"nós, os do Laban..."

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Michel Laban, avec José Luandino Vieira et Ondjaki. Póvoa de Varzim, 2003 , Correntes d'Escrita. (Collection Famille Michel Laban)

Michel Laban, avec José Luandino Vieira et Ondjaki. Póvoa de Varzim, 2003, Correntes d'Escrita. (Collection Famille Michel Laban)

 

...que coisa tão difícil se torna falar de um amigo quando o que na realidade me apetecia era simplesmente abraçá-lo, tomar um copo de vinho tinto, olhar os seus olhos de criança-menino, e passar horas conversando com ele sobre as literaturas de Angola e do mundo..... como quem celebra o facto de ambos termos pelos livros, pelos autores e pelos países, um fascínio de quem os lê para os poder reinterpretar......

 

conheci o Michel por causa dos livros; na primeira vez que falei com ele, foi ao telefone, eu estava em Lisboa e liguei para Paris, simplesmente para lhe dizer que gostaria muito que ele lesse um livro meu e que o comentasse...... e era apenas isso mesmo, mas também a desculpa para o conhecer e falar com ele....

 

a primeira vez que o vi fisicamente foi no Norte de Portugal, e onde em breves dias trocámos impressões sobre as linguagens e as culturas de Angola, falamos de livros e de autores, e inauguramos uma amizade serena que sempre se alimentaria de cumplicidades e aprendizagens.......

 

...tive depois o prazer de estar com ele em Luanda, essa cidade tão minha quanto dele, tão dele quanto do Luandino ou do Manuel Rui..... a cidade do caos e da fantasia, da língua portuguesa e do kimbundu, dos negros, dos mulatos e dos brancos...... a cidade dos musseques e do asfalto, das crianças e dos passarinhos, da música e das estigas........

 

se comecei a pensar nas estigas em formato académico, se olhei para elas de um modo um pouco mais teórico e analítico, se iniciei o trabalho de recolha oral desse material e fui à Sorbonne falar dele, tudo isso devo ao camarada Michel Laban Diá Kimuezo, conforme um dia lhe chamei, em fala e em carta escrita...... e a partir daí as suas palavras me foram sempre encorajando a perseguir o eco dessa infância brincada – que também era a minha, e que era um segredo acessível a poucos, e entre esses poucos, estava o sorriso de fascínio e malandrice do Michel de cada vez que eu lhe falava nisso..........

 

... hoje vim dizer-te, Michel, que as palavras às vezes não chegam para vestir o corpo da nossa voz, nem os nossos lábios sabem acompanhar o ritmo interno e denso do qual é feito esse material chamado saudade...... se é verdade que o mais importante que tenho a dizer é “obrigado pelo modo tão justo e profundo com que sempre olhaste e escreveste sobre a nossa cultura e os nossos países”, o que de mais sincero tenho para te dizer é que estas palavras me caem tão secas nesse espaço vazio onde hoje, agora, tudo o que me apetecia era simplesmente dar-te um abraço.......

 

gosto muito de ti.

um abraço tipo kandandu,

Ondalu.

 

 


 

Né à Luanda en Angola en 1977.  Il  a fait des études de sociologie à Lisbonne ; il pratique plusieurs domaines artistiques : la peinture, le théâtre, le cinéma pour lequel il a écrit.  Chroniqueur du journal JL, il est connu pour ses romans et récits brefs, mais la poésie ne lui est pas étrangère (actu sanguineu, 2000). Son premier livre de contes, momentos de aqui (2001) a reçu le Grand Prix du Conte attribué par l’Association Portugaise d’Ecrivains (2007). Citons encore, parmi ses titres : Quantas madrugadas tem a noite (roman, 2004) ou Ynari, a menina das cinco tranças (littérature jeunesse, 2004). Le lecteur de langue française trouve aux Editions  La Joie de Lire, Bonjour camarades (2005) et Ceux de ma rue (2007), traductions de Dominique Nédellec.

 

Nascido em Luanda, Angola em 1977, estudou sociologia em Lisboa. Atua em vários campos artísticos: pintura, teatro, cinema. Cronista do periódico JL, ficou conhecido pelos seus romances e relatos breves, mas publica também poesia (actu sanguineu, 2000). O seu primeiro livro de contos, momentos de aqui (2001) recebeu o Grande Prêmio do Conto, da Associação Portuguesa de Escritores (2007). Entre seus títulos : Quantas madrugadas tem a noite (romance, 2004), Ynari, a menina das cinco tranças (literatura infanto-juvenil, 2004). Em língua francesa, pode se ler na Editora La Joie de Lire, Bonjour camarades (2005) e Ceux de ma rue (2007), na tradução de Dominique Nédellec.