Numéro 4-5: comptes rendus

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Numéro 4-5: comptes rendus
Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa
Le Portugal bilingue – Histoire et droits politiques d’une minorité linguistique: la communauté mirandaise
Metrópole em Sinfonia: História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30
A poética migrante de Guimarães Rosa
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GALVÃO, Walnice Nogueira. Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 350 p.

 

Em Mínima mímica, Walnice Nogueira Galvão manifesta-se mais uma vez a serviço dos mistérios da obra de Guimarães Rosa. O olhar atento e analítico dessa autora percorre as narrativas rosianas para exaltar o sentido universal de uma obra complexa quanto a riqueza dos detalhes em busca de poesia.

 

No ensaio que dá título ao livro e que se situa na segunda parte, Walnice trata de “Orientação”- conto de Tutaméia – focalizando a experimentação linguística, tão cuidadosamente articulada e valorizada por Guimarães Rosa. Envolve a brincadeira com sons e sinais, a recorrência a vocábulos arcaicos, regionais e a neologismos, o emprego de palavras e sintagmas que evoquem coisas chinesas ou japonesas e a campanha contra os lugares-comuns ou clichês. A autora expõe as metáforas da incompatibilidade desenvolvidas no decorrer da narrativa e mostra como tal relação de oposição, reiterada em todos os níveis da narrativa, chega ao fonêmico i/o: /i/ retomando Quim e /o/ se referindo a Rita Rola. Em dois momentos a permeabilidade se deixa entrever: quando o sentimento dele, de tão forte, a tornava mais bonita, mesmo aos olhos dos outros; quando a transformação – espécie de aprendizado e orientação – dela se evidencia após a partida do chinês. Essa combinação de elementos antinacionalistas e anti-racistas exalta a beleza da miscigenação dando origem ao que a autora sabiamente caracteriza como “fábula de aculturação às avessas”. (Galvão, 2008, p. 217).

 

O livro apresenta três partes intituladas, respectivamente: “Mitológica rosiana”, “Reunião” e, por fim, “Sertanejos e caipiras”, encerrando um todo complexo e enriquecedor. A primeira parte é formada por três ensaios : no primeiro, “O impossível retorno”, a autora analisa “Meu tio o Iauaretê” – conto publicado em Estas estórias – e identifica três invariantes que farão com que a combinação animal, branco e índio seja construída no conto de forma a justificar os assassinatos nos valores do contexto em que eles se inserem. Ademais, o título da análise se refere justamente ao processo de perda da identidade por parte do protagonista que é descrito com base na escolha do “cru” (ser onça) em detrimento do “cozido” (ser homem). Um avez a escolha feita, qualquer retorno se torna impossível uma vez que a personagem cai em perdição.

 

No segundo ensaio, Galvão se desloca para as Primeiras estórias e aborda “A terceira margem do rio”, conto que, pensa a autora ter sido escrito por Guimarães Rosa “em estado de graça” pela tamanha beleza, densidade e profundidade do texto. Nesse ensaio, Walnice trabalha com temas como o medo diante “do que não é”, do impalpável, do desconhecido, enfim, do mistério e também a questão dos laços de família e dos nexos de amor e culpa que unem pais e filhos. Já no último ensaio dessa primeira parte, a autora trata de Matraga e a sua marca, partindo dos escritos sobre São Francisco, passando pelo teatro dos mistérios cristãos medievais, pelas vidas lendárias de santos prodigiosos das seletas populares, pela literatura de colportage de matéria cristã, pelo romance de cordel tipo “vida de santo”, até chegar em Matraga e, também nele, encontrar uma corrente de cristianismo popular, em que a divindade se faz presente e o sagrado encontra-se misturado à vida cotidiana. É com base nessa densa pesquisa que a autora mostra de que modo o catolicismo – por ela caracterizado como providencialista e rústico – ou melhor, a fé dos simples, encontra sua expressão em épocas tão diversas numa relação com a realidade do texto que, por sua vez, é feito não apenas para ser lido, mas, sobretudo, recitado, no intuito de inspirar seus leitores/ouvintes a tentarem decifrar as figuras, marcas e sinais que neles se encontram.

