Diana Mendes Machado da Silva [1][2]
Université de São Paulo (FFLCH)
I – Preâmbulo: o futebol chega a São Paulo
Quando o futebol chegou a São Paulo, no início do século XX, a cidade começava apenas a conhecer o impacto das transformações decorrentes de uma urbanização acelerada, do advento da República, do fim da escravidão e do desembarque de milhares de imigrantes em meio a um incipiente processo de industrialização. Recebido como um ícone de modernidade, o esporte encantou os paulistanos, que rapidamente organizaram associações esportivas e a elas dedicaram boa parte de seu tempo livre. Se no estrato social mais abastado da cidade houve a fundação do São Paulo Athletic Club em 1888 e do Clube Atlético Paulistano em 1900, no segmento dos mais pobres, o União Futebol Clube apresentava, em 1901, Formiga e Simão, um mulato e um negro que “formaram uma dupla de ataque muito conhecida” (Santos Neto, 2002: 53).
Segundo a Liga Paulista de Futebol, existiam no estado de São Paulo aproximadamente 2 mil clubes praticantes de futebol em 1914 envolvidos em jogos que somavam, apenas num domingo, 94 clubes, 188 times e 1.068 jogadores (Negreiros, 1992). Os números sugerem que o esporte foi amplamente difundido por e entre grupos sociais muito diferentes, contrariando certa visão da história brasileira na qual as elites figuram como as responsáveis pela concessão ou ampliação de bens e de direitos. Assim, muito embora Charles Miller, associado ao aristocrático São Paulo Athletic Club, tenha organizado as primeiras partidas de futebol oficialmente reconhecidas, outras tantas se realizaram paralelamente, ainda que sem reconhecimento de autoridades políticas ou da imprensa. Por possuir um caráter urbano e uma vocação não exclusivista, o futebol foi vivido por diversos setores sociais como um empreendimento coletivo marcado pelo entusiasmo e pelo engajamento, tornando-se, pela mesma razão, uma prática heterogênea e fragmentada.
O historiador Hilário Franco Júnior salienta a questão ao afirmar que nos primeiros anos do século XX havia ao menos duas concepções de futebol no Brasil. Na primeira delas, sob a influência de uma perspectiva europeia, valorizava-se no esporte a “harmonia dos músculos, a higienização dos corpos, a etiqueta, a coordenação dos movimentos e o controle da violência” (2008: 64). Acreditava-se que tais elementos concorressem para o fortalecimento moral e solidário dos futuros dirigentes do país. Já a segunda concepção baseava-se na experiência “de corpos acostumados ao trabalho braçal, aos folguedos das danças populares e a toda sorte de improvisação vinculada às precárias condições de vida que viriam a ser determinantes na sua maneira de jogar futebol” (2008:65). Sob as intensas transformações urbanas da cidade, esses grupos disputaram espaços e imagens vinculadas ao futebol e os corpos de seus praticantes foram depositários de boa parte delas. Nesse artigo serão explorados aspectos desse processo, com foco na prática popular que contribuiu de maneira definitiva para as práticas corporais e para as narrativas que conformaram uma cultura futebolística em São Paulo.
II – Entre canelas negras e sportmen: configurando identidades
A apropriação do futebol pelos mais diversos grupos em formação na cidade foi marcada pelas transformações decorrentes da passagem de um modo de vida rural para um urbano. O rápido crescimento de São Paulo alterara códigos de conduta e padrões de representação social, o que exigiu de seus habitantes a criação de estratégias para a reformulação de seus lugares sociais. No caso da elite agrária, que aos poucos abandonava as fazendas de café e se transferia para a cidade, tornou-se urgente a criação ou reordenação dos signos de sua distinção. Era preciso “repartir o espaço da cidade de forma anônima, mas sem deixar de exibir, pelo modo de aparição pública, suas identidades sociais” (Schpun,1999: 21).
