Viagens e geografias imperiais, do Brasil à África Oriental
Eugénia Rodrigues
Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa
Introdução
O tema dos sertões dispõe de uma ampla bibliografia que, apoiando-se em relatos de viagem, memórias e correspondências, tem como foco o Brasil. Como sintetizou Janaína Amado: “’Sertão’ é uma das categorias mais recorrentes do pensamento social brasileiro, especialmente no conjunto da nossa historiografia” (Amado, 1995: 145-146)[1]. De um significado geográfico inicial assente na ideia de interioridade e de afastamento do litoral, o termo foi ganhando conotações sociais e culturais. Em geral, os estudos sobre o tema acentuam a representação do sertão - ou mais vulgarmente dos vários sertões, pelo carácter regional que enforma essas análises - como espaços de interioridade, secura, agrestia, despovoamento e primitivismo. No caso de África, mesmo em relação aos territórios de colonização ou contacto com os portugueses, o tópico dos sertões não tem merecido uma exploração equiparável, embora exista já uma ampla historiografia sobre as imagens do território e da natureza em África, associadas ou não à representação dos africanos.
Neste artigo[2], pretendo explorar as imagens do sertão nos diários de viagem do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida, no quadro mais vasto da sua representação da territorialidade brasileira e africana. Lacerda e Almeida foi um matemático e astrónomo que, nascido no Brasil, viajou ao serviço da coroa portuguesa com missões diversas na América e na África Oriental, no final de Setecentos. Esta centúria assistiu a inúmeras expedições científicas promovidas pelas coroas europeias em todo o globo, visando a reunião de um conjunto de dados sobre regiões ignoradas ou pouco conhecidas. No caso das observações geográficas, tais notícias destinavam-se a ser confrontadas e integradas na elaboração de mapas, que, se também tinham subjacente um interesse científico, respondiam geralmente aos interesses expansionistas europeus. Essas expedições produziram diversos materiais entre os quais diários de viagem, que são o resultado das práticas científicas europeias, mas expressam o confronto com os territórios viajados. Os diários de Lacerda e Almeida revelam também esse olhar sobre o território experienciado nas viagens. Mas, o designativo sertão não se impõe na sua escrita, conquanto possam ser aí encontradas expressões geralmente associadas à ideia de sertão.
Lacerda e Almeida: um explorador em dois continentes
Nascido em S. Paulo, no Brasil, o Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida (1753-1798) integrou expedições geográficas com o objectivo de reconhecer e demarcar territórios do império português e explorar espaços que podiam constituir corredores imperiais. A sua actividade ganhou uma destacada singularidade no conjunto dos viajantes setecentistas, uma vez que ele participou em longas expedições em continentes distintos, na América e na África. Tal como muitos outros exploradores do século XVIII, integrou expedições patrocinadas pela coroa com objectivos precisos de reconhecimento de territórios e muito associadas à afirmação do seu prestígio[3].
Lacerda e Almeida fez parte de um corpo de funcionários ilustrados, formados na Universidade de Coimbra, utilizados pela coroa para avaliar as potencialidades do território e melhor o controlar. Do Brasil, ele viajou para Portugal, em 1770, para estudar naquela universidade, prestes a iniciar um processo de reforma. Tendo frequentado os estudos de filosofia e obtido o grau de doutor em matemática, em 1777, foi nomeado como membro das equipas de demarcação dos limites das fronteiras do Brasil com a América espanhola, na sequência do tratado de Santo Ildefonso, celebrado nesse ano entre as duas potências coloniais (Eça, 1951: 26-28). As comissões mistas luso-espanholas, compostas por um numeroso grupo de indivíduos com formações académicas diferenciadas, actuavam, assim, num processo de delimitação e apropriação do território colonial[4]. A formação de Lacerda e Almeida em matemática, uma educação comum a vários exploradores europeus (Bourguet, 1997: 224) habilitava-o para trabalhar como astrónomo, o que era essencial para fazer as observações geográficas.
Chegado ao Brasil em 1780, o astrónomo paulista foi incorporado na terceira partida de demarcação, chefiada por João Pereira Caldas, a qual acabou por actuar no norte do Brasil, sem a participação dos espanhóis. Enquanto essas comissões delimitavam o território, outra expedição comandada pelo naturalista Alexandre Dias Ferreira explorava o mundo natural na mesma região, numa das viagens filosóficas enviadas pela coroa para o império (Domingues, 1999). Movimentando-se numa zona de grande tensão interimperial, no Pará, os demarcadores subiram o rio Amazonas e alguns dos seus afluentes, até Barcelos, na capitania de S. José de Rio Negro (1780-1781). Logo de seguida, o grupo examinou a fronteira de Mato Grosso (1781), percorrendo o rio Negro até à foz do rio Madeira, que subiu até Vila Bela. A partir desta povoação, Lacerda e Almeida explorou vários cursos fluviais e participou em trabalhos de gabinete, durante cerca de quatro anos. Em 1786, viajou até Cuiabá, numa rota que demorou cinco meses por vários rios, entre eles o Juaru e o Paraguai. Regressou a Vila Bela, donde, por ordem do governador, saiu para investigar os itinerários fluviais para sul, em direcção a S. Paulo (1788-1789). Após dez anos de explorações geográficas no Brasil, em 1790, Lacerda e Almeida embarcou no porto de Santos para Lisboa, onde foi admitido na Academia de Ciências e passou a exercer o cargo de professor de Matemática na Academia de Guardas Marinhas (Eça, 1951: 29-44).
Encerrando esse percurso europeu, em 1797, o astrónomo paulista partiu para África, ao serviço dos planos de reforma do império português projectados pelo secretário de Estado da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Ele foi designado governador dos Rios de Sena, a região do vale do Zambeze, na capitania de Moçambique, com a missão de cartografar o território da colónia e de investigar a possibilidade de travessia transcontinental, de modo a ligar os domínios portugueses nas duas costas africanas.
Tendo desembarcado na Ilha de Moçambique, Lacerda e Almeida viajou daí até Tete, a sede do governo dos Rios de Sena, pelo rio Zambeze, realizando uma primeira jornada por territórios da capitania de Moçambique. Em Junho de 1798, o explorador encetou uma viagem pioneira destinada a atingir a costa ocidental africana. Ele dirigiu-se ao Kazembe - um potentado sedeado no vale do rio Luapula, no nordeste da actual Zâmbia, cujos governantes ostentavam o título de mwata kazembe (Cunnison, 1959; Macola, 2002) - para tentar chegar daí a Angola. A rota entre o Kazembe e Tete era frequentada pelos negociantes desse potentado e fora percorrida recentemente pelos mercadores ao serviço de moradores de Tete. Preencher os espaços em branco da representação da ciência europeia sobre África e ligar as duas costas africanas constituía um projecto que, com raízes mais antigas, fora delineado pelo diplomata português D. Luís da Cunha e pelo cartógrafo francês Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville (Mota, 1962; Rodrigues, 2010). Era esse programa que, por iniciativa do secretário de Estado, Lacerda e Almeida ia executar, acabando por falecer de doença, em Outubro, já junto à corte do mwata kazembe (Rodrigues, 2011; Rodrigues, 2012; Eça, 1951: 51-164; Santos, 1985: 191-202; Martins, 1997; Pereira e Cruz, 1999).
Figura 1. Folha 12 do roteiro da viagem de Tete ao Kazembe desenhada pelo Dr. Francisco Lacerda e Almeida (Arquivo Histórico Ultramarino: AHU_CARTm_064,D.540).
Lacerda e Almeida inseria-se, assim, nesse grupo de exploradores que percorreram extensas zonas dos continentes e dos oceanos no contexto do Iluminismo. Mas, diferentemente de outros viajantes no Novo Mundo ou em África, ele não era europeu, antes integrava a geração de “cientistas-colonos” oriundos do Brasil que, depois de formados na Universidade de Coimbra, se notabilizaram em várias partes do império português ao serviço da coroa (Cruz, 2004: 196-199; Pereira e Cruz, 2006). Esse estatuto reflectiu-se na sua visão do território quer americano, quer africano.
Como estabeleciam os cânones da ciência setecentista (Bourguet, 1997: 230-231), o explorador narrou as suas viagens em diários, tendo produzido cinco registos sobre as suas actividades no Brasil - além de uma memória escrita já em Lisboa e apresentada à Academia de Ciências, tal como o derradeiro diário americano - e dois relativos aos percursos efectuados em África. O último diário, suspenso pela doença e morte do explorador, acabou por ser reescrito, não se sabe em que medida, por um dos seus companheiros de expedição. Em vários casos no que respeita ao Brasil e em ambos no que concerne a África, ele também inscreveu as suas observações geográficas em mapas. Neste texto, ter-se-á em consideração os seus diários que, estendendo-se por dezoito anos, apresentam diferenças significativas entre si. As dissemelhanças resultam inevitavelmente das variações identitárias do discurso ao longo desse tempo[5], mas derivam ainda das características das missões de que foi incumbido e expõem o confronto do viajante com mundos díspares. Na partida de demarcação da fronteira luso-espanhola na América, Lacerda e Almeida integrava a equipa de especialistas portugueses como astrónomo. Os primeiros três diários, na Amazónia e no Mato Grosso, escritos entre 1780 e 1782, cingiram-se a registos técnicos, raramente interrompidos por algum comentário particular. Assim, esses textos documentam fundamentalmente as práticas científicas europeias e o que elas revelam sobre o esforço de uma representação racionalizada do território.
Nas narrativas posteriores a 1786, em Mato Grosso e S. Paulo, persistiram as anotações técnicas, mas ele incluiu várias impressões sobre os itinerários percorridos e os seus protagonistas. As notas pessoais tornaram-se ainda mais profusas quando ele passou para a África Oriental, um mundo totalmente novo para ele. Lacerda e Almeida foi muito mais prolixo na descrição quer da jornada do vale do Zambeze, quer do itinerário de travessia de África. Nestas narrativas, ele contou aspectos da sua experiência pessoal e familiar, descreveu as paisagens, apreciou os povos africanos e avaliou a elite colonial. E, não raro, retomou a sua experiência anterior nas deambulações pelo território americano.
O sertão americano
De facto, nos relatos das jornadas iniciais na Amazónia e em Mato Grosso, emerge um pendor técnico, pelo que as descrições do meio estão quase ausentes e são escassas as informações sobre o espaço. São sobretudo os registos científicos tendentes à produção de uma cartografia que servisse os propósitos da demarcação da fronteira luso-espanhola e de integração do espaço assim delimitado no império português que estão presentes. Essas anotações transmitem a monotonia característica da viagem e da missão de exploração da fronteira. Por exemplo, na inscrição relativa ao dia 24 de Setembro de 1780, o matemático apenas anotou: “Neste dia andamos somente 4 ½ léguas, andando a primeira légua a poente, e a outra SO, e o resto a ONO” (Almeida, 1780: 6). É o território racionalizado que interessa à ciência e à política da coroa portuguesa que é retratado nesses três primeiros diários, através do registo de horários de marcha, léguas percorridas, rumos dos rios e coordenadas geográficas.
A narrativa centra-se no curso fluvial, aquele percorrido pelos expedicionários e onde são inscritas as medidas e as observações necessárias ao seu reconhecimento. Tal como no início da expansão, os europeus estavam especialmente focados nos rios como pontos de entrada e caminhos para o comércio e estabelecimento no interior no Novo Mundo e em África (Benton, 2010: xii-xiii; 43-59). As notícias geográficas são registadas cuidadosamente: “Lat. A. 16º 23’ 20’’. Var. NE 11º 47’. Largura do rio regulada trigonometricamente 140 braças; desde o Registo até o marco há 30 léguas: distancia do marco ao vértice do monte que lhe fica fronteiro 650 braças” (Almeida, 1786: 37). Ocasionalmente, ele refere-se à missão dos cientistas: na foz do rio Madeira, determinam as coordenadas do local escolhido “para a extrema do ponto intermédio da divisão com os espanhóis” (Almeida, 1781-1782: 19), enquanto no rio Jaruari concluem que a posição prevista não serve para ponto médio da demarcação (Almeida, 1781-1782: 21). Lacerda e Almeida faz referências sucintas e pouco adjectivadas a balizas do itinerário. Vilas, povoações, lugares, sítios, engenhos e fortes militares são como que etapas do percurso, completando rumos, coordenadas e léguas transitadas. Essa sucessão de lugares, de pontos marcantes e de distâncias percorridas visava informar sobre itinerários que seria possível reconhecer na demarcação da fronteira e utilizar no futuro para fazer os caminhos dos exploradores.
No entanto, o que emerge, como nota L. Benton em relação a vários relatos imperiais, é uma geografia fragmentada (Benton, 2010: 16). Nesses diários, os rios são os protagonistas do discurso geográfico; serão eles a orientar a posterior representação cartográfica das terras americanas a ser elaborada nos gabinetes; o mato, como ele geralmente refere a floresta, preenche os espaços entre os cursos fluviais. A narrativa sobre o território assenta, assim, na dicotomia entre o rio, a via de comunicação e de referência científica, e o mato, o espaço que está para lá das margens. Este espaço é silenciado ou apenas citado como impenetrável e ameaçador. Lacerda e Almeida não se interessa pelo exame desse meio, recriminando, aliás, o seu companheiro de expedição, António da Silva Pontes, que se descuida na anotação dos rumos, por estar “distraído com as suas filosofias, gastando muita parte do dia em copiar macacos, ratos, etc.” (Almeida, 1786: 40). Raramente, ele alude expressamente à floresta amazónica, que tanto marcou outros viajantes pela região[6].
Em geral, o tom técnico desses diários transmite a ideia dos flumes como locais seguros. As ameaças naturais são escassamente declaradas, conquanto o explorador acabe por referir as cachoeiras e correntezas que tornam a navegação perigosa (Almeida, 1781-1782: 24). Os expedicionários chegam a demorar quatro dias a passar uma catarata, mas os pormenores são ocultados. Num desses dias, Lacerda e Almeida resumiu: “andamos somente meia légua; e por este tão pequeno andamento considere-se qual seria o trabalho” (Almeida, 1781-1782: 26). No entanto, a imagem que sobressai é a do meio fluvial como seguro, em oposição às ameaças que surgem da terra firme.
Essa dicotomia geográfica adquire, principalmente, significados culturais: o rio é o meio estável por onde transitam os civilizados e o mato é o lugar do perigo representado pelos “gentios”, os índios não aldeados, o “outro” dos viajantes. Assim, no Amazonas, as “margens são habitadas do gentio chamado Mundurucú, animoso, feroz e de corpo pintado” (Almeida, 1780: 5). A figuração do “gentio” como hostil e bárbaro reforça a ideia do mato como lugar agreste. Na viagem da vila de Barcelos, na capitania de S. José do Rio Negro, para Vila Bela, no Mato Grosso, ele interrompe a narrativa para referir: “fomos atacados pelo gentio, que, do mato e sem serem vistos, despediram imensas flexas sobre a minha canoa” (Almeida, 1781-1782: 20). Os comerciantes que encontram pelo caminho, navegando desde Mato Grosso, tinham, também eles, sido acometidos por cinco vezes (Almeida, 1781-1782: 23). Concomitantemente, esse é um território não submetido à lei e à ordem coloniais: a “infestação do gentio” obriga mesmo a mudar as vilas da colonização portuguesa, como aconteceu em Borba (Almeida, 1781-1782: 23). E é também no mato que se vai “dar caça ao gentio” (Almeida, 1781-1782: 21), encarado sempre como o inimigo dos viajantes. Embora o explorador não o declare, adivinha-se que importa submeter e domesticar esse espaço sem ordem, de modo a integrá-lo plenamente na fronteira móvel da colónia portuguesa.
A tensão entre sedentários e nómadas emerge ao longo desses diários, como nos restantes registos americanos, conduzindo a distintas representações dos indígenas. Diferentemente dos índios nómadas, sempre designados como “gentios”, aqueles que são ou já foram aldeados são revelados de modo positivo. Os integrados na vila de Santarém, na foz do rio Tapajós, fabricam caixas chamadas pacarás, “cobertas de folha de palha de diferentes cores e tecidas, formando agradáveis e vistosas pinturas; muito chapéu da mesma palha e muito bons” (Almeida, 1780: 5). Essa percepção positiva é acentuada na memória sobre os índios que escreve já em Lisboa (Almeida, s.d.). Ao referir-se invariavelmente aos índios não aldeados como “gentios”, Lacerda e Almeida acentua a sua selvajaria, por via da ausência de religião, intimamente associada à civilização, na expressão do Iluminismo português.
Os dois diários das viagens por Mato Grosso, desde Vila Bela até Cuiabá e S. Paulo, escritos entre 1786 e 1790, apresentam uma maior profusão de detalhes sobre os incidentes da jornada e acerca do território transitado, nomeadamente o último escrito, onde ele chega a retomar a jornada anterior. Isto é, estes textos não tratam apenas das marcas geográficas e das observações científicas dos itinerários, mas constituem relatos de viagem. E é nestes diários onde a representação do espaço, para lá daquela resultante das práticas científicas europeias, é mais intrincada. Executando o último percurso sem a companhia das equipas técnicas das primeiras viagens, Lacerda e Almeida chega a confidenciar que se aborrece, pelo que regista pormenores distantes das observações geográficas: “Esta narração (eu o confesso) é alheia deste diário; mas vai para desenfado” (Almeida, 1788-1790: 95).
Nestas narrativas, os rios já não se apresentam apenas como vias que estabelecem a comunicação entre diversos pontos, ao serviço da ciência e da civilização. Eles desembocam em vastos pantanais que não vão dar a lugar nenhum ou são interrompidos por inúmeras cachoeiras. A longa descrição da exploração do imenso conjunto de lagoas e pântanos no rio Paraguai, designado por lago Xarais, seguindo informações alegadamente erróneas de alguns práticos, destapa a verdadeira dimensão de uma natureza adversa (Almeida, 1786: 42-51).
Com efeito, a narração dos trabalhos dos exploradores desvela um meio hostil e marcado pela verticalidade, onde o rio se não distingue do mato porque este o invade:
Esta tapagem era tal, que parecia que aí se sumia o rio, porque o agua-pé, o capim, e o mato era tão alto que parecia todo aí nascido […] e navegando por pantanais com muito escuro e risco, chegamos finalmente à serra, que nos serviu de consolação por haver 40 horas que tínhamos passado a água e farinha, e dormido muito mal. (Almeida, 1786: 41-42)
Esse território labiríntico, que exige do homem trabalhos infrutíferos, manifesta-se indomável:
gastamos toda a tarde em romper serrados para poderem navegar as canoas; mas este trabalho foi infrutuoso, porque depois de sairmos a limpo em uma volta do dito braço, cujas margens estavam entre montes, se acabou inteiramente, sem haver passagem ou comunicação por estar toda fechada com serros. (Almeida, 1786: 47)
Desse modo, os cursos fluviais deixam de constituir um meio de circulação essencialmente seguro para, também eles, encerrarem o risco. As águas caudalosas e as chuvas persistentes ameaçam virar as canoas, pelo que os rios oferecem agora “uma navegação laboriosa e arriscada” (Almeida, 1788-1790: 91). A denominação das cataratas imortaliza os que “à custa da sua própria vida, que perderam nestas e noutras cachoeiras, deixando os seus nomes aos lugares que lhes serviram de túmulo” (Almeida, 1788-1790: 96). Este é também o espaço das coisas extraordinárias, desregradas, que invadem o discurso racionalizado da ciência. A propósito das monstruosas cobras sucuris, que se espraiam pelas pedras das cachoeiras, ele conta uma história fabulosa e comenta: “Esta é a tradição e muito verossimil para os que teem viajado por este novo mundo, onde a cada passo estão encontrando coisas, que teriam por fabulosas se não tivessem sido testemunhas oculares” (Almeida, 1788-1790: 90).
Também nestes relatos, os desconfortos da viagem e as doenças a ela associadas estão tornam-se mais presentes, remetendo para um espaço doentio. As moléstias acometem os viajantes, forçando a deixar os enfermos para trás para os ir buscar depois (Almeida, 1786: 54). A adversidade do meio revela-se de modos inesperados, como quando os expedicionários são obrigados a suspender a jornada para curar os pés “estropeados nos espinhos e paus, que estavam mergulhados na lama”, ou são tão atacados pelos carrapatos que se vêem “desesperados” (Almeida, 1786: 35-36).
Nesse sentido, os rios passam a participar das qualidades do mato, da sua aspereza e hostilidade, e é todo o território do Pará e Mato Grosso que é identificado com o “sertão”, um designativo que Lacerda e Almeida emprega apenas no último diário. Com efeito, é quando o explorador abandona o interior do continente, aproximando-se do litoral, que se impõe também a dimensão cultural do sertão enquanto espaço que se opõe ao mundo civilizado.
Assim, Lacerda e Almeida evoca a empresa dos colonos que fundaram a vila de Cuiabá, conduzindo manadas para levar a pecuária ao interior, “cortando sertões, por onde nunca tinham passado” (Almeida, 1788-1790: 80). Apesar de quente e mal arruada, a vila tem boas casas e muita abundância de peixe e carne, obra dos esforçados colonos (Almeida, 1786: 57). Transformar esses sertões adversos em lugar de civilização exige dos colonizadores um esforço heróico.
