Aleilton Fonseca: Ave, Maria Mutema!
Rinaldo de Fernandes : Sariema
AVE, MARIA MUTEMA!
Aleilton Fonseca
O senhor me escute, por precisão minha. Venho de longe, estou de volta, depois de longas passagens. Sou destas ribanceiras do sertão jequitinhão, agora dificultoso de reconhecer, tantos trechos que se acham demudados. Me criei nestas pirambeiras, perto de São João Leão, lugar até hoje santo no nome, mas despido da bondade divina. Será castigo? Venho em missão minha, pra sossegar meu espírito. Jurei, em promessa por saúde, desmanchar os falares de um parente meu, dito Jõe Bexiguento, meu avô, raro homem de bandos e arruaças, daqueles tempos que se vão nas lembranças dos mais velhos. Eis aí o arraial, toda gente mudada; todos contam a estória, mas ninguém sabe por certo os pingos dos is. São João, na capela humilde, espia o povo do mesmo jeito, mas as orações tresmudam com o tempo. As estórias também. Em viagem, pressinto e revejo: a terra é a mesma que vi, pois ainda enxergo os sinais dos caminhos por onde atravessei cancelas.
De quando começo a jornada? Certo dia, de rompante velhice, caí doente de fazer pena aos estranhos. De tal labutar nos eitos, descangotei os ossos! No delírio das febres, eu me via de novo meninozinho miúdo, por aqui jogado, convivendo com as futricas de gente grande. No achaque, conheci que morria mesmo, se não recolhesse meus vinténs de fé, e me pegasse com a bondade da Santa, obreira de milagres tão falados pelas bandas deste sertão de nós todos. Em contrição, larguei do cachimbo e da cachaça, traguei garrafadas e beberagens, purguei os pecados na reza. De alma leve, fiz promessa à Santa, no interesse de ficar bom das pernas e andar por aí sem tonturas. Pois, daí melhorando, me alembrei das arengas de minha mãe, de si para mim, pirralho asnado, sem entendimento das coisas. Depois de velho, ao lembrar, entendi os assuntos. Ela remoía a certeza dos fatos que não contava a ninguém, por contradizer seus interesses. Eram esmiúças com que ninguém atinava e só ela havia salvado dos cochichos. Caí em mim que os relatos de meu avô Jõe Bexiguento eram verdades falseadas, sem maldade, só por meneios de excelente contador. De pedaço em pedacinho, ajuntei os detalhes outros certos que só minha mãe conhecia. As palavras passavam a ser minhas, pelos fios reatados na lembrança. Foi assim, assumi a missão, conforme passo ao senhor. Venho, nesse bom trecho, desenredar a estória que meu avô espalhava aos quatro cantos de suas andanças nos bandos armados, suas fiéis famílias. Ele, demais às pilhérias, amiudava a trama dos causos, só por gosto de levar o ouvinte aos arrepios, pra que de certo modo se divagasse.
Contava ele que neste lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema. Deu-se o caso escabroso: a morte do marido dela, que amanheceu despachado deste mundo, sem motivos de doença que se visse ou atestasse. Maria Mutema obrou como boa esposa, gritou ao povo vizinho, clamou pela ajuda de todos. O arraial quase todo correu a confirmar o fato. Ninguém esperava tal desmastreio de um homem forte, um touro de saúde nos pastos de Deus. Algum sinal não se via; a morte sem aviso abatia o homem, contrariando o seu apreciável estado. “Coração é sestroso, para de repente, sem querer, num acesso fatal.” Isso declarou o padre Ponte, desde logo presente, que morava bem perto. Era um vigário de mão-cheia, cumpria-se na caridade, na pregação das virtudes no sermão, atendia a qualquer hora, concedia aos roceiros a bondade da santa hóstia ou dos santos-óleos. Ouvida a opinião do padre, dispensasse caçar doutor de longe. Pra que, se o caso era sem cura? Deu-se o fato, seguiu-se ligeira sentinela em meio às conversas miúdas. Naquela tarde mesma, ficava Maria viúva, e o marido bem enterrado. Tanta pressa não era costume, mas o padre Ponte oficiou correto à beira da sepultura.
A viúva Maria Mutema, bem vivida, sabia constar quieta, crismada na lei sertaneja. Não dava mostras de grave sofrer, ciente de si, que cada qual sabe como dói sua dor. Como os demais, sem lágrimas nem soluços, procedia vivendo. O povo deu fé foi de sua contrição. Todo santo dia comparecia à igreja, em silêncio, os lábios murmurejando preces continuadas. De três em três dias se confessava, requerendo no reservado as atenções do padre Ponte. Sobredita carola — isso cochichavam —, contratava aos Céus a salvação de sua alma? Era devedora de tanto a perdoar? Fechada no luto das vestes, nunca não ria; espichava o pescoço ao altar, os dois olhos pregados no padre. Isso se notava, sem se dar explicação.
O padre Ponte, homem de bem, tal sacerdote, constava grisalho, em meia-idade, engordava de bondoso, nos seus jeitos mansos de tratar a todos, muito estimado. Tinha lá seus poréns; tanto era padre, e quanto mais era homem. Com respeito, e só para não faltar aos exatos, confirmo que era pai de três filhos, com mulher de brio e simpleza, que tomava conta de tudo, e acudia pelo nome de Maria, chamada às boquinhas Maria do Padre. Ora, ali era aceito tal ajuste, sem escândalo nem surpresa. Bem obrasse o padre, criando os rebentos de sua lavra para os bons serviços do mundo.
De sua parte, a Mutema prosseguia no pé do homem, multiplicava-se no confessionário. Dona de tantos pecados, carecia de penitências para dar cobro nas ações, palavras e pensamentos. Alguns notavam no rosto do padre Ponte um desconforto pesado; ele avermelhava, desgostoso de emprestar ouvidos àquele sacramento. Se agastava com as prosas da mulher e os termos da confissão. Ele sofria o peso dos segredos resguardados?
Diziam que, às vezes, até dialogavam, aos sussurros, palavras abafadas. Quem apurasse as orelhas, ouvia até uns ruídos, que o padre ralhava com ela no confessionário. Mutema saía em prantos calmos, serena, humilde, padecedora nos gestos, e enternecia os demais pecadores na fila da confissão. De três em três dias era esse sacrifício, dias em que as filas cresciam repletas dos que acudiam às demonstrações já faladas, por melhor saber e daí comentar.
O padre Ponte parecia querer se sumir da função. Era ver sua cara, lá estampava-se um verdadeiro sofrimento; e mesmo um temor, no dever de ir escutar a Mutema. Ia, por juramento de ordem, força superior, do alto. Afligia-se, como se aquela conversa o deixasse, tal homem como todo igual, e, por sua outra condição, a um palmo das profundas.
Tanto que, assim decorrendo, sem prazo, o padre Ponte foi decaindo das feições, os traços do rosto se retorciam; pegou doença grave das que matam sem dó nem demora. Cada dia mais magro, amofinava, crispo de dores, esqueletado, os olhos fundos, e a cor amarelando como folha velha. Aquilo era uma funda tristeza que dava dó, só de antever o mau resultado. Lá uma noite, o padre Ponte morreu. O povo, enternecido, cumpriu as honras devidas. Aviaram padre de fora, que rezou a missa e encomendou a alma. Pesarosos, em pia festa, conduziram o padre Ponte à derradeira morada.
Os curiosos notaram, nesse dia e daí por diante, o sumiço total de Maria Mutema. Amoitada em casa, ela nunca mais voltou na igreja. Adeus missa, adeus confissão. Maria, rogada ao silêncio, em nada não se explicava.
Até estes pontos era o que contava vôzinho, com muito gosto na prosa. No entanto, sobre o silêncio da viúva, o povo anotava e explicava uns senões. Ora, a Mutema ia à igreja em busca do padre, e não da salvação? Queria, ao contrário, achar, na igreja, a sua perdição? E que compridas confissões eram aquelas, como se íntimas conversas?
Onde há fumaça, sobrevêm cinzas. A gente se inteirava de outros pontos, de modos transversos. É que, lá nos escondidos de si mesmo, o padre Ponte era outro homem. Maria Mutema era sua velha conhecida, doutro arraial longe, onde, bem jovens, tinham trocado juras de amor e paixão. Até que um dia, ele, sem aviso sequer, largou tudo, seguiu viagem longa ao seminário. Ela ficou sozinha, moça e já feita mulher. Conservou a paixão, recolhida e calada.
Após tantos anos, na paz de São João Leão, eis que topou com o novo padre, recém-chegado, e lhe conheceu as feições, num disparo de coração a galope. Mas! Estava já casada, e, no impulso, o antigo amor renascia, porém proibido. Deu a si mesma um conselho, permaneceu em total recato. Por caridade a si e ao padre, evitava de ir à igreja. E orava todo dia em casa.
Entretanto, o padre Ponte descobriu Mutema, pregou olhos nela, deu a andar chiqueirando em seu terreiro, na desculpa de visitar os fiéis. Logo o marido notou os passos do padre, e, sabedor de sua fama, que começava a correr, pôs reparo e reclamou com a mulher, prometendo fuzuês e acintes. “Lugar de padre é na igreja! Você se proceda!” Mutema, arreliada, já nem dormia direito. Pediu ao antigo amante que, por compaixão e respeito, deixasse-a em paz, bastavam-lhe as penas do coração. Ele, insistente, insinuou que andava precisado de trocar de Maria. E estava lembrado e saudoso dos quebrantos do corpo dela. Arre, pecado! Ela lutava contra si e contra ele. Resistia. Lá uma vez ele disse, em meias palavras, com voz à esguelha, que se o marido dela faltasse ficava tudo ajeitado. Verdade que era forte, saudável, mas havia jeitos que se davam, como um caso que ouvira contar, uma artimanha de atingir a pessoa sem lavrar desconfiança. E relatou a ela a experiência.
