dois dias (10 e 11 de março de 2012) o trabalho da equipe de TV que fez a reportagem e a movimentação dos moradores de Matarandiba que tiveram seu cotidiano alterado com a presença da equipe ou que participaram diretamente do trabalho. Essa experiência levantou algumas questões: o que motivou a rede de televisão do Governo do Estado a registrar a tradição oral dessa comunidade narrativa? O que muda nas formas de fazer populares quando há outros interesses em jogo? Altera-se a recepção dos textos ao perceber o interesse midiático na tradição?

A investigação mostrou que tanto o grupo de samba de roda, como o drama popular do Zé do Vale foram alvo de adaptações incentivadas pela interferência nos modos de vida da comunidade.

 

O drama  Zé de Vale de Matarandiba: a tradição na tela da tv


Assim como diz o samba “Eu vi dizer”, o contato com os moradores da Vila, principalmente com as mulheres da Associação Sociocultural de Matarandiba (ASCOMAT), comprovou a presença de vários gêneros orais, a exemplo de causos (histórias de pescadores e facécias), contos populares, romances tradicionais, os ternos[6],

Samba-de-roda[7], a festa de São Gonçalo[8], Aruê[9] e o Boi Janeiro[10].

A ASCOMAT, enquanto pessoa jurídica, pode concorrer a editais que garantiram ajuda financeira ainda bastante restrita para a compra de figurino e instrumentos musicais, assim como materiais para compor o cenário da encenação. Poucos anos atrás, a ASCOMAT, através de sua presidente Adenildes Vargas Leal, resolveu organizar as manifestações da cultura local, utilizando um calendário religioso e festivo. As atividades ocorrem durante os meses de dezembro e janeiro e são aguardadas com bastante ansiedade pela comunidade.

A concorrência a editais certamente deu visibilidade ao grupo, o que levou a Secretaria de Cultura a mapear e identificar as manifestações da cultura popular de Matarandiba como potencial para espetacularização. Como foi dito, os recursos dos editais são parcos, mas podem impulsionar os grupos a uma auto-sustentação quando inseridos no mercado do entretenimento. O governo, através de seus órgãos de fomento à cultura, e a iniciativa privada, através das leis de incentivo à cultura, tiram proveito tanto político como econômico do capital simbólico da comunidade.

Importante frisar que a Associação também teve interesse e responsabilidade no processo. Objetivando registrar e também divulgar as tradições culturais da vila, a ASCOMAT convidou a TVE para fazer a filmagem. A referida emissora de televisão se instalou em Matarandiba, montando seus aparatos tecnológicos, com o intuíto de gravar o Zé de Vale, bem como outras manifestações da tradição oral da comunidade, um pouco de cada uma delas, descontextualizadas, como amostras do que “vi dizer” que tem em Matarandiba. Como foi dito, as gravações serviram de material para uma reportagem sobre Matarandiba que foi apresentada no programa Soterópolis, exibido em âmbito baiano.

A apresentação do auto popular Zé de Vale, que aconteceu no dia dez de março de 2012, foi amplamente divulgada, através da internet: nas redes sociais (Facebook e Twitter), no site You tube através da gravação de um vídeo convite, por e-mail e em vários blogs, reiterando que existe um elo entre a cultura popular de Matarandiba e os adventos tecnológicos contemporâneos. A ampla divulgação resultou na participação de um público maior, tanto de nativos como de visitantes.

A presença da TVE interferiu na apresentação do auto que, normalmente, obedecia ao calendário da ASCOMAT, sendo apresentado no mês de janeiro. A presidente da Associação informou que o auto não pôde ser apresentado no mês de janeiro por falta de verba para organização do evento. Segundo ela, o fato de fazer a apresentação em março seria também em comemoração ao aniversário de quatro anos da ASCOMAT.

A partir do momento em que a emissora TVE chegou na vila, o cotidiano dos moradores foi alterado. Tudo foi preparado na intenção de uma apresentação para a os residentes da comunidade e também para uma apresentação capaz de satisfazer os produtores da matéria.

O cenário foi criado pelos moradores e montado da seguinte forma: na praça principal, ao lado da igreja, foi colocado um painel com a pintura do canavial e a imagem da delegacia. Uma mesa com cadeira representava o lugar onde o “presidente” fica sentado. Do lado esquerdo da praça, situava-se a cela da cadeia. Do lado direito do palco, estavam as plantações de maracujá, representadas por folhas e pelo fruto verdadeiro. Foram providenciados também microfones e caixa de som para amplificação das falas. O figurino foi muito bem cuidado, todos os personagens estavam devidamente caracterizados.