A representação cultural do sertão é notória quando o explorador chega a Camuapã, entre os rios Camuapã-Guassu e Pardo. Nessa fazenda, ele destaca o ar puro, o clima ameno, a excelência do terreno e a abundância dos campos cultivados, que compara aos de Portugal e opõe aos do Pará e Mato Grosso (Almeida, 1788-1790: 80). Não é a natureza selvagem de outros viajantes que ele valoriza, mas, antes, a capacidade do homem, isto é, do colonizador, para a metamorfosear. É o esforço na transformação da paisagem que ele enaltece ao elogiar a acção do homem na construção dessa fazenda, “fundada no centro deste sertão somente com o fim de ter carros prontos para a varação das canoas e cargas de um para o outro rio” (Almeida, 1788-1790: 79-80). Neste sertão, a alteridade constrói-se, ainda, em relação aos “gentios”, os índios Caiapós, que atacam a fazenda. Com efeito, os escravos africanos, que servem o colonizador, trabalhando no local e combatendo os Caiapós, são figurados como valorosos, já que participam no empenho civilizador do colonizador (Almeida, 1788-1790: 81).
É perante os campos agricultados da fazenda Camuapã que Lacerda e Almeida, finalmente explicitando a sua ideia de sertão, declara:
Renasceu em mim toda a alegria, que um país aprazivel pode causar, e que tinha perdido vivendo por oito anos em um sertão (assim o posso dizer) cheio de matos altíssimos, ásperos, e de algum campo pela maior parte inundado e pestífero. (Almeida, 1788-1790: 80)
Assim, o sertão revela-se na sua amplitude e confunde-se com todo o território do Pará e Mato Grosso, evidenciando-se aí a rudeza do terreno coberto por vegetação alta ou superfícies alagadas. Distintamente de outras acepções, em que é associado à aridez, aqui o sertão confunde-se com o meio húmido do pantanal. E é um local pestífero, como só poderia ser um lugar com essas características, uma ideia que é fortalecida pela descrição dos incómodos e das doenças da viagem. Desse modo, o sertão é basicamente o espaço não humanizado e, maximamente, não humanizado pelo colonizador.
A descrição da região de S. Paulo, a sua pátria natal, reforça a percepção do sertão como o território interior, agreste e maligno. Ainda no rio Tietê, a caminho da cidade, Lacerda e Almeida maravilha-se com as inúmeras crianças que surgem nas margens e com a quantidade e a qualidade das produções agrícolas. No percurso terrestre até S. Paulo, ele manifesta a identificação com estas terras: “tendo vindo por toda esta estrada com grande satisfação do meu espírito pelo muito que é aprazível todo aquele terreno, cheio de regatos e moradores” (Almeida, 1788-1790: 98). Enfim, o clima moderado, a fecundidade das mulheres e a qualidade das produções, em nada inferiores às de Portugal, “fazem ser aquele país um dos melhores do mundo” (Almeida, 1788-1790: 99). É, portanto, o território domesticado pelo homem, trabalhado pela agricultura e pela pecuária, que ele considera um paraíso, o oposto ao sertão. A apreciação do matemático sobre o espaço colonizado de S. Paulo remete para as suas próprias origens, a fazenda familiar de Nossa Senhora do Pilar, no termo da vila de Santana de Parnaíba, na margem esquerda do rio Tiétê. Por aí, passavam as rotas seguidas pelos bandeirantes que penetravam no interior do Brasil, aqueles que faziam a riqueza do império:
entranhando-se por aqueles imensos sertões sem outra bagagem mais que a pólvora e a bala, sem outro rumo mais que o acaso, descobrindo neles todas as minas de ouro e pedrarias que possuímos, e que tanto teem enriquecido aos seus posteriores, ficando eles e seus descendentes pobres. (Almeida, 1788-1790: 100)
Enfim, o sertão do Brasil, o do ouro e das pedras preciosas, pode ser também lugar de fortuna. E são precisamente os paulistas, também os descobridores dessas riquezas, que ele elege como supremos heróis da colonização e da domesticação do sertão, refutando o epíteto de “bárbaros” com que eram pintados nos gabinetes de Lisboa (Almeida, 1788-1790: 100). Mesmo já no interior de África, perto do local onde acabaria por falecer, o explorador manifesta-se contra os que denigrem os paulistas (Almeida, 1798: 248-249).
Da experiência de Lacerda e Almeida nas partidas de demarcação das fronteiras coloniais americanas sobressai, portanto, uma representação do Brasil assente na oposição entre a agrestia do sertão, pese embora a ambiguidade deste termo, e a bondade do território colonizado no litoral, de que o expoente é a capitania de S. Paulo. Mas, a sua vivência africana, depois do interregno que constituiu a estada em Lisboa, conduzirá, de certo modo, a uma reconfiguração da imagem negativa do sertão brasileiro.
O sertão africano
Na África Oriental, onde chegou em 1797, Lacerda e Almeida registou a sua primeira viagem entre a Ilha de Moçambique, a capital da colónia, e Tete, a sede do governo dos Rios de Sena, na margem direita do rio Zambeze, a quase 600 km do litoral. No entanto, o seu relato inicia-se verdadeiramente em Quelimane, no delta do rio, à entrada no território que ele ia administrar.
Diferentemente das regiões por ele percorridas no interior do Brasil, o vale do Zambeze era um território de colonização antiga. Ao longo do itinerário, o governador foi contactando com os membros da elite colonial, parando nas povoações para tratar de assuntos administrativos ou pousando nas casas dos principais senhores da região para descansar. Mas, de certo modo, este percurso assemelha-se aos conduzidos no interior do Brasil. Ele considera essas terras como “desertos” (Almeida, 1797-1798: 144), conquanto anote os contactos com a elite colonial e com os africanos que acorrem às margens do rio. Esse “deserto” não é, portanto, geográfico, nem tão pouco social: apresenta-se como uma categoria cultural, associada à ausência de “civilização” nos Rios de Sena, tópico sobre o qual, como se verá adiante, ele discorre largamente.
Tal como nos últimos diários americanos, na narrativa sobre a viagem no Zambeze, Lacerda e Almeida destaca a penosidade da passagem do rio, cheia de “trabalhos e perigos” (Almeida, 1797-1798: 162). Essa empresa fatigante estende-se, durante grande parte do itinerário, ao contacto com a própria orla, onde a terra é “muito baixa, as margens seguidas de mangues e caniços, o desembarque penoso pelo muito lodo das mesmas margens” (Almeida, 1797-1798: 140-141).
Figura 2. Descrição de Quelimane enviada pelo Dr. Francisco Lacerda e Almeida a D. Rodrigo de Sousa Coutinho (Arquivo Histórico Ultramarino, Moçambique, cx. 81, doc. 17)
Conquanto inscrito na paisagem africana, o Zambeze, em muitos pontos, faz-lhe recordar as jornadas americanas. Com efeito, as comparações com Portugal, ocasionais nos relatos sobre o Brasil, tornam-se agora raras. As terras férteis das margens do Zambeze lembram-lhe as lezírias do Mondego e do Tejo (Almeida, 1797-1798: 143), que banham, respectivamente, Coimbra e Lisboa, ou seja, os rios portugueses que conhecera bem, quando estudara na primeira cidade e ensinara na segunda. Todavia, como as de outros viajantes, as suas descrições procedem de comparações com as paisagens conhecidas (Pratt, 1999; Benton, 2010: 19-20) e essas, distintamente dos viajantes europeus que constituem o objecto da generalidade dos estudos, eram fundamentalmente as do Brasil.