Dias depois o marido morreu, conforme já consta. E daí Mutema não teve mais sossego, pelo ímpeto que teve de aviar o destino. Passou a correr à igreja todo santo dia. Livre e presa, ela desabafava no confessionário. Recebia a absolvição de padre Ponte. E cobrava as promessas de ficarem juntos, reatando o passado perdido. Mas, não! Ele dava para trás, pensativo, ia pedindo tempo para refletir. Ora! Diante do consumado, o homem quedou mofino, ardia em medo do fogo da perdição. E também ardia por ela, acometido e represado, com vontade de agarrar seu corpo, rasgar os trapos, se regalar de seus calores. Daí recuava, cada vez mais pálido, sofrendo uma paixão abrasiva e tais pecados. De três em três dias, era este reajuste de amantes interditados. Maria cobrava, aos soluços, mas ele repelia. Pela segunda vez ela estava perdida, e trazia atada às costas uma morte em vão. Isso era o pior. Mutema então repartia a culpa com ele, acusava as suas indiretas e o quase ensino do jeito de proceder o crime. E isso o padre Ponte não suportava, a olhos vistos definhava, sob o veneno dos segredos de confissão. Numa ocasião, confessou-se a um padre estrangeiro, que estava de passagem em missão, e remediou sua alma. Mas era tarde para salvar o corpo. E padre Ponte morreu.
Mutema sumiu da igreja, como já contei. As falações sobrevieram como chuva fininha, molhando com vagar o entendimento do povo. Principiavam a tecer má fama ao padre morto. E muitos deixaram a igreja, que ia esvaziando de fiéis. Em pouco tempo, restou que o rebanho debandava, pois se achava desgovernado. Por isso sucedeu uma santa missão no arraial de São João Leão, a modo de resgatar o bom nome de padre Ponte, e exorcizar as causas de tão graves males.
Os missionários, dois padres estrangeiros, traziam no olhar as marcas de forte sermão, impondo a todos o medo do fogo eterno. Bradavam o dia todo, na igreja, nas ruas em procissões, pregavam, rezavam, confessavam e aconselhavam, dizendo quais eram os rumos do Céu. Todos sentiram o calor da fé atiçada, pelo entusiasmo daqueles homens que conduziam os poderes do alto na voz e no olhar.
Quem ia adivinhar? No derradeiro dia, era véspera da festa de comunhão geral e glória santa, deu-se o avesso de um milagre. Era já no fim da função, prestes à hora da benção. Um dos missionários, no alto do púlpito, presidia o ato, e, de joelhos, todos declamavam a salve-rainha. Aí, Maria Mutema entrou.
O missionário levantou os olhos, que da luz se iluminavam. Maria Mutema vinha entrando, e ele esbarrou com um gesto. Foi um espanto de todos, quase quebrando em dois pedaços a oração em curso. Isso coisa que não podia, pois salve-rainha deve ser prosseguida sem falha até inteirar. O missionário sustentou o fraseado, de voz remodelada, isso se ouviu. Daí, ao proceder o amém, se pôs em altura, na beira do púlpito, chispando em brasa, debruçado. E socou a madeira do peitoril, era ver uma onça canguçu parida. E mandou o grito: — “Pra fora, já, essa mulher que por derradeiro entrou, saia já, em nome de Deus!”
Todos, estarrecidos, em tal espanto, apontavam os olhos a ver a Maria Mutema. O missionário reiterou: “— Que suma daqui, com seus segredos maléficos, pelo sangue de Jesus! Mas se veio se arrepender de seus pecados, se for capaz de tal feito, então me aguarde, que recebo, por dever e caridade, a sua confissão. Mas tem uma condição. Ela tem de se confessar na porta do cemitério! Vá, em nome da Cruz! Vá esperar lá, rente às covas onde estão dois defuntos enterrados!”
Após o trovão das palavras, com todo fôlego do peito, o padre fechou os olhos, e orava. O povo na igreja sentiu o tropel dos arcanjos guardiães do Céu, como das funduras do Apocalipse. Eram gritos das mulheres, choros dos inocentes de colo, as velhas despencavam de vertigem, todos os mais ajoelhados, cobriam-se com o sinal da cruz. Muitos, quase toda gente, choravam.
Maria Mutema, sozinha exposta, de pé se aguentava, o corpo todo tremia, na magreza, coberta de luto, lavada de lágrimas, gemia, exclamando sua dor, no fundo da alma estraçalhada de culpas. Ela, então, de baixo, humilde, ajoelhada, pegou a cantar um canto gemido, declamando assim as palavras, entre prantos:
— Pelo bem da igreja, me confesso culpada. E peço perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixe sobre meu corpo, em dores de urgência. Ai, que peno, desde moça, cometendo desatinos, até essa vista velhice. Imploro o perdão de todos. Confesso minha culpa, minha tamanha culpa. Por vão sentimento, fui onça monstra, matei meu marido. Eu, suja cobra, bicho imundo, sobras do podre de todos os estercos. Matei meu marido, naquela noite, sem malfeito dele nenhum. Matei, enquanto ele estava dormindo despejei no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido. Ele passou dessa pra pior, do sono para a morte.