Nesse sentido, o esporte foi incorporado por esse grupo como mais um dos elementos capazes de denotar seu diferencial, apresentando-o como algo que lhe era próprio. A cidade se modificava, mas o “passado escravista, ainda recente, palpitava nos tratos sociais e na atitude discricionária, peremptória”, diz Sevcenko (1992: 31). E a busca por diferenciação explicita as tentativas de afirmação de antigas hierarquias diante de contatos cada vez mais regulares com os populares na partilha do espaço citadino. Ao analisar algumas posições da incipiente imprensa esportiva nos primeiros anos do século XX, Santos Neto revela como as “atitudes discricionárias” ocorriam no futebol. Para ele, periódicos como O Estado de S. Paulo utilizaram sistematicamente o tom pejorativo para falar da prática esportiva pelos populares, expressando a intenção de distinguir dois universos futebolísticos
[…] para os primeiros jornalistas esportivos, assim como para os primeiros dirigentes, havia o “grande futebol”, o das elites, e o “pequeno futebol” [...] Uns eram os dignos representantes do nobre esporte bretão e os outros não estavam à altura do reconhecimento oficial e da igualdade na forma de tratamento. Os times populares eram vistos como brutos, incapazes de seguir as regras de conduta do futebol e dos gentlemen ingleses, e por várias vezes foram até mesmo ridicularizados pelas folhas como um bando de jogadores que davam chutões para o alto, sendo então chamados de “canelas negras” (2002, p.53).
Os canelas negras, representantes do pequeno futebol, eram desqualificados em seus gestos quando comparados aos praticantes do grande futebol: os aristocráticos sportmen. A suposta incapacidade dos primeiros em cumprir as regras de conduta do futebol sustentava a ideia de que os últimos seriam os legítimos representantes do esporte trazido da Europa, uma vez que apenas os seus gestos estariam de acordo com a etiqueta e com as regras que o organizavam. Condutas semelhantes marcaram a chegada do futebol na cidade do Rio de Janeiro:
[…] o primeiro número de um novo periódico lançado [na cidade] declarava solenemente que ‘o futebol é um esporte que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo. [Se formos] obrigados a jogar com um operário [...] a prática do esporte torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão (Apud Franco Jr., cit.:63).
Vale ressaltar que a seção de esportes de O Estado de S. Paulo foi, durante anos, chefiada pelo jornalista Mário Cardim, um dos fundadores do aristocrático Clube Atlético Paulistano. Nela eram frequentes os textos que comparavam os gestos dos grupos praticantes do esporte, numa evidente tentativa de hierarquização social com base em marcas corporais. Não se pode esquecer que se tornava cada vez mais difícil manter ativas as distinções associadas à ocupação do espaço urbano. Partilhar com os populares os territórios livres associados ao futebol parecia causar confusão sobre os lugares sociais de cada grupo. Recursos como pequenas notas na imprensa tornaram-se então cada vez mais frequentes para distinguir futebolistas de grupos sociais distintos que dividiam os mesmos espaços de jogo: “Um ‘ground’ em polvorosa – Na várzea[3] do Carmo, dois ‘times’ anônimos de menores desocupados se empenharam ontem às três e meia horas da tarde, num ‘match’ de ‘futebol’, com entusiasmo belicoso de dois cães na disputa de um osso” (Negreiros, cit.: 52). Anônimos, menores e desocupados eram os atributos a que mais recorriam os jornalistas quando se referiam aos praticantes do futebol “pequeno”. A ironia relacionada à partida e a analogia com o entusiasmo canino também merecem destaque: ao procurar desqualificar os corpos dos populares, desqualificava-se também a partida e o evento por eles organizado.
Afora o posicionamento apresentado em O Estado de S. Paulo, uma concreta separação espacial passou a ser empreendida por aqueles setores para evitar o indesejável compartilhamento de espaços públicos que a reconfiguração da cidade parecia possibilitar. Diferenças sociais foram então traduzidas em distâncias físicas. Quem primeiro conseguiu realizar tal tradução, já no ano de 1901, foi o Clube Atlético Paulistano, quando promoveu, “em conjunto com a prefeitura municipal, a transformação do Velódromo existente na cidade em campo de futebol” (Santos Neto, cit.: 49). Esse parece ter sido um dos primeiros passos rumo à separação e à especialização dos espaços de jogo da cidade com o apoio da administração municipal, que, não se pode deixar de notar, tinha entre seus membros sócios do Clube Atlético Paulistano, caso de Washington Luís, que viria a ser prefeito, e da abastada e influente família Prado.
Foi nesse contexto de progressivo abandono dos territórios livres pelos oligarcas que começou a circular a noção de futebol de várzea. A locução designava a prática dos times populares que continuaram a utilizar os espaços de vazão dos rios para suas partidas. A alcunha de varzeanos, que já circulava com claro conteúdo pejorativo nas primeiras décadas do novo século em referência àqueles que moravam na várzea ou que dela usufruíam, passa também a ser utilizada para se referir aos futebolistas populares. Embora essa e outras denominações fossem pejorativas, as camadas mais pobres da população, sobretudo moradores dos bairros da Barra Funda e do Bom Retiro, localizados na várzea do Rio Tietê, não as rejeitaram. Elas foram, ao contrário, por eles incorporadas e transformadas, tornando-se uma afirmação identitária corrente, prenhe de conteúdos novos que, já ao final dos anos 1920, assumia lugar de destaque na cidade.
III – A Associação Atlética Anhanguera: uma experiência associativa
Dentre as sociedades esportivas surgidas na várzea do Rio Tietê no início do século passado, a trajetória da Associação Atlética Anhanguera merece destaque. A despeito do desaparecimento dos clubes que sucumbiram diante da verticalização e especulação imobiliária da cidade, a associação mostrou uma rara capacidade de se preservar e de se renovar. Fundada em 1928 por ítalo-brasileiros, a associação materializava o desejo de um grupo de jovens de integrar a dinâmica futebolística que se espalhara por São Paulo. Buscando o domínio de uma cultura comum, encontraram no futebol não apenas uma forma de divertimento, mas de integração ao país de adoção. O esporte rapidamente tornou-se um elemento central no delicado jogo entre o desenraizamento e o enraizamento dos imigrantes que ocuparam os bairros suburbanos da cidade.
Reunidos numa alfaiataria alguns jovens deram início ao clube com o intuito de praticar o esporte e, após a reunião de fundação, uma série de exigências rapidamente a eles se impôs. Além das providências que envolviam a obtenção da licença para o funcionamento do clube, era necessário compor um considerável grupo de associados, eleger diretores e presidente, redigir os estatutos e, ainda, obter espaços para estabelecer uma sede social e uma sede esportiva. Tudo indica que eles buscavam reunir elementos para caracterizar a fundação de uma associação esportiva, e não de uma agremiação.
Embora essas duas designações fossem, em geral, utilizadas como sinônimas, alguma diferença as distanciava à época: segundo os órgãos estatais que regulavam as organizações civis para o lazer, a agremiação reunia os interessados na prática de apenas uma modalidade esportiva; já a associação, mais complexa, era organizada fundamentalmente a partir de interesses sociais, o que lhe impunha a missão de desenvolver outras atividades além dos esportes. Em verdade, as associações não eram modalidades de organização desconhecidas entre os imigrantes europeus instalados na várzea, sobretudo entre aqueles advindos da península itálica que, desde o fim do século XIX, vinham desenvolvendo
[…] um tecido muito denso de associações culturais, artísticas, [...] de ajuda mútua, além das escolas. Essa rede associativa, organizada segundo as diversas origens e sensibilidades políticas, liga-se não somente a uma grande circulação de jornais em língua estrangeira, mas também a uma comunicação intercomunitária (Schpun, 2007:74).
Nessas entidades circulavam os mais diversos interesses, desde “o combate ao alcoolismo, a luta contra os açambarcadores de alimentos ou o movimento pelo barateamento do preço dos aluguéis”, até a oferta de atividades como o teatro e a dança. Embora diversas, as “práticas recreativas, sindicais e esportivas não necessariamente se auto-excluíam e, em algumas ocasiões, se entrecruzavam no cotidiano dos trabalhadores — mantendo relações entre si e atuando de forma semelhante” (Siqueira, 2005: 78).
Foi, pois, em meio a essa atmosfera associativa que seus fundadores se mobilizaram para estabelecer a sede social e esportiva do clube, por exemplo. Algo conseguido após uma série de arranjos comerciais entre famílias que alugaram terrenos para o empreendimento e que custearam a construção do prédio que abrigaria a sede, elemento determinante para sua estabilidade e permanência no bairro.
O arranjo de endereços para os campos de futebol também dependia das relações de vizinhança. E o fato de haver na várzea da Barra Funda regiões sem nenhum arruamento – devido às características do terreno: alagadiço e argiloso – tornava simples a reunião de vários campos de futebol dispostos um ao lado do outro. Esse tipo de composição, aliás, não parecia incomum na região do Rio Tietê. O Sr. Amadeu, por exemplo, rememora que quando começou a jogar futebol, no início dos anos 1920, a cidade “tinha mais de mil campos de várzea. Na Vila Maria, no Canindé, na Várzea do Glicério, cada um tinha mais ou menos cinquenta campos de futebol. Barra Funda, Lapa, entre 20 e 25 campos”[4].
Sua descrição da paisagem varzeana e suburbana é preciosa, pois indica não apenas um tipo de ocupação e uso predominante desses terrenos, mas, sobretudo, o modo como se deu a apropriação física e simbólica do espaço da várzea por seus moradores. Tratava-se de um espaço fundamental no processo de enraizamento dos imigrantes à cidade, uma vez que a região central, urbana, lhes era hostil. Ao passo que no subúrbio, mesmo com as interferências reguladoras do poder público[5], havia espaço para o exercício lúdico do esporte definidor de suas identidades sociais.
IV – A sede social e as mulheres: controle sobre o corpo feminino
Espaço de encontro tão importante quanto o campo de futebol, a sede social era também o local no qual se tomavam decisões e se realizavam festas. Lá se reunia a presidência e os associados do clube garantindo, pelo encontro cotidiano, a unidade necessária para a manutenção da entidade. Tal como acontecia na sede esportiva, a presença feminina era solicitada ou permitida apenas em momentos específicos: festas e eventos públicos como os bailes. Frequentemente promovidos pelo clube e acrescidos do adjetivo “familiar”, os bailes adquiriram um caráter aglutinador e articulador ao promover o encontro de mulheres e homens, jovens e adultos. Por essa razão, tais ocasiões eram também as mais adequadas para a apresentação dos filhos “casadoiros” pelas famílias, o que parecia ser um expediente tão comum quanto eficaz, evidenciando como se mantinham os vínculos entre os ítalo-brasileiros no bairro.
É em meio a esse universo que se pode compreender o tipo de participação das mulheres em tais eventos coletivos e sociais organizados pela associação: eram integradas desde o momento da organização, trabalhando na venda e na entrega de convites ou na confecção de artefatos importantes para a associação: “a nossa admiradora, Srta. Nêna Tezzi, como prova de symphatia, pede uma autorização por escripto aos directores, a fim de vir buscar a nossa bandeira para executar outra idêntica”.[6] O batizado de novas bandeiras era um importante evento festivo que envolvia associados dos clubes e representantes de entidades a eles simpáticas que compareciam levando flores, entre outros presentes.
A participação feminina nesse gênero de atividade era estimulada pelos dirigentes do clube, que tinham o costume de retribuir presentes ou dedicação com o reconhecimento público, conforme também registrado nas atas da associação logo após o pedido da Srta. Nêna: “o presidente faz um voto de agradecimento às senhoritas admiradoras”[7]. Não se pode deixar de notar a formalidade desse mútuo tratamento. Ao chamar de “admiradora” a moça solicitante, ao classificar seu trabalho como prova de “simpatia” à associação e, mais importante, ao se comunicar com ela “por escrito”, o presidente indicava também qual era o comportamento ali instituído para as mulheres. Integradas ao clube como parte da família do associado, o que as dispensava de figurar individualmente como sócias, às mulheres não se ofertavam atividades esportivas; diferentemente do que se passava nos clubes de elite que mantinham modalidades atléticas em que a participação feminina era estimulada, como o tênis e a natação (Schpun, 2007).
Essa forma restritiva e altamente controlada de participação na vida associativa do Anhanguera ajuda a compreender por que a presença de damas solteiras nos bailes promovidos pela associação nunca foi bem vista, à exceção, evidentemente, das jovens “casadoiras” acompanhadas de seus pais. A preocupação com o comportamento feminino ocupava boa parte das assembleias que sucediam aos bailes realizados aos sábados e domingos; diretoria e presidência buscavam regras e sanções para reduzir condutas consideradas inadequadas ao bom andamento desses eventos sociais. Uma delas foi relatada pelos diretores sociais em novembro de 1929: um associado tomara a iniciativa de retirar uma mulher suspeita do baile e, em seguida, ainda teria dito que “as moças que frequenta[vam] a sociedade eram piores do que a referida mulher”[8]. Diante do evento, “o senhor presidente achou que seria útil suspender o dito senhor por 30 dias”.[9] É desse tipo de situação que sobrevinha a centralidade da figura do mestre-sala no clube. Espécie de articulador e regulador de comportamentos dos convivas em festas ou bailes, ele mediava tensões como a descrita. Era, por exemplo, o responsável por indicar a possibilidade de dançar ou não com as damas, além de tecer recomendações sobre o devido contato com elas durante os bailes.
Não se pode esquecer que naquele momento a cidade de São Paulo vivia as ambiguidades da progressiva adoção de novos costumes pelas mulheres: de um lado, maior individualização e integração com o espaço urbano, algo possível pela massiva entrada no mercado de trabalho; de outro, a manutenção da imagem social que a colocava como pilar da família. Segundo Schpun:
Diante dessa nova dinâmica, códigos sexuados despontaram, atravessando o processo de urbanização paulistano, acrescentando-lhe assimetrias consideráveis. Trata-se, então, de gerir a presença física de homens e mulheres. Em relação às mulheres, o aparecer em público demanda um trabalho constante, cotidiano e minucioso sobre a aparência; trabalho prévio à sua entrada, extremamente ritualizada, no espaço da cidade (op. cit., p.78).