Desse modo, ao longo da viagem, Lacerda e Almeida vai confrontando os rios de África com os da América. Logo no delta, a transposição de inúmeros canais por entre ilhas lembra-lhe os flumes que atravessou para entrar no Amazonas (Almeida, 1797-1798: 135). Tal como os bancos de areia ao longo da rota, os quais tornam a navegação difícil, lhe sugerem a viagem no Taquari, o afluente do Amazonas que calcorreou em 1788 (Almeida, 1797-1798: 141). O Zambeze, navegado pelo governador fora da época, quando as chuvas já o faziam caudaloso, apresenta perigos comparáveis aos dos rios americanos (Almeida, 1797-1798: 163). A passagem da Lupata, a garganta que aperta o leito entre Sena e Tete, considerada por todos “dificultosíssima”, é avaliada por ele como inferior às das cachoeiras dos rios Madeira, Mamoré, Taquari, Coxim, Pardo e Tietê (Almeida, 1797-1798: 166). Ainda assim, o explorador confessa temer mais a passagem do Zambeze, onde a imperícia dos africanos aproxima as embarcações de perigosas pedras (Almeida, 1797-1798: 166). O próprio meio de transporte tem como referente o usado por ele nas digressões brasileiras; assim, ele queixa-se de as embarcações que sobem o Zambeze não apresentarem a comodidade das canoas do Pará (Almeida, 1797-1798: 134).
Tal como em relação ao Brasil, as concepções miasmáticas da doença configuram a sua percepção de África. Também aqui o território é carregado de corrupção, desde as águas ao clima, com as suas consequências sobre a saúde e a reprodução dos homens. Aquando da sua chegada a Quelimane, na região do delta, ele conclui logo:
Havendo neste país as duas poderosas causas da corrupção a saber, o calor e a umidade, não é para admirar a pouca salubridade do clima. As águas também não podem deixar de ter nisto uma boa parte; pois aquelas que servem para os usos ordinários são tiradas das covas feitas na terra com pouca profundidade […]. Nos ditos poços ou covas aparecem insectos, e são como viveiros de sapos.
Tudo isto concorre para produzir nos homens sezões, febres biliosas, podres, disenterias, catarrais, enfim moléstias provenientes da podridão. A sarna é geral e se conserva por meses. Outro pior inconveniente tira daqui a sua origem: os homens não se multiplicam. (Almeida, 1797-1798: 132)
As povoações de Quelimane e Sena, erguidas nas terras baixas empapadas pelo rio e pelas chuvas, são consideradas por ele mortíferas. E, embora lhe tenham assegurado que Tete era uma povoação mais sadia, ele enumera as múltiplas doenças que se manifestam na zona e salienta a falta de médicos e medicamentos (Almeida, 1798: 172-173). Enfim, a putrefacção de África, decorrente do clima, das águas e dos seres vivos, estende-se a todo o seu território, mesmo aquele considerado mais salutífero. Essa corrupção é, em tudo, semelhante à encontrada por ele no sertão do Brasil. Ao logo da subida do Zambeze, a doença da filha e da mulher, atacadas “pela febre maligna podre”, recorda-lhe as que experimentou com António da Silva Pontes “na pestífera capitania de Mato Grosso” (Almeida, 1797-1798: 144). Sem os médicos portadores dos saberes da civilização, ele próprio foi obrigado a tratá-las com a experiência adquirida nessa região, sem conseguir salvar a mulher.
Todavia, apesar de expressar uma percepção negativa do espaço da América e de África, Lacerda e Almeida, depois de alguns anos na “civilizada” Europa, acaba por ser seduzido pela natureza desses continentes. Com efeito, tal como outros viajantes, ele experimenta simultaneamente sentimentos de repulsa e atracção pela natureza não domesticada que enfrenta enquanto viajante. E assim, no leito do Zambeze, perante a exuberância cénica da paisagem africana, a dado momento, ele reverte a imagem do penoso sertão brasileiro, emergente nos diários americanos:
A beleza do dia que sucedeu ao tenebroso de ontem, a largura do rio que corre represado entre margens de 4 e 5 braças de altura e a inumerável quantidade de patos, marrecas, ganços, garças e outras aves que pela variedade e beleza das cores das suas plumas alegravam os olhos e estavam aos bandos sobre as ilhas me fizeram recordar com saudades de outros semelhantes dias que passei nos vastíssimos sertões do Brasil, com total esquecimento dos incómodos que consigo trazem semelhantes viagens. (Almeida, 1797-1798: 141)
Desse modo, a representação do sertão como um espaço de aspereza, desconforto e vários perigos, construída durante a sua experiência americana, reconfigura-se na imagem de uma paisagem rememorável com a qual ele acaba por se identificar. É a terra paradisíaca, a natureza intocada pelo homem deixada no Brasil, que ele reencontra na vastidão das paisagens de África. Lacerda e Almeida revela, então, a sua apetência pela ciência no terreno, não por aquela que era feita nos gabinetes.
Entretanto, apesar dessa confissão, é ainda a humanização do território que constitui o seu foco central de interesse. E o governador demora-se no registo etnográfico das populações africanas ribeirinhas e na narração da colonização portuguesa. Com efeito, neste diário, e particularmente no que escreverá a caminho do Kazembe, a descrição dos africanos ocupa um lugar significativo. Ele retrata, por exemplo, os grupos que, à sua passagem, tocam música, que ele, aliás, considera “ horrenda e enfadonha trovoada, […] a ruina do universo” (Almeida, 1797-1798: 143).
A colonização portuguesa é encarada com grande criticismo, num olhar configurado pelas perspectivas iluministas, que o levam a salientar os reduzidos progressos da civilização num território colonizado há séculos. Lacerda e Almeida reprova os governadores seus antecessores, para quem remete a responsabilidade pelo atraso da colonização e subsequente civilização do território. A principal causa da “decadência”, acusa ele, “é a cega ambição e paixões particulares de quem tem governado estas capitanias” (Almeida, 1797-1798: 136; 148).
De igual modo, os moradores do território, tendo em mente os de S. Paulo, são considerados “levantados, desobedientes, e malcriados e de inimigos recíprocos do Estado e de Deus, de supersticiosos até ao último grau de perfeição, de invejosos, de ladrões” (Almeida, 1797-1798: 147). O governador censura, especialmente, os senhores dos prazos[7], sobre os quais afirma serem poucos “aqueles que se conteem nos justos limites da moderação e da probidade” (Almeida, 1797-1798: 149)[8]. Em particular, ele, que aceitava a escravatura, mostra-se um feroz crítico dos métodos de escravização utilizados nos Rios de Sena, indagando: “como pode prosperar esta colônia sendo o centro das injustiças, crueldades, barbaridades e impiedades?” (Almeida, 1797-1798: 159).