Nessa ladainha, o povo em assombro, Mutema calou; as lágrimas escorrendo sobre os pecados estampados no seu rosto. O missionário, de voz baixa agora, murmurou o nome do padre Ponte, interrogando. E Mutema de novo prostrou-se, em desespero, as mãos tapavam o rosto, e daí ela decantava as palavras:
— Ao padre Ponte menti no confessionário. Contei que tinha matado meu marido por causa dele, porque dele gostava em fogo de amores e queria ser concubina amásia sua. Tudo mentira. Eu não queria, nem dele gostava. Mas, de ver o padre em justa zanga, tomei gosto, me dava um prazer do cão, que aumentava de cada vez, pelo que ele não podia se defender de modo nenhum. Era um homem manso, pobre coitado, e padre devoto. Todo o tempo eu vinha à igreja, confirmava o falso, e praticava o mal. O padre Ponte, de tanto desgosto, adoeceu, e morreu em desespero calado. Tudo crime, e tudo isso eu fiz! E imploro o perdão de Deus.
Maria Mutema se espojava ao chão, uivava, esguedelhada, retorcia as mãos, elevava ao alto, na direção do altar se alevantava. O missionário retomou a função, cantava aos brados um bendito em loas ao Senhor. E assim finalizava, num gesto, mandando todos de volta aos lares. Mutema seguiu sozinha, acompanhada pelo olhar de todos, o rosto inchado da penitência. No outro dia, o arraial já enfeitado para a festa do domingo, os atos finais da santa missão. Mas os ânimos estavam abalados, e muitos se benziam ao tratar o assunto.
Até aí, procede justo com os relatos de meu saudoso avô. Entretanto, a verdade só existe se a gente toma conhecimento dela. Eu revelo ao senhor, por missão minha que estou a cumprir. Maria Mutema assumiu toda a culpa, por remorsos verdadeiros das más obras que fez. E carregou, sozinha, o enorme fardo, sem revelar os acontecidos de trás-pra-diante. Por imenso amor e devoção, livrou o amado de todas as pechas encobertas. Queimou sua vera estória no fogo da fé, que assim obrava pelo bem da igreja, de padre Ponte, e de todos os moradores do arraial. Ela, Maria Mutema, pedia perdão, se humilhava, clamava ao Pai-eterno. Todos compreenderam o ato e lhe davam razão, aprovando o seu proceder. Daí em diante a estória era só essa única que ela havia consagrado em confissão aberta diante altar, como uma aliança.
No outro dia, bem cedo, Maria foi conduzida por dois paisanos, e ficou detida no prédio da escola. Decretou a si mesma um grave castigo: não comia, não falava, não se banhava. Sem sossego, vivia de joelhos, já chagados, clamando seus remorsos. A todo que se aproximasse, pedia perdão. Suplicava que cuspissem em sua cara e lhe dessem bordoadas. É só isso que mereço — ela exclamava, contrita.
Maria Mutema ficou em São João Leão ainda por alguns dias, cumprindo a própria sentença por ela mesma ajustada. Depois foi a júri, em reunião de homens de lei e pessoas leigas. Ela cumpriu bons anos na cadeia de Araçuaí. Por tudo isso, se fez famosa e muito visitada. O povo vinha abordar, com palavras de consolo e carinho, e juntos rezavam com fé. Todos tinham gosto de participar daquela cerimônia, iniciando assim uma romaria.
Os encontros com Maria Mutema resultavam edificantes. Produziam bem-estar aos doentes, acendia a fé nos incrédulos, trazia esperança aos necessitados. Todos se sentiam mais próximos do Céu. Ela relatava suas culpas, quase maiores a cada ano que passava, e por contra dava mostras de total arrependimento, com tão alta humildade e tão grave sofrer, que as ideias do povo firmaram a razão. Maria Mutema estava ficando santa. E o tempo confirmou, levando a boa nova cada vez mais longe, a outras terras. Ela hoje recebe os romeiros à beira da cova para acatar as promessas e distribuir misericórdia aos devotos. Eu mesmo confirmo os efeitos, pois que alcancei uma graça. E agora, diante do senhor, termino de pagar minha promessa. Ave, Maria Mutema, amém!
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Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, (Bahia - Brasil), em 1959. Atualmente leciona Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia - Brasil). Tem doutorado pela Universidade de São Paulo. Sua obra abrange poesia, conto, crônica, romance, crítica e ensaio. Tem 12 livros e faz parte de diversas antologias de poesia, ficção e ensaio. Recentemente, publicou Nhô Guimarães (romance, 2006), As formas do barro (poesia, 2006), Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia (Paris: Lanore, 2008) e O pêndulo de Euclides (romance, 2009). O conto "Ave, Maria Mutema!" integra a antologia Quartas histórias. Contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (2006).
Aleilton Fonseca est né à Firmino Alves (État de Bahia - Brésil) en 1959. Actuellement il enseigne la Littérature Brésilienne à l’Université d’État de Feira de Santana (Bahia - Brésil). Il possède un Doctorat de Lettres décerné par l’Université de São Paulo. Son œuvre littéraire réunit des poèmes, des nouvelles, des chroniques, des critiques et des essais. Il a publié 12 livres et figure dans diverses anthologies de poésie, nouvelles et essais. Récemment, il a publié Nhô Guimarães (roman, 2006), As formas do barro (poésie, 2006) et Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia (Paris: Lanore, 2008) et O pêndulo de Euclides (roman, 2009). Le conte « Ave, Maria Mutema ! » intègre l’anthologie Quartas histórias. Contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (2006).