 

 

Fig. 2: O cenário da apresentação do Zé de Vale. Foto: Thaís Pellegrini.

Fig. 2. O cenário da apresentação do Zé de Vale. Foto: Thaís Pellegrini.

 

A encenação exclusiva para a gravação, montada horas antes da apresentação ao público local, atraiu a atenção de todos. Crianças, jovens, idosos, forasteiros e pesquisadores se juntaram na praça. Nota-se de imediato que os moradores da vila conhecem e acompanham a história, vibrando com cada cena apresentada pelos participantes do auto. O momento da performance ativou uma representação vocal, configurando uma tradição oral capaz de interagir e funcionar significativamente.

O entusiasmo e a alegria das crianças durante a apresentação do Zé do Vale foram particularmente marcados : acompanhavam o desenrolar da peça e participavam ativamente do espetáculo. Com a preocupação de “manter a tradição”, foi criado um grupo de samba mirim, para as crianças e jovens responsáveis por dar continuidade às atividades culturais na vila, que mostraram saber sambar tanto quanto os adultos mais familiarizadas com o palco. Se, entre as crianças, a dimensão lúdica ficava mais evidente, entre os adultos, notou-se uma preocupação para que tudo desse certo, uma vez que ficaria registrado “para sempre” e seria exibido na televisão.

A transformação das manifestações populares em espetáculos midiáticos, com agenda de apresentações, participação em festivais, disputa de verbas públicas em editais etc, muda consideravelmente a relação que a comunidade mantem com sua cultura tradicional. Foi curioso assistir, após a apresentação do Zé de Vale, a segunda parte dos festejos anunciado no serviço de autofalantes : uma “seresta” foi prometida aos moradores para finalizar a noite. Ao invés de samba-canção ou boleros, como se poderia esperar, os ritmos da “seresta” empolgaram os jovens que lotaram a pequena praça do povoado: foram cantados os sucessos atuais do “arrocha”[11] e as lambadas. Ao redor da praça, algumas barracas de bebidas e comidas. Um grande número de crianças e adolescentes se misturavam aos adultos na festa embalada por um conjunto musical da própria Ilha de Itaparica. Essa segunda parte da festa foi arquitetada visivelmente para atrair um número maior de pessoas, principalmente jovens, talvez nem tanto interessados nas manifestações tradicionais, mas já completamente mergulhados na cultura de massa.

É necessário entender a cultura popular num contexto de interatividade, ou seja, dialogando com outras formas de representação cultural. Nestor Garcia Canclini, sobre essa questão, diz que:

 

Durante muito tempo os estudos sobre folclore foram associados a uma idéia de subalternidade e mesmo nos países mais renovadores, que buscavam mudar essa concepção, ainda estavam cometendo o mesmo deslize, produzindo reflexões centradas apenas nos objetos da cultura popular, sem levar em consideração os agentes do processo, excluindo o seu contexto social, o seu cotidiano, tendo uma preocupação em fixá-los em um ponto isolado, longe das outras culturas que estão paralelas a cultura popular. (2008 : 207)

 

Discute as marcas da contemporaneidade, contribuindo para evitar de presenciar a cultura popular em um lugar específico, como fato isolado, marcado por ideologias que a estereotipam como pertencente a “outro”,  folclorizado (Canclini, 2008 : 205-254).  Para perceber o processo de construção do popular na vila de Matarandiba, faz-se necessário esse desprendimento para que se perceba a interação entre a cultura popular, a cultura oficial e suas transformações no século XXI, marcadas pela cultura de massa.

 

A cultura tradicional e o espetáculo


Em Matarandiba, a realização do Zé de Vale está associada ao lazer, através da exibição do auto popular. Há notícias da presença da dramatização em outra localidade da Ilha, “de muito tempo”, mas que teria deixado de acontecer. Nas entrevistas, os habitantes deixam transparecer a crença de uma tradição local “de mais de cem anos”, exclusiva da comunidade que teria conseguido preservar sua cultura, motivo de orgulho para quem dela participa.

Alcoforado (1989) sinaliza a existência de uma tradição oral brasileira e o Zé do Vale é um dos romances dessa tradição mais difundido na Bahia. Conforme pesquisa realizada por ela, há registro de versões em vários municípios baianos.

A temática traz questões pertinentes ao nordeste brasileiro, tendo aproximação com o tema do cangaço. Ainda na perspectiva de análise de Alcoforado, o fora-da-lei, como tema literário, tem sido explorado universalmente. No Brasil, constitui-se um aspecto temático já integrado na tradição. Tanto na literatura escrita, como na literatura oral, a temática do cangaço se faz recorrente. Alcoforado (1989) salienta ainda que, nas ocorrências do romance Zé do Vale que fazem parte do acervo do PEPLP-UFBA[12], manifesta-se um elo temático com outra tradição oral, O Cabeleira, recolhida desde o século XIX em várias regiões do Nordeste, em torno do cangaceiro José Gomes[13].

A versão de Matarandiba se aproxima das versões registradas pelo PELP-UFBA e da versão do Dicionário do Folclore Brasileiro de Cascudo (s/d), porém, apresenta-se com variantes culturais relacionadas ao universo em que foi exibida, sinalizando para um hibridismo cultural que faz parte da atual identidade da vila[14].

A história tem como eixo principal o personagem Zé de Vale, um rapaz valentão, que cometeu vários crimes e por isso foi preso. A mãe do Zé de Vale, uma senhora de posses, oferece tudo o que tem na tentativa de soltar o filho. Mesmo tendo cometido vários crimes, o Zé de Vale é um personagem querido, defendido por todos, se aproximando do imaginário simbólico representado pela figura de Lampião no nordeste brasileiro.

A poética do romance traz características importantes das narrativas orais, como, por exemplo, a presença marcante da performance e da musicalidade. A realização oral se dá, na maioria das vezes, de forma cantada, ou seja, a melodia torna-se um elemento fundamental na composição do referido texto. A voz, o corpo e a melodia ativam o papel social de cada fala e suas marcas discursivas aparecem, veiculando valores, saberes e intenções que são atualizadas a cada momento.

Angelina Gonçalve Santiago[15], ao ser entrevistada sobre o Zé de Vale, imediatamente canta alguns trechos do romance. A poesia e o corpo estão juntos, se relacionam, buscando trazer à cena os mais diversos universos de significação e sentido. Para Zumthor, “a performance é, pois, tanto um elemento importante da forma como constitutivo dela” (2010:85). Não podemos pensar a poesia oral sem associá-la aos movimentos do corpo e suas intenções. Então, os gestos estão atrelados à memória, engendram significações e o romance tradicional passa a ser compreendido além das palavras, uma vez que o corpo faz parte do contexto da história cantada. Outro fator importante é a aproximação que existe entre narrador e o público, que sente e interage com o texto. Cada vez que o romance é cantado, são inseridos novos elementos, textuais e/ou ideológicos, que suplementam a informação poética.

Nessa versão, outra característica da oralidade torna-se visível: a ausência de nomes dos personagens, que normalmente são tratados por denominações que os identificam como sujeitos sociais, não especificamente por nomes próprios. Essa característica se faz presente também no gênero do conto popular, pois os personagens podem ser designados por alcunhas genéricas.  No caso do Zé de Vale em estudo, o único personagem que apresenta nome próprio é o personagem principal, os demais são tratados por denominações genéricas como o presidente, a mãe e a irmã.

Os versos trazem informações que evidenciam a atemporalidade da poesia oral, pois ao mesmo tempo em que nos remete a uma Bahia Colonial, nos transporta para um Brasil República, nos versos que seguem :

 

MÃE: Ando por aqui, muito descontente  (bis)

Procurando a casa, do seu presidente  (bis)

PRESIDENTE:Ouço umas vozes, parece mulher   (bis)

Dona entre e sente, diga o que quer  (bis)

ZÉ DE VALE:Ó minha mãe suba, logo que é urgente (bis)

Chegue no palácio, salve o Presidente   (bis)

 

MÃE:Deus lhe dê boa noite, senhor presidente   (bis)

PRESIDENTE:Deus lhe dê a mesma, dona entre e  sente  (bis)

PRESIDENTE:Grande novidade, você por aqui  (bis)

MÃE:Vim soltar meu filho, que ta preso aqui (bis)

 

PRESIDENTE: Dona vá embora que eu não solto não  (bis)

Esse Zé de Vale é um valentão

Matou muita gente, lá no meu sertão

Da minha polícia, não se temeu não

MÃE:Venha cá meu filho, venha me contar  (bis)

Como lhe prenderam no canavial  (bis)

ZÉ DE VALE:Três dias de fome, três dias de sede  (bis)

Só me sustentava de caninha verde  (bis)

 

A referência a Zé de Vale, sendo preso no canavial, evoca os engenhos e lavouras de cana-de-açúcar do Recôncavo baiano, como de grande parte da área litorânea do Nordeste, quando, o Brasil vivia seu primeiro grande ciclo econômico, o ciclo da cana-de-açúcar.

Manifesta o romance uma liberdade de recriação e atualização das informações, como também de alguns valores morais transmitidos pela narradora, evidenciando que tais valores integram o modo de vida da população da vila. Nessa versão do romance tradicional, cantada em Matarandiba no século XXI, a narradora, ao cantar os versos que representam a voz da mãe do Zé de Vale, faz uma troca significativa de palavras, no lugar de “escravo” ela usa “criada”, mas o sentido discursivo continua o mesmo que aparece na versão apresentada por Cascudo (s/d) que traz a palavra “escravo”. A marca do poder econômico da mãe continua presente, pois oferece essa “criada” para negociar a soltura do filho. A referida imagem traz lembranças da época da escravidão, refletindo que a vila ainda conserva a memória de práticas do século XIX.  Com a troca da palavra, o peso semântico diminui, mas as marcas não desaparecem. Vejamos os versos abaixo, nas duas versões, corroborando as informações acima:

 

Zé de Vale representado em Matarandiba, 10.03.2012:

MÃE: Tenho uma criada de estimação  (bis)

Pra seu presidente, não é nada não  (bis)

PRESIDENTE: Leve sua criada que eu não quero não  (bis)

Também tenho a minha não quero a sua não  (bis)

Zé do Vale na versão publicada por  Cascudo:

- Tenho esse escravo

De estimação,

Pra seu Presidente

Não tem preço não.(CASCUDO, s/d.:927)

 

Nos versos seguintes, com as novas tentativas da mãe e da irmã de soltar o Zé de Vale, arrolam-se outros bens, oferecidos ao presidente nesta negociação:

 

IRMÃ: Senhor presidente, pela Conceição  (bis)

Solte o Zé de Vale que ele é meu irmão  (bis)

PRESIDENTE:Prá que tanto choro, pra que tanto pranto  (bis)

Dona se levanta, que eu não sou santo (bis)

 

MÃE:Eu tenho um cavalo, na estribaria  (bis)

Pra seu presidente passear um dia  (bis)

 

PRESIDENTE: Leve seu cavalo que eu não quero não  (bis)

Na minha estribaria tenho de montão

E o seu cavalo é um azarão.

 

ZÉ DE VALE: Ó minha mãezinha do meu coração  (bis)

Chegue mais dinheiro pra minha prisão  (bis)


MÃE:Tenho uma barquinha, já achei milhão  (bis)

Pra seu presidente, não é nada não  (bis)

PRESIDENTE:Pegue sua barquinha e pode levar  (bis)

Saia navegando dona nesse mar   (bis)

 

MÂE:De que serve ser rica de tanto cabedá  (bis)

Vê meu filho preso sem poder soltar  (bis)

PRESIDENTE:Quem tiver seus filho dê educação  (bis)

Para não sofrer, dor de coração  (bis)

 

Enquanto a personagem da mãe traz marcas de um Brasil escravocrata – portanto anterior a 1888 -  a personagem do presidente (que dialoga com ela na trama da história), nos remete a um período um pouco mais tardio, quando da criação do título de presidente da província[16]. A alusão à bandeira do rei também manifesta essa percepção mista do tempo histórico, transformado na memória.

Como o tempo e o espaço no universo da narrativa oral não são categorias fixas, certos símbolos marcam a narrativa, principalmente no desfecho do romance, quando aparece a alusão à bandeira do rei que determina a liberação de Zé do Vale, ao contrário das versões recolhidas em outras regiões:

 

PRESIDENTE:Ô senhor soldado, ô senhor tenente  (bis)

Pegue Zé de Vale solte ali na frente  (bis)

ZÉ DE VALE: A bandeira do rei deu sinal

Deu sinal, deu sinal,

A bandeira do rei deu sinal

Deu sinal, em todo lugar (bis)

 

A versão encenada em Matarandiba contem ainda um discurso moralizante do presidente para o preso, insistindo sobre o fato de sua conduta envergonhar a mãe, como se falasse com uma criança levada. O discurso tem uma forte marca religiosa, com base no mandamento “honrarás pai e mãe”, e parece se dirigir aos jovens locais que cometem delitos e devem ser “resgatados” para o núcleo familiar. Tais lições de moral, frequentes nos contos de exemplo, revelam a interpretação que a comunidade fixa para a história de vida de um desordeiro que se arrepende, se regenera e cai no samba para festejar sua remissão.

Ao final da encenação, Zé de Vale exalta Maria  por ter sido solto, eclodindo sua consciência em relação à religiosidade cristã, ao mesmo tempo que a referida religiosidade está associada à cultura popular, uma vez que os versos são cantados em ritmo de samba-de-roda, acompanhados por um canto de trabalho. Na performance apresentada, aparecem as criadas peneirando milho, apanhando maracujá e lavando a roupa da “sinhá”:

 

ZÉ DE VALE: Esse povo todo é de mãe Maria, é de mãe Maria

Esse povo todo é de mãe Maria, é de mãe Maria

PENEIRANDO O MILHO:Sacode seu milho, vento vai levando

Arupemba cheia

Xerengue voando

APANHANDO MARACUJÁ:Apanha maracujá,

Eco, eco

Apanha maracujá

Que sinhá mandou  (bis)

LAVANDO ROUPA: Lava lava lavadeira

Roupa de sua sinhá

Lava, lava lavadeira

Roupa que eu mandei lavar  (bis)

 

O samba-de-roda,  que  segundo Ubaldo Osório, citando Plínio de Almeida, “nasceu com os primeiros negros saudosos que vieram para o êito dos canaviais do recôncavo” (Osório,1979 : 445), aparece como uma manifestação cultural pujante, ainda hoje, na ilha de Itaparica e em Matarandiba.  Em quase todas as manifestações tradicionais, os personagens da vila encontram-se no samba de roda, que abre ou finaliza a atividade performática. Na encenação do Zé de Vale não é diferente, pois o auto se completa com a apresentação do samba de roda das mulheres, com a plateia interagindo, cantando e dançando. A encenação de um romance tradicional articula-se assim plenamente ao samba, relacionado com o cotidiano e as práticas sociais dos moradores.


A permanência da voz: registro e mediatização

 

Os meios tecnológicos e as tradições orais da vila se cruzam no terreno escorregadio da era atual, já que ocorre uma interatividade capaz de construir um discurso, objeto de reflexão.  Na referida apresentação, foi possível perceber, à luz dos conceitos contemporâneos sobre questões culturais, que o Zé de Vale tornou-se um elemento importante na construção histórica e identitária dos moradores da vila de Matarandiba.  Reitera-se, assim, o papel da cultura popular no debate cultural contemporâneo, colocando em cena vozes questionadoras,  marcadas pela permanência de uma tradição oral que transita pela cultura de massa, cujas manifestações se tornam espaços de ação e representação.

O registro, a divulgação pela TV e internet da representação do auto popular de Matarandiba, assim como do samba e de outros folguedos, somam-se às formas tradicionais de transmissão e compõem um outro meio que tanto pode fortalecer a tradição como pode esgarçá-la, uma vez que a motivação não é aquela do festejo ou do entretenimento. Cumpre-se o ritual de repetir como espetáculo que pretende valorizar a cultura local, passando assim a ser regulado por outras normas. Os grupos se organizam, se institucionalizam, se profissionalizam. Os textos e os aparatos textuais (figurinos, cenários, aparelhagem de som e iluminação) vão se adequando às normas do espetáculo com um formato apropriado para esse fim.

Em Matarandiba, a cultura oral predomina. Os moradores sabem dessa relevância e valorizam esse saber. Assim, eles se voltam para as memórias, procurando relatar suas vivências, contribuindo para a construção histórica da vila. Segundo Paul Zumthor,

Ora, a voz é querer dizer e vontade de existência, lugar de uma ausência que, nela, se transforma em presença; ela modula os influxos cósmicos que nos atravessam e capta seus sinais: ressonância infinita que faz captar toda matéria. (2010: 09).

A tradição poética oral da vila aparece viva e presente, transmitindo suas experiências e anseios, mas não representa o único elemento desse universo cultural. É inconteste a presença da cultura oficial, através da escola e a influência da era das tecnologias digitais e midiáticas, através da informática, da TV, do cinema, do rádio, constituindo elementos capazes de anunciar os seus entrelaçamentos. Como já se anotou, é necessário entender a cultura popular num contexto de interatividade, ou seja, dialogando com outras formas de representação cultural.

