Entrevista de David Brookshaw
Université Paris Ouest Nanterre La Défense
EA 369 « Etudes Romanes » - CRILUS
Durante a realização de uma tese de Mestrado, apresentada na Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense em Junho de 2006, sob o título « L’articulation entre le topos et l’identité dans la littérature de Macao en langue portugaise », foi-me concedida, pelo Professor David Brookshaw, uma entrevista, realizada na Inglaterra, em março de 2006. Professor em estudos luso-brasileiros na Universidade de Bristol (U.K), David Brookshaw publicou artigos sobre literatura brasileira e literatura africana de expressão portuguesa no período colonial e pós-colonial. Mais recentemente, publicou o livro Border Gates : Perceptions os China and Modern Portuguese Literature[1], estudo crítico sobre a literatura portuguesa com referência a Macau, e Visions of China – Stories from Macau[2], contos e crónicas de autores portugueses e macaenses traduzidos em inglês por David Brookshaw. Esse encontro com o Professor David Brookshaw forneceu pistas de pesquisa pertinentes relativamente à produção literária do território e à identidade macaense.
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Vanessa Sérgio - O senhor acha que existe um mercado editorial em Macau ? Gostaria de saber a que tipo de público se dirigem os escritores de Macau. Quem lê os escritores de Macau que escrevem em português, quer em Macau quer no estrangeiro ?
David Brookshaw - Trata-se de um público de leitores muito restrito, já que há tão poucos portugueses em Macau[3], tão poucas pessoas em Macau que falam ou lêem o português, portanto, a existência de uma literatura em Macau sempre foi, pelo menos nas duas décadas ou na década antes da transferência de poder[4], uma literatura subsidiada, e, de certa forma, uma literatura feita por portugueses que trabalhavam em Macau, e que queriam escrever sobre Macau. Nesse aspecto, parece um pouco com a literatura que surgiu nos anos sessenta em Angola e em Moçambique, quer dizer, uma literatura que tenta marcar ou garantir uma presença da língua portuguesa em Macau, depois do handover. Outro problema, que não é limitado a Macau e Portugal, é a circulação de livros dentro do espaço lusófono. Conseguir livros brasileiros em Portugal é difícil, conseguir livros portugueses no Brasil também não é sempre muito fácil, e quanto à literatura africana, há livros publicados em Angola e em Moçambique que não se encontram em Portugal. Se não forem publicados pela Caminho ou pela D. Quixote[5], dificilmente aparecem em Portugal. Portanto, restringem-se a um círculo de especialistas e a pessoas que têm contacto, que têm interesse por aquilo, portanto, há um problema de distribuição dos livros. Eu não sei se há um critério também de qualidade literária: se surgisse um escritor de Macau altamente original, talvez encontraria uma editora em Portugal.
V.S. Estas questões têm a ver com a ausência de crítica literária respectivamente à literatura de Macau de língua portuguesa ?
D.B. Há poucos críticos: a crítica já surgiu em Portugal em relação à literatura africana e também há críticos literários moçambicanos e angolanos. Não acontece em Macau porque há tão poucos escritores, e não há escritores novos. Senna Fernandes, por exemplo, está muito consciente de ser um caso único, realmente, um romancista que escreve livros profundamente enraizados na realidade de um mundo macaense. E não há escritores na geração mais nova que escrevem em português, que se saiba. Nisso, talvez as instituições educativas tenham um papel a desempenhar em Macau, estou pensando na escola portuguesa de Macau e na Universidade de Macau. O Departamento de Inglês da Universidade de Macau tem um programa de escrita, o que nós chamamos em inglês de creative writing que encoraja os estudantes de inglês a escrever contos, poemas, qualquer coisa que se relacione com a vida contemporânea, com a vida quotidiana deles. Seria interessante fazer isso (ou talvez façam, não sei), no Departamento de Português, por exemplo. Porque é preciso ter pessoas que queiram escrever em português, que queiram utilizar a língua portuguesa. Será sempre uma minoria porque a grande maioria da população em Macau é de língua chinesa[6], de língua materna chinesa, escrevem em chinês. Há um jornalismo chinês, claro, em Macau, e há muito mais pessoas que lêem chinês do que português[7] em Macau. Portanto, sempre será uma minoria mas…
V.S. Esta questão está também ligada ao ensino do português ?
