Os sertões de João de Barros

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André Heráclio do Rêgo

Université Paris Ouest Nanterre La Défense

/CRILUS

 

 

Jaime Cortesão (1994:18-19) atribuía uma grande importância à literatura dos Descobrimentos portugueses nos vários continentes, nos séculos XV e XVI. Segundo ele, esses relatos, de importância decisiva para a História e a Geografia, seriam o fundamento de uma cultura nova “de base experimental e tendência crítica”, por oposição “a uma cultura anterior, estritamente ocidental, fundada sobre a autoridade clássica”.

Gilberto Freyre (1953:103) chegou mesmo a atribuir aos representantes dessa cultura de base experimental, fundada no “saber da experiência feito” de que falava Camões, uma capacidade para a “observação não apenas científica ou paracientífica, mas amorosa”.

Os portugueses, nesse sentido, teriam “universalizado” as ciências naturais – aí incluídas logicamente a História e a Geografia -,  dando-lhes por campo de estudo quase todo o planeta (Cortesão, 1994: 18-19).

Não obstante, essa literatura possui algumas peculiaridades. Uma delas diz respeito à verossimilhança. Com efeito, dada a dificuldade ou mesmo impossibilidade de uma verificação absolutamente científica, essa verossimilhança, nas palavras de Luiz Costa Lima, tem por exclusivo lastro a capacidade retórica com que é formulada, e não seria necessário estabelecer diferenças definitivas entre os relatos verídico e ficcional. Para que estes relatos fossem convincentes, do ponto de vista da retórica, bastaria, em princípio, que “o estranho e nunca visto fosse mostrado como ‘semelhante’ ao sabido pelo ouvinte ou leitor” (Lima, 1997: 216).

Nesse contexto, nessa tensão entre o verdadeiro e o fictício, devem ser considerados os aspectos maravilhosos dessas narrativas:

 

Enquanto permaneceu vigente o uso da tópica clássico-medieval, enquanto o relato era aceitável à medida que suas peças se ajustam internamente e fazem sentido – o que vale dizer, enquanto se mantinha inconteste a prática da leitura alegórica – enquanto o ‘ouvir’ predomina sobre o ‘ver’ [...] o monstruoso e o paradisíaco conviviam sem estorvo e ambos se pretendiam verdadeiros, enquanto amparados por uma expectativa de sentido, historicamente condicionada, que os abrangia (Lima, 1997: 217).

 

Luiz Costa Lima fez essa reflexão a propósito da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, mas ela pode ser aplicada a outras obras, literárias e não literárias – se é aqui pertinente fazer-se esta distinção -, que, na Renascença e no início da Idade Moderna, descreveram as viagens e as experiências – reais ou imaginárias – dos europeus em outros continentes, em “outros mundos”, e que forneciam informações explícitas e implícitas sobre o Outro não europeu, oferecendo visões distintas e diversas de povos, lugares e coisas (Souza, 2010:123-,141-143).

Nesse sentido, a construção de alteridades decorrente dos processos de colonização, levou os europeus a erigirem e refinarem as suas próprias identidades, e “introduziu uma tensão dialética dentro do ponto de vista do mundo europeu que determinou como a Europa percebeu o mundo de fora e, mais importante, tornou-se virtualmente indispensável para a concepção de si mesma” (Bassin, 1991:764).

 

 

Fig. 1. Retrato de João de Barros (segundo uma gravura antiga), Asia de Joam de Barros, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932.

 

 

Um dos nomes mais emblemáticos dessa literatura foi, sem dúvida, o de João de Barros. Considerado por algunso Tito Lívio português (Baião, 1932: V), começou a servir no paço real, onde, protegido de D. Manuel I, aprendeu as humanidades. Posteriormente passou ao serviço do filho do monarca, como “moço de guarda-roupa”. Foi em seguida nomeado por D. João III para a capitania do castelo de São Jorge da Mina, na costa ocidental da África, para onde partiu em 1522. Voltando a Portugal, em 1525, foi agraciado com o ofício de tesoureiro das Casas da Índia, Mina e Ceuta[1]. Em 1532, foi promovido a feitor da Casa da Índia e Mina, e neste cargo permaneceu até 1567. Nesse meio tempo, em 1535, recebeu, em mercê do rei, junto com Aires da Cunha, “sem léguas” de terras no litoral da Terra de Santa Cruz, situadas entre o que é hoje o território do Rio Grande do Norte e o do Maranhão, em cuja ocupação e colonização não teve sorte, como ele mesmo afirma:

 

Os feitos da qual por eu ter uma destas capitanias me tem custado muita substância de fazenda, por razão de uma armada que emprazaria de Aires da Cunha e Fernão D’AlvarezD’Andrade tesoureiro mor deste reino, todos fizemos para aquelas partes o ano de quinhentos trinta e cinco. A qual armada foi de novecentos homens em que entravam cento e treze de cavalo cousa que para tão longe nunca saiu deste reino [..] e por isso o princípio da milícia desta terra ainda que seja o último de nossos trabalhos, na memória eu o tenho mui vivo por quão morto me deixou o grande custo desta armada sem fruto algum (Barros, 1932 [1988]: 221)[2].

 

Empobrecido pelas despesas de duas infrutíferas e danosas expedições à sua capitania, João de Barros faleceu em 21 de outubro de 1570, “entrevado, sem falar, de ar de apoplexia” (Baião, 1932: XLIV).

Como diz o ditado, “morre o homem, fica a obra”. E a de João de Barros ficou. Escrita em sua maior parte nos tempos livres que sua função de feitor da Casa da Índia lhe permitia, já que ele dava “os dias ao ofício e parte das noites à escritura”(Baião, 1932: XLIV), esta obra é ampla e variada: inicia-se com a Crônica do Imperador Clarimundo, de 1520, inclui a Gramática da língua portuguesa, de 1540 – o que o torna um dos pioneiros do gênero na língua portuguesa, e também a Cartinha, cuja edição mais antiga conhecida é a de 1539, e que foi a primeira cartilha de português com autor identificado, o primeiro bê-á-bá da língua portuguesa.