É nesse sentido que se pode compreender a centralidade das atividades sociais no cotidiano do clube, bem como o tipo de participação, sob tantas regras específicas, previsto para as mulheres durante os anos 1930. Os valores vinculados à família eram elementos caros à identidade e à dinâmica de diferentes entidades associativas à época pelo reforço da noção de pertencimento à comunidade imigrante. Ao figurarem como representantes da família, as mulheres – seus corpos e sua sociabilidade – eram fonte de preocupação e controle. Assim, parecia necessário “que se radicalizasse o cerco [...] diante da ameaça da destruição dos valores morais tradicionais trazida pelo feminismo, com suas reivindicações de direitos” (Rago, 2004: 402).
A interdição do esporte às mulheres nas associações esportivas populares parece ser uma resposta a tal ameaça, recurso que mantinha semelhança com a política pública de educação e saúde do governo Vargas[10]. Ao mesmo tempo, uma sociabilidade propriamente masculina se desenrolava a partir de outros preceitos, muito menos restritivos, em espaços e momentos diferenciados. Fundamentalmente ancorada no convívio cotidiano entre associados, ela se iniciava em momentos complementares às partidas de futebol e se estendia final de semana afora.
V – A passatella, os bares e os homens
Nas sextas-feiras à noite, a diretoria esportiva do Anhanguera fazia a escalação dos times de futebol de 1º e 2º quadros e a “pendurava no mural ao lado do painel de fotografias dos associados”[11]. O costume reunia os sócio-jogadores na sede social para “saber quem ia jogar no domingo contra o adversário”, rememora William Sandonato, ex-presidente da associação. “Todo mundo ficava na sede [...] jogando baralho, truco e aqueles jogos italianos”[12]. Os jogos italianos aos quais Sandonato se refere são a passatella e a morra, que ocupam lugar de destaque nas lembranças dos veteranos entrevistados, embora a boccia, a tômbola e outros jogos de salão também figurassem como passatempos importantes na rotina no clube.
Em geral classificados como jogos de estratégia ou de azar, a passatella e a morra chegaram ao Brasil com os primeiros imigrantes, ao mesmo tempo em que sofriam uma série de restrições em toda a península itálica até serem definitivamente proibidas na década de 1920, principalmente na região centro-sul, onde ainda eram jogadas em tavernas[13]. Os jogos possuíam base comum e não raramente apareciam combinados:
A passatella é um jogo que se joga em tavernas, em que um padrone[14] e um sottopadrone (ou simplesmente sotto) – distribuem um vinho comprado coletivamente aos bebedores da companhia, a todos, exceto um que fica de “boca seca”, sem beber nada. O padrone, que pode tomar vinho à vontade, é escolhido com o jogo da morra, um jogo de baralho [...] na realidade não é possível falar de passatella em termos absolutos, mas de diversas passatella de vários territórios do centro-sul da Itália que, no curso dos séculos, deram origem a jogos com características diferentes.[15]
Todos os participantes deveriam fazer parte do rateio da compra da bebida em questão: na Itália, o vinho; em São Paulo, o conhaque e, principalmente, a cerveja. Jogos como a passatella, a morra e mesmo outros jogos de baralho foram muito praticados dentro de associações esportivas como o Anhanguera, ainda que elas se preocupassem “em funcionar dentro dos limites do legalmente permitido”[16], procurando “realizar somente atividades lícitas e regulamentadas pelas leis”[17]. Em verdade, os associados buscavam, ao menos aos olhos da polícia, desvencilhar-se de práticas condenadas e perseguidas – como os jogos ilegais e os bailes populares que ocorriam em botequins e cortiços da cidade, muitas vezes sem a permissão policial. Buscavam, dessa forma, facilitar a obtenção de alvará para seu funcionamento e maior liberdade de atuação diante da fiscalização das autoridades policiais. No entanto, nem todas as agremiações que solicitavam autorização policial sabiam quais jogos de fato eram permitidos[18].