 

A segunda parte do livro reune onze ensaios sobre os mais diversos temas rosianos. Dentre eles, “Sobre o regionalismo”, evoca o modo como Guimarães Rosa sintetiza e supera as duas vertentes em voga na época de seu surgimento: o regionalismo e o romance espiritualista ou psicológico. A autora faz referência a uma carta enviada por Guimarães Rosa ao seu tio Vicente Guimarães – carta presente no livro Joãozito: infância de João Guimarães Rosa – e que revela valiosas informações acerca da construção poética de Rosa e do modo como ele buscava alcançar o justo equilíbrio entre o nacional e o universal. Em “Metáforas náuticas”, são analisados, dentre outros elementos, o desdobramento da oposição espacial entre sertão e oceano, uma das variantes possíveis da oposição seco versus úmido, contida no título Grande sertão: veredas e, principalmente, as alusões oceânicas contidas em “Desenredo” – conto de Tutaméia. Em “Literatura e estudos de religião”, Walnice mostra que o estudo da religião faz-se extremamente necessário em estudos literários – para compreender “A hora e vez de Augusto Matraga” – como também nos estudos sociológicos e antropológicos,  como foi o caso de Os parceiros do rio Bonito, de Antonio Candido, e Os errantes do novo século, de Douglas Teixeira Monteiro.

 

Em “As listas de palavras”, a autora nos conduz para os materiais mais numerosos e peculiares constantes do Arquivo Guimarães Rosa: as folhas avulsas que contêm as mais diversas riquezas tanto para estudiosos como para curiosos, como, por exemplo, listas de palavras e de locuções, possíveis títulos, notas de leitura, lembretes e observações. Através do estudo de tais listas como prototextos e paratextos, a autora busca representar os diferentes patamares de criação do texto rosiano. Galvão percorre ainda os heterônimos empregados por Guimarães Rosa para mostrar de que maneira Viator desapareceu quando suplantado por João Guimarães Rosa e como os anagramas e demais heterônimos sugerem poetas envergonhados esperando pelo reconhecimento. Outras fontes importantes para o estudo da construção poética do autor consistem nos livros escritos pela filha, pelo tio, além da bibliografia preparada por Plínio Doyle, a correspondência com os tradutores, a entrevista a Gunther Lorez e o Léxico de Guimarães Rosa da autoria de Nilce Sant’Anna Martins, todos comentados no ensaio intitulado “Relembramentos e Léxico”. Juntam-se a essas fontes, as riquezas desdobradas em “O nome do pai” no que diz respeito principalmente às cartas que Guimarães trocava com o pai e demais informações a respeito de sua infância, seu aprendizado e suas conquistas.

 

Em “Página de jornal, página de livro”, a incursão pelos diferentes tipos de relação que alguns escritores estabeleceram com o jornalismo, determina o “tipo refratário” de Guimarães Rosa para quem o jornalismo não tem a menor importância pelo fato de ser aleatório e subjugado pela literatura. A autora trata enfim dos periódicos que receberam destaque pelo papel que desempenharam no desenvolvimento da literatura e da crítica literária.

 

No penúltimo ensaio dessa segunda parte, Primeiras estórias enfoca a excentricidade – no sentido etimológico – das personagens e a semelhança estrutural dos contos, como, por exemplo, no clímax ou, em alguns casos, no anticlímax, ou no foco narrativo que elege um sujeito plural e sempre no humor presente nas mais diversas atmosferas.

 

O último ensaio, “Um vivente, seus avatares”, trata da narração de Riobaldo em Grande sertão: veredas e das suas metamorfoses em diferentes personagens dentro de uma mesma narrativa.

 

Na terceira e última parte do livro, Galvão se dedica, primeiramente, a falar sobre Douglas Teixeira Monteiro e o modo belo, erudito e explicativo como ele trabalhou na linha da sociologia da religião com as metamorfoses contemporâneas. Em seguida, a autora analisa a curiosa trajetória de Afonso Arinos e o que o aproxima de autores como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Guimarães Rosa ; com esse último principalmente no que diz respeito ao apego ao imaginário do sertão, envolvendo em suas obras não somente a paisagem mas, sobretudo, a humanidade que a povoa. Por fim, Walnice Galvão dedica o último ensaio de sua obra às “Metamorfoses do sertão”, texto voltado para a análise da produção cinematográfica com fundamentos na criação literária, tanto no que tange ao regionalismo quanto à literatura recente de cunho acentuadamente urbano e até metropolitano.

 

Instigante, instrutiva, encantadora: Mínima mímica é um presente para os estudiosos da obra rosiana.

 

 

 

Vanessa Chiconeli Liporaci

Universidade Estadual Paulista/Faculdade de Ciências e Letras-Araraquara

Doutoranda

 

 


 

Michel Cahen, Le Portugal bilingue – Histoire et droits politiques d’une minorité linguistique: la communauté mirandaise, Rennes, Presses universitaires de Rennes, 2009, 212 p.

 

A obra de Michel Cahen é atravessada por uma ideia que poderíamos resumir da seguinte forma: l’amour des langues, expressão que dá o título a um capítulo da obra de Claude Hagège, L’homme de paroles.

Uma ideia que tem a forma e a força de um apelo, de uma chamada de atenção no sentido de salvar uma língua, o mirandês, falada por uma comunidade do nordeste português, a Terra de Miranda, que compreende várias freguesias do concelho de Miranda do Douro.

O livro resulta de uma investigação levada a cabo no contexto de dois programas de investigação da Maison des Sciences de l’homme de l’Aquitaine, a saber: Lieux, territoires, mémoire (2003-2006) e Marges, mémoires et représentations des territoires européens (2007-2010), dirigidos por Alain Viaut que prefacia esta obra. Um estudo de grande rigor e riqueza documental.

Recuando a tempos pré-romanos, o autor conduz-nos através da história da Tierra de Miranda, que nesses tempos fez parte, tal como o resto da meseta leonesa, do território dos Ástures, dando a conhecer a história da língua mirandesa.

Quer durante a ocupação romana, em que fez parte do convento jurídico asturiano cuja capital era Astorga, quer durante os reinos suevo e visigótico e depois durante a ocupação muçulmana, a Terra de Miranda pertenceu sempre a um espaço político e religioso que incluía Leão, a Cantábria e as Astúrias. De 840 até finais do século X, a Tierra de Miranda pertenceu ao Reino de Leão. O tratado de Zamora entre o rei de Portugal e o rei de Leão, em 1143, estabelece definitivamente a separação entre a Tierra de Miranda que passa a pertencer a Portugal e as terras de Aliste e Sayago, hoje integradas na província espanhola de Zamora.

A designação “Terra de Miranda” surge por escrito em 1172, no reinado de D. Afonso Henriques, em documento que a dá como fazendo parte da diocese de Braga. Data de 1257 o documento escrito mais antigo que se conservou onde são evidentes as marcas linguísticas do leonês.

Se por um lado as fronteiras medievais da Terra de Miranda são definidas a Este pelo rio Douro, a Norte pela Terra de Aliste (anteriormente pertencente a Braga) e a Oeste e a Sul pelos arcediagados de Mogadouro e Vimioso tudo leva a crer que a sua influência abrangia uma área mais extensa. O autor evoca os trabalhos de António Cravo sobre os Pauliteiros, grupos de dança cuja existência se estendeu a um espaço delimitado que muito provavelmente correspondeu também a um espaço linguístico. As povoações que têm ou tiveram grupos de Pauliteiros estendem-se para além das fronteiras medievais da Terra de Miranda.

Nem sempre houve consenso sobre as razões da presença do leonês em terras portuguesas. O autor aborda a polémica que opôs, no século XX, o filólogo espanhol Menéndez Pidal ao linguista português José Herculano de Carvalho.

Pidal afirma o carácter originariamente leonês do idioma de Miranda apoiando-se na história, desde a presença romana até à alta Idade Média. Para Herculano de Carvalho a causa estaria na colonização leonesa exercida pelos conventos, nomeadamente pelo cisterciense de Moreruela, entre os séculos XIII e XV. O isolamento da região em relação ao resto do país e a sua ligação a Aliste e Sayago fariam o resto. Para H. de Carvalho existiria, desta forma, uma variedade linguística portuguesa ou galaico-portuguesa à qual se vieram sobrepor os dialectos leoneses. Posteriormente, esta tese virá a ser contrariada pela linguista Maria José de Moura Santos que dará razão a Menendez Pidal.

A realidade linguística mirandesa tem pois origem no encontro do baixo-latim com o suevo, o visigodo, o protoleonês e depois com o leonês, e não numa colonização posterior que teria submergido o português. Trabalhos históricos mais recentes confirmam a continuidade de um substrato baixo-latino / leonês em toda a região, juntamente com numerosos traços visigóticos na toponímia, o que afastou por completo a tese da colonização religiosa leonesa como factor linguístico dominante.

A influência dos cistercienses de Moreruela é, no entanto, incontestável. A língua oral usada na evangelização é certamente a língua usada e compreendida pelas populações. E se os cistercienses leoneses vinham para Terras de Miranda é porque algures esta era uma terra leonesa. Para além disso os reis portugueses favoreciam esta acção doando terras, sem que tal pusesse em causa o domínio português, apenas testemunhando de uma interpenetração luso-leonesa em Terras de Miranda e no Nordeste do actual distrito de Bragança.

A pertença do mirandês contemporâneo ao asturo-leonês é hoje um facto aceite. A investigação histórica mostrou a existência ao longo dos tempos de um complexo baixo-latim asturo-leonês que se estendeu desde os confins de Bragança e Salamanca até às Astúrias. Posteriormente foi-se reduzindo, nomeadamente no espaço português. É desse desmembramento que subsistem outras manifestações asturo-leonesas em Portugal, apesar de mais modestas, como é o caso do rionorês (Rio de Onor), do guadramilês (Guadramil) e ainda das “falas” de Petisqueira e Deilão praticamente desaparecidas. Apesar de não se tratar de fenómenos linguísticos de raia, o rionorês e o guadramilês, apresentavam nos anos 60 (século XX), o que corresponde à sua fase final, contaminações quer do português quer do espanhol.

Outro aspecto importante da história do mirandês, analisado pelo autor, é o da provável influência de judeus fugidos de Espanha, que se fez sentir sobretudo em pequenas aldeias, mais do que na cidade. Em 1492, aquando da ordem de conversão ou expulsão de Espanha, 90 a 120 mil judeus vieram refugiar-se em Portugal. Trinta mil entraram por Miranda do Douro e três mil por Bragança, apesar de nem todos se terem instalado na região. Mesmo após o decreto de expulsão dos judeus em Portugal, de 1496, e da decisão de conversão forçada de 1497, muitos cristãos-novos mantiveram as suas crenças e práticas ancestrais. Só mais tarde, após a instauração da inquisição em Portugal, em 1536, a situação se agrava. Tal pode explicar o facto de, em Sedim, localidade de grande actividade comercial, se falar uma variedade dialectal, o sendinês, com traços de feição espanhola, uma vez que, a quatro quilómetros, em Picote, se fala o mirandês.

Por outro lado, a sobrevivência do mirandês corresponde à sobrevivência de práticas sociais rurais que se mantiveram até aos anos 60 do século XX, dado o isolamento geográfico e político da região. O mirandês foi sempre uma língua do povo. A elite local, apesar de a compreender, não a falava.

A presença e o poder da nobreza em toda a região de Trás-os-Montes nunca foram significativos. Em 1796 havia apenas oito honras e cinco coutos, uma vez que a pobreza da região impedia que aí se desenvolvesse uma nobreza rica e poderosa. Leite de Vasconcelos sublinhou o facto de a maioria das famílias transmontanas da nobreza terem origem no século XVIII e de se tratar de morgados de poder relativamente modesto.

Por seu lado a acção da igreja esteve sempre ligada ao poder político. A missa quando deixou de ser em latim passou a ser em português. A imposição do português pela igreja era também uma forma de atenuar o poder cisterciense, embora o culto mariano tenha resistido e sobrevivido a esta acção.

A elevação de Miranda do Douro a cidade, em 1545, e a sede de bispado traz consigo a chegada de uma população qualificada que vem trabalhar na administração, militares, eclesiásticos, por vezes mesmo de origem castelhana, como é o caso do primeiro bispo, o que contribui para o começo do declínio do mirandês na cidade de Miranda. Apoiando-se em textos antigos e vestígios onomásticos Leite de Vasconcelos conclui que em 1606 ainda se falava mirandês em Miranda. A sua prática vai desaparecendo progressivamente até ao completo desaparecimento em 1780.

Mas, segundo Cahen, os estudos mostram que os próprios camponeses associam a sua língua, a sua “fala”, como eles se lhe referem, ao seu estatuto social. Quando falam de coisas do quotidiano, do trabalho, da família, falam “charra” ou “caçurra” ou ainda “atrabessado”. No entanto, no contacto com a autoridade, com o padre, falam “fidalgo” ou “grabe”, ou seja, português. As duas falas, a charra e a fidalga, são faladas pelo povo oralmente e a escolarização é obrigatoriamente em português.

O comunitarismo da produção e da vida social que se estendeu ao longo do século XIX e chegou até à década de 70 do século XX, no Norte e sobretudo no Nordeste de Trás-os-Montes, praticado nas regiões mais pobres e isoladas, foram decisivos na sobrevivência do mirandês.

Michel Cahen faz referência, de forma exaustiva e bem documentada, aos trabalhos pioneiros nomeadamente de Leite de Vasconcelos, que desde os finais do século XIX contribuíram para o estudo do mirandês. O autor sublinha a importância das publicações em mirandês de contos, de poesia, de traduções e dá destaque à tentativa de esboçar uma gramática da língua e de criar aulas de mirandês de Moraes Ferreira. No entanto, estabelecer uma norma ortográfica estava longe de ser um assunto fácil e as condições nem sempre foram favoráveis durante a Primeira República, um período de grande instabilidade, ou durante o Estado Novo. No entanto, Leite de Vasconcelos deixou numerosos escritos sobre o mirandês e o Padre António Maria Mourinho, pároco de Duas Igrejas, publicou toda uma série de estudos sobre a língua mirandesa e, ao longo dos anos 40, 50 e 60, textos vários sobre o folclore local, alguns deles em mirandês.

A peça de teatro “Saias” de Alfredo Cortês (1938), escrita em mirandês, foi representada em alturas diferentes e sempre com grande sucesso, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Após a revolução de Abril de 1974, António Maria Mourinho continuará a publicar em mirandês e sobre a língua, traduzindo em 1990 a missa para mirandês.

Mas os problemas de norma ortográfica colocam-se de novo. A hipótese de uma convenção ortográfica conjunta com o bable, o asturiano contemporâneo, teve os seus adeptos. No entanto a norma do asturiano seguia em muitos aspectos o castelhano, dado que tinha em conta as práticas sociais do Principado das Astúrias, de feição espanhola, logo não adaptáveis ao mirandês. Quer os militantes pela causa do mirandês, quer os linguistas das universidades do Porto, de Coimbra e de Lisboa acharam mais pertinente definir a norma mirandesa, tanto quanto possível, a partir da portuguesa, pelas mesmas razões que levaram os asturianos a definir a norma do bable a partir do castelhano. No fundo, cristalizavam-se assim diferenças que séculos de práticas sociais diferenciadas já haviam evidenciado.

No seguimento do encontro regional da Associação Portuguesa de Linguística que teve lugar em Miranda do Douro em 1993, o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa decide constituir uma equipa mista para elaborar a “Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa”, que fica concluída em 1999. A esta convenção será acrescentada uma adenda adaptando certas regras à transcrição do sendinês.

Em 1982 a Escola Secundária de Miranda do Douro havia solicitado ao Ministério da Educação a abertura de uma aula de mirandês o que fora recusado, reforçando um certo nacionalismo existente e que se afirmava numa unidade linguística. É apenas em 1985/86 que o Estado Português autoriza a leccionação de uma aula de mirandês no ensino secundário e no primário de Miranda do Douro e de Sendim. Uma aula facultativa, ao fim do dia, e na maior parte dos casos à sexta-feira, de uma língua sobre a qual pesavam ainda muitos preconceitos.

No entanto este arranque das aulas de mirandês revelar-se-á de grande importância pois vai desencadear a elaboração da convenção e também a luta por uma lei que reconheça oficialmente o mirandês. O projecto é apresentado à Assembleia da República pelo PS e a argumentação do seu principal promotor, Júlio Meirinho, assentará em estudos e posições da linguista Cristina Martins.

A lei que reconhece oficialmente os direitos linguísticos da comunidade mirandesa é promulgada em Janeiro de 1999. Mas a sua regulamentação pelo despacho normativo de Julho do mesmo ano vai criar uma grande distância entre a lei e a sua aplicação. Nada melhora em relação ao que já era praticado desde 1986/87.

Para Michel Cahen, a lei assegura os direitos linguísticos da comunidade mirandesa e a promoção da sua língua. Tal implica reconhecer uma realidade e o seu património cultural, mas não oficializa a língua. Continua a não existir uma língua minoritária em Portugal. O imaginário nacional, ou melhor, o imaginário nacionalista, não sofreu qualquer beliscadura. Os mirandeses não têm o direito de utilizar a sua língua para fins administrativos ou legais. Os nacionalismos anti-mirandeses dos anos 50 cedem assim lugar a uma defesa do mirandês que, apesar de “politicamente correcta”, em nada mudou a realidade. A falta de diligência de Portugal em assinar a Carta Europeia da Línguas Regionais ou Minoritárias é prova disso mesmo.

Para o autor, reconhecer os direitos linguísticos de uma comunidade sem criar condições para o exercício desses direitos é condená-la ao desaparecimento. A não utilização da língua em espaços públicos e privados, nos meios de comunicação locais, na economia, no turismo ou na vida cultural, associada a uma política de ensino que não prevê a aprendizagem em situação de imersão, fazem prever a agonia do mirandês com o desaparecimento da geração que possui esta língua como língua materna.

A ratificação da Carta Europeia da Línguas Regionais ou Minoritárias pode, segundo Cahen, revelar-se de extrema importância para a sobrevivência do mirandês. Mas isso supõe um alargamento do debate a aspectos que praticamente não se encontram contemplados na lei, como é o caso do ensino em situação de imersão. Tal implicaria ainda, no dizer do autor, um debate sobre o imaginário nacional português.

A indignação que perpassa no discurso sólido e bem documentado de Michel Cahen dá-nos a medida do seu amour pour le mirandês.

 

 

 

Adelaide Cristóvão

Lectrice de l’Institut Camões à Paris 8

Responsable pédagogique des cours de Portugais

du Centre Culturel – Institut Camões de Paris

Membre du CRILUS/Nanterre

 

 


 

Metrópole em Sinfonia: História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30, de José Geraldo Vinci de Moraes. São Paulo : Estação Liberdade / Fapesp, 2000.


 

Le livre de José Geraldo Vinci de Moraes, Metrópole em Sinfonia: História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30, publié en 2000, est dérivé de sa thèse de doctorat sur l'univers de la culture populaire « paulistana »[1], plus spécifiquement sur la musique populaire.

Le chercheur a eu l'intention de montrer les transformations dans les concepts, dans la perception et dans la consommation de la musique populaire à São Paulo, au cours des décennies de 1920 et 1930 et leurs liens avec le phénomène d'expansion de la radio, en les confrontant à la politique de l’Etat de São Paulo pendant les trois premières décennies du XXe siècle. Le titre évoque le film documentaire, « São Paulo la symphonie de la métropole », réalisé en 1929, sous la direction de Rodolfo Lustig et Adalberto Kemeny.

L’ouvrage de José Geraldo Vinci de Moraes est divisé en trois chapitres. Le premier traite des relations entre politique, radio et musique populaire dans la ville de São Paulo. Le second chapitre a comme thème principal la présence, dans la vie quotidienne, du folklore urbain des « modas paulistanas », ainsi baptisées par l’écrivain Antônio de Alcântara Machado, qui dans ces années 1920 et 1930, recueille les chansons qui circulaient dans la ville et les inclut dans son livre, Lira paulistana.

Dans ce chapitre, Moraes analyse les chansons, leurs thématiques et leurs personnages – en général les exclus de la société – tout en montrant les conditions de vie des musiciens populaires, pris dans l’engrenage de la métropole et dans la culture de masse qui commence à gagner la ville. La transcription de huit de ces chansons est présentée dans l’Annexe du livre.

Le troisième chapitre reprend et approfondit les questions soulevées par les conflits politiques et sociaux, la ré-urbanisation et la culture populaire, dans une ville que se transforme en métropole en très peu de temps. L’auteur part de cette problématique pour traiter des chansons populaires qui évoquent la nostalgie d'une ancienne São Paulo, où régnait encore une atmosphère provinciale.

Un autre débat fait émerger l'opposition, héritée du XIXe siècle, entre la culture populaire rurale (ce qu’on appelle le folklore) et la culture populaire urbaine.  Moraes reprend sur ce point les discussions entre modernistes, surtout parmi ceux liés au Département de Culture de la ville de São Paulo créé par le préfet Fábio Prado (1934-36). La professionnalisation des musiciens, ainsi que le fonctionnement administratif et technique des stations de radio, sont aussi mis à profit par le chercheur pour mieux mettre en évidence et comprendre les changements liés à la consommation et à l'acceptation de la musique populaire.

Pour le chercheur, le développement de la radio, qui devient l’un des premiers diffuseurs d'une culture de masse, ne peut pas être dissocié du contexte politique. Il prend en exemple l’utilisation de la radio par les Etats totalitaires européens de la première moitié du XXe siècle et  par les régimes populistes latino-américains (dont l’Estado Novo au Brésil) pour la diffusion de leurs  idées et de leurs valeurs.

Avec la popularisation de la radio, son importance grandit dans la vie quotidienne de la population de São Paulo. Elle devient un véritable diffuseur d’idées politiques, comme par exemple, pendant les révoltes d’octobre 1930 et pendant la ‘révolution constitutionnaliste’ de 1932.

Le chercheur a recours le plus souvent à des sources primaires, puisque l'historiographie de la musique populaire sur São Paulo est encore très limitée. Moraes y voit le résultat d’un certain préjugé sur la ville de São Paulo, vue comme « le tombeau de la samba », ce qui pourrait peut-être justifier cette indifférence envers la culture populaire de la métropole, par rapport à des villes comme Rio de Janeiro, par exemple.

Moraes prend soin d’analyser les changements dans les modes de vie et dans la forme de diffusion de cette culture populaire de São Paulo. Il s’intéresse en particulier au projet d’une radio éducative, conçu par Mário de Andrade, directeur du Département Culturel de la ville de São Paulo, pendant la gestion municipale de Paulo Prado, projet qui ne parvint pas à être réalisé par manque de financement, mais qui visait aussi bien à la diffusion de la musique populaire que de la musique classique.

Sa réflexion sur les conséquences de ce développement d'une culture populaire de masse, ne lui fait pas perdre de vue le point central de son travail, à savoir la musique populaire dans la ville de São Paulo dans les années trente. S’il montre les efforts de l'élite paulistana pour  « éduquer », avec une programmation centrée sur la musique classique, il enregistre l’incontestable augmentation du nombre de radios commerciales, qui permettent une plus grande diffusion de la « musique populaire », dans des programmes où la musique permet de fidéliser le public, tels que les programmes de musique « caipira » ou « sertaneja », reprenant le type comique du ‘paysan’, si présent dans l’imaginaire de la grande ville. La prolifération de programmes très divers reflète également la diversité culturelle de São Paulo, avec sa population de migrants et d’immigrants. Certains artistes étaient connus précisément pour leurs imitations du ‘paysan’, de l’italien ou du ‘turc’. Moraes évoque aussi la discrimination subie par les artistes noirs dans leur professionnalisation.

En vrai spécialiste - comme Elias Tomé Saliba qui signe le préface – Moraes offre à son lecteur une occasion de repenser l'histoire de la musique populaire dans la ville de São Paulo, mais reste conscience du besoin de nouvelles recherches sur un sujet encore si peu étudié, étant donné la complexité des relations qu’il révèle et la quantité de matériel toujours dans l’attente d’être découvert et analysé.

 

 

Rosângela Asche de Paula

Université Paris Ouest Nanterre La Défense

EA 369 « Études romanes » - CRILUS


Références filmographiques

São Paulo, Sinfônia da Metrópole. São Paulo, 1929.

Direction de Rodolfo Lustig e Adalberto Kemeny

Pour les extraits du filme, voir  http://www.youtube.com/watch?v=UZo0mMuWp_E

 


[1] Qui provient de la ville de São Paulo.

 

 


 

Fantini, Marli (org.), A poética migrante de Guimarães Rosa, Belo Horizonte:

Editora UFMG, 2008, 448 p, Col. Invenção.



















 

Desde a publicação de Sagarana e de seu primeiro comentário crítico, feito por Álvaro Lins no CORREIO DA MANHÃ em 12 de Abril de 1946, uma extensa fortuna crítica orbita a obra de João Guimarães Rosa. São abordagens de toda sorte, que evidenciam a multiplicidade dos níveis em que opera o texto rosiano.

Em 2008, o centenário de nascimento do escritor permitiu que sua obra ganhasse evidência e, do mesmo modo, os discursos acerca dela. A publicação de A poética migrante de Guimarães Rosa, durante o Congresso Internacional Centenário de Dois Imortais - UFMG, em Belo Horizonte, é prova disso e dá tom comemorativo ao volume organizado por Marli Fantini.

Em suas quase quinhentas páginas, desfilam artigos sobre a obra do escritor mineiro e, indicando sua amplitude, os textos são agrupados de acordo com aspectos bastante distintos. Cada uma das nove partes é nominada, segundo determinada característica, utilizando pequenas citações da obra de Rosa.

A primeira delas, “Liquelices, refinices e salamaleques”, traz o ensaio de Walnice Nogueira Galvão sobre o conto “Orientação”. Nele, a pesquisadora faz um passeio pelos movimentos migratórios brasileiros, apontando a singularidade da situação, e mostra como do relacionamento improvável entre um chinês e uma sertaneja surge um processo inverso de aculturação.

