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África-Brasil : Caminhos da língua portuguesa Charlotte Galves, Helder Garmes, Fernando Rosa Ribeiro (org.), Campinas, Editora da Unicamp, 2009, 280 p. |
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Este volume reúne os textos das conferências e mesas-redondas convidadas no Colóquio Caminhos da Língua portuguesa: África – Brasil, realizado na Unicamp de 6 a 9 de novembro de 2006, no âmbito das comemorações dos 40 anos da Universidade.
O colóquio teve como objetivo reunir lingüistas, escritores, teóricos da literatura, historiadores, antropólogos e artistas, com o intuito de diversificar os olhares e deslocar os pontos de vista sobre a apropriação, na fala e na escrita, ao longo dos séculos, da língua transportada pela expansão lusitana na África e na América, sua interação com as línguas africanas, seu papel de veículo das interações sociais e culturais múltiplas que se estabeleceram nas emigrações e nos exílios dos portugueses, dos africanos e dos brasileiros, e os efeitos que dessas interações surgiram.
O resultado desse desafio está nas páginas que seguem, onde, mais do que interdisciplinaridade, se encontra forte transversalidade, um entremeado de vozes distintas mas que se fazem ecos repetidamente umas às outras. A ordem dos capítulos segue o reagrupamento das mesas-redondas, organizadas por afinidade de área, já que não seria possível instaurar uma outra ordem linear, dada a multiplicidade de entradas que cada texto oferece para os outros, construindo para o leitor um hipertexto de múltiplas navegações possíveis.
Luiz Felipe de Alencastro deu o tom na conferência que abriu o colóquio, cujo texto também abre o livro. Historiador do arquipélago do Capricórnio, ele mostra como, nos séculos 16 e 17 existiu um espaço cultural composto pelas duas partes do Atlântico Sul, e ressalta a forte presença das línguas africanas nesse espaço, inclusive do lado brasílico, onde o jesuíta Pedro Dias escreve, na Bahia, uma Arte da língua de Angola. Mas essa visão a-territorial da história do Brasil não é a oficial e, em particular, o seu correlato lingüístico tem sido objeto de forte silenciamento. Esse apagamento da presença das línguas africanas da memória coletiva brasileira, porém, não impediu que elas se constituíssem em “substrato” do português brasileiro, segundo Yeda Pessoa, que demonstra sua presença maciça em nossa língua – em sua grande maioria pertencentes à grande família Niger-Congo –, fundamentando-se em documentos escritos entre os séculos 17 a 19, desde a Arte da língua de Angola, à obra pioneira de Nina Rodrigues Os Africanos no Brasil, passando por relatos de viagens e obras literárias. Essa afirmação encontra considerável reforço nas considerações de Margarida Petter a respeito das convergências entre o português falado na África e no Brasil, que constituem o que ela chama de continuum afro-brasileiro do português, nos níveis fonológicos, lexicais e sintáticos. Olhando da outra margem do Atlântico, ou seja, pelo lado das línguas africanas, Armindo Ngunga vem trazer uma imagem do que acontece hoje na África, na realização fonológica e morfológica das palavras portuguesas, quando são integradas a uma língua banto, no caso a língua Yao falada no Moçambique. Pode-se facilmente imaginar que são os processos lingüísticos desse tipo que aconteceram na aprendizagem das palavras portuguesas pelos falantes africanos, na África e no Brasil, e deram às duas vertentes do português do Atlântico sul uma semelhança tão notável.
A intromissão, para retomar o termo do título de Yeda Pessoa, se dá assim nos dois sentidos: do português para as línguas africanas, das línguas africanas para o português. E, além de ser um fator decisivo na fala, ela se manifesta muito fortemente também na escrita, literária ou não. Num texto infelizmente ausente deste livro, Catarina Madeira trouxe no colóquio um testemunho fascinante do uso do português em documentos de natureza administrativa e diplomática, por chefes africanos, os Dembos, do século 17 ao 19[1]. Essa documentação, de extremo valor histórico e lingüístico, nos mostra as múltiplas facetas da apropriação da língua do colonizador, a que talvez mais nos surpreende e mais pode nos ensinar sobre os caminhos do contato.
Contato da maior complexidade no mundo seiscentista luso-brasílico-africano, como nos mostra Hebe Mattos, a partir da personagem de Henrique Dias, Governador dos Crioulos, Negros, e Mulatos, que se distinguiu a serviço da Coroa Portuguesa na luta contra os Holandeses, assinalando aí a absorção por parte dos brasileiros de táticas africanas de guerra. Por meio dele, é toda a diversidade de estatutos e condições dos negros na sociedade colonial do atlântico sul que se desvela – escravos, forros, mocambeiros ou quilombolas, soldados defendendo os interesses do governo português, nascidos no Brasil ou na África –, bem como a polissemia dos termos “negro” e “preto” que daí decorre.
Na literatura, Valdemir Zamparoni e Michel Laban focalizam a presença das línguas africanas (respectivamente, Ronga e Quimbundo) nas narrativas escritas em português na África. Não deixa de chamar a atenção a semelhança, nas crônicas dos jornais moçambicanos descritos pelo primeiro, e o conto do escritor angolano Luandino Vieira analisado pelo segundo, entre os modos de passagem de uma língua para a outra, que vai do uso já integrado de palavras africanas para designar coisas e pessoas da vida cotidiana à inserção abrupta de frases inteiras, e passa pela “apropriação” – nos termos de Zamparoni – de palavras portuguesas, num processo semelhante ao descrito por Ngunga.