De todo modo, esses jogos continuaram a ser praticados até pelo menos os anos 1960, sendo elementos centrais da sociabilidade dos associados do Anhanguera. Vinculados às bebidas, à companhia de colegas e amigos, eles compunham um cotidiano centrado nos bares. Como a sede social do clube era localizada na Rua Anhanguera, onde havia a parada final de uma linha de bondes com descida obrigatória de passageiros, o volume de homens voltando para casa após a jornada de trabalho explica a concentração de bares no local. Havia “dez bares da porteira até aqui”, conta Sandonato ao indicar com as mãos o trecho entre a Rua Anhanguera e as porteiras da ferrovia Sorocabana. Três deles tornaram-se conhecidos pelas alcunhas Fecha nunca, Nunca fecha e Sempre aberto, pois se revezavam em feriados e datas comemorativas para atender a clientela do bairro, de modo que ao menos um deles permanecia funcionando. Além dos bares, as “vendas” localizadas na região também serviam de ponto de encontro no bairro. Segundo Sandonato, uma delas, chamada Gianotti, foi responsável pelo surgimento de um famoso bloco de carnaval nos idos dos anos 1940:
Eu era moleque, nem ia no Anhanguera ainda [e] pra cá tinha um bloco que inventaram: “Morro de fome, mas não trabalho”. Todo ano morria um. Todo ano saía uma encrenca [...] eles eram todos pinguços [...] era a turma que ficava no bar todo dia... Não trabalhavam... Eles iam pra cidade e voltava a notícia de que tinha acabado um... Então colocaram “Morro de fome, mas não trabalho”.[19]
O lema ironiza os valores do trabalho defendidos desde a chegada das primeiras gerações de imigrantes à região, apresentando a percepção de ítalo-brasileiros e outros suburbanos diante de sua condição no contexto de transformações da cidade a partir dos anos 1930. Ao mesmo tempo, ele revela a centralidade do contratempo do trabalho vivido nos bares, em que a vida boêmia passa a exercer enorme fascínio como
lugar de evasão, do diletantismo, dos prazeres, da possibilidade de escapar à normatividade da vida cotidiana que progressivamente se instaurava [...] o público masculino era o maior beneficiado com as transformações da geografia do prazer (Rago, 2004: 397).
Essa sociabilidade passava, pois, por práticas e significados compartilhados a partir da negação da ordem do mundo do trabalho. Nota-se que os momentos de partilha do clube ofereciam nome e visibilidade social a cada associado em diálogo com os perfis sociais desejados pela comunidade. O futebol foi incorporado a essa rica vida associativa e seu conjunto de práticas comunitárias e ‘pré-modernas’ investiu o esporte de conteúdos bastante singulares.
VI – O corpo masculino no futebol popular: usos e representações
Uma nova sensibilidade que tinha na ação corporal uma de suas principais significações e no futebol um de seus principais ícones influenciava profundamente as associações esportivas da cidade de São Paulo. Tornava-se imperioso tomar parte na dinâmica de um esporte que figurava como a base de um amplo diálogo na cidade. Desse modo, embora mantivesse atividades cotidianas de recreação ‘pré-moderna’, o clube Anhanguera se organizou principalmente para manter times de futebol. Seus associados eram jovens e sensíveis à notabilidade obtida por esportistas que possuíam destacado desempenho. Seja pelo prazer, pela popularidade, ou mesmo por eventuais ganhos financeiros, eles engajaram-se de maneira intensa na cultura física que se formava na cidade. Os clubes, por sua vez, ofereciam estrutura para atender seus associados conforme seu desempenho e faixa etária ao se integrar à rede responsável pelos jogos amistosos, campeonatos e festivais.
A imprensa esportiva, bastante atenta a esse movimento, anunciava em suas folhas esses eventos, caracterizando e valorizando seu cotidiano. É por seu intermédio que se pode, por exemplo, notar a construção de um universo varzeano bastante adequado ao modelo oficial de futebol. O que significava reportar, em nome da tradição, vários costumes dos jogadores de várzea, mesmo aqueles que colocava em cheque tal adequação:
[...] o campeão no. 1 da várzea paulistana perdeu para o Andarahy F.C. na própria cancha da Penha. Uma batalha entre quadros genuínos representantes do soccer de terra-batida. Enthusiasmo épico. Houve até o sururu, tão ao sabor carioca, entremeado de tabefes e arranhadellas pela cara. [...] já foi lemma, nos campos da várzea, os rolos de grande calibre. Antigamente, jogo algum tinha importância si, entrechocar da refrega, não se registrasse o escandaloso barulho do corre-corre. A pittoresca fuga com as roupas nas mãos [...] era comum ouvir-se nos meios torcedores, finda a partida [...] gente molle, sem sangue! Si fosse comnosco, lá no buraco da onça (onde se situava o campo do cujo), amassávamos esse pessoal em três tempos[20].
A Gazeta tratava então os famosos e comuns confrontos físicos como coisa do passado, a ser apenas lembrada. Afora sururus, ela também reportava as viradas:
que delícia, uma virada [...] era de vel-a. Geralmente ella se apresentava no seu extremado nervosismo, ao final de uma partida. Era de vel-a porque hoje não há mais viradas. A intolerância do código apeano acabou com a virada... essa famosa virada constituía a buliçosa esperança de uma torcida [...] não exprimia, em absoluto, recurso technico. Não se tratava de exhibição de uma energia industriadamente accumulada no tempo inicial para ser aproveitada em último arranco. Energia existia, sim. Mas energia caracterizada pelos desdobramentos dos membros que se projectavam pelo corpo do adversário [...] não era mais que a prática do futebol canella, do futebol velho.[21]
Além de revelar em que consistiam as viradas – confrontos ocorridos ao final das partidas, provavelmente em face de resultados desfavoráveis –, o artigo oferece elementos para compreender o que representava o futebol velho para o articulista e para o periódico: uma forma de empenhar energia que não exprimia recurso técnico, isto é, tratava-se de energia física não controlada, tal como os gestos dos canelas negras, denunciando certas permanências discursivas dos jornalistas esportivos em relação aos populares. O texto assumia, ainda, um tom didático ao afirmar o que significava tomar parte em viradas e ao descrever como se deveria proceder caso elas voltassem a acontecer:
o regulamento das penas acabou com as viradas [...] reprimida, pois, e com elegância a manifestação da virada que tingia sempre de vermelho delirante as canellas dos artistas. [...] a polícia, segundo consta, e com sólidos fundamentos, está seriamente empenhada em punir com rigor os perturbadores da ordem nos campos de futebol. [...] estão, pois, avisados, os que ainda acreditam em viradas.[22]
Ou seja, praticar o futebol com virada tornara-se caso de polícia. Além da referência ao controle dos corpos dos varzeanos, há outros dois aspectos interessantes na oposição entre o velho e o novo futebol apresentada pelo periódico. O primeiro deles é que o novo estava identificado com um padrão de gestos futebolísticos baseado em técnicas modernas; o segundo consiste na referência ao rebuliço da torcida, sempre ansiosa por uma virada, indicando a cumplicidade entre torcedores e jogadores em relação aos sentidos de uma partida. A Gazeta também noticiou eventos como o casados contra solteiros, ainda que tentasse reduzir o impacto que a modalidade representava no bairro:
realiza-se hoje, às 8 da manhã, no campo dos Dragões Paulistas F.C., o ansiosamente esperado encontro futebolístico entre as ‘adestradíssimas’ turmas de Casados e Solteiros do [bloco dos vinte e um]. Em disputa, um barril contendo 50 litros de chopps, da Antarctica.[23]
O uso do superlativo não deixa dúvidas quanto à tentativa de alterar a conotação do volume de chopp disputado na partida, o que provavelmente seria partilhado em um dos bares do bairro. Os casos exemplificam a maneira pela qual o periódico esportivo apresentou o futebol popular numa clara tentativa de reabilitar sua imagem.
Os anos 1930, sobretudo sua primeira metade, representaram o momento em que a imprensa esportiva, liderada por A Gazeta Esportiva, iniciou a produção de um novo discurso em sua busca pelo futebol popular e moderno com o qual desejava estar identificada. Tal processo se deu a partir da apropriação de práticas e valores construídos na várzea, algo reportado por jornalistas e, sobretudo, pelos próprios varzeanos. Essa é a razão pela qual circulava em suas folhas mesmo aquilo que ela reprovava, como os costumeiros confrontos físicos. É, pois, por meio da imprensa esportiva que se pode entrever como, no futebol popular, os corpos eram utilizados e representados. Apresentar sururus e viradas como coisas do passado tornou-se, então, uma solução para equilibrar a tradição e a modernização necessárias à imagem que se queria da várzea, à qual o periódico se referiu, ainda em 1930, da seguinte maneira:
[…] ao futebol varzeano devemos prestar toda assistencia possível porque com elle surgirá uma mocidade forte e sadia, culta nos limites do possível e patriótica, que saberá formar a ala defensiva de nossa nacionalidade. A varzea, além de dar a nota da sensação do actual momento esportivo, está fadada a ser ainda um dos grandes factores da nossa cultura, pois é preparando bem os alicerces – o povo representado em sua classe modesta – que teremos uma construção majestosa e deveras notável.[24]
O excerto sintetiza o modo como A Gazeta Esportiva se posicionou diante do futebol popular. Diferentemente do que realizara anos antes O Estado de São Paulo, (interessado em trazer para o futebol velhas hierarquias sociais), a folha procurava habilitar certas camadas da população, sobretudo imigrantes, para integrá-los ao projeto político que colocava São Paulo como protagonista da modernização do Brasil nos anos 1930. Situação que se desdobraria nas imagens por ela difundidas sobre o futebol por eles praticado. Nele se concentrariam os talentos e a garra de um futebol novo, livre e criativo. É desse universo que advém a imagem de que a várzea, celeiro natural de craques, fornecia os melhores jogadores para o futebol profissional.
Considerações finais
Ao acompanhar momentos da trajetória da Associação Atlética Anhanguera foi possível notar como as transformações socioculturais de São Paulo influenciaram a apropriação do futebol pelos populares. Notou-se ainda que os usos e as representações do corpo no segmento popular (e imigrante) auxiliaram tanto na construção de preconceitos e critérios de exclusão quanto na formação de uma identidade que, ao final, acabou por se tornar a base de um regionalismo paulistano que obscurecia as desigualdades entre grupos sociais tão diversos, bem como suas disputas pelo espaço da cidade.
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[1] Uma versão desse artigo foi apresentada no XXVIII Simpósio da Associação Nacional de História, em julho de 2015 e consta nos anais do evento.
[2] Doutoranda e Mestre em História Social pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Integrante do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre futebol e outras modalidades lúdicas (LUDENS/USP) e do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol (GIEF/CNPQ). Correio eletrônico: dianamendes@usp.br.
[3] Espaço de vazão dos rios durante as cheias, as várzeas dos rios de São Paulo foram, até o fim dos anos 1930, espaços de livre circulação e ocupação tornando-se, posteriormente, foco de preocupação do poder público tanto pela crença da difusão de doenças miasmáticas quanto pela possibilidade de sua valorização pela iniciativa privada.
[4] Depoimento do Sr. Amadeu (BOSI, 2008: 138).
[5] Como o Plano de Avenidas concebido em 1930 pelo engenheiro Francisco Prestes Maia, que, em contraste com o posicionamento do também engenheiro e então prefeito Anhaia Mello, criou as condições para a expansão horizontal da cidade. Esta seria reordenada a partir de modelo urbanístico inspirado num sistema radial e perimetral de avenidas, com o objetivo de descentralizar o setor comercial e de serviços e distribuir a circulação por ruas secundárias, ampliando a fluidez no tráfico (Sevcenko, 1992).
[6] Atas da Associação Atlética Anhanguera, 9 set. 1929.
[7] Atas da Associação Atlética Anhanguera, 16 set. 1929.
[8] Atas da Associação Anhanguera, 5 nov. 1928.
[9] Ibid.
[10] Conforme o artigo 54 do decreto de 14 de abril de 1940: “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”.
[11] Entrevista com o Sr. William João Sandonato, realizada em 23 de maio de 2010.
[12] Ibid.
[13] VENDITTI, Antonio. Un’istituzione romana: il gioco della Passatella. Disponível em: specchioromano.it/fondamentali/Lespigolature/2003/GENNAIO/Un%E2%80%99istituzione%20romana%20-%20%20il%20gioco%20della%20Passatella.htm>. Acesso em: 16 abr. 2012.
[14] Literalmente dono.
[15] DI RISIO, Donato. Il Manuale della Passatella. Roma: Prospettiva Editrice, 2003, tradução nossa.
[16] SIQUEIRA, Uassyr de. Clubes recreativos..., cit.: 280. A preocupação do poder público com tal sociabilidade traduzia-se numa defesa de alternativas “de recreação para os trabalhadores, como jardins e clubes esportivos, tendo em vista retirá-los dos bares, botequins, cabarés e associações políticas” (RAGO, 2004: 418).
[17] Ibid.
[18] Ibid.
[19] Entrevista com Cirilo Magalhães, realizada em 12 de fevereiro de 2011.
[20] A Gazeta Esportiva, 17 ago. 1930.
[21] Ibid., 24 ago. 1930.
[22] Ibid.
[23] A Gazeta Esportiva, 10 ago. 1930.
[24] A Gazeta Esportiva, 24 ago. 1930.
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Pour citer cet article: SILVA, Diana Mendes Machado da. «Corpo e sociabilidade no futebol popular de São Paulo no início do século XX: o caso da Associação Atlética Anhanguera», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°13, automne-hiver 2015, [En ligne] URL:www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504. |