 

João de Barros não era somente um grande historiador e moralista, era também um pedagogo da escola de Froebel, de quem se pode dizer um precursor. Quem é que se não recorda de ter ouvido na infância o A árvore B besta, C cesta? E pouca gente saberá que essa melopeia, consubstanciada em figuras apropriadas era a Cartilhade  João de Barros, a Cartilha maternal do século XVI (Viterbo: 69).

 

João de Barros teria deixado ainda manuscritos que não foram publicados e que se perderam, entre os quais se destaca a sua Geografia. O rei Dom Felipe I de Portugal (o Felipe II de Espanha), interessado em que se não perdesse tão valiosa obra ainda inédita, ordenou que fossem recolhidos, em 1591, os fragmentos e obras de João de Barros ainda em manuscrito. Foi possível recuperar-se cadernos relativos à Quarta Década da Ásia, e à Geografia, adquiridos a Dona Luísa Soares, viúva de seu filho Jerônimo, por quinhentos mil-réis. O rei ordenou que esses papéis fossem entregues a Dom Fernando de Castro Pereira, “fidalgo de grandes partes, e muito douto nas letras humanas”, que entretanto faleceu antes de cumprir  as ordens reais. Os originais foram então recolhidos ao Convento de São Roque, em Lisboa, para que o jesuíta Cristóvão Clávio “desse fim ao livro da Geografia”, o que também não sucedeu. Os originais da Quarta Década foram entregues a Duarte Nunes de Leão, mas não foi ainda desta vez que o livro foi publicado. Certamente exasperado e impaciente com esses insucessos, Felipe I de Portugal ordenou então que Diogo do Couto desse prosseguimento às Décadas da Ásia do ponto no qual João de Barros havia parado, o que deu origem a uma obra autônoma. Finalmente, os fragmentos originais da Quarta Década de João de Barros foram entregues a João Batista Lavanha, que os organizou e publicou, quase cinquenta anos depois de compostos (Faria, 1624: 52-52v).

 

 

Fig. 2. Frontispício da Primeira Década da Ásia de Joam de Barros, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932.

 

 

A sua obra máxima é, portanto, a Ásia – Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente, dividida em quatro ‘décadas’, as três primeiras publicadas em vida do autor e a última, cujo manuscrito não foi concluído por Barros, objeto de percurso tortuoso, que acabou vindo à luz somente em 1615[3].

As Décadas de João de Barros foram das principais obras literárias do século XVI, tanto pela quantidade de fontes utilizadas, quanto pelo seu impacto. Vinham atender à necessidade de, paralelamente ao conhecimento da história portuguesa, informar-se também, sistematicamente, das “realidades históricas, políticas e culturais dos reinos e sociedades situados nas mais diversas partes do mundo conhecido”(Biederman, 2003: 33).

Com efeito, a partir da década de 1520, tornou-se, mais que possível, necessário, aplicar uma prática historiográfica antiga, a da comparação (iniciada com Heródoto e subjacente à cultura ocidental desde então), a realidades tão distantes e distintas quanto as da Ásia e da África (Biederman, 2003:43-44). João de Barros, nesse contexto, teria se utilizado de dois processos mentais aparentemente contraditórios, mas que, juntos, deram sentido e operacionalidade à sua Ásia: à medida que as descobertas portuguesas avançavam, “que o campo de visão se alargava”, os complexos fenômenos observados eram “inseridos em categorias conhecidas no Ocidente”, ou seja, as “categorias imaginárias” caracteristicamente ocidentais – vale dizer, europeias – ganhavam novos campos de ação (Biedermam, 2003: 39), o que, sem dúvida, contribuía para reduzir o estranhamento para com essas ‘outras’ realidades e para uma compreensão mais tranquila, se bem que nem sempre verdadeira, do que ocorria do outro lado do mundo.

Consciente da ousadia da empreitada, João de Barros declarou no Prólogo à Década I:

E na aceitação deste trabalho e perigo a que me dispus, antes quero ser tido por tão ousado como foi o derradeiro dos trinta e tantos escritores que escreveram a passagem e expedição que Alexandre fez em Ásia, o qual temeu pouco o que dele podiam dizer tendo tantos ante si: que imitar o descuido de muitos, a quem este meu trabalho por ofício e profissão competia. Pois havendo cento e vinte anos (porque de tantos trata esta escritura) que vossas armas e padrões de vitórias tem tomado posse, não somente de toda a terra marítima de Africa e Ásia: mas ainda de outros maiores mundos do que Alexandre lamentava por não ter notícia deles: não houve alguém que se entremetesse a ser primeiro neste meu trabalho, somente Gomes Eanes de Zurara cronista mor destes reinos em as cousas do tempo do infante dom Henrique… (Barros, 1932 [1988]. 2-3).

 

Um dos temas de que Barros tratou na sua obra, que poderíamos considerar como uma precursora das ‘histórias da expansão’ tão comuns nos meios acadêmicos e literários portugueses, e que nos traz ao cerne deste artigo, é o do sertão, ou, melhor dizendo, dos sertões, considerados sob aspectos às vezes bastante sugestivos. João de Barros tratou assim de vários sertões em sua obra máxima. A começar pelo europeu, pelo ibérico:

 

E passados os primeiros anos da infância dele [Portugal], que foi todo o tempo que esteve no berço em que nasceu, limitado na costa do mar Oceano (porque o mais do sertam[4] da terra, ficou na coroa de Castela, e a ele lhe não coube mais em sorte nesta nossa Europa) todo o trabalho daqueles príncipes que então governavam, foi alimpar a casa desta infiel gente dos Arábios …(Barros, 1932 [1988]: 2-3).

 

Como o sertão pertenceria, em todas as direções, a Castela, a única opção de Portugal seria lançar-se ao mar. Nesse sentido, uma possível interpretação do sentido da expansão ultramarina portuguesa seria a busca de outros sertões, já que os próprios eram limitados e ameaçados, a todo momento, pelo inimigo espanhol, seja a norte, seja a leste. Com efeito, os portugueses, como outros navegantes do Quatrocentos e do Quinhentos, não se atiraram ao mar pelo mar em si: o mar era caminho, era travessia, na busca de outras terras, de onde viriam as riquezas. Para João de Barros, assim, o caminho natural de Portugal era explorar e conquistar o mar Oceano, porque o sertão, esse era castelhano. Nesse contexto, destacou-se o papel do Infante. D. Henrique, o qual, ademais de lançar o país às descobertas marítimas, sempre mandava inquirir das coisas do sertão das terras descobertas e de sua geografia, das “coisas de dentro do sertão da terra”. Essa ‘busca de outros sertões’ destinava-se, entre outros, à salvação das almas dos bárbaros e idólatras. O Infante era criticado pelo fato de “as terras que buscava serem desertos de idólatras”, mas, à vista dos sucessos obtidos, passou a ser elogiado por ter aberto caminhos aos portugueses para “ganhar muita honra e terras”.

 

E também porque acerca dos homens lhe ficasse nome de primeiro conquistador e descobridor da gente idólatra [ao infante dom Henrique, o Navegador]: empresa que até o seu tempo nenhum príncipe tentou. Com o qual fundamento para este seu propósito houvesse efeito: era mui diligente e curioso na inquisição das terras e seus moradores, e de toda as cousas que pertenciam à geografia, dando-se muito a ela. Donde assim na tomada de Ceuta, como as outras vezes que lá passou, sempre inquiria dos mouros as cousas de dentro do sertam da terra: principalmente das partes remotas aos reinos de Fez e Marrocos. A qual diligência lhe respondeu com o prêmio que ele desejava, porque veio saber por eles não somente das terras dos Alarves[5] que são vizinhos aos desertos de África a que eles chamam Saara, mas ainda das que habitam os povos Azenegues[6] que confinam com os negros de Jalof[7]: onde se começa a região de Guiné [… ] E assim como este mouro desejou vir ao reino por ver as cousas dele: o mesmo desejo teve um escudeiro a que chamavam João Fernandes, para particularmente ver as cousas daquele sertam que habitavam os Azenegues e delas dar razão ao infante…(Barros, 1932 [1988]: 12,35).

 

O moto das conquistas portuguesas era, assim, além da busca de riquezas, a salvação de almas, de “tantas mil almas” que o demônio mantinha presas naquelas “regiões e províncias bárbaras”. Os sertões africanos, assim, eram a terra de idólatras, de bárbaros, de cativos do diabo, e jaziam encerrados e bem esquecidos:

 

Nosso senhor como por sua misericórdia queria abrir as portas de tanta infidelidade e idolatria para salvação de tantas mil almas que o demônio no centro daquelas regiões e províncias bárbaras tinha cativas, sem notícia dos méritos da nossa redenção […] demonstrando-nos e descobrindo a grandeza dos mundos e terras que para nós tinha criado, com tantos tesouros e riquezas como em si continham. As quais terras havia tantos mil anos que por nossos pecados, ou pelas enormes e torpes idolatrias de seus moradores, ou por outro qualquer juízo oculto, estavam cerradas e de nós bem esquecidas…(Barros, 1932 [1988]: 14-15).

 

 

Fig. 3. Nos sertões da África habitavam idólatras, bárbaros, “cativos do diabo” (Africaeemendatadescriptio), Biblioteca Nacional Digital, Lisboa.

 

 

Uma parte dessas terras, desses sertões, situava-se na zona tórrida, e era, segundo os autores da Antiguidade, inabitadas e inabitáveis. Este era o principal argumento dos críticos, verdadeiros Velhos do Restelo, às iniciativas do Infante, os quais, à vista dos sucessos obtidos, tiveram que mudar de opinião.

 

Porque diziam muitos […] E mais que a terra que o infante mandava buscar não era terra, mas uns areais como os desertos de Líbia de que falavam os escritores: por ela ser uma parte a mais ocidental dela, de que já tinha experiência em as sessenta léguas de costa que estavam antes do cabo Bojador.] E não somente os mareantes mas ainda outras pessoas de mais qualidade diziam: […] Que segundo os antigos escreveram das partes do mundo, todos afirmam que esta por que o sol anda a que eles chamam tórrida zona, não é habitada. Ora onde o infante manda descobrir, é já tanto dentro no fervor do sol, que de brancos que os homens são, se lá for algum de nós, ficará (se escapar) tão negro como são os Guinéus vizinhos a esta quentura. Se ao infante parece que […] pode achar outras terras ermas grossas e férteis [..] terras e maninhos há no reino para romper e aproveitar sem perigo de mar, nem despesas desordenadas. […] E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o infante diz, não sabemos que gente é, nem o modo de sua peleja: e quando fosse tão bárbara como sabemos que é a das Canárias, a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender: nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera, e cativar gente tão mesquinha… (Barros, 1932 [1988]. 20-21).

 

Desse modo, uma das grandes barreiras que os portugueses ultrapassaram nas suas descobertas foi a da zona tórrida, convicção dos autores clássicos aceita pelos árabes, de que haveria uma área, na altura da linha do Equador, inabitável em função das altas temperaturas, capazes inclusive de provocar a ebulição da água. A vida seria impossível nessa zona. Talvez a houvesse, humana, mais abaixo, mas os europeus nunca poderiam entrar em contato com os assim chamados “antípodas”. Santo Agostinho foi mais além, ao negar a existência desses antípodas, já que, para ele, se o hemisfério sul fosse habitado, a mensagem do Evangelho de Cristo não poderia chegar a esses homens. Com efeito, o doutor Angélico[8] negava a existência dos antípodas porque, admitindo-a, ele negaria a unidade do gênero humano. A zona tórrida não podendo ser atravessada, segundo o ensinamento dos antigos, a admissão da existência de antípodas teria por consequência a existência de duas humanidades distintas, que se ignoravam mutuamente. Nessas condições, a mensagem evangélica perderia seu caráter universal, o que era inadmissível (Lestringant, 1997: 383).

Os portugueses foram dos que contribuíram para resolver esse dilema teológico, ao provar que a zona tórrida não somente era atravessável, como habitável – e habitada -, e ao descobrir nela uma humanidade que, sendo a mesma, era também nova, porque não conhecia a fé cristã, mas que parecia não se importar muito com esse desconhecimento. Donde surgiu um outro questionamento: provado que a zona tórrida era habitável, restava saber se esta humanidade que a habitava era constituída de homens como os outros (Perrone-Moisés, 1995:70).

 

Sertão era assim também a região da zona tórrida que, na opinião dos antigos, não era habitada, e não podia ser atravessada. Se fosse habitada mais abaixo, onde os ardores não eram tantos, o seria pelos antípodas, ou contrapedes, ou seja, aqueles seres que viveriam do lado contrário do mundo conhecido, o que nos leva claramente à ideia de um Outro que seria um Eu invertido.

Destacava-se, também, a busca do Preste João, que habitava nos sertões, e através deles devia ser alcançado. D. João II deu seguimento às iniciativas do Infante, sempre instruindo seus vassalos a recolherem informações do interior das terras, bem como estabelecendo feitorias no sertão para facilitar a chegada às terras do Preste.

E porque neste tempo del rei dom João, quando falavam na Índia sempre era nomeado um rei mui poderoso a que chamavam Preste João das Índias, o qual diziam ser Cristão: parecia a el rei que por via deste podia ter alguma entrada na Índia. Porque por os abexins[9] religiosos que vêm a estas partes de Espanha […] tinha sabido que seu estado era a terra que estava sobre Egito, a qual se estendia até o mar do sul. Donde tomando el rei com os cosmógrafos deste reino a tábua geral de Ptolomeu da descrição de toda África, e os padrões da costa dela […] e assim a distância de duzentas e cinquenta léguas para leste onde estes de Benji[10] diziam ser o estado do príncipe Ogane: achavam que ele devia ser o Preste João por ambos andarem metidos em cortinas de seda, e trazerem o sinal da cruz em grande veneração (Barros, 1932 [1988]: 84).

 

D. João II, assim, porfiava chegar até o lendário Preste João, que depois verificou-se ser o Imperador da Abissínia, oferecendo a este monarca notícias da “grandeza de seu reino” e “como por toda aquela costa andavam seus navios”.

 

A causa de el rei mandar lançar esta gente por toda aquela costa vestidos e em tratados com mostra de prata, ouro e especiarias: era porque indo ter a povoado pudessem notificar de uns em outros a grandeza de seu reino e as cousas que nele havia, e como por toda aquela costa andavam os seus navios, e que mandava descobrir a Índia, e principalmente um príncipe que se chamava Preste João, o qual lhe diziam que habitava naquela terra. Tudo a fim que pudesse ir ter esta fama ao Preste, e fosse azo para ele mandar de lá-de dentro donde habitasse a esta costa do mar: por que para todas estas cousas os negros e negras iam ensinados, e principalmente as negras, que como não eram naturais da terra ficavam com esperança de tornarem os navios por ali […] Que entre tanto elas entrassem pelo sertão e aos moradores notificassem estas cousas, e aprendessem muito bem as que pudessem saber das que lhe eram encomendadas… (Barros, 1932 [1988]: 85).

 

 

Chegou mesmo a mandar erguer fortalezas para facilitar a exploração dos sertões da África, tudo isto para chegar ao Preste: a “..el rei dom João […] pareceu lhe cousa mui proveitosa a seu estado, e a bem de seus naturais fazer fortaleza neste rio Sanagá, como porta por que […] podia entrar ao interior daquela grã terra até chegar ao Preste…”(Barros, 1932 [1988]:101).

Esse reino do Preste João era, mais do que nada, um território legendário. Nesses sertões suspeitava-se haver, por exemplo, um rio das Amazonas, como mais tarde seria o caso também do outro lado do mar Oceano, nos sertões da ainda não descoberta Terra de Santa Cruz:

 

Agora em nossos tempos a fama da grandeza deste rio, e que vinha da terra do Preste João por uma terra a que eles chamam das Amazonas por serem varões nos feitos e os maridos afeminados, e que dentro neste interior havia muito ouro: um Português chamado Jorge da Fonseca […] entrou neste rio e foi por ele acima cinco dias. E porque ele não ousava de sair em terra e a gente dela espantada de tal novidade não queria sua comunicação, tornou-se a sair, temendo falecer-lhe o mantimento: dando nova da grandeza do rio e dos muitos cavalos marinhos que nele havia e da disposição da terra (Barros, 1932 [1988]: 13).

 

Entre as tentativas de chegar ao Preste, já na época de D. Manuel I, conforme narrado por João de Barros, destaque-se a de João Machado e a de Francisco de Távora:

 

… e aconteceu a sorte a João Machado ficar em Melinde como escrevemos: e porque não achou entrada para ir pelo sértam ao reino do Preste João andou por toda aquela costa, até que foi em uma nau a Cambaia, sendo já a este tempo morto outro seu companheiro que houvera de entrar com ele às terras do Preste João rei da Abexia. […]
E em companhia de Francisco de Távora iam três homens que achou em Melinde e ficarão ali da armada de Tristão da Cunha com fundamento de irem por terra descobrir o Preste João […] e todos três iam  com grandes promessas de lhe el rei fazer mercê se fizessem aquele caminho. E porque naquela paragem de Melinde os negros cafres do sretam é gente mui bestial e fera, houveram conselho que seria melhor entrarem pela terra mais vizinha ao estreito que é já habitada de mouros… (Barros, 1974 [1988]: 305,101).

 

Mas João de Barros não se refere apenas aos sertões legendários da zona tórrida, dos antípodas, das Amazonas e do Preste João. Ele trata também dos sertões estranhos, diversos, onde se sobrevivia à base de sementes e raízes, de ervas e lagartixas e gafanhotos torrados. Trata-se dos sertões africanos da altura do trópico de Câncer, nos quais, nos meses mais abundantes, o único “certo comer” é o leite de gado, que também servia de bebida, já que a terra era tão estéril que quase não tinha água. Seria interessante a comparação desse povo de pastores, que somente se servia do leite de seus animais, com os vaqueiros do sertão do Nordeste do Brasil, berço da ‘civilização do couro’:

 

Porque o seu comer era uma pouca de semente que o campo por si dá que se parece com o painço de Espanha, e assim raízes e gomos dalgumas poucas de ervas, e não ainda em abastança: e toda maneira de imundícia de lagartixas e gafanhotos torrados àquela fervura do sol que sempre reina naquele solstício do trópico de Cancro que passa por cima daquela região. E os mais meses do ano seu certo comer (porque estoutro às vezes lhe falece com os temporais) é leite do gado que pastoram que também lhe serve de beber: por a terra ser tão estéril que não tem mais águas que em certos lugares alguns poços meios salobros, dos quais quando se aparta por levar o gado a outro pasto, o leite lhe fica em lugar de água, das quais cousas ainda não são muito abastados. Carne se alguma comem é de falezas e muitas veações e aves que matam e no gado não tocam se não por festa no macho: e nunca no outro por lhe dar leite que é toda sua vida, e estes são os de dentro do sertam […] A terra em si é meio areal, a mais viçosa é como a mais pobre e rasa charneca que cá temos, onde há algumas palmeiras e árvores que querem parecer as figueiras […] O sítio desta terra todo é chão e tão mau de conhecer por não ser notável por montes arvoredos e outras diferenças que a boa terra tem […] Suas casas são tendilhões, e o trajo comum coiros do gado que guardam, e os mais honrados alquicés: e os principais de todos, panos de melhor sorte […] O geral ofício de todos é pastorar o seu gado: porque nele está toda sua fazenda e substância da vida. [...] Entre eles não há rei ou príncipe, tudo são cabildas de parentelas, e assim andam apartados: e o de maior poder é o maioral que os governa: e muitas vezes entre si estas cabildas umas com as outras têm guerra…(Barros, 1932 [1988]: 38-39).

 

A gente que habita esses sertões era “agreste e bárbara” em leis e costumes, ademais de esquiva, mas para ela ainda havia salvação: com a proximidade da ‘civilização’, os habitantes da terra ficaram tão “domésticos” que eram os primeiros a querer negociar com os portugueses:

 

Neste tempo o negócio de Guiné andava já mui corrente entre os nossos e os moradores daquelas partes […]O que não pode ser doutra maneira, principalmente acerca de gente tão agreste e bárbara, assim em lei e costumes, como no uso das cousas desta nossa Europa: a qual gente enquanto não gostou delas sempre se mostrou mui esquiva. Mas depois que tiveram alguma notícia da verdade pelos benefícios que recebiam assim na alma como no entendimento, e cousas para seus usos: ficaram tão domésticos, que não havia mais que partirem os navios deste reino, e chegados a seus portos, concorriam muitos povos do sertam ao comércio de nossas mercadorias, que lhes davam a troco d’almas, as quais mais vinham receber salvação que cativeiro (Barros, 1932 [1988]: 65).

 

João de Barros no entanto estabelece uma divisão entre as gentes que habitavam esses sertões: ao norte do rio Sanagá, estavam os mouros; ao sul, os negros, embora, ao longo do tio, todos fossem “mestiços, em cor, vida e costumes”:

 

Este rio Sanagá por a divisão nossa é o que aparta a terra dos mouros dos negros, posto que ao longo de suas águas todos são mestiços, em cor, vida, e costumes, por razão da cópula que segundo costume dos mouros toda mulher aceitam. Mas quanto à qualidade da terra, parece que a natureza lançou aquele rio entre ambas como marco e divisão: porque, a que jaz da parte do norte que propriamente os mouros habitam, começando no mar oceano ocidental, em largura de cem léguas, e às vezes mais e menos à maneira de uma faixa de que o rio Sanagá é a ourela, se vai estendendo contra oriente até ir beber nas águas do Nilo, e tomando ali alguma umidade da corrente delas, torna com aquela secura e esterilidade que leva até dar consigo em as águas salgadas do mar roxo. O qual deserto não é assim tão estéril por todo, que alguma parte não seja povoado em ampolas, que são os Abafes de que escreve Estrabão […] Porque a terra que é toda área miúda sem cousa verde, a esta chamam eles Sahel, e à que é coberta d’alguma erva ou mata como de charneca pobre que é a parte que eles pastam, chamam Azagar, e a que é de pedregulho miúdo em modo de grossa área, Saara… (Barros, 1932 [1988]: 100).

 

Os sertões africanos têm, assim, para João de Baros, representações e significações múltiplas e variadas, não obrigatoriamente convergentes.