Reflectir sobre a colonização implica pensar como integrar esses súbditos no império. O governador dos Rios de Sena, ao descrever a colónia como fértil, evidencia o seu potencial no futuro, para que a rainha possa “dar as providencias necessárias para se fazer uma colônia florescente para o futuro; porque na verdade, destes rios se pode fazer, com tempo, despesa, forças e remessa de homens hábeis nas artes, um bom estabelecimento” (Almeida, 1798: 200; 148). Assim, a narração das potencialidades deste território, como dos males que o atingem, constitui um instrumento da sua transformação vindoura, visando a sua plena incorporação na civilização promovida pelo império português. No sentido de executar esse programa, ele começa logo a ensinar técnicas agrícolas e pecuárias aos moradores dos Rios de Sena, para melhorar a produção da colónia[9]. Transpondo para África as técnicas usadas em S. Paulo, o explorador transforma-se, assim, em agente de transculturações interimperiais. Com efeito, apesar de uma vincada identidade paulista, Lacerda e Almeida auto-representa-se como um actor do império português, concebido nos seus diferentes territórios como uma unidade política. Ele olha o território do vale do Zambeze no quadro do império português tendo como modelo o Brasil e, em particular, S. Paulo. Nessa moldura, a colónia africana surge num estádio anterior àquele já atingido pelo Brasil na sua marcha para a civilização. Mas, precisamente devido aos defeitos que ele encontra nos vassalos do vale do Zambeze, a intervenção da coroa e dos seus agentes faz-se aqui mais necessária.
Estas perspectivas sobre a colónia portuguesa afloram similarmente no último diário africano, o qual é preenchido pelas dificuldades da viagem e pela descrição de uma África interior e até então não noticiada para os europeus. A segunda viagem de Lacerda e Almeida desenhou-se num espaço dominado por chefaturas africanas, com condições completamente diversas daquele percorrido até Tete, integrado na capitania de Moçambique.
Ao contrário das anteriores jornadas feitas pelos rios, nesse percurso pelo interior africano, Lacerda e Almeida viaja por terra. A caravana tem de atravessar rios, ultrapassar montanhas e desbravar vegetação, rompendo um itinerário que, se já frequentado pelos africanos, não era familiar aos colonos que o tinham apoiado durante o primeiro itinerário africano. O explorador confronta-se com um território variado, onde depara ora com vales férteis e povoados, ora com vegetação difícil de penetrar, ora com trechos despovoados. A percepção do território africano não decorre apenas da dissemelhança desses espaços, mas também da tensão extrema que rodeia a viagem. Num percurso que transita na sua grande parte doente, Lacerda e Almeida, enquanto chefe da expedição, entra em conflito com os elementos da elite colonial e com os africanos que o acompanham, quanto ao modo de organizar a caravana, e tem de enfrentar a constante deserção dos carregadores e a falta de comida. Simultaneamente, ele desdobra-se nas suas actividades de cientista, determinando coordenadas e rumos, assinalando marcas de caminho, narrando terras e gentes (Rodrigues, 2011). As dificuldades em acertar no itinerário fornecido pelos seus informadores fazem-no lembrar-se das diligências infrutíferas no lago Xarais, no Mato Grosso (Almeida, 1798: 243).
Figura 3. Carta do Dr. Francisco Lacerda e Almeida comunicando ao governador de Moçambique o início da viagem para descobrir a possibilidade de comunicação ente as duas costas de África (Arquivo Histórico Ultramarino, Moçambique, cx. 81, doc. 49).
A percepção de Lacerda e Almeida sobre o território africano entre Tete e o Kazembe assenta na sua fertilidade ou esterilidade e na sua configuração política. Esses tópicos são centrais no discurso geográfico, pela sua relevância nos obstáculos que enfrenta a própria expedição e no êxito da passagem de futuros viajantes. Mas, essas condições são igualmente importantes para identificar as áreas por onde se poderá desenvolver o comércio, pelo que ele vai assinalando a existência ou a ausência das produções necessárias às trocas mercantis. O explorador salienta os troços do itinerário que são úberes e permitem a expansão da população. Assim, por exemplo, ele elogia os vales férteis e povoados nas terras dos maraves, antes da Java (Almeida, 1798: 208), enquanto vai mostrando os terrenos de boa qualidade próximos dos rios (v.g. Almeida, 1798: 235). São esses terrenos que permitem a instalação de homens e povoados: “Pelas seis horas e meia levantei campo, e saí a um alegre, e espaçoso vale, onde estão dispersas muitas povoações” (Almeida, 1798: 240). Todavia, em África, o homem tem de contar com outros concorrentes. Já perto da corte do mwata kazembe, ele depara com terras avaliadas como tão boas como as do Brasil, das quais, todavia, o homem foi expulso pelos leões (Almeida, 1798: 259).
Em contraste, durante a maior parte do percurso, Lacerda e Almeida vai marcando os locais onde o solo não consente a produção de alimentos, onde as aldeias são pobres e miseráveis: “O terreno que hoje passei é alto e pedregoso, as povoações pequenas, miseráveis, e famintas” (Almeida, 1798: 241; ver também 224; 257). De facto, é na jornada para o Kazembe que se evidenciam na África de Lacerda e Almeida os “lugares agrestes e tristes”, onde o mato domina e a vida animal quase se extingue, uma experiência que não sobressai no relato da jornada pelo pelas terras férteis do Zambeze. É esse espaço que exige o heroísmo do homem para o desbravar e para sofrer a doença e a fome:
Os arbustos que povoam estas terras, hoje foram tão bastos, que os cafres tiveram grande trabalho em os desbaratar em muitas partes para poderem passar as nossas carruagens. O despovoado deste lugar, a fome que vai sofrendo a gente, os pantanais, a abertura do caminho ou estrada, e muitas vezes a sede que sofremos, alem de tudo isto as minhas indisposições, febres, e muito frio que de noite faz, e o intenso calor do sol, tem ajudado a parecerem estes lugares agrestes e tristes. Se ao menos houvesse caça que suprisse a falta de milho, aves e pássaros, que lisonjeassem nossos ouvidos com seu canto, não se teria feito esta travessia tão enfadonha (Almeida, 1798: 244; ver também 255).
O itinerário até ao Kazembe é percebido como tendo persistentes trechos despovoados, os quais são qualificados como sertão: “Para não pôr a gente, que me acompanha na triste situação, de não ter de comer, nem mantimentos para passar três ou quatro dias de Sertão, não me purguei neste dia, e dei principio a atabafar as sezões com a quina” ( Almeida, 1798: 237). Enquanto categoria geográfica e social, o sertão identifica-se, então, aqui com os espaços não habitados, os tais que “pela sua aspereza, pedraria, secura e tristeza” afastam a “morada” do homem (Almeida, 1798: 240), não com todo o espaço interior, aquele que está também culturalmente afastado do litoral.
A territorialidade desta África está articulada com a soberania, pelo que Lacerda e Almeida associa os espaços por que vai passando aos chefes políticos. Nesse território, existem diferentes níveis de espacialização política, revelada, ao longo do diário, pela exploração das relações entre as várias chefias, que confirmam ou desmentem as informações que recolhera em Tete (Rodrigues, 2012).
