O Anibaleitor , uma história de amor pela leitura
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O Anibaleitor ZINK, Rui, Lisboa, Editorial Teorema, 2010, 118 p.
“Uma parábola sobre o mundo de hoje e uma maravilhosa lição de leitura.” Eis a frase de Ioana Pârvulescu, que figura na capa e que resume de forma lapidar este saboroso e comovente livro de Rui Zink[1], já traduzido em romeno.
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Autor de Dádiva Divina (prémio Pen Club, 2004) e de Destino Turístico (prémio Ciranda, 2009), entre muitas outras obras de ficção e de ensaio, traduzido em várias línguas, Rui Zink acaba de publicar O Anibaleitor, onde nos sugere que, num tempo em que já praticamente ninguém lê [...] é só televisão, internete, e o diabo a sete (p.35), um leitor é uma raridade. Ciente disso, a sociedade pode ir ao ponto de o aprisionar e de o exibir em cativeiro, como se de um monstro se tratasse.
Um título intrigante que nos leva a pensar numa referência, “descarada” no dizer do autor, a Hannibal Lecter, personagem de “O silêncio dos inocentes” de Thomas Harris, da mesma forma que nos poderá suscitar outras evocações sem que nenhuma encontre eco na história que nos é contada. Não desvendemos pois o segredo do nome da personagem, Anibaleitor, para não retirarmos à leitura a surpresa dessa descoberta.
Na narrativa de Rui Zink há uma embarcação que navega com dezenas de sacas de livros a bordo, uma tripulação com um capitão que caminha amparado numa muleta (p.15), dado que tem uma perna de madeira (p.29), a fazer lembrar outros heróis, e um marinheiro, a quem chamavam Keequog, um colosso oriundo dos mares do sul (p.19), uma piscadela de olho a ao arpoador de baleias de Moby Dick.
O narrador desta parábola é um fedelho (p.46) que acaba de fazer quinze anos mas que diz ter dezassete e a quem o Anibaleitor não dá mais de treze. Após a aventura que viveu, aventura ou rito de iniciação, aguarda-o a rapariga de olhos castanhos e "encantos tamanhos" (p.93) que lhe sorriu, a lembrar o fado, e a sugerir-lhe que já era um homenzinho (p.102). Mesmo que quisesse, não poderia regressar à velha malta (p.93), um grupo de pequenos meliantes de que fazia parte o Gineto, nome emprestado aos "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes.
As páginas desta ficção acolhem versos da Nau Catrineta, estrofes de uma canção do grupo Rock GNR, um poema visual de Ana Hatherly, versos do Cântico dos Cânticos, quadras de sonetos de Camões e a evocação do Adamastor, num penedo que fala. Garrett, Mário de Carvalho, José Gomes Ferreira ou Cardoso Pires, mas também os brasileiros Guimarães Rosa ou Rubem Fonseca, são apenas alguns dos escritores evocados, citados ou parafraseados. As cumplicidades com livros e leituras são numerosas mas tão bem acomodadas no texto que se diria terem nascido lá. O autor, em nota no final do livro, inventaria-as e previne: Os livros deviam vir com um aviso, como os comboios: cuidado, um texto pode esconder outro. Mesmo sem querer, um livro dialoga sempre com outros livros (p.111).
A escrita veste-se de ironia, de sarcasmo e de muito sentido de humor, as personagens desconversam, escarnecem, zombam e divertem-se. O resultado é uma história e um ambiente cativantes e enternecedores. As vozes assumem-se, por vezes, didácticas: Ler é fazer as coisas acontecerem na tua cabeça! Não é ficar feito ruminante a olhar para uma parede falante! (p.49). Um livro era um encontro entre duas vozes: a nossa e a do livro (p.61). Não digo que nos tenhamos que submeter, apenas que devemos estar disponíveis. O livro, ao ser escrito, já deu um grande passo na nossa direcção: é uma dádiva. Cabe-nos agora a nós retribuir a gentileza e dar um passo na direcção do livro (p.60-61).
O Anibaleitor é pois uma narrativa alegórica sobre a arte de aprender a gostar de ler. Tarefa nada fácil que exige que percamos o medo de avançar por caminhos por vezes inóspitos até descobrir que um livro é uma casa com muitas portas (p.62), uma aprendizagem algo morosa até podermos, no dizer de Anibaleitor, tirar as rodinhas dos lados (p.74) sem cair da bicicleta. Na arte de aprender o prazer da leitura, às vezes há que ser como um condor. Mergulharmos a pique e tentarmos agarrar a presa (p.64). E se falamos no estilo do livro, o leitor, caramba, também tem que ter estilo (p.82).
Adelaide Cristóvão
Lectrice de l’Institut Camões à Paris 8
Centre Culturel – Institut Camões de Paris
Membre du CRILUS/Nanterre
[1] Esta novela teve uma primeira versão, distribuída pela Fnac, em 2006, no dia do livro, sendo agora editado pela primeira vez.