 

…mas tratando dos frutos da natureza sem humano artifício que esta terra da Etiópia dá, bem lhe podemos chamar paraíso de naturais delícias. Por que não somente ela dá, os necessários e proveitosos à vida humana: mas ainda dá almas criadas na inocência de seus primeiros padres […] Mas parece que por nossos pecados, ou por algum juízo de Deus oculto a nós nas entradas desta grande Etiópia que nós navegamos: pôs um anjo percuciente com uma espada de fogo de mortais febres, que nos impede não poder penetrar ao interior das fontes deste orto, de que procedem estes rios…(Barros, 1932 [1988]: 120).

 

A Etiópia, aqui entendida com a parte da África habitada pelos negros, seria assim um Paraíso “de naturais delícias”, guardado, tal como no Paraíso bíblico, por um anjo com uma espada de fogo. Mas, ao mesmo tempo, mais ao sul era habitada pelos cafres, gente sem lei, idólatras a viver no sertão.  É a terra que, para Ptolomeu, era incógnita, habitada por “muitos e diferentes” bárbaros, inclusive com línguas diferentes, motivo pelo qual não possuía esta terra denominação própria:

 

Em a parte da terra de África sobre a Etiópia o que Ptolomeu chama interior onde está a região Agisimba, que é a mais austral terra de que teve notícia […] jaz outra terra que em seu tempo não era nota, e ao presente mui sabido o marítimo dela, depois que descobrimos a Índia por este nosso mar oceano. O princípio da qual, começando na Oriental parte dela é o Prazo promontório […] ao qual os naturais da terra chamam Moçambique [..] E o fim ocidental desta terra a Ptolomeu incógnita, [..] se comunica com as Etiópias a que  ele chama Hespérios por nome comum, que são os povos Pangelungos súditos ao nosso rei de Congo […] e como esta de que tratamos é grande e os bárbaros que nela habitam são muitos e diferentes em língua, não há entre eles nome próprio dela (Barros, 1932 [1988]: 300-301).

 

Os habitantes dessa terra, assim, não se autodenominam, nem atribuem nome a esses sertões. Somente os povos mais civilizados, árabes e persas, “que têm polícia de letras e são vizinhos dela”, a chamam Zanguebar (Zanzibar), e a seus habitantes “zanguij”. Também são denominados “cafres”, “gente sem lei”. A terra, no entanto, é “soberba”:

 

Somente os Arábios e Pérsios como gente que têm polícia de letras e são vizinhos dela em suas escrituras lhe chama[m] Zanguebar, e aos moradores dela Zanguij: e per outro nome comum também chamam Cafres, que quer dizer gente sem lei, nome que eles dão a todo gentio idólatra, o qual nome de Cafres é já acerca de nós mui recebido pelos muitos escravos que temos desta gente.  […] está uma terra soberba sobre a outra que no cima faz uma planura de terra rala graciosa em vista, [onde] se levanta uma serrania de viva pedra com grandes e ásperos picos que pedem as nuvens com sua altura […] pelo pé dos quais rompe com muita fúria um rio de grandíssima água que nasce no interior daquele sretam, de que ao presente não temos notícia […]Toda a gente desta região em geral é negra de cabelo retorcido, e porém de mais entendimento que a outra que corre contra Moçambique, Quíloa, Melinde: entre a qual há muita que come carne humana e que sangra o gado vacum por lhe beber o sangue com que se mantém (Barros, 1932 [1988]: 301-302,376-377).

 

 

Fig. 4. Os sertões africanos eram a terra dos cafres, “gente sem lei” (Carte de Payset dês PeuplesduCap de Bonne Esperance), Biblioteca Nacional Digital, Lisboa.

 

 

Os mouros, povo civilizado, habitam o “marítimo” da terra, mas fazem incursões ao interior, “e tem alguma comunicação” com os cafres. Repete-se aqui o dualismo tradicional, no estudo dos sertões, entre sertão e litoral. Essa terra, no entanto, “tão áspera e exigente” para “habitação de gente política”, possui o mais precioso dos metais, o ouro:

 

Os animais aves  frutas e sementes, tudo responde à barbaria da gente em serem feras e agrestes […] Geralmente os mouros que habitam o marítimo [de Zanguebar] e assim os das ilhas adjacentes a ela: todo o mantimento que comem, o agricultado fazem à enxada, e o mais é fruta agreste, e carne montes, imundícias, leite d’alguma criação que têm: principalmente os mouros a que eles chamam baduijs[11] que andam no interior da terra e têm alguma comunicação com os Cafres, que acerca dos que habitam as cidades e povoações são havidos por bárbaros […]  naquela áspera e estéril terra para habitação de gente política, produziu o mais precioso de todo os metais, e logo lhe deu pouco paciente daquela aspereza e dado à busca dele: e a nós cobiça para por tantos perigos de mar e da terra, os iremos convidar com nossas obras mecânicas, para suprirem suas necessidades, a troco deste ouro tão conquistado (Barros, 1932 [1988]:302-303).

 

Há portanto um povo intermediário entre sertão e litoral: são “banduijs”, mestiços “em toda as cousas”, de mouros e cafres.

 

E veio prevalecer esta cidade Magadaxó em tanto poder e estado, que depois se fez senhora e cabeça de todo os mouros desta costa: porém como os primeiros que vieram a ela chamados Emozaidij tinham diferentes opiniões dos Arábios acerca de sua seita, não se quiseram submeter a eles e recolheram-se dentro pelo sretam ajuntando-se com os Cafres por casamentos e costumes, de maneira que ficaram mestiços em toda as cousas. Estes são aqueles a que os mouros que vivem ao logo do mar chama[m] Baduijs:  nome comum como cá entre nós chamamos Alarves a gente campestre (Barros, 1932 [1988]: 303-304).

