A terrível parábola: as versões de um poema de João Guimarães Rosa

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Luiz Claudio Vieira de Oliveira

Universidade Federal de Minas Gerais

Universidade Fumec – MG.

 

 

Num texto publicado na Revista de estudos românicos, cujo título é “Magma, as origens de Guimarães Rosa” (Oliveira, 2000: 115-126),[1] pude identificar, no livro de poemas de Rosa, premiado em 1936, mas de publicação póstuma, certos fragmentos que seriam usados posteriormente por Guimarães Rosa, ao longo de sua obra. As coincidências são muitas. Talvez isso explique o esquecimento de Magma, por Guimarães Rosa, e sua edição somente após a morte do autor, em 1997.  De fato, é incompreensível que ele não se empenhasse em publicá-lo, apesar de seu prestígio e da facilidade que teria para fazê-lo.

 

O objeto de estudo, extraído de Magma, é o poema “A terrível parábola”, relato da estória de uma menina, Zabelinha, de sua cachorrinha e de um bicho denominado Kibungo-Gerê. Este poema apresenta um aspecto bastante importante na obra de Guimarães Rosa, que é a co-ocorrência da tradição oral e da tradição escrita. Guimarães Rosa, dentro da Literatura Brasileira, insere-se num processo dinâmico que vai do oral ao escrito e, novamente, ao oral, comum a vários escritores. Existe, em nossa configuração cultural, uma parcela da população que é essencialmente letrada, sem nenhum contato com a cultura oral popular, urbana ou rural. Do mesmo modo, há outra camada que é tão somente oral, apartada da cultura letrada que se cultiva e se desenvolve nas escolas. Guimarães Rosa se coloca num terceiro ponto, que representa o entrecruzamento dialético dessas duas culturas, mutuamente enriquecedoras. Objetiva-se fazer uma análise comparativa entre o poema de Rosa e outras versões conhecidas, indicando o entrecruzamento de várias versões da mesma estória. Inicialmente, examinaremos o poema, que chamaremos de Versão A:

 

A Mãe-Preta contava:/ uma meninazinha/ morava num sobrado/ com uma cachorrinha./ E no meio da noite bateram na porta/ e cantou lá fora/ o Kibungo-Gerê.//
– “Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Cadê Zabelinha, que eu quero comê!...”//
Mas a cachorrinha, acordada,/ cantou para o bicho/ Kibungo-Gerê:/ – “Zabelinha já lavou,/ já deitou,/ já dormiu!...”//
E pela noite afora/ foi andando embora/ o Kibungo-Gerê.//
A menina, com raiva,/ matou a cachorrinha./ Mas na outra noite,/ quando o bicho voltou,/ a cachorrinha morta cantou no quintal...//
A menina, de raiva, enterrou a cachorrinha,/ a menina, de raiva, queimou a cachorrinha,/ a menina, de raiva, jogou no rio a cinza/ da brava cachorrinha,/ que cantava acordada,/ que cantava morta,/ que cantava enterrada,/ que cantava nas cinzas,/ e que parou de cantar...//
E a menina acendeu todas as luzes do sobrado,// para esperar o bicho/ Kibungo-Gerê.//
E o bicho voltou,/ Kibungo-Gerê!.../ e o bicho cantou,/ Kibungo-Gerê!.../ e foi abrindo a porta/ Kibungo-Gerê!.../ e foi subindo a escada,/ Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Kibungo-Gerê!...

 

O primeiro verso do poema, “A Mãe-Preta contava” configura um modus operandi de Guimarães Rosa, presente em vários textos: um narrador, responsável pela enunciação lhe dá credibilidade e verossimilhança, ou seja, lhe dá veridicção. O enunciador – Guimarães Rosa – dá à mãe-negra a função de narrador de uma estória, encarregando-a de dizê-la para um narratário – possivelmente uma ou várias crianças – contando-lhes uma estória “de medo”. O processo de enunciação se faz por camadas que, ao produzirem o enunciado, se tornam implícitas, num processo de mascaramento. O processo foi descrito por Umberto Eco, e retomado, mais recentemente, pela teoria semiótica do discurso, como se vê em José Luiz Fiorin e Diana Luz Pessoa de Barros, entre outros, e também pela análise do discurso francesa, desenvolvida por Patrick Charaudeau.

 

Cabia à Mãe-preta, figura tradicional para muitas famílias brasileiras, o aleitamento dos filhos dos patrões brancos, a criação dessas crianças e, em decorrência desse contacto e de sua importância, misto de mãe e preceptora, a criação de um imaginário. Sua função, no poema, é a de concretizar um gênero, semelhante ao que a fórmula “Era uma vez...” desempenha. Sinaliza para o leitor que a estória não é História, mas uma narrativa em que tudo é possível e a mistura entre oralidade e escrita. Diz Câmara Cascudo (1984ª: 153):  “No Brasil depressa a velha indígena foi substituída pela velha negra, talvez mais resignada a ver entregue ao seu cuidado a ninhada branca do colonizador. Fazia deitar as crianças, aproximando-as do sono com as estórias simples, transformadas pelo seu pavor [...]”.

 

Jorge de Lima, em vários de seus poemas, mostrou essa importância da mulher negra na formação do imaginário das crianças brasileiras, através da contação de estórias. Em “Essa negra Fulô”, registra-se: “Ó Fulô? Ó Fulô?/ Vai botar para dormir/ esses meninos, Fulô!/ ‘Minha mãe me penteou/ minha madrasta me enterrou/ pelos figos da figueira/ que o Sabiá beliscou.’” (Lima, 1997: 10). Também o poema “Ancila negra”, um lindo canto de saudade e remorso, demonstra a presença da mulher negra na educação do menino branco: “Há ainda muita coisa a recalcar,/ Celidônia, ó linda moleca ioruba/ que embalou minha rede, me acompanhou para a escola, me contou histórias de bichos/ quando eu era pequeno,/ muito pequeno mesmo.” (Lima, 1997: 90). Uma pesquisa mais funda na literatura brasileira irá identificar, na obra de vários autores, a referência à Mãe-preta, em tudo semelhante à Irene, de Manuel Bandeira: “Irene preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor.” (Bandeira, 1993: 220).

 

A figura da Mãe-Preta, evocada no poema, situa-se no ambiente sócio-cultural que nos liga, por um lado, à escravidão e à exploração da mulher no Brasil escravocrata e, por outro, a formas alternativas de cultura, por intermédio de uma tradição oral. No poema de Jorge de Lima, por exemplo, a negra Fulô conta uma estória que pertence à cultura portuguesa, oral e escrita, como o comprovam os figos. Mas o Sabiá (com maiúscula no original), é brasileiro. Na versão portuguesa, a criança enterrada por ordem da madrasta espanta os passarinhos. Trata-se, segundo Câmara Cascudo, de um tipo de conto que se classifica como de “natureza denunciante”. Neste caso: é o capim, em que se metamorfoseou o cabelo da menina, que canta e denuncia: “Capineiro de meu pai,/ Não me cortes os cabelos;/ Minha mãe me penteava,/ Minha madrasta me enterrou/ Pelo figo da figueira/ Que o passarinho picou...” (Câmara Cascudo, 1984a: 324-326). Destaque-se o sincretismo, da cultura oral e popular, presente no fato de a ama negra veicular um texto de origem portuguesa em vez de um conto de origem africana.

 

É a essa personagem, a ama, que Guimarães Rosa concede a enunciação do poema: “A Mãe-Preta contava:”. A figura do contador de estórias é comum na obra rosiana que, em vários textos se aproxima da forma de contar existente nos contos de fada. Um exemplo claro é o conto “Conversa de bois”, de Sagarana, do tempo em que os bichos falavam. O velho Camilo e Joana Xaviel, de “Uma estória de amor”, Fraquilim Meimeio, de “Dão-la-la-lão” são outros exemplos de contadores de estórias, além de Riobaldo, em Grande sertão: veredas. O tempo verbal do poema, “contava”, retomando um tipo de intróito comum às estórias orais, vem no pretérito, contando que Zabelinha e sua cachorrinha moravam num sobrado. Supõe-se que sozinhas. No meio da noite, sem que se saiba de onde nem porque, surge o Kibungo-Gerê, que canta: “ - Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!... Cadê Zabelinha, que eu quero comê!...”

 

A estória, portanto, é elíptica: uma meninazinha, tal como a caracteriza o poema, vive só, com uma cachorrinha. O bicho, como é chamado no poema, é o Kibungo-Gerê, que sabe o nome da menina, sem que se saiba de onde vem esse conhecimento. Zabelinha é uma redução de Izabelinha, diminutivo que ressalta a juventude da menina. O nome é bem ao gosto de Guimarães Rosa, cuja alquimia com os nomes próprios é conhecida. Basta lembrar aqui o Moimeichêgo, o Grivo, o Nominedômine, os cegos Retrupé e sêo Tomé. Além, é claro, do nome de Diadorim.

 

Ecoando o sincretismo da Mãe-Preta que conta estórias de origem portuguesa, no poema de Guimarães Rosa ela conta uma estória de um bicho que é o Kibungo-Gerê. Segundo Câmara Cascudo, o Quibungo é uma entidade malévola, de origem africana, de Angola e do Congo, tendo vindo ao Brasil através dos bantos, ficando restrito à Bahia, não aparecendo nas estórias infantis dos outros Estados. É um tipo de bicho-papão africano, que se caracteriza pela devoração de crianças (Câmara Cascudo, 1984b: 652-653. Apesar da afirmação de Câmara Cascudo, a estória tem ampla difusão em Minas Gerais, possivelmente ecoando a cultura negra que a trouxe da Bahia para as terras mineiras. O volume De quimbungos e meninos é uma coletânea de narrativas, de várias procedências, incluindo-se aí a obra de Câmara Cascudo, em que o quimbungo é o protagonista.

 

Figura singular, no poema, é a cachorrinha. Além de falar, para defender sua dona, encarnando aí um ideal de fidelidade, acaba sendo sacrificada pela curiosidade desta. Há um crescendo na crueldade da sua dona, Zabelinha, aumentando ainda mais as elipses da estória: a cachorrinha é morta, enterrada, queimada e suas cinzas são espalhadas no rio. Se moravam juntas, por que o sacrifício? E, tendo havido, por que a cachorrinha ainda defende sua dona? Só quando não há resíduo algum do animal é que ele deixa de cantar e de proteger. Só quando não há mais possibilidade de retorno, uma vez que o rio leva as cinzas para longe, é que a cachorrinha perde sua eficácia protetora. Só depois do seu desaparecimento é que o bicho, esperado e desejado por Zabelinha, consegue entrar na casa, cantando seu nome três vezes: “Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Kibungo-Gerê!...” Há um suspense no final da estória: o que aconteceu a Zabelinha? Se o Quibungo é um bicho-papão e se Zabelinha é uma meninazinha, supõe-se que o final não seja dos melhores para ela. Esta é mais uma das elipses do poema: o destino de Zabelinha.

 

O poema de Rosa é apenas uma das várias versões da estória. Na obra de Guimarães Rosa há sempre versões. Não há uma verdade anterior ao texto: o que importa é a versão que se dá do acontecimento, tomado como um referente, real ou não. Será interessante registrar outras versões desta estória da cachorrinha, como é conhecida. Além dos prefácios de Tutaméia, em que teoriza sobre as relações entre original e cópia, entre História e estória, Rosa ficcionaliza o tema em vários de seus textos, como em “Desenrêdo”, “Droenha”, “Os três homens e o boi”, além de tê-lo feito em Grande sertão: veredas: “O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não.” (Rosa, 1970: 142).

 

Uma versão, que chamaremos de Versão B, foi recolhida na área urbana de Belo Horizonte, narrada por um garoto em fase de alfabetização, de uma escola pública, pela Professora Graça Costa Val, com objetivos de verificar os procedimentos de elaboração e reelaboração narrativa, assim como o domínio do narrador sobre os efeitos de sua narrativa (Costa Val, 1998: 53-62). A versão é a seguinte:

 

A Marieta tava lavando as roupa... as vasilha e quando ficou de noite ela foi dormir. O lobo foi chamar ela. A cachorra falou: Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá. Foi, ela lavou tudo de novo, ela tava lavando as vasilha... as roupa, quando ficou de noite, ela foi e dormiu. O Lobo foi chamar ela. Aí, a cachorra falou: Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá. Foi, o lobo matou ela. Foi Marieta tava lavando as roupa... as vasilha, e quando ficou de noite, o Lobo foi chamar ela. Foi, a cachorra morta falou: Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá. Depois, queimou ela. Aí, a Marieta tava lavando as roupa e as vasilha. Foi, a cachorra queimada foi e falou: Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá. Foi e varreu ela, o pozinho dela, sobrou um pouquinho do resto dela. Foi, Marieta tava lavando as roupas e as “vasia”, quando ficou de noite. O Lobo foi e chamou ela. Aí, o pozinho da cachorra foi e falou: Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá. Mariêêêta... tô na porta da sua casa, tô chegando na sala... tô na porta do seu quarto, tô perto da sua cama... Foi e deu um sustão nos outro.[2]

 

Outra variante, que denominaremos de Versão C, é apresentada, de forma resumida, no livro Contos de fada: Grimm e a literatura oral no Brasil, tendo sido recolhida na região de Diamantina, entrada para o Vale do Jequitinhonha. Diz a autora:

 

Outra história que, em comum com um conto de Grimm tem apenas o final, é A moça e a Cachorrinha, cujo desfecho se assemelha ao do conhecidíssimo Chapeuzinho Vermelho. A trama é simples: a moça vai morar sozinha e ganha o animal por companhia. Mas a cachorrinha era encantada e, sempre que uma voz misteriosa, precedida de uma batida na porta, à noite, pergunta por sua dona, o animal responde: ‘¾ Isabelzinha já lavou, já deitou, já rezou. Isabelzinha não vai lá fora mais’. Pensando tratar-se de algum pretendente, a moça fica indignada. Mata a cachorrinha, queima-a, joga as cinzas num rio e só assim fica livre de sua vigilância, pois, mesmo morto, o animal responde em seu lugar. Finalmente, a moça consegue abrir a porta e depara com um bicho ‘horrível de feio’, com olhos de fogo, que lhe anuncia: ‘¾ Isabel, vou casar com você’.

 

Sem demonstrar surpresa ou medo, a moça simplesmente pergunta-lhe o nome. Ele pede que olhe para seus olhos e, como que hipnotizada, a heroína trava com o monstro o batido diálogo: ‘¾ Pra que estes olhos de fogo? ¾ Pra te enxergar. ¾ Pra que estas unhas tão grandes? ¾ Pra te agarrar. ¾ Pra que esta boca tão grande? Ao que ele, atenuando um pouco o conhecido final, responde: ‘¾ Pra te dar um sopro. E deu um sopro nela e ela desapareceu.’” (Souza, 1996: 83).

 

É interessante observar que nas versões de Guimarães Rosa e na do menino aparecem Kibungo-Gerê e o lobo. Yeda Pessoa de Castro nos esclarece que o Quibungo e o lobo são uma coisa só. Em suas palavras:

 

A figura central desse ciclo de contos é a do Quibungo, uma espécie de cão selvagem, de lobo fantástico, que tem um enorme buraco nas costas por onde costuma comer crianças malouvidas ou crianças que encontra acordadas durante as suas incursões noturnas pelo Recôncavo da Bahia, o equivalente ao bicho-papão, ao tutu-marambaia dos acalantos infantis do Brasil (Castro, 1978: 19-20).

 

O bicho é também conhecido como Titi-Marué e como Bicho Cumujarim ou sua variante, o Bicho Pondé. Sob essas denominações, entende-se um “enorme bicho, uma espécie de macaco preto, peludo[...]”. Cumujarim significa também “[...]o bicho papão, o comilão de crianças, o ser fantástico saído das profundezas da terra para comer crianças”. É possível, ainda que os dicionários Aurélio e Houaiss não o registrem, que xibungo, com o significado de homossexual masculino passivo, seja uma variante de quibungo, como nos assevera Castro (1978: 20), comum na linguagem popular da Bahia, e resultante de um empréstimo. O significado “comer crianças”, provavelmente seja o contrário de “ser comido”, caracterizando a homossexualidade do quibungo ou xibungo.

 

Outra variante da estória (Versão D) foi recolhida no município de Três Marias, próximo de Cordisburgo, transcrita por Milce Vieira, conforme narração ouvida de sua mãe. É a seguinte:

 

Era uma vez uma moça muito bonita, que após a morte de seus pais, vivia só em companhia de uma cachorrinha, à beira de um rio. Como não tinha com quem conversar, ia dormir logo que anoitecia. Certa noite, um pouco antes das doze horas, ouviu-se uma batida na porta e uma voz que dizia: “ – Zabelê, abre a porta que eu quero entrar...” e a cachorrinha, mais que depressa respondeu: “ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiiu...”

 

Zabelê, quando conseguiu abrir a porta, já não tinha ninguém. Ela ficou muito zangada com a cachorrinha, e pensou que fosse um moço bonito que queria casar-se com ela. Na noite seguinte, amarrou a cachorrinha bem longe da casa e foi dormir. Na mesma hora da noite anterior, bateu-se na porta e [alguém] disse: “ – Zabelê, abre a porta que eu quero entrar.” Lá de longe veio a voz da cachorrinha: “ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiiu.” De novo, quando Zabelê abriu a porta, já não havia ninguém. Zabelê, mais zangada ainda, matou a cachorrinha e a deixou no terreiro. À noite, de novo as batidas na porta e a voz: “ – Zabelê, abre a porta que eu quero entrar...” A cachorrinha morta respondeu: “ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiu.”

 

Zabelê, intrigada, fez uma fogueira em cima da cachorrinha, e no terreiro só ficou um monte de cinzas. À noite, na mesma hora, toque-toque-toque: “ – Zabelê, abre a porta que eu quero entrar.” E aquele monte de cinzas respondeu: “ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiu.”

 

Zabelê já não suportava o que ela achava seria perseguição da cachorrinha: juntou todas aquelas cinzas e jogou no rio e ficou olhando até que desaparecessem, e foi para casa se preparar para encontrar com quem ela julgava ser o seu noivo. À noite não tinha mais nem cinzas da cachorrinha para protegê-la e ela abriu a porta e foi devorada por aquele monstro.

 

Outra versão da estória (Versão E) é nossa conhecida, desde a infância, no Sul de Minas. Esta estória diz o seguinte:

 

Zabelinha e sua cachorrinha estavam passeando no mato quando encontraram uns ovos. Zabelinha os levou para casa e fez deles uma bela omelete. À noite, o bicho, dono dos ovos, foi à sua casa e cantou: “– Zabelinha, Zabelinha, cadê meus ovos?” E a cachorrinha cantou em resposta: “ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu.” E o bicho ia embora.

 

Na noite seguinte, a mesma coisa: “ – Zabelinha, Zabelinha, cadê meus ovos?” E a cachorrinha respondia: “ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu.” E o bicho ia embora. Teve uma noite em que Zabelinha ouviu o bicho e ficou achando que era um príncipe encantado que tinha vindo para se casar com ela. Por isso, proibiu a cachorrinha de falar alguma coisa. Mas na noite seguinte, deu-se o mesmo: “ – Zabelinha, Zabelinha, cadê meus ovos?” E a cachorrinha respondia: “ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu.” E o bicho ia embora. Uma noite Zabelinha ouviu o canto do lado de fora e pensou que fosse um príncipe encantado, que não entrava porque a cachorrinha não deixava. Zabelinha então matou a cachorrinha que, apesar disso, continuou a responder: : “ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu.” Zabelinha queimou a cachorrinha que, ainda assim, respondeu a mesma coisa. Por fim, Zabelinha jogou as cinzas da cachorrinha no rio. Nessa noite, quando o bicho chegou, Zabelinha abriu a porta e... nhoque: o bicho a comeu de uma vez só.

 

Câmara Cascudo, em seu Dicionário do folclore brasileiro, nos informa que “Em quase todos os contos em que aparece o quibungo, há versos para cantar” (Câmara Cascudo, 1984: 653). Na Versão E, realmente, tanto a fala do bicho quanto a da cachorrinha são cantados. Quanto às outras versões, apenas na Versão A a cachorrinha canta: nas demais, ela “fala” ou “responde”.

 

A Versão F contém, na verdade, duas narrativas: uma delas é uma variante das demais versões apresentadas; a outra é um amálgama de várias estórias da tradição européia, oral ou escrita, que nos chegaram por via oral.

 

 

A história da Maria[3]

 

Era uma vez um casal, um rei e uma rainha. Eles tinha uma filha muito bonita, muito delicada, assim, ela era muito educada mesmo. Toda noite ela rezava. A mãe era muito boa, e toda noite ela sentava na cama da Maria pr’ insiná a rezá. A Maria rezava pro anjinho da guarda dela... intão foi levano essa vida assim. Intão um dia, a mãe dela adoeceu e morreu. Ela ficô só com o pai, né? Intão, o pai ficô muito triste: “Ah... O que que eu vô fazê...? Só com Maria... Vô... vô casá, né?” E resolveu casá. Agradô com uma mulher muito bonita, mas no fundo, no fundo, essa mulher não era bonita, assim... ela era má, ela era uma bruxa disfarçada de mulher bonita. Naquele tempo existia bruxa. Intão, ele achô que tivesse casado co’ uma mulher boa, digna de cuidá da Maria, mas acontece que no fundo ele casô co’ uma bruxa.

 

Intão, começaro, né?, a vivê. Mas a Maria todo dia rezava pelo anjinho da guarda, e lembrava da mãe dela, chorava, chorava... mas não isquicia de rezá. E ela começô a sê maltratada pela madrasta dela. Intão, maltratava, dexava a Maria descalça, dexava a Maria passá fome, num dava banho na Maria... investigava a Maria, batia nela demais, mandava a Maria durmi com as galinhas... e a Maria durmiu, de boazinha. Intão, ela tinha uma filha. Ela tinha uma filha. Essa filha, não, essa filha era bem tratada, era bonita, mas era feia, horrorosa, parecia a mãe. Maria era linda, bonita, parecia uma princesa mesmo. Intão ela tinha muita inveja, porque a Maria, bonita, e a filha dela era feia, né? Ela cumeçô a... assim... astuciá uma manera de ficá livre da Maria. Intão um dia ela pegô a Maria, chamô os criados lá da casa, né?, e mandô levá a Maria lá pra floresta, pros da floresta, pros bicho devorare a Maria, os animais da floresta devorare a Maria.

 

Intão, a Maria foi, muito triste, dispidiu do pai dela, e ela pegô — a Maria tinha uma cachorrinha muita bonitinha, né?, a cachorrinha, uma gracinha, a cachorrinha gostava muito dela também — intão ela pegô a cachorrinha e levô co’ ela, e foi pra floresta. Lá no fundo da floresta tinha uma casinha velha, aí ela entrô naquela casinha co’ a cachorrinha e começô a morá ali. Sozinha, coitadinha, mas ela não isquicia de rezá. Intão, um dia ela iscutô batê na porta assim, ó, bateno assim, sete vezes em madeira: tó tó tó tó tó tó tó!

 

— Maria!
— Quem é?
— Maria, abre a porta, Maria, que eu quero te cumê!
Aí a cachorrinha — naquele tempo os animais conversavam —, intão a cachorrinha falava assim, cantava assim:
— Mariá não está aqui, foi à fonte se lavá... Isperá, que ela vem já...

 

Aí o bicho ficava com medo da cachorrinha, e aí ela latia tamém: uau uau uau uau uau!, e o bicho corria, né? Isso foi muitas noites, a, muitas noites. Intão, um dia a cachorrinha morreu. Adoeceu e morreu. A Maria ficô sozinha. A Maria falava assim: “Meu Deus, o que que eu vô fazê...?” Quando chegava a hora do bicho batê na porta, a Maria começava a tremê de medo, né?, e rezava, rezava pro anjin’ da guarda dela. Intão, um dia, o bicho abriu a porta, chamô, a cachorrinha não respondeu, o bicho, ele pensô assim: “Ah, num tem cachorrinha não. Eu vô entrá aqui, né?” Aí ele arrombô a porta e entrô. Entrô... entrô como se fosse aquele bichão forte, né?, caminhando, caminhando, e a Maria tá ali chorando, cum medo:

 

— Meu Deus, meu Deus... que medo... Ah, minha mãe!... Me olha, minha mãe!
Intão, chegô aquele bichão enorme e deitô na cama da Maria. Deitô na cama da Maria e ficô lá deitado. Aí a Maria quiria vê quem era, né? Ela tinha uma vela na mão, ela riscô o fósforo, né?, e acendeu a vela. E caiu um pingo de vela no bicho. Quando caiu um pingo de vela no bicho, o bicho disincantô: era um príncipe, né? Era um príncipe incantado. Ai abraçô co’ a Maria, beijô...:
— Uh!, minha amada... — e tal... Cumeçô a gostá da Maria e casô co’ a Maria. E ele era muito rico, muito poderoso... A Maria ficô rica, tinha muita coisa bonita, né?
Intão, a madrasta dela teve notícia, teve essa notícia na casa dela. Aí ela falô assim:
— Ah... Num acridito!, eu vô lá pra vê mesmo.
Chegô lá:
— Ah! Maria, mas comé que cê consiguiu?
E a Maria, muito tola, coitadinha, sem malícia, contô pra ela. Intão ela falô assim:
— Ah... Eu vô trazê a minha Maria pra cá também, pra ‘contecê a mesma coisa com ela.
Intão, ela pegô, deu a Maria uma cachorra, uma cachorrinha. Mas a Maria era má dimais: ela batia na cachorra, ela maltratava a cachorra, e começô a morá nessa casinha, né? E a mãe tá lá isperano, né?, notícia dela tê ficado rica como a otra Maria. Intão, quando foi a noite, veio o bicho, né?:
— Maria, abre a porta que eu quero te cumê!
A cachorrinha falava, né?:
— Mariá não está aqui, foi à fonte se lavá, esperá que ela vem já.
Aí a Maria falava assim:
— Ô cachorrinha travada! Pra que cê tá gritano, cachorra. Eu tô quereno que o bicho entra na minha casa, pra que cê tá gritano? — batia na cachorrinha, batia, e a cachorrinha ficava triste, né?, mas a cachorrinha gostava dela, mesmo assim.

 

Foi assim, foi assim, um dia ela matô a cachorra pra cachorra num respondê mais nada. Intão, veio o bichô, né? O bicho chegô e bateu na porta. Nada não respondeu. Aí o bicho arrombô a porta e intrô na casa, né? Intrô aquele bicho, aquele gigante feio, enorme, braço cabeludo, aquela cabelera feia, aquele monstro... Aí, chegô na bera da cama, e Maria falô assim: “Ah... Ele vai disincantá agora. É meu príncipe incantado.” Aí ela chegô e falô assim:
— Pra que essa cabelera?
Aí o bicho falô assim:
— Pra te ‘baná! (risos)
— Pra que esse dentão?
— Pra te mordê!
— Pra que esse olhão?
— Pra te olhá...!
— Pra que essa bocona?
— Pra te cumê!...
— Pra que essa unhona?
— Pra te agarrá!...
— Pra que esse bração?
— Pra te abraçá!...
Aí ela falô assim:
— Ô bicho, intão me abraça. Me abraça apertado — achando que fosse o príncipe incantado, né?

 

Aí o bicho foi, abraçô a Maria, abraçô, pertô, ‘pertô... até... a Maria morreu... Morreu, coitadinha. A Maria morreu, coitadinha, ficô lá, né?, a cachorrinha morta, a Maria morta...
Aí a mãe da Maria reuniu a banda de música, né?, todo mundo, né?, os príncipes e as princesas... Todo mundo foi lá, pra incontrá co’ a Maria, né?, achano que fosse incontrá riquezas, como incontrô a otra Maria. Chegô lá, que que ês incontraro lá? A Maria morta, a cachorrinha mortinha... Aí, a madrasta da Maria voltô pra casa humilhada... e sabe o que que ela fez? Ela se matô. Pronto.
É o bem... Que que eles incontraro aí? O bem, quem faz bem, recebe o bem; e quem faz mal recebe o: mal!!! (crianças em coro) Pois é.

 

A partir da situação inicial (Rei e Rainha têm uma filha linda, mas a rainha morre) percebe-se a semelhança com narrativas de contos de fada tradicionais: o Rei se casa, a madrasta persegue a enteada e privilegia sua própria filha (Gata Borralheira, Branca de Neve); a madrasta é uma bruxa e manda que os criados abandonem a princesa na floresta (João e Maria, Branca de Neve); a princesa, acompanhada apenas de sua cachorrinha, vai morar num casebre abandonado; após o final feliz, em que a princesa se casa com um belo príncipe (A bela e a fera, Branca de Neve, Gata Borralheira), a bruxa tenta conquistar o mesmo para sua filha, que vai morar num casebre com uma cachorrinha. Como é má, mata a cachorrinha para que o monstro entre e se transforme num príncipe. Mas o monstro não é príncipe e não se transforma, acabando por matar a filha da madrasta. A narrativa duplica os personagens: há duas mães, há duas Marias, há dois monstros. Por fim, a moral da estória não deixa dúvidas quanto ao seu caráter moralista: “Quem pratica o bem, recebe o bem como paga; quem pratica o mal, também recebe-o como paga”. A recompensa vem de acordo com o merecimento. O diálogo travado entre a personagem e o monstro assemelha-se ao registrado na Versão C. Ambas retomam, explicitamente, o diálogo entre Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, travestido de Vovó.

 

No Quadro 1, abaixo, faz-se uma descrição dos elementos comuns às seis versões.

 

Quadro 1 – Descrição comparativa das versões

 

Versão A

Versão B

Versão C

Versão D

Versão E

Versão F

Enunciação

Mãe-preta

Não revelado

Não revelado

Era uma vez

Não revelado

Não revelado

Protagonista

Zabelinha

Marieta

Izabelzinha

Zabelê

Zabelinha

Maria

Adjuvante

Cachorrinha

cachorra

Cachorrinha encantada

cachorrinha

cachorrinha

Cachorrinha

Oponente

Kibungo-gerê

Lobo

Bicho

Monstro

Bicho

Madrasta/bicho/

Monstro

Idade

Meninazinha

Indeterminada

Moça

Moça

Indeterminada

Indeterminada

Situação familiar

Indeterminada

Indeterminada

Mora sozinha

Mora só após morte dos pais

Indeterminada

Pais (Rei e Rainha)/Madrasta/

Filha da madrasta

Cachorrinha

Canta

Fala

Responde

Responde

Canta

Fala/Canta

Resposta dada

“– Zabelinha já lavou,/ já deitou,/ já dormiu!...”

“Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá”.

“– Isabelzinha já lavou, já deitou, já rezou. Isabelzinha não vai lá fora mais”

“ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiiu.”

“ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu.”

“– Maria não está aqui, foi à fonte se lavá, esperá que ela vem já.”

Canto do antagonista

“Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Cadê Zabelinha, que eu quero comê!...”

“O Lobo chamou ela”

“Voz misteriosa que pergunta por sua dona (Izabelzinha)”

“Zabelê, abre a porta que eu quero entrar”

“Zabelinha, Zabelinha, cadê meus ovos?”

“— Maria, abre a porta que eu quero te cumê!”

 

Suposição da protatonista

Não especificada

Não especificada

Um pretendente

O noivo

O príncipe encantado

Curiosidade

Ação da protagonista

Acender as luzes do sobrado

Não especificada

Fica indignada

Fica zangada, amarra-a longe de casa

Proíbe a cachorrinha de responder

Vai espiar o bicho que se deitara em sua cama e deixa cair sobre o bicho um pingo de vela

Ação contra a cachorrinha

Mata, enterra, queima, joga as cinzas no rio

(O Lobo) mata, queima,

Mata, queima, joga as cinzas no rio

Mata, queima, joga as cinzas no rio

Mata, queima,joga as cinzas no rio

A cachorrinha morre de doença/A filha da Madrasta, também Maria, mata a cachorrinha

Epílogo

Não especificado

Situação de medo

Não especificado

Situação de medo

sobre os ouvintes

Isabelzinha olha nos olhos do bicho e desaparece

Zabelê é devorada pelo monstro

Zabelinha é comida pelo bicho.

Casa-se com o bicho, que se transformara num príncipe rico e poderoso/

A filha da madrasta é morta pelo outro monstro

 

 

A análise que se pode fazer a partir do quadro aponta para uma grande semelhança entre as seis versões: a partir de uma situação de enunciação clara (A e D) ou não especificada (B, C, E, F), a narrativa se faz como um texto enunciado. Há duas variações significativas no nome da protagonista (Marieta), em relação à semelhança apresentada pelas demais versões (Zabelinha, Isabelzinha e Zabelê). Apenas a Versão B é diferente das demais ao falar do Adjuvante (cachorra) e do Oponente (Lobo). No entanto, segundo Yeda Pessoa de Castro, o quibungo é também um lobo fantástico. Assim, há uma aproximação com a Versão A e uma diferença com as demais versões, em que o Oponente é um bicho ou um monstro que devora a Protagonista. Nesse aspecto, a Versão B aproxima-se da Versão A, porque em ambas não há devoração, mas apenas a sugestão de um clímax que pode vir a assustar a protagonista, em A; ou que pode assustar a platéia, em B. Veja-se a semelhança entre os dois textos: “E o bicho voltou,/ Kibungo-Gerê!.../ e o bicho cantou,/ Kibungo-Gerê!.../ e foi abrindo a porta/ Kibungo-Gerê!.../ e foi subindo a escada,/ Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Kibungo-Gerê!...” (Versão A).  Mariêêêta... tô na porta da sua casa, tô chegando na sala... tô na porta do seu quarto, tô perto da sua cama... Foi e deu um sustão nos outro (Versão B).