Ettore Finazzi-Agró e Cid Ottoni Bylaardt discorrem sobre “Meu tio o Iauaretê”, em “Isso não á falável”. O primeiro, através das fronteiras que decorrem da situação paradoxal do homem-fera. O segundo, pela comparação com o romance Grande sertão: veredas. De modo geral, ambos tratam do valor singular deste conto, sobretudo da estratégia narrativa similar àquela utilizada no romance de 1956.

“Amizade dada é amor” trata do relacionamento entre os personagens Diadorim e Riobaldo de Grande sertão: veredas. No ensaio de Cleusa Rios Passos, verificam-se os limites entre o masculino e o feminino, nos domínios da psicanálise. E Márcia Marques de Morais demonstra, através da análise dos significantes, como se confundem e se misturam os elementos que delineiam esse amor proibido.

“O quem das coisas” reúne o estudo de Francis Utéza sobre o mito e o metafísico no romance rosiano, as provocações de Luiz Roncari acerca do mítico e do histórico na novela “Buriti”, e o artigo de Suzi Frankl Sperber sobre a busca da Terra sem Mal, indígena e utópica, no romance rosiano.

“O sertão está em toda parte” coliga trabalhos dedicados ao comparativismo. Kathrin H. Rosenfiled relaciona as obras de Machado e Rosa, a partir da observação da ironia.

Horácio Costa compara Grande sertão: veredas à obra do mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo. E Marli Fantini, organizadora da coletânea, contribui com a aproximação do romance rosiano com Vidas secas de Graciliano Ramos, tendo em foco as questões relativas ao espaço e ao meio-ambiente nos dois romances.

A sexta parte, “Vivendo o visto mas vivando estrelas”, tem ensaios acerca de contos incluídos em Sagarana e Primeiras estórias. José Carlos Garbuglio observa o apuramento da narrativa rosiana ao longo de sua produção. Maria Lúcia Dal Farra apresenta as relações imagéticas entre Primeiras estórias e o filme Outras estórias. E Maurício Salles Vasconcelos faz aproximações entre “Campo geral” e o filme Mutum.

Em “Eu quero a viagem dessa viagem”, Ana Luiza Martins Costa observa o papel da viagem para o escritor mineiro e, nesse caso, a importância do contato com a terra para a atividade literária. Denílson Lopes faz leitura da novela “Buriti”, ao lado de outras obras da literatura brasileira, tendo em foco o tema da volta para casa. Eduardo F. Coutinho mostra como a presença do mito associa-se à lógica racionalista no discurso de Riobaldo, em Grande sertão: veredas.

Na penúltima parte, “O senhor tolere, isto é sertão”, contribuem Sandra Guardini T. Vasconcelos e, em coautoria, Maria Célia Leonel e José Antonio Segatto. O primeiro artigo versa sobre a introjeção do princípio organizacional da sociedade brasileira na obra de Rosa. O segundo avalia a fortuna crítica rosiana, revisando alguns estudos já consagrados, ressaltando o valor da discussão acerca do tema, sua complexidade e a necessidade de uma leitura mais apurada destes textos críticos.

Por fim, em “A vereda é um oásis” Elza Miné e Neuza Cavalcante apresentam leitura dos aspectos característicos das cartas de João Guimarães para Aracy de CarvalhoGuimarães Rosa, ressaltando a afinidade e os interesses comuns do casal.

A despeito da multiplicidade de seus autores, temas e pontos de vista, o conjunto dos artigos publicados em A poética migrante de Guimarães Rosa soa homogêneo e o aprofundamento crítico dos textos não decepciona, constituindo importante subsídio para leitores iniciados ou não na obra de Rosa.

Assim, o pesado volume ratifica a amplidão das leituras rosianas, além do trabalho cuidadoso de estudiosos que, durante décadas, se dedicam à análise da obra deixada pelo escritor mineiro. Em sentido mais amplo, a publicação deste livro, que envolve a participação de tantos especialistas, somada aos eventos que celebraram o centenário de nascimento do autor, reafirma o interesse sobre a obra do escritor diplomata e indica o longo caminho, ainda a ser trilhado, nessas veredas de Rosa.

 

 

Anderson Teixeira Rolim

Universidade Estadual de Londrina

Doutorando