 

João de Barros trata também do lendário reino do Monomotapa:

 

Assim que com estes dois braços [de rio] e o mar por outra parte, fica este grão reino de Sofala em uma ilha […] Toda ela no sítio mantimentos animais e moradores é quase como a terra chamada Zanguebár[..] por ser uma parte dela: porém como se vai afastando da linha equinocial tirado o marítimo dela, deste rio Cuama até o cabo das correntes por dentro do sretam é terra excelente, temperada, sadia, fresca, fértil de toda as cousas que se nela produzem (Barros, 1974 [1988]: 374).

 

Fez, assim, uma pintura admirável dos sistema econômico e social da África Oriental. Ao lado, e em complemento aos sertões ásperos, estéreis e insalubres, distantes da civilização, onde viviam os cafres feros e agrestes, o litoral habitado por povos civilizados, em cidades comparáveis às da Espanha (no sentido mais abrangente do termo): Sofala, Mombaça, Quiloa e Melinde. Enre os dois extremos, os mestiços, os banduijs (Biederman, 2003: 45-46).

 

João de Barros aplica o mesmo esquema aos ‘sertões asiáticos’: o de centros urbanos civilizados, semiperiferias com povos nômades e periferias com povos selvagens. É o caso de Samatra, onde a terra era povoada por mouros e gentios, os primeiros no princípio estrangeiros, que povoaram o litoral; e os segundos, autóctones, que, com a chegada dos mouros, abandonaram a costa e recolheram-se ao interior da ilha, separados por uma camada intermediária de mestiços(Biederman, 2003:47-48).

Também é o caso do reino de Sião, em que habitavam os siameses, os laos e os gueos. Os primeiros viviam nas cidades, governados por um rei; os segundos, viviam ao redor dessas cidades, necessitando o auxílio do rei siamês contra os gueos, que habitavam as serranias remotas, e comiam carne humana, e que comumente desciam à planície, às “terras chãs” dos laos, onde faziam grandes estragos (Biederman, 2003 :49).

 

E não tratamos aqui dos príncipes [do Sião] que vizinham com estes dentro pelo sretam, assim como el rei de Orixá e el rei de Bengala, que têm muitos portos do mar que nós navegamos […] porque ainda que estes sejam mui poderosos em terra, povo, trato e riqueza […]E assim estes como os de dentro do sertao da ilha [de Samatra] todos são  baços de cabelo corrido, bem dispostos e de bom aspecto…(Barros, 1974 [1988]: 36 e 119).

 

O cenário repetia-se na Índia, onde os mouros haviam conquistado o “marítimo”, aos gentios, que habitavam os sertões. Nesses sertões, havia, no entanto, entre os gentios, grandes reis, como o de Narfinga:

 

Todo os reis e príncipes da Índia, principalmente os mouros a quem a entrada que nela tínhamos feito mais tocou que ao gentio, se alguma esperança tinham de perder esta dor, era com lhe parecer que nos contentávamos de andar espancando o mar e roubar todas naus do estreito de Meca […] o qual modo lhe parecia não mui certo e durável por ser diferente do que eles tiveram na entrada dela com que se fizera[m] senhores do seu marítimo, e depois de parte do sertã conquistado dos gentios sem mais tornar  à pátria donde cada um era. Porém quando eles viram a segunda tomada de Goa, e depois a de Malaca […] começaram perder a esperança que diante tinha […]Tudo a fim de a [Goa] nobrecer e fazer senhora do principal poder e força, com que os senhores do sertão que  era el-rei de Narfinga e os capitães do reino Decã se fazia poderosos uns contra outros: que era estes cavalos que lhe iam de Pérsia e Arábia (Barros, 1974[1988]: 340-341).

 

Nos sertões, desta vez da Arábia, ficava, também, Meca, onde estava enterrado o corpo do Profeta. Mas também era aí que habitavam os alarves, grande ameaça para os peregrinos:

 

Da qual [Jedá] a Meca que está metida no sertam onde jaz o corpo de Mahamed haverá pouco mais ou menos quinze léguas[…]Da vila Imbo até outra chamada Tor e por nós Toro em que haverá por costa sessenta e oito léguas, posto que toda a terra que atrás fica é estéril e está muito mais, e por isso não tem senhor próprio: o sretam dela é de alarves que andam em cabildas a roubar os mouros que vão em romaria a Meca…(Barros, 1974 [1988]: 363).

 

Nos sertões ficavam também cidades antiquíssimas, como Ptolomaida:

 

Na qual distância de costa poder haver trezentas e sessenta léguas, que contêm em si muitos e mui célebres portos. E por dentro do sértam, se estendia por o Nilo acima à região Tebaida [..] até chegar à antiquíssima cidade Ptolomaida [...] e dali vinha beber ao mar roxo. Passando o qual entrava na terra de Arábia…(Barros, 1974 [1988]: 289).

 

São sertões mais “pastados” que habitados, tão areentos que não há alimento nem para os homens nem para os animais. Mas existiam exceções: Lafah, verdadeiro Paraíso, terra “fértil” e “mimosa”, chamada Yaman (Iemen), que seria uma das possíveis localizações do Paraíso Terreal.

 

E o epíteto de deserta bastava para se saber não ser tão habitada como ele Ptolomeu a faz, por a terra em si ser tal que mais se pode dizer pastada que habitada: e ainda em partes é tão areenta e tal, que não há aí pasto para aves quanto mais para alimárias. […]E na terra a ela [ Arábia] fronteira, dentro no sertão vinte léguas pouco mais ou menos, está a cidade Lafah: a qual com seu contorno de terra é a mais fértil  mimosa que tem toda aquela parte chamada Yaman…(Barros, 1563 [1992]: 164).