Percebemos, portanto, uma tradição que transita pela cultura de massa. O projeto globalizador, idealizado e implementado pelas sociedades capitalistas modernas, se faz presente também no espaço matarandibense, contribuindo para o estreitamento dessa relação, interferindo em aspectos que vão além da economia, causando uma mudança no que se refere às questões culturais. Os bens simbólicos tradicionalmente instituídos passam a ser desintegrados e a cultura popular deixa de ser vivenciada em um lugar fixo, convivendo com as influências desse mundo moderno, cujos avanços tecnológicos e suas transformações instilaram na reelaboração das práticas culturais tradicionais da vila.

Com o advento da globalização na contemporaneidade, a cultura de massa passa a ser uma forma de representação importante que também é colocada, sob o olhar de alguns críticos da década de sessenta do século passado, num lugar reducionista e de subalternidade, sendo fruto de um monopólio da indústria cultural[17]. Embora nesse mundo de consumo exacerbado, muitos objetos apareçam sedutores e ao mesmo tempo descartáveis, frutos do belo prazer consumista, a cultura de massa se torna um lugar de reação e resistência das diversas camadas culturais que conseguem sobreviver, de forma magistral, nesse escorregadio território.

 

A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Para entendê-la, como de resto, a qualquer fase da história, há dois elementos fundamentais a levar em conta: o estado da técnica e o estado da política. (Santos, 2010:23)

 

Os meios de comunicação de massa e a cibernética tornaram-se ferramentas importantes que participam, ativamente, do processo de globalização. Segundo Santaella (2008), todas as formações sociais apresentam territórios bem divididos e relacionam-se: o econômico, o político e cultural, delineando, de forma bastante clara, o lugar da cultura ocupado na sociedade atual. A cultura contemporânea participa desse território repartido, podendo ser revisitado e questionado.

Os efeitos da industrialização capitalista surgem junto com as tecnologias, mostrando que os meios não devem ser vistos como vilões, mas, sim, como facilitadores do processo, fruto de profundas mudanças, inevitavelmente percebidas na contemporaneidade.

Sem perder de vista essas questões, a permanência de uma tradição oral, na vila de Matarandiba, representa sua memória histórica coletiva como lugar de resistência. Para Zumthor (1995), a realização vocal performática está repleta de significação que vai além da transmissão linguística. Os valores, os anseios e necessidades de determinado povo conseguem ser transmitidos e percebidos no seu contexto de realização. Através da realização vocal, desempenhada nas práticas sociais e cotidianas dos povos, a voz poética popular conseguiu permanecer nas formas de representação cultural da nossa modernizada sociedade contemporânea. Pensando dessa forma, a tradição oral do povo matarandibense reverbera a presença da voz como fator fundamental na conservação da memória cultural da comunidade, negociando a todo instante com os adventos globalizantes da contemporaneidade.

Essas diversas manifestações culturais propugnam uma convivência realizável entre as influências da tradição oral, a cultura de massa e o proscênio das novas tecnologias. A globalização, de cunho capitalista, levou para as comunidades, até mesmo aquelas em que o capital não chega com tanta facilidade, como é o caso de Matarandiba, a possibilidade de realização dos desejáveis sonhos de consumo e a cultura popular passa a fazer parte desse contexto. A interação com esses capitais simbólicos surge como um importante instrumento capaz de refletir no processo de socialização desses moradores que se sentem à margem da Ilha, pois estão na contracosta, um lugar carente de recursos e de reconhecimento social.

 

 

 

 

Referências bibliográficas

ALCOFORADO, Doralice Fernandes Xavier. Separata: O canto contando a história: o cangaço na ótica do romanceiro popular. Salvador: Programa de Estudo e Pesquisa da Literatura Popular/ILUFBA, 1989, p. 1-15.

ALCOFORADO, Doralice F. Xavier & ALBÁN, Maria Del Rosário Suárez. Romanceiro Ibérico na Bahia. Salvador: Livraria Universitária, 1996.

ALMEIDA, Maria Inês & QUEIROZ, Sônia. Na captura da voz: as edições da narrativa oral no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2004.

BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para sair e entrar na modernidade. 4.ª ed. Trad. Ana Regina Lessa, Heloísa Pezza e Gênese Andrade. São Paulo: Edusp, 2008.

CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ª ed. São Paulo: Itatiaia, 1984.

CASCUDO, Luis da Câmara. Zé do Vale. In: Dicionário do folclore brasileiro. 10.ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 927-928.

HORKHEIMER, Max e ADORNO, Theodor W. A indústria cultural: o iluminismo como massificação de massa. In: Teoria da Cultura de Massa. Org: LIMA, Luiz Costa Lima. São Paulo: Paz e Terra, 2011,p.180-241.

MORRIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX.  O espírito de tempo – 1 Neurose. Trad. Maura Ribeiro Sardinha. 10. Edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.

OSÓRIO, Ubaldo. A ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.

PINTO-CORREIA, João David. Romanceiro Tradicional Português. Lisboa: Editorial Comunicação, 1984.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano – Da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2008.

SANTOS, Milton. Por outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2010.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Trad. de Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat e Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.

ZUMTHOR, Paul. “Permanência da Voz” In: O correio, uma janela aberta para o mundo. Unesco, ano 13, outubro de 1985, p.4-8.

 

 

 


[1] Principal terminal marítimo da ilha de Itaparica

[2] Através da Associação de Moradores e de uma iniciativa da Dow Quimica, foi criado o banco ILHAMAR que desenvolveu uma moeda local, chamada de concha. É um tipo de moeda social em circulação desde 2008.

[3] A Dow Chemical Company é uma multinacional norte-americana de produtos químicos, plásticos e agropecuários, atuando em vários setores.

[4] Coletado em 11/03/2012 por Edil Silva Costa e Thaís Aparecida Pellegrini Vieira, em Matarandiba, Bahia. Transcrição de Thaís Aparecida Pellegrini Vieira.

[5] A reportagem foi ao ar em abril de 2012 e pode ser vista no you tube, através do link: http://www.youtube.com/watch?v=JK9U4q9zihE

[6] Ternos de Reis ou Reisados são folguedos do ciclo de Natal que encenam uma homenagem os Reis Magos, mas podem também ter caráter profano, abordando temas variados.

[7] Estilo musical da tradição afro-brasileira caracterizado pelo canto e dança circular com a participação de um individuo por vez no centro da roda.

[8] Festa tradicional de cunho religioso popular em várias regiões do Brasil, tendo como objetivo homenagear o santo católico São Gonçalo.

[9] Festa de Ano Novo. Segundo os moradores, acontece há mais de sessenta anos, uma forma de saudar o ano que chega e enterrar o ano que vai embora.

[10] É uma versão do bumba-meu boi, folguedo brasileiro. Em Matarandiba, era originalmente apresentado no mês de Janeiro, dando continuidade aos festejos natalinos, daí o nome Boi de Janeiro.

[11] Arrocha é um ritmo muito popular no Recôncavo da Bahia, caracterizado por um forte erotismo. A melodia se aproxima do bolero, porém mais acelerada. A dança explicita a sexualidade e a temática predominante das letras das músicas é a amorosa, retratando o universo popular e seus valores.

[12] Programa de Estudo e Pesquisa da Literatura Popular do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Este Projeto foi coordenado por Doralice Alcoforado e Maria del Rosário Albán, ambas professoras da UFBA, que durante as décadas de 1980 e 1990 recolheram a tradição oral no Estado da Bahia.

[13] Em 1876, o autor cearense Franklin Távora publica O Cabeleira cuja intriga trata da trajetória de vida de crime do célebre bandido José Gomes, conhecido como Cabeleira, mostrando a influência negativa exercida pelo pai desde a sua infância, que acabou por torná-lo um criminoso frio e impiedoso que espalhou pânico e terror na província de Pernambuco no século XVIII. Sempre acompanhado pelo pai e por outro comparsa, cometeu muitas atrocidades que o levaram à forca. A obra de Franklin Távora cita os versos e fragmentos do romance de mesmo título (Alcoforado, 1989:2).

[14] Ver os trabalhos de Tania Risério de Almeida Gandon sobre o Zé do Vale, numa comunidade de pescadores de Itapuã, Bahia.

[15] Entrevista realizada em 22/04/2011.

[16] A referência Presidente de Província refere-se à época imperial (à partir de 1815 e até 1889).

[17] O presente artigo não aprofundará nessas questões, sendo assim, para melhor compreender as teorias da cultura de massa, ver o livro Teoria da Cultura de Massa, introdução, comentários e seleção de Luíz Costa Lima.