 

Zabelinha é uma meninazinha ou uma moça casadoira. Ainda que em B sua faixa etária não seja especificada, supõe-se que seja adulta, como nas versões C e D. Em todas as versões (A, B, C, D, F), não se especifica o motivo de o Oponente ir bater à porta da casa da Protagonista. Em E, o motivo é o roubo de ovos que pertenceriam ao Oponente, que vai reclamar o que lhe pertencia: “ – Zabelinha, Zabelinha, cadê meus ovos?”. Na Versão A, a chegada do Oponente se dá ex-abrupto: “E no meio da noite bateram na porta/ e cantou lá fora/ o Kibungo-Gerê.//  – ‘Kibungo-Gerê!... Kibungo-Gerê!.../ Cadê Zabelinha, que eu quero comê!...’”. Na Versão B, não há nada de espetacular. Simplesmente, “O lobo foi chamar ela”. Na Versão C, “[...] uma voz misteriosa, precedida de uma batida na porta, à noite, pergunta por sua dona [...].” Também na Versão D não há uma razão para a chegada do monstro: “[...]uma batida na porta e uma voz que dizia: “ – Zabelê, abre a porta que eu quero entrar...”. Na Versão F, há semelhança com a Versão A: “— Maria, abre a porta que eu quero te cumê!”, apesar de ser muito mais direta e muito mais alusiva ao ato sexual.

 

Apesar de ser identificada como tal apenas na Versão C, percebe-se em todas as versões que a cachorrinha é um objeto mágico, destinado à proteção da Protagonista, que não compreende esta função e se desfaz dela. Há dois aspectos a considerar: o primeiro diz respeito à crueldade em relação ao animal, que é morto, queimado e tem suas cinzas espalhadas na água. O segundo aspecto é a resistência do animal que, impedido de se manifestar, continua a cumprir sua missão de defender a Protagonista. Essa crueldade, a crer nas palavras de Bruno Bettelheim, é comum nos contos de fadas. As irmãs da Borralheira, por exemplo, são cegadas pelas pombas, ficando cegas para sempre (Bettelheim, 1980: 293). Apenas na Versão B a cachorrinha não é morta pela dona, mas pelo Lobo. Esse deslocamento é importante, e possivelmente relacionado à situação social vivida pelo enunciador, o menino Vander. Na Versão F, como há duas estórias e a duplicação da protagonista, é a menina má, filha da madrasta, que mata a cachorrinha, para que essa não impeça a entrada do monstro que irá se metamorfosear em príncipe. Segundo Bettelheim (1980: 29) o animal benfazejo é a representação da mãe, e normalmente é destruído pela madrasta. Nas várias versões (A, C, D, E), é a própria Zabelinha que mata a cachorra. Os possíveis significados seriam a independência, indicando a maturidade da personagem, e a opção pela experiência sexual, claramente indicada nas várias versões.

 

Algo evidente em todos as versões é a solidão da Protagonista. Ela vive só em um sobrado, em uma casa, à beira de um rio, porque seus pais morreram ou porque quis morar sozinha. Ela não tem um passado, não tem família. Apenas na Versão F ela é expulsa de casa, abandonada na mata, acompanhada apenas pela cachorrinha. Esta imagem do abandono, da inveja da madrasta e de sua(s) filha(s) é comum a vários contos de fadas (do Joãozinho e Maria às estórias da Branca de Neve e da Gata Borralheira. Apesar das vicissitudes por que passa, acha que tem um futuro e que este futuro é o casamento, como aparece em três versões. Na Versão B, Marieta está condenada a um trabalho permanente de lavar, passar e dormir, possivelmente refletindo o cotidiano de uma moradora de favela, na periferia de Belo Horizonte. Na Versão A, é apenas uma meninazinha, cuja raiva reiterada não se explica nem explica a violência contra a cachorrinha. Na Versão F, a curiosidade de Maria a leva a derramar um pingo de vela no bicho, que se transforma num príncipe encantado, rico e poderoso, que logo a abraça, a beija e diz: “minha amada”.

 

O final da narrativa, nas seis versões, ainda que mais claramente em três delas, aponta para um destino trágico, em que a Protagonista é comida pelo Oponente, sem que o objeto mágico Adjuvante, despojado de seu poder, possa fazer alguma coisa. Todas as versões apresentam o sujeito, a Protagonista, sozinha e isolada, no alto de um sobrado, na beira de um rio ou perto de uma floresta, deixada consigo mesma, a fim de exercitar opção: preservar-se ou entregar-se sexualmente. A esse respeito, diz Bettelheim (1980: 184): “Tanto no inconsciente quanto no consciente, os números representam as pessoas. Situações familiares e relações. Estamos bem conscientes de que ‘um’ representa a nós mesmos em relação com o mundo, como sustenta a referência popular ao ‘Número Um’.”

 

As fábulas ou as parábolas têm a função de transmitir um ensinamento. Nesse sentido, são didáticas. O final da Versão C reitera o ensinamento: se os conselhos não forem seguidos, a Protagonista pode desaparecer, ou seja, perder sua identidade, deixar de ser um e vir a ser um zero, um nada. Segundo Crestani [s. d.],[4] a parábola é um gênero que se caracteriza pela brevidade, facilitando sua reprodução oral, e pelo desligamento das categorias de personagem, espaço e tempo: os personagens são tipos genéricos, o espaço é indeterminado e o tempo não é marcado cronologicamente. Tudo isso favorece sua universalidade.

 

“A terrível parábola” se inscreve, portanto, dentro das categorias deste gênero, como uma forma exemplar, apontando para as conseqüências das desobediência às normas que, nas várias versões, são apresentadas pela cachorrinha. O mal, que parece ser a experiência sexual sem critério, seja pela referência explícita ao Quibungo/xibungo, seja pela menção ao noivo ou ao pretendente, seria anulado pela prudência da cachorrinha, objeto benfazejo e protetor, provável representante da figura materna. Em todas as versões o Quibungo/bicho entra porta a dentro, isto é, ele arromba, penetra, invade, ou simplesmente entra, aproveitando o consentimento dado explicitamente pela Protagonista, que abre a porta para ele. Mesmo a Versão B, em que esta entrada do Oponente não é dita de forma clara, termina com ele instalado dentro da casa. Tudo isso se caracteriza como uma clara referência à sexualidade, que se reafirma na menção ao ato de dormir. Na Versão F, o silêncio da cachorrinha, morta de morte natural, sinaliza para o bicho a ausência de perigo, permitindo-lhe arrombar a porta.

 

Em todas as versões, a cachorrinha argumenta que a Protagonista está dormindo: “– ‘Zabelinha já lavou,/ já deitou,/ já dormiu!...’; ‘Marieta já lavou, Marieta já passou, se quiser alguma coisa, amanhã cê passa lá’; ‘¾ Isabelzinha já lavou, já deitou, já rezou. Isabelzinha não vai lá fora mais’; ‘ – Zabelê já lavou, já deitou, já dormiiiiiu.’; ‘ – Zabelinha já asseou, Zabelinha já deitou, Zabelinha já dormiu’.” Apenas na Versão F, a cachorrinha canta que Maria não está: “– Maria não está aqui, foi à fonte se lavá, espera que ela vem já.” Estar dormindo ou ausente significa estar livre da tentação sexual; estar acordada significa poder abrir a porta e metaforicamente, aceitar o ato sexual. Como o Oponente é um Quibungo/xibungo ou um Lobo, ou suas metamorfoses, o ato sexual pode ser prejudicial e destrutivo para a identidade da Protagonista. Ou, pela mesma razão, isto é, pelo fato de ser apresentado como Quibungo/xibungo, processa-se uma desqualificação do Oponente, que seria visto como mau, ruim, contrário às práticas sadias voltadas à reprodução, e favorável apenas ao prazer. Todas as versões fazem referência à água, ao ato de se lavar. Se, por um lado, isso pode significar um ritual de purificação, pode também simbolizar o ato sexual, ou a preparação para ele.

 

O trabalho comparativo entre as seis versões permite apontar as semelhanças entre elas e pressupor a existência de uma fonte oral, comum a todas, apesar das diferenças de tempo e de espaço existentes. São regiões diferentes: Cordisburgo, Três Marias, Diamantina, Turmalina pertencem a uma mesma região; Belo Horizonte é a capital, no centro do Estado; e Machado fica no Sul de Minas. Apesar disso, são unidas por um elemento comum, que é a cultura negra, origem do Kibungo-Gerê, metamorfoseado em bicho, monstro e lobo nas cinco últimas versões. A comparação permite ainda indicar a difusão dessa cultura fora de seu local de origem no Brasil, a Bahia, há muitos anos.

 

Supondo-se que Rosa a tenha ouvido quando criança, e que ela tenha sido trazida pelos escravos durante o século XIX, pode-se afirmar que tem de cem anos a cento e cinqüenta anos. Além disso, fica evidente que a narrativa, em todas as versões, tem um caráter exemplar, parabólico e alegórico, que lhe permite abordar problemas humanos básicos, de uma forma simples, dando margem a que o leitor ou ouvinte – possivelmente uma criança – tome sua decisão quanto ao bem ou ao mal. Não se cogita, aqui, de avaliações morais a respeito da validade ou não da tese defendida pela parábola, uma vez que o intuito foi apenas fazer a comparação entre as versões. Cabe ao leitor decidir se o melhor é fechar ou abrir a porta para o suposto príncipe encantado.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

BANDEIRA, Manuel. Manuel Bandeira: poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1984a.

___________________ Dicionário do folclore brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984b.

CASTRO, Yeda Pessoa de. Contos populares da Bahia: aspectos da obra de João da Silva Campos. Salvador: Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura do Salvador, 1978.

COSTA VAL, Maria da Graça. Da fala à escrita: uma criança e suas histórias. In  GONÇALVES, Gláucia Renate; RAVETTI, Graciela. Lugares críticos: línguas, culturas, literaturas. Belo Horizonte: Orobó Edições, Fale UFMG, 1998.

CRESTANI, Jaison Luís. A representação da instabilidade do mundo moderno nas parábolas de Brecht e de Kierkegaard. Assis: Unesp, [s. d.]. Disponível em : <http://www.ufpe.br/revistaeutomia/pdfnew/artigo26.pdf>. Acesso em: 02 maio 2009.

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LIMA, Jorge de. Poemas negros. Rio de Janeiro: [s. n.], 1997.

LORENZ, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In COUTINHO, Eduardo. Guimarães Rosa. Rio: Civilização Brasileira; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1983. (Col. Fortuna Crítica, n. 6)

OLIVEIRA, Luiz Claudio Vieira de. As origens de Magma. Caligrama: revista de estudos românicos, Belo Horizonte, v. 5, 115-126, nov. 2000.

NASCIMENTO, Carolina; FERNANDES, Gleicienne; PITHON, Mariana. De quimbungos e meninos: Um apanhado de histórias de bicho-papão de África e Brasil.  Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2008. (No prelo).

ROSA, João Guimarães. Magma. Rio: Nova Fronteira, 1997.

SOUZA, Ângela Leite de. Contos de fada: Grimm e a literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Lê, 1996.

 

 


[1] O texto, encaminhado para a revista Caligrama, em maio de 2000, somente foi publicado em novembro do mesmo ano.

[2] Mantém-se a forma como a versão da criança foi registrada pela Profa. Graça Costa Val, com exceção dos grifos.

[3] Versão gentilmente cedida pela Professora Doutora Sônia Queiroz, da Faculdade de Letras da  UFMG, com a seguinte observação: “Transcrição de Rogério Machado Caetano, a partir de narrativa oral contada por Maria Terezinha Orsini Almeida, em Turmalina, 1995, gravada por Rômulo Monte Alto.”

[4] http://www.ufpe.br/revistaeutomia/pdfnew/artigo26.pdf

 

 

Pour citer cet article:


Oliveira, Luiz Claudio Vieira de, "A terrível parábola: as versões de um poema de João Guimarães Rosa", Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org.