 

João de Barros trata até dos sertões americanos:

Na qual ida entraram vinte léguas pelo sertão [da Patagônia], em que gastaram dez dias: e trouxeram consigo uns homens da terra, cujos corpos passavam de doze palmos. Aos quais o capitão mor  [Fernão de Magalhães] mandou dar dádivas, e reteve dois por mostra de sua grandeza e os trazer a Castela: mas duraram pouco por ser gente costumada comer carne crua (Barros, 1563 [1992]: 149).

 

Apesar de sua obra denominar-se Ásia, João de Barros tratou de todos os territórios percorridos e conquistados pelos portugueses entre os séculos XV e XVI. Descreveu assim a descoberta e ocupação das ilhas atlânticas de Portugal, das costas ocidental e oriental da África e seus sertões, das viagens ao litoral do Brasil e da América do Sul, indo até a Patagônia. Tratou assim do litoral e do sertão de quatro continentes. As referências maiores são naturalmente aos sertões africanos, em função da busca do Preste João, mas também por conta do desconhecimento ainda maior dos sertões americanos, onde a colonização portuguesa ainda arranharia por algum tempo as costas atlânticas, como caranguejos, e também pelo fato de os sertões asiáticos, sobretudo da Índia, ademais de serem os mais longínquos de todos, já estavam ocupados por grandes reis, como o de Narfinga.

João de Barros retrata assim ‘diversos’ sertões: da Arábia, onde ficava Meca; da Índia, do Ceilão, do Sião, da Patagônia, entre outros. Para ele, o sertão era a terra dos alarves, de gente muito bestial – os cafres, de gente mui agreste e bárbara, sendo povoada mais de bestas feras que de homens. Esses sertões são o Outro, que justifica e dá importância ao Império Marítimo tão decantado. São o sujeito oculto, a base da expansão marítima portuguesa, seja no que se refere a sua partida, seja no que se refere a sua chegada. Nesse sentido, a vocação marítima e atlântica de Portugal é, também, uma vocação sertaneja, a de buscar ‘outros sertões’, já que os próprios eram limitados.

A representação desses sertões é prenhe de referências antigas e medievais. É, de certa forma, a transposição para ‘outros mundos’ das experiências e vivências familiares aos portugueses, muitos deles saídos do sertão lusitano e ainda impregnados da visão de mundo medieval. Não é à toa, nesse sentido, que antes de ser historiador, geógrafo e gramático, João de Barros tenha sido autor de um romance de cavalaria, gênero literário medieval por excelência.

 

 

Referências bibliográficas


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BARROS, João de. Ásia de João de Barros. Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. Primeira Década. Edição facsimilada  4ª edição revista e prefaciada por António Baião, conforme a edição princeps (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988.

BARROS, João de. Ásia de João de Barros. Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. Segunda Década. Edição facsimilarda  4ª edição, conforme a edição princeps, iniciada por António Baião, continuada por Luís F. Lindley Cintra (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988.

BIEDERMANN, Zoltán. Nos primórdios da antropologia moderna: a Ásia de João de Barros. In: Anais de História de Além-Mar Centro de História de Além-Mar, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. IV: Ano 2003, p. 29-61.

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FREYRE, Gilberto. Um brasileiro em Terras Portuguesas – Introdução a uma possível luso-tropicologia, acompanhada de conferências e discursos proferidos em Portugal e em terras lusitanas e ex-lusitanas da Ásia, da África e do Atlântico. Com 22 fotografias e outros documentos. Rio de Janeiro : José Olympio, 1953.

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SOUSA VITERBO. Boletim da segunda classe, I, p. 69, apud BAIÃO, op. cit.,  p. L.

 


[1]A Casa da Mina era uma espécie de repartição alfandegária, para onde eram encaminhadas as mercadorias vindas das possessões portuguesas de além-mar.

[2] A ortografia desta e das demais citações de João de Barros foi modernizada.

[3]Para maiores detalhes, ver Baião, 1932: p. LVIII a LXXXII.

[4]Conquanto tenha decidido modernizar a ortografia das citações de João de Barros, conservo a grafia da palavra ‘sertão’ conforme o original, em todas as citações, para dar uma ideia da diversidade como era escrita no século XVI.

[5]Alarves, originalmente, era uma das denominações dos beduínos árabes. Vale por boçal, rústico.

[6]Azenegues são os que pertencem às tribos mourisca do Saara Ocidental e do Noroeste da África.

[7]Jalof é a terra dos jalofos, tribo da África ocidental.

[8]“Quanto ao que se diz de haver antípodas, isto é, homens que marcam as suas passadas contrárias aos nossos pés pela parte oposta da Terra onde o Sol nasce quando entre nós se põe, nenhuma razão há para o crer. Ninguém refere que o tenha sabido por qualquer conhecimento histórico. Apenas se conjectura pelo raciocínio: a Terra, diz-se, está suspensa no interior da abóbada do Céu – e para o mundo o lugar de baixo é o mesmo que o lugar de cima. Disto se conclui que a outras parte da Terra, que está do lado de baixo, não pode deixar de ser habitada por homens.  Não prestam atenção a que, embora se creia que o mundo tem uma forma esférica e redonda, e embora se demonstre isto com algum argumento, - não se segue daí que essa parte da Terra não esteja coberta de massas de água; e, mesmo que esteja seca, nem daí se pode logo concluir necessariamente que tem homens. Mas, porque a Escritura não mente, ela que baseia a confiança nos fatos narrados pelo cumprimento fiel das suas predições, - seria demasiado inverossímil afirmar-se que alguns homens tenham podido navegar através da imensidade do Oceano até chegarem à outra parte onde também se teria estabelecido o gênero humano procedente do primeiro e único homem” (itálicos meus. Santo Agostinho, 2000:  1477.)

[9]Abissínios.

[10]Benin ?

[11]Beduínos.

 

 

 

Pour citer cet article:

 

REGO, André H. «Os sertões de João de Barros», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°11, automne-hiver 2012, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.