Em abordagem distinta e complementar de Luandino Vieira, Rita Chaves analisa-o, não de dentro de um conto como o faz Laban, mas como momento de sedimentação e maturidade da literatura angolana, numa reflexão mais geral sobre o papel do escritor na construção da identidade de uma nação africana, reflexão essa que tem como tema central a obra do antropólogo e escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho.
Não é por acaso que a palavra “identidade” é recorrente em todo o livro. No capítulo cujo título se refere a novas cartografias identitárias, Laura Padilha enfrenta a delicada e complexa noção de lusofonia. Fazendo eco a Zamparoni, explora a idéia da língua dominante re-apropriada – ela diz apoderada – pelo dominado, num processo que envolve a mescla com as línguas africanas – como já referido acima –, invocando de novo Luandino Vieira, ao lado do poeta moçambicano José Craveirinha e de outros poetas e romancistas africanos que moldam em formas novas a língua do colonizador. Maria Nazareth Soares Fonseca, para dar conta desse processo fundador de mescla, ou de hibridação, propõe o conceito de identidades andarilhas, num texto que volta à poesia de Rui Duarte de Carvalho, depois de ter passado por outros espaços da herança africana e pela pintura do cubano Wifredo Lam.
Eni Orlandi, a partir de uma reflexão sobre a evolução do lugar da língua na colonização e na descolonização, passando pelo processo de gramaticização do português falado no Brasil, contesta o conceito de lusofonia, que segundo ela, preserva a noção de homogeneidade e alimenta o repertório da colonização. Conclama a uma afirmação das diferenças e das singularidades, feitas dos múltiplos hibridismos decorrentes da história, como condição para uma inter-compreensão entre países oriundos do processo de colonização portuguesa, em particular na relação África-Brasil. Claudia Wanderlei faz eco a essa visão, ao situar o Brasil na periferia digital, em patamar de pressão lingüística por parte da Europa semelhante ao dos outros países que participaram da efervescência do Império Português. Segundo ela, ainda que na sua periferia, o mundo digital faz surgir novas possibilidades de interação entre as ex-colônias desse império, onde a língua portuguesa, despida do seu caráter hegemônico, pode se tornar o veículo de uma reflexão coletiva sobre o processo de apagamento das culturas e línguas que não são a portuguesa.
Ao apagamento da fala dos dominados, e se baseando fortemente no conceito baktiniano de polifonia, Francisco Noa mostra que a literatura responde pela restituição das vozes. Nisso a literatura brasileira aparece como fonte inspiradora para a literatura africana. Noa aproxima assim obras como Vidas secas, do nordestino Graciliano Ramos, de obras de romancistas moçambicanos como Luis Bernardo Honwana e Orlando Mendes. Manuel Brito-Semedo não hesita em falar em “modelo brasileiro” no título do capítulo em que realça a coincidência histórica, geográfica e social do Nordeste brasileiro e das Ilhas do Cabo Verde e mostra como o forte sentimento de enraizamento na realidade social aproxima os escritores da revista caboverdiana. Claridade dos modernistas brasileiros. Também lembra a importância nesse movimento da reivindicação de uma língua distanciada da norma portuguesa, fruto da apropriação popular.
O forte laço entre literatura e história é o fio condutor do texto de João Paulo Borges Coelho, historiador e escritor. Desse ponto de vista mais geral, seu texto pode ser lido como uma introdução a todos aqueles que no livro tematizam a literatura moçambicana (Zamparoni, Chaves, Noa, Padilha). É pelo prisma das fases políticas da história recente de Moçambique que ele define três ciclos na história da literatura: do Brado Africano à nova geração – da qual, como lembra Noa, ele mesmo faz parte.
Aberto pela história, o livro se fecha com a literatura. Numa entrevista entremeada de leitura de poemas e trechos de romances, Michel Laban anima uma longa conversa com a poetisa Ana Mafalda Leite e o romancista João Paulo Borges Coelho, ambos moçambicanos. De novo essa conversa é marcada por vários deslocamentos de pontos de vista, uma vez que Ana Mafalda também é crítica literária e João Paulo também historiador.
Em síntese, o leitor achará, ao longo dos capítulos, teóricos da literatura atentos à história, historiadores imbuídos de literatura, e lingüistas chamando a atenção para a história, todos procurando tornar mais visível e transparente a complexidade das relações entre língua, história e cultura. Esta apresentação sugeriu caminhos de leitura. Haverá muitos outros, nascidos dos interesses e da curiosidade de cada um dos leitores.
Enfim, para terminar, não poderíamos deixar de mencionar um outro eco, o que esta coletânea faz a um livro publicado recentemente no Brasil sob o título Brasil-África, como se o mar fosse mentira, organizado por Tânia Macedo, Carmen Secco e Rita Chaves: pela especularidade dos títulos, pela partilha de vários colaboradores e pelo objetivo comum de apreender melhor, como dizem as organizadoras no seu prefácio, as intricadas relações que nos unem à África.
Apresentação
Charlotte Galves, Fernando Ribeiro Rosa & Helder Garmes, organizadores
[1] Cf. Africae Monumenta, a apropriação da escrita pelos africanos, vol. 1 Arquivo Caculo Cacahenda, edição, introdução, glossário e textos por Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 2002.