D.B. O ensino do português não poderia deixar de ser fraco, nem sei se poderia ter sido mais empenhado. O problema sempre foi que Macau era um território muito distante de Portugal. O território mais isolado, não falemos em Timor … Talvez não fizesse parte das prioridades portuguesas, pelo menos no século XX. Foi uma espécie de relíquia do século XVI, que por alguma razão, ficou como território sob administração portuguesa. Foi sempre um espaço de transição, com muitos refugiados, muitas pessoas que vinham da China e depois iam para outros lugares. Migravam para os Estados Unidos ou para o Canadá, para a Austrália. Muitos macaenses[8], também macaenses e chineses de Macau, ou chineses que vinham de outras partes da China, passavam por Macau e iam para esses países. Portanto, há uma diáspora macaense que tem uma memória muito fraca do português, e começaram a utilizar outras línguas, por exemplo, o inglês. Entre esses escritores, ou pessoas que publicaram livros na diáspora em inglês, há o caso interessante de Brian de Castro, um australiano, de “ascendência portuguesa”, entre aspas, consciente dessa herança e familiarizado com escritores portugueses como Saramago, Pessoa. Mas, escreve em inglês, escreve sobre a Austrália, sobre a presença chinesa na Austrália. Macau é um caso muito complicado: está virado para outro mundo. Associamos geralmente a lusofonia com o espaço atlântico : Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde. Macau representa um desafio à lusofonia. Talvez Timor ajude porque Timor, claro, reintroduziu o português depois da independência e existem fortes ligações entre Macau e Timor que vêm dos velhos tempos.
V.S. A problemática do meu estudo interroga a oposição entre espaço físico e espaço das palavras. O Macau descrito na literatura produzida em Macau, em língua portuguesa, será um Macau anacrónico, desaparecido, que pertence ao passado ou a uma memória colectiva propriamente macaense ?
D.B. Os contos e os romances de Senna Fernandes[9], que é o caso emblemático, referem-se ao Macau já do passado ou da juventude do próprio escritor. Relembram com afectividade um Macau talvez mais seguro. Como muitos macaenses, o autor considerava a possibilidade de uma “transferência de soberania” entre Portugal e a China, como uma ruptura e, na realidade, as coisas continuaram, mais ou menos na mesma. Macau tem uma especial autonomia garantida pelo menos até metade do século XXI[10], e talvez continue depois, não se sabe. Portanto, a transferência talvez não tenha representado tudo o que poderia ter significado, mas mesmo assim, Senna Fernandes é um escritor enraizado na memória de um Macau do princípio do século XX ou da primeira metade do século XX. Não há escritores, que eu conheça pelo menos, que focalizam o Macau contemporâneo, a não ser João Aguiar cujo último romance é situado em Macau pós 99[11]. E talvez haja mais um. Mas o próprio Aguiar não focaliza o Macau como Senna Fernandes o faria porque é uma pessoa de fora, é um português que tem, sem dúvida, uma compreensão da situação de Macau, mas trata-se essencialmente da visão pessoal de um português.
V.S. Podemos considerar o Macau descrito como mito pictórico, ou seja, um Macau fora do tempo, e que só vive e permanece no imaginário dos escritores macaenses ?
D.B. Até agora, talvez sim. Macau é um pouco como aqueles antigos postais a preto e branco, há uma espécie de literatura que vê Macau assim. Seria um desafio evocar o Macau que ainda tem aquelas qualidades tradicionais, mas é também uma cidade fascinante, uma cidade moderna, que se transforma e que se transformou muito desde 1999, com a entrada por exemplo das empresas de jogo norte-americanas e a construção de novos casinos, e a própria expansão de Macau quer dizer aquele espaço entre as ilhas de Coloane e Taipa que está sendo preenchido… Toda uma nova cidade está surgindo, portanto, um processo novo que aguardamos na escrita.
V.S. Vi um documentário sobre o Macau de hoje e fiquei um pouco desiludida com os aranha-céus, os casinos, a prostituição, coisas desse género, drogas…
D.B. Macau sempre teve essa fama, sempre teve aquela aura de decadência, um pouco romântica, era um lugar onde não se faziam as coisas legalmente, uma zona de prostituição, de jogo, fumar ópio, tudo... Sendo uma colónia de um país sul-europeu, sempre teve aquela aura, mas há outras coisas em Macau, é um mundo, como o Senna Fernandes diz, quer dizer aquilo é só um aspecto, e muitas vezes, é esse aspecto que atrai hoje as comunicações de massa. É um estereótipo mas Macau também é um centro cultural, com um centro histórico, ainda relativamente bem conservado. Portanto, há o passado mas também há uma modernidade em Macau, que nenhum escritor realmente conseguiu evocar. O último romance, o romance que o Senna Fernandes estava escrevendo para ‘5 livros/5 anos’[12], acho que se passa em Macau, nos anos sessenta, portanto, ele já avançou algumas décadas. Seria interessante ver como aquilo sai[13].
V.S. O espaço descrito pelo escritor macaense sendo bastante idealizado e influenciado por uma memória colