O último voo do flamingo : une poétique de la réinvention chez Mia Couto

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Resumo:

 

Abordámos a leitura do romance de Mia Couto, O último voo do flamingo, segundo a perspectiva crítica dos estudos pós-coloniais (Edward Saïd, Homi K. Bhabha): a heterogeneidade de discursos literários, a hibridez cultural e linguística, a oposição entre si e o outro.

Sob a aparência de romance policial, O último voo do flamingo tem intenções políticas: denuncia a traição das esperanças legítimas do povo moçambicano frente à emergência de uma nova classe de privilegiados e desmascara a ingerência das grandes potências na vida dos países do Terceiro Mundo. O olhar de dois homens, um moçambicano e um estrangeiro, envolvidos numa investigação sobre as explosões que provocam a morte dos soldados da paz enviados para Moçambique depois do fim da guerra civil, mostra a falta de coerência do mundo pós-colonial.

A sobreposição dos códigos literários africanos e ocidentais desenvolve uma estética de transfiguração narrativa e simbólica nos pontos de vista, nas estruturas romanescas, nas margens do texto e na linguagem. Pretende recriar o universo da literatura oral, tecida a partir da palavra dos antepassados e transmitida no fio das gerações. O enunciado paratextual, título, prefácio e epígrafes, se inscreve de forma interactiva na legibilidade do texto narrativo e sugere o carácter reflectido dos textos orais e a alquimia encantatória do contador de histórias. A lenda dos flamingos, pequeno quadro lírico ligado ao simbolismo da renovação, retoma o esplendor das narrativas míticas africanas e convoca o tempo fabuloso das origens de que fala Mircea Eliade. Ao representar a diversidade de uma nação pluriétnica e pluricultural, o discurso de O último voo do flamingo manifesta novamente a  capacidade de reinvenção dos moçambicanos.

 

Résumé:

 

Nous avons abordé la lecture du roman de Mia Couto, O último voo do flamingo selon la perspective critique des études postcoloniales (Edward Saïd, Homi K. Bhabha) : l’hétérogénéité de discours littéraires, l’hybridité culturelle et linguistique, l’opposition entre soi et l’autre.

Sous l’apparence de roman policier, O último voo do flamingo a une visée politique : il dénonce la trahison des espoirs légitimes du peuple mozambicain devant l’émergence d’une nouvelle classe de privilégiés et démasque l’ingérence des grandes puissances dans la vie des pays du Tiers Monde. Le regard de deux hommes, un Mozambicain et un étranger, engagés dans une enquête sur les explosions qui provoquent la mort des soldats de la paix envoyés au Mozambique par l’ONU, après la fin de la guerre civile, découvre le manque de cohérence du monde postcolonial.

La superposition des codes littéraires africains et occidentaux développe une esthétique de renversement narratif et symbolique dans les points de vue, les structures romanesques, les marges du texte et le langage. L’enjeu est de recréer l’univers de la littérature orale, façonnée sur la parole des ancêtres et transmise au fil des générations. L’énoncé paratextuel, titre, préface et épigraphes, s’inscrit de façon interactive dans la lisibilité du texte narratif et suggère le caractère réfléchi des textes oraux et l’alchimie incantatoire du griot traditionnel. La légende des flamants, petit tableau lyrique lié au symbolisme du renouveau, reprend la splendeur des récits mythiques africains et convoque les temps fabuleux des commencements dont parle Mircea Eliade. Représentation de la diversité d’une nation pluriethnique et pluriculturelle, le discours de O último voo do flamingo rappelle la capacité de réinvention des Mozambicains.

 

A propos de l’auteur:

 

Maria Fernanda Afonso, ancienne lectrice de l’Institut Camões dans les Universités de Toulouse, Bruxelles, Gand et Louvain, est titulaire d’un doctorat (Université de Bordeaux) sur le récit mozambicain postcolonial. Elle a publié O conto moçambicano, (2004), plusieurs chapitres de livres sur la littérature contemporaine, et participé à l’élaboration du Dicionário da obra de António Lobo Antunes (Maria Alzira Seixo, dir. 2008). Rattachée au CRIMIC de Paris IV et au CLEPUL de l’Université de Lisbonne.