SARIEMA
Rinaldo de Fernandes
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Eu não brigava, nunca fui disso. Assim foi, e falo fazendo essas mugangas, imitando pessoa a pessoa, porque sou desse jeito mesmo, desde menina. Minha mãe ralhava – essa menina parece papagaio. Era mesmo. Eu gostava de imitar todo mundo, tia, tio, primo, prima. Pio de pássaro, pica-pau, periquito, pombo. Perdiz, pato, peru – a peste. Você, que não é dessas bandas, que anda só de passagem. Você se acocore aí – aconteceu...
Aconteceu que, na hora em que o Orósio voltava, vi que ia ser um motim da peste. O Nhô Augusto, pelo que eu conhecia, não ia ficar no dito pelo não fiz. Orósio, brabo como se tornara, não ia parar no meio do terreiro, pitar ali pra mata. Orósio apareceu no pedrês lá na curva do caminho, firme em cima da sela, alto, alvo. Os cascos do animal faziam a areia espirrar, as folhas da margem já bem empoeiradas. Quando avistou a casa, Orósio plantou as esporas, o pedrês veio vindo rápido, rompendo as ramas secas beirando a cerca. Era tarde, o sol amarelo atrás das andirobas. Você é de briga? Tem medo de briga? Tanto caminho, e enfiando-se logo por esse desvio doido?... |
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Pois bem, escute. Orósio foi descendo do cavalo, amarrando o bicho ali no pé de caju, tirando os arreios, a sela, tocando tudo no quartinho de lado do alpendre. Soltou o pedrês no pasto, virou-se para casa, bateu os pés no batente. Viu o homem, não deu muita importância. Uai! Os olhos assim tremendo? Sono? Tem, sim, medo de briga...
Orósio, parado no meio do alpendre, puxou a palha, passou a enrolar um cigarro. Na outra ponta, num banco, encostado na parede, o homem espiava os pés com manchas azuladas do Orósio.
Da porta avaliei a distância entre os dois. Eu estava com ódio de Nhô Augusto. Tinha vontade – a faca no cós da saia – de furar o peste ali mesmo. Orósio olhou para as mãos amarelas do homem, escoradas no banco, como se o corpo estivesse se preparando para romper a cumeeira, num pulo. Orósio tossiu:
– Pois sim.
Nhô Augusto observou o pedrês, no fundo do pasto, mastigando um talo. Orósio acendeu o cigarro, tossiu de novo, olhando de lado para o outro. Um pássaro piou numa palmeira, zumbiu na pedra próxima a casa uma cigarra. O sol, além das andirobas, agora avermelhado.
– Tenho que ter uma conversa, de homem pra homem, com você – rosnou Nhô Augusto, erguendo-se do banco. Uma maracanã se espantou na mata. O casal de pretos passou distante, na vereda.
Tá gostando do que digo? Só vai saber porque há uns dois meses estou aqui neste casebre (fugi daquela casa, muita maldição ali), caída nesta esteira, com esses ferimentos fechando, e se me ouvir... Ouve? Quer saber como eu vim parar aqui no Tombador? No dia em que Joãozinho Bem-Bem viajou com os outros, fiquei, doente, com impaludismo, na casa de uma moradora, dona Maricota, aqui perto. Joãozinho Bem-Bem tinha ido pra casa de Nhô Augusto e do casal de pretos, também aqui perto – jantaram, riram, farrearam a noite toda. Soube depois que, aí, Joãozinho Bem-Bem e Nhô Augusto amarraram-se numa amizade besta, um admirando o outro. Cuidando de mim, preocupado, Orósio pendurou as armas no alpendre, esticou a rede, não foi lá para onde estavam os nossos comparsas, não. Às vezes era assim – quando a gente chegava nos vilarejos, ficava um aqui, outro acolá, espalhados pelas casas. Dia seguinte, vindo da casa de Nhô Augusto, Joãozinho Bem-Bem rugiu na porta da dona Maricota:
– Levanta, Orósio, tá na hora de ir!
Pedi a Joãozinho Bem-Bem que me deixasse uns dias ali, até ele voltar com o bando lá das Taquaras, lá do serviço pra seu Nicolau Cardoso. Eu tinha muita febre, o corpo tremia todo. Foi então que passei trinta dias ali, sozinha, na casa de dona Maricota. No segundo dia, o corpo piorou, fiquei fraca, fraca. Dona Maricota andou pela redondeza, procurando remédio. Uma tarde veio o casal de pretos, ficaram os dois tratando de mim. Disseram que iam mandar o “filho” deles trazer um remédio e fazer uma reza. Na manhã seguinte, eu delirando na rede, a reza começou a sair do peito de um homem forte, vermelho. No meio da reza, eu espiava aquele homem. Eu espiava bem – até que achei que eu conhecia ele de algum lugar. Olhei, virei. Sim, eu conhecia...
Eu conheci Orósio muito tempo atrás, noite de novena e leilão, arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici. Depois a gente não se viu mais. Quando voltei a me encontrar com ele, Orósio já estava no bando de Joãozinho Bem-Bem. A gente só tinha se topado nessa dita novena, noite de confusão, muvuca. Ficamos um pedaço ali, pertinhos, um reparando no outro. Aí o tal do Nhô Augusto, naquele tempo fazendeiro mandão, desregrado (tinha a mania miserável de tirar a mulher dos outros!), me puxou pelo braço, me empurrou por uma rua e, se desfazendo de mim, falou uma coisa que até hoje não me esqueço:
– Você tem perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero...
E zombou mais, já indo longe:
– Sariema!
Eu estava enfurecida, porque no leilão tinham posto o dito apelido em mim – Sariema. Ô povo podre! Apois sim, como eu dizia: quando voltei a me encontrar com Orósio, ele não trabalhava mais pro Major Consilva. Inimigo de Nhô Augusto, Major Consilva juntara seus homens e mandara dar uma surra nele, Nhô Augusto, até ferraram o condenado nesse dia. Após a surra, afundando num barranco, Nhô Augusto foi tido como morto. Depois, já por aqui, eu soube que o preto é quem achou Nhô Augusto, ele e a preta puxaram a vida do peste de volta, trataram dele. Nhô Augusto, recuperado, não quis mais aquela vida de antes, de brigão, de rompedor, passou a viver com os pretos, a cuidar deles. Seguiu os conselhos de um padre: cuidou de rezar e trabalhar feito um condenado. Num quer sentar? Eu vou ficar aqui só mais uns tempos. Hum? Tenho mais ninguém no mundo, não. Só uma prima. Vou atrás dela, mais adiante...
Bom, o Orósio, como eu te contava, que já tinha deixado o Major Consilva, estava metido com o bando de Joãozinho Bem-Bem quando a gente se topou de novo. Orósio era viajando por esse mundo, circulando pelo sertão todo, apanhando, pegando a mão, furando como quem abate porco... Orósio aprendeu a ser valente assim. Você tem medo de briga? Não? Apois eu tava achando... Não tenha! Veja aqui as feridas... Hein? Foi briga, já te falo! O Orósio, depois de se juntar com a tropa toda de Joãozinho Bem-Bem, virou um homem muito valente. Eu não sabia que ele tinha essas brabezas todas. E começou a me puxar pro bando, a me influenciar. Terminei entrando pra companhia de Joãozinho Bem-Bem. Aprendi tanta coisa. E briguei. Briguei muito. É. Quando parei com essa vida, fiquei com duas mortes em cima de mim. Foi. Não teve jeito, tava ali, sem querer largar o Orósio, tive que matar gente também. Cê tá com medo? Mas foi pra me defender, que não sou assassina!
Aí, quando adoeci na viagem, eu dizia, fiquei aqui no Tombador. Naquela manhã reconheci o homem que rezava na minha cabeceira. Era o afamado Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas. Vixe, meu pai, mas que susto! Orósio não disse que ele tinha morrido? Mas o homem ali estava, rezando na minha cabeça. Calei, não dei um sopro!
Quando Orósio veio me buscar, um mês mais tarde, tomei uma decisão. Eu tinha gostado dali, da dona Maricota, do casal de pretos. Eram pessoas boas. E Nhô Augusto (mas que diferença!), com suas rezas e tarefas, que ficasse lá, eu nem me lembrava dele, daquele dia do leilão, não me importava mais com aquilo. E via que ele era outra pessoa mesmo, cuidando do casal de pretos, prestativo, ajudando os outros, amigo de todo mundo. Que ele ficasse lá, apois! Disse pro Orósio que ele podia prosseguir viajando com Joãozinho Bem-Bem, mas que eu, a partir daquele dia, ia morar no Tombador. Orósio resmungou, deu lá as tosses dele, mas terminou aceitando. Ia ficar vindo de vez em quando. Nessa época, esqueci de dizer, a gente já tava casado... Quer água? Se quiser, tem um pote ali dentro...
Orósio fez uma casinha não muito longe da de Nhô Augusto e do casal de pretos. Nhô Augusto sempre trabalhando e rezando (e eu mouca de admiração, como alguém podia ter mudado tanto!). Orósio continuou andando pelo mundo, ajudando Joãozinho Bem-Bem, vinha muito pouco me ver. Mas eu estava bem, não me faltava nada. Nhô Augusto (sem nunca desconfiar que eu sabia quem ele era) me ajudava bastante – batia o mato em volta da casa, trazia macaxeira, aqui e ali um pedaço de bode, um frango. Era uma pessoa boa demais, muito respeitoso. A ponto de eu esquecer mesmo o que ele, naqueles outros tempos, tinha feito comigo. Ai, meu braço ainda dói... aqui, desse lado... essa ferida roxa... tá vendo? Até que aconteceu...
Aconteceu que Nhô Augusto começou a falar que ia embora, que ia chegar a sua hora e vez. Começou a beber umas cachaças, a descer os olhos pras minhas partes. Até que, uma tarde, eu sozinha em casa, ele apareceu na janela, disse que queria um assunto comigo. Estava muito vermelho, trêmulo, o olhar frio, assim variando. Foi quando, antes de eu sair para o alpendre, ele entrou em minha sala, foi logo me peitando (não tive tempo sequer de alcançar a espingarda pendurada ali na parede!) e caindo em cima de mim com cheiros, agarrados, lambidos... Conseguiu me dobrar, tirou a minha roupa, veio com um peso grande, abriu as minhas pernas. Quando vi, ele já tava com a coisa dentro de mim, indo e vindo, dando sacolejos, assoprando forte, uma vontade que não consegui conter. E me encheu toda, vibrando as carnes, grunhindo umas palavras, dizendo que gostava de mim, que eu estava fazendo a coisa melhor do mundo pra ele...
Aí se foi pelo caminho, assobiando. Ô peste! Foi, mas deixou o ódio comigo. Eu ia matar o infeliz. Eu ia. Aprendi. Mas resolvi uma coisa. Aquilo era coisa pro Orósio. Era ele que tinha que lavar a honra – afinal, eu era com ele casada, no padre e no papel. Eu tinha que esperar Orósio chegar de suas tarefas e aí, sim, fazer o outro pagar o que devia. Tim-tim por tim-tim. Você tá curioso? Apois fique... E viaja amanhã cedo? Eu também vou embora daqui, mas quando sarar mais este braço...
O tal do Nhô Augusto, eu não entendia muito o peste. Nessa tarde em que o Orósio chegou no pedrês, Nhô Augusto veio vindo pela estrada uma hora antes. Veio, sentou no banco do meu alpendre e me chamou. Tive vontade de bater a mão na espingarda, de fazer o serviço antes do Orósio. Pus a faca no cós da saia. Nhô Augusto, paciente, me chamou mais umas três vezes, disse que não queria me fazer mal, que queria me falar uma coisa importante. Saí para ouvir sua palavra. Ele tossiu, ficou em pé, o cabrito perto, cheirando-lhe a perna. Disse:
– Falo como um homem com a senhora. Eu rezo todo dia, peço a Deus que me guie, que não me deixe ser um covarde. Entendo que chegou a minha hora e vez. Eu fiz aquilo com a senhora, Deus achou que fiz uma covardia. E eu assim também penso...
Pareceu que ele adivinhava os meus pensamentos, que desejava justamente o que eu queria, fantasiava. Assoou com força, raspou a mão no nariz:
– Eu não sou um covarde. Vim aqui pra ajustar as contas com o seu marido...
– Apois espere, que ele chega daqui a pouco.
Bati o pé para o cabrito que veio me lamber:
– Mas espere sentado, que é pra na hora da briga não estar cansado!
Nhô Augusto ficou sério, sozinho ali no alpendre, reclinado no banco. Aí apareceu no caminho o Orósio no pedrês. Quer que eu conte o resto? Não tem medo de intriga, já vi. Senta ali no canto, não é mais limpo? Hum? Comida? Me viro como posso. O preto Serapião me traz de três em três dias...
Depois que o Orósio soltou o pedrês no pasto e veio para dentro de casa, eu lhe participei:
– Tá aí fora um homem que me fez mal esses dias.
– Que mal? – perguntou Orósio, passando a mão no sinal preto do pescoço.
– Um que homem nenhum deve de fazer a uma mulher casada...
Orósio saiu para o alpendre, preparou um cigarro. Tossiu, riscou o fósforo, fumou, reparando no homem. Ficou um pedaço pensativo, a cigarra zumbindo próximo a casa. Passado algum tempo, Nhô Augusto, erguendo-se do banco, disse:
– Tenho que ter uma conversa, de homem pra homem, com você.
Orósio foi se aproximando de Nhô Augusto, que já prendia o cabo da faca na mão. Quer luta? Vai vir...
Antes que Orósio puxasse também sua faca, eu falei, olhando o queixo trêmulo dele:
- Esse aí é o Nhô Augusto Esteves, Orósio, que morreu mas reviveu.
Orósio, pareceu, foi logo entendendo tudo. E eu ajuntei, olhando para Nhô Augusto:
– E esse aqui, você não sabe, é o Orósio, meu marido, que também lhe bateu a mando do Major Consilva. É ele hoje o homem mais valente dessas bandas. Já é temido até por Joãozinho Bem-Bem...
Nhô Augusto empurrou os olhos em Orósio, que já desviara, a faca firme na mão, o dedão relado. Nhô Augusto sorriu:
– Pois chegou mesmo a minha hora. De um homem assim é que eu cuidava de ver em minha frente...
Os dois aí começaram a bater facas, rompia um na frente do outro, braço vai, braço fica, berros, pulos, as facas faiscando na pedra, Nhô Augusto, nas areias embaixo do cajueiro, o tempo todo rindo:
– Ui! Se prepara pra morrer!
Você tá achando graça? É, eu ainda imito voz de gente, de bicho – pareço papagaio. Hum? Se aqui tem onça? Tenho medo não... E foi tudo muito rápido, ratoeira. Orósio recebeu um corte fundo no ombro – a mão prendendo o sangue, parou o passo... Quer mais sangue? Eu falo muito, eu vivo só. Quando chega alguém aqui, é assim... Apois sim, Orósio recebeu o corte e, aí, se perdeu... Nhô Augusto entrou nele com tudo, enfiou a faca até o cabo, Orósio tombou, tremeu, o rosto pra cima, o sangue espumando na barriga, lavando as folhas secas. Então revirou os olhos. Nhô Augusto limpou a faca, catou um cisco na calça, olhou pro alto. Rezou um pai-nosso, o peste, a faca todo tempo na mão... Você viaja pra Diamantina? Você errou caminho. Veio dar aqui no meu rancho, é, se desviou... Homem, você vem de onde? É de brigar? Acho que não. Apois arme depois sua rede ali fora, pendura no pé de pau. E, de madrugada, não venha mexer comigo. Tô lhe avisando!
Nhô Augusto, após rezar o pai-nosso, disse:
– Homem virado, de coragem. Me bateu, me ferrou... Metia medo em seu Joãozinho Bem-Bem. Tive minha hora e vez, meu pai. Tive...
Eu, do alpendre, anunciei:
– Teve ainda não.
Fui descendo, pisei a areia rala do terreiro:
– Eu digo que você é homem se vier me enfrentar agora. Você, naquela noite do leilão, me pegou desprevenida, se lembra, peste?! Vem agora... – e eu já prendia na mão a faca do Orósio, estirado ali perto.
Nhô Augusto riu mais uma vez, a boca tremida:
– Onde já se viu isso, dona, mulher brigar de faca com homem?
Eu me arreliei:
– Apois vai ter que ser.
Nhô Augusto se assustou:
– Não faça isso, dona, que eu não sou covarde pra ferir mulher!
– Eu acho você um covarde. É. Covarde! E sua vez veio mesmo, e é agora!
Avancei no homem (eu, quando no bando de Joãozinho Bem-Bem, já tinha derrubado um preto brigador na faca). Nhô Augusto desvirou, arisco:
– Não faça isso, dona, que eu não quero machucar a senhora!
– Você tá com medo, covarde? É sua vez, covarde!
Ele tava irritado, os olhos amarelos, atentos. Raspou a mão no meu pescoço, tentando apanhar meus cabelos. Descaí. Passamos a atirar as facas, eu atraindo Nhô Augusto pra banda mais limpa do terreiro, pras areias do pé de caju, onde eu podia me movimentar melhor. E ele veio vindo, trocando as pernas, jogando a lâmina, do mesmo jeito que com o Orósio, eu me derreando, ele querendo resolver logo, o movimento forte no braço, a mão ligeira, ô homem liso! Eu caçando um meio de mandar a faca, mas nada, ele firme, me feriu... É aqui esse ferimento do braço, olhe, foi o pior...
Hein? Como foi o fim? Apois ficamos ali, eu mantendo distância, que não era tonta, Nhô Augusto vexado. E aí, quando ele avançou de vez, certo que ia me afundar, me desviei, ele dormiu, eu empurrei a faca no pulmão do peste. Ô coisa! Ele aí perdeu o prumo, soltou um gemido feio, de fera, veio vindo branco pra cima de mim, já querendo desfalecer. Disse:
– Eu não morri, dona, bem pense. Onde já se viu um homem morrer assim? – e o sangue pulando do pulmão, apressando a morte do condenado.
– Apois você já está morto, Nhô Augusto. E foi na faca da Sariema, que tinha perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca!
Nhô Augusto foi descaindo, dobrando as pernas:
- Ui!
E tremeu a boca:
– Sariema...
Mas aí me veio uma raiva. Raiva guardada, antiga:
– Filho de uma égua!
Plantei de novo a faca no peste. Ele deitou de vez. Ficou estirado, a mão no gogó, os olhos parados nas folhas do cajueiro, o sangue ainda fugindo dos músculos, fechando as areias. Eu aí olhei pra mata, pras maracanãs fazendo algazarra nas árvores, e gritei pra todas elas, gritei pra tarde ouvir:
– Não tem mais nenhuma Sariema! Não tem mais, não!
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Rinaldo de Fernandes é ficcionista, antologista e professor de literatura (UFPB). Autor do livro de contos O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e do romance Rita no pomar (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008 – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009). Entre as antologias que organizou, destaque para Chico Buarque do Brasil (ensaios – Rio de Janeiro: Garamond, 2004) e Capitu mandou flores (contos e ensaios – São Paulo: Geração Editorial, 2008). O conto “Sariema” integra o livro O perfume de Roberta.
Rinaldo de Fernandes est fictioniste, anthologiste et professeur de littérature à l’Université Fédérale de Paraíba. Il est l’auteur du recueil de contes O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) et du roman Rita no pomar (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008 - finaliste du Prix São Paulo de Littérature 2009). Il a organisé des anthologies, parmi lesquelles on souligne Chico Buarque do Brasil (essais - Rio de Janeiro: Garamond, 2004) et Capitu mandou flores (contes et essais - São Paulo : Geração Editorial, 2008). Le conte «Sariema» intègre le recueil O perfume de Roberta.