As perspectivas sobre o território projectam-se sobre os seus habitantes de modo diverso daquele que desponta sobre os índios americanos. As apreciações sobre os africanos, os “cafres” do seu discurso, afastam-nos do homem civilizado e associam-nos à natureza, conforme a classificação lineana do homo afer (v.g. Eller, 2009:124). Segundo ele, os africanos são “homens que vivem inteiramente entregues à lei da corrupta e viciada natureza, e sem conhecimento da lei divina, ou humana, que reprima os estímulos da nossa vontade e liberdade” (Almeida, 1798: 205-206). Na sua perspectiva, eles têm falta de senso comum, o que os afasta de outros homens (Almeida, 1798: 217). Inevitavelmente, surgem as comparações com o Brasil. Face à resistência dos africanos ao seu modo de organizar a caravana, o explorador conclui que “diferem tanto estes cafres daqueles que estão na América, como o sol difere da lua” (Almeida, 1798: 227), para argumentar que eles são diligentes no Brasil e preguiçosos em África (Almeida, 1798: 233-234). Assim, os africanos que, na América, fazem parte da sociedade colonial transmutam-se no “outro” em África.
Apesar da distância que coloca entre esses homens que estão próximos da natureza e os civilizados, Lacerda e Almeida acabar por relativizar essa representação. Explorador de tantas paragens, ele consegue descentrar-se dos seus próprios referentes culturais, passando a reportar a diferença de costumes à cultura e, nessa medida, reconhecer uma cultura diversa aos africanos. Isso acontece, por exemplo, na avaliação que ele faz do modo como os africanos apreciam comer carne de cavalo-marinho, o hipopótamo que abunda nos rios:
Todos os cafres destes rios, e pelo que vejo deste interior de África os comem, e teem em grande estima, e tanto mais saborosa lhes é, em geral toda a carne, quanto mais corrupta está. Que poder não teem sobre nós a educação, os usos, costumes, e o exemplo! (Almeida, 1798: 239)
Noutra ocasião, ele remete para a influência do meio a razão de alguns “costumes” selvagens. Assim, consegue desculpar os bisas, alegadamente antropófagos, justificando que eles habitam territórios áridos e desprovidos de alimentos (Almeida, 1798: 248). O contexto da sociedade colonial dos Rios de Sena, nomeadamente o olhar crítico sobre a sua elite, leva-o mesmo a interrogar-se sobre a oposição ilustrada entre civilização e barbárie, associada respectivamente aos europeus, no caso portugueses, e aos africanos:
Atrevo-me a asseverar que os portugueses nesta colônia são mais bárbaros do que os cafres, porque estes obedecem às ordens do seu soberano com uma pontualidade capaz de servir de exemplo, e não se pode chamar bárbara uma nação que por falta de conhecimentos comete alguns erros, que são bárbaros entre as nações civilizadas, mas não entre eles, porque o fazem segundo os seus usos, costumes, leis e inteligência (Almeida, 1797-1798: 159).
Portanto, o binómio civilização e barbárie, caro aos iluministas (Duchet, 1995), surge, de certo modo, atenuado na narrativa do viajante, apesar de este conferir um sentido pejorativo aos selvagens. Lacerda e Almeida acaba por encontrar entre os africanos, pelo menos entre alguns africanos, qualidades inesperadas entre homens bárbaros. A ilustrar essa situação estão os casos do chefe Caperemera, que ele avalia como “bem apessoado, e dotado de graça natural” (Almeida, 1798: 227), ou do chefe Chipaco, cujo poder é assinalado pelas inúmeras caveiras penduradas, mas de quem ele afirma: “Agradeci-lhe a sua atenção e recado, que não esperava ouvir da boca de um cafre que somente tem visto cafres.” (Almeida, 1798: 251). Aparentemente, o facto de Lacerda e Almeida, partilhando uma cultura europeia, ser um americano e de ter contactado com culturas índias no Brasil leva-o a matizar essa oposição entre o civilizado e o bárbaro.
Figura 4. Folha 17 do roteiro da viagem de Tete ao Kazembe desenhada pelo Dr. Francisco Lacerda e Almeida (Arquivo Histórico Ultramarino: AHU_CARTm_064,D.545).
Assim, o sertão na África de Lacerda e Almeida assume um significado diverso daquele construído em relação ao Brasil. Nas terras africanas, circunscreve-se aos espaços áridos e despovoados, no caso, para lá da fronteira da colónia portuguesa, não a todo o interior do continente. Nem a ausência da acção da civilização europeia o conduz a estender neste diário a categoria de sertão aos territórios distantes da costa. Tal parece derivar do facto de o explorador não descobrir nos territórios colonizados pelos portugueses, a quem chega a considerar mais “bárbaros” do que os africanos, os progressos civilizacionais que encontra nos núcleos coloniais do Brasil, em particular em S. Paulo. Diluída essa diferença cultural construída entre o litoral e o sertão, tudo indica que Lacerda e Almeida não necessita de qualificar as terras distantes da costa como sertanejas. Mas isso não o levaria a considerar toda a África um imenso sertão? Talvez sim, se ele tivesse conseguido chegar ao litoral angolano e partir daí para a Europa. Porém, a tal questão, ele não teve tempo de responder.
Conclusão
Nos diários de Francisco José de Lacerda e Almeida emergem geografias imperiais variadas e fragmentadas, nas quais o sertão surge como categoria complexa. Note-se, antes de mais, que o designativo sertão surge muito raramente nos textos do explorador, embora possam ser encontrados aí vocábulos e expressões que remetem para a construção social dessa ideia no Brasil. Em Lacerda e Almeida, a categoria é multidimensional, desdobra-se em vários significados e é reconfigurada, ao longo de tempo, em função das múltiplas experiências do autor.
Num jogo de escalas, enquanto representação geográfica, tanto contém espaços delimitados, com características diferenciadas, como se reporta a uma extensão indefinida, porém, vasta. Na América, remete quer para florestas e pantanais, quer para todo o interior brasileiro, enquanto em África é aplicada apenas a regiões áridas e despovoadas. Paradoxalmente, a representação negativa associada à natureza do sertão brasileiro, acentuada enquanto espaço de doença e desconforto, reverte-se quando, depois de anos na Europa “civilizada”, o explorador encontra na África Oriental as paisagens que lhe fazem reviver a beleza do Brasil.
Mas, o sertão é, sobretudo, o espaço não modificado pelo homem, principalmente pelo homem civilizado europeu. Assim, nas suas dimensões social e cultural, emergentes nos diários brasileiros, a categoria sertão procede da demarcação hierárquica entre o mundo povoado, sedentarizado e “civilizado” do litoral e o interior, pouco povoado, nómada e “primitivo”. Nesse contexto, S. Paulo surge como o paradigma do mundo civilizado construído pelos colonos, os heróis paulistas, agentes leais da expansão imperial no sertão. Em contraste, aos colonizadores dos Rios de Sena faltam essas características de heroicidade, de civilidade e de lealdade à coroa. O explorador encontra-lhes comportamentos bárbaros, que os aproximam dos africanos. A hierarquia entre esses mundos do litoral e do sertão, tão viva no Brasil, dilui-se em África. A colónia oriental portuguesa surge, assim, como um Brasil ainda em esboço, eventualmente em construção.
Referências bibliográficas
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diário da viagem de Lisboa até a Vila de Barcelos, na capitania de S. José do Rio Negro. 1780. In HOLANDA, 1944: 1-9.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diário de viagem da vila de Barcelos até acima do forte de S. José de Marabitanas e também pelo rio Vaupes, 1780-1781. In HOLANDA, 1944: 11-16.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diário da vila de Barcelos à capital de Mato Grosso. 1781-1782. In HOLANDA, 1944: 17-32.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diário escrito no ano de 1786, por ordem do capitão-general de Mato Grosso, desde Vila Bela, pelos rios Jaurú e Paraguai, até ao Cuiabá. 1780. In HOLANDA, 1944: 33-57.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diário de Vila Bela até à cidade de São Paulo pela ordinária derrota dos rios. 1788-1790. In HOLANDA, 1944. 59-100.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Diario da viagem de Moçambique para os Rios de Sena. 1797-1798. In HOLANDA, 1944: 127-174.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Instruções e diário da viagem da vila de Tete, capital dos Rios de Sena para o interior da África. 1798. In HOLANDA, 1944:175-261.
ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Memória a respeito dos rios Baures, Branco, da Conceição, de S. Joaquim, Itonamas e Maxupo, e das três missões da Madalena, da Conceição e de São Joaquim. s.d. In HOLANDA, 1944: 109-126.
AMADO, Janaína. Região, sertão, nação. Estudos Históricos. Vol. 8, nº 5, 1995, p. 145-151.
BENTON, Lauren. A Search for Sovereignty. Law and Geography in European Empires, 1400-1900. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
BOURGUET, Marie-Noëlle. O explorador. In VOVELLE, Michel (dir.). O Homem do Iluminismo. Lisboa: Presença, 1997, p. 207-249.
CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da. As viagens são os viajantes: dimensões identitárias dos viajantes naturalistas brasileiros no século XVIII. História: Questões & Debates, nº 36, 2002, p. 61-98.
CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da. Verdades por mim vistas e observadas oxalá foram fábulas sonhadas. Cientistas brasileiros do setecentos, uma leitura auto-etnográfica. Tese de Doutoramento em História. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2004.
CUNNISON, I.. The Luapula Peoples of Northern Rhodesia. Custom and History in Tribal Politics. Manchester, 1959.
DOMINGUES, Ângela. Viagens de exploração geográfica na Amazónia em finais do século XVIII: política, ciência e aventura. Funchal: CEHA, 1991.
DUCHET, Michèle. Anthropologie et histoire au siècle des Lumières. Paris: Albin Michel. 1995.
EÇA, Filipe Gastão de Almeida de. Lacerda e Almeida. Escravo do dever e mártir da ciência (1753-1798). Lisboa, 1951.
ELLER, Jack David. Cultural Antropology: global forces, local lives. New York: Routledge. 2009.
GADENNE, Clotilde. L’Amazonie des voyageurs français (1840-1900): un regard sur le concept de sauvagerie. In Plural, Pluriel. Revue des cultures de langue portugaise. Nº 9, 2011. Disponível em: http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=category&id=81:numero-9-amazonies- (Consultado em 30.7.2012).
HOLANDA, Sérgio Buarque de (ed.). Diários de Viagem. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944.
MACOLA, Giacomo. The Kingdom of Kazembe: History and Politics in North-Eastern Zambia and Katanga to 1950. Hamburg: Lit, 2002.
MARTINS, Luísa Fernanda Guerreiro. Francisco José de Lacerda e Almeida, Travessias científicas e povos da África Central (1797-1884). Dissertação de Mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1997.
MOTA, Avelino Teixeira da. D. Luís da Cunha e a Carta da África Meridional de Bourguignon D’Anville (1725). Lisboa: JIU, 1962.
PEREIRA, Magnus Roberto de Mello e CRUZ, Ana Lúcia Rocha. Brasileiros a serviço do Império: a África vista por naturais do Brasil, no século XVIII. Revista Portuguesa de História, vol. 33, 1999, p. 153-190.
PEREIRA, Magnus Roberto de Mello e CRUZ, Ana Lúcia Rocha. A história de uma ausência: os colonos cientistas da América portuguesa na historiografia brasileira. In FRAGOSO, João, FLORENTINO, Manolo, JUCÁ, Antônio Carlos e CAMPOS, Adriana (org.). Nas rotas do Império: eixos mercantis, tráfico e relações sociais no mundo português. Vitória: EDUFES, 2006, p. 357-390.
PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 1999.
RAMINELLI, Ronald. Viagens Ultramarinas. Monarcas, vassalos e governo a distância. S. Paulo: Alameda, 2008.
RODRIGUES, Eugénia. La cartographie française et l’empire portugais dans l’océan Indien dans la première moitié du XVIIIe siècle. In The XIII International Seminar on Indo-Portuguese History. Aix-en-Provence: Université de Provence, 2010 (no prelo).
RODRIGUES, Eugénia. Ciência europeia e exploradores africanos : a viagem de Francisco José de Lacerda e Almeida ao Kazembe. Africana Studia, nº 16, 2011, p. 81-102.
RODRIGUES, Eugénia. Francisco José de Lacerda e Almeida: viagem e ciência na África Oriental (1797-1798). In PEREIRA, Magnus R. M. e RIBAS, André A. (eds.), Francisco José de Lacerda e Almeida: Um astrônomo paulista no sertão africano. Curitiba: Editora UFPR, 2012.
SANTOS, Maria Emília Madeira. Viagens de Exploração Terrestre dos Portugueses em África. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical, 1988.
[1] O tema tem sido tão tratado na historiografia brasileira que é impossível referir neste espaço todas essas obras. Um ponto da situação foi feito por J. Amado (1995), mas, desde então, os estudos não pararam de crescer.
[2] Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais portugueses através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do projecto PTDC/HIS-HIS/113654/2009, Terras Além dos Mares: Direitos de Propriedade no Império Português Moderno, coordenado por José Vicente Serrão, Instituto Universitário de Lisboa. Agradeço à Doutora Ana Canas, directora pelo Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), do Instituto de Investigação Científica Tropical, Portugal, a cedência das imagens que ilustram este artigo, as quais pertencem ao acervo desta instituição.
[3] Sobre o papel das missões de exploração geográfica na afirmação do prestígio das coroas europeias, ver Bourguet, 1997: 215-216.
[4] Sobre as expedições de demarcação, ver Domingues, 1991: 39-55; Raminelli, 2008: 74-75.
[5] Sobre as dimensões identitárias dos discursos dos viajantes no império português, ver Cruz, 2002.
[6] Veja-se o caso dos viajantes franceses no século XIX em Gadenne, 2012.
[7] Os prazos constituíam os territórios dominados pela coroa portuguesa na África Oriental, os quais eram concedidos em vidas a súbditos em troca de o pagamento de um foro e de vários serviços.
[8] Essa crítica estende-se por todo o diário, maxime p. 147-161.
[9] Por exemplo, ele ensinou os moradores de Quelimane a enxertar as árvores de fruto para melhorar a sua produção. De igual modo, exortou-os a aterrarem os currais para diminuir a mortalidade dos bovinos e a lavar os animais com água de tabaco para os livrar das carraças e poderem desenvolver o comércio de carnes, manteiga e queijo (Almeida, 1797-1798: 131-133).
|
Pour citer cet article:
RODRIGUES, Eugénia. «Viagens e geografias imperiais, do Brasil à África Oriental», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°11, automne-hiver 2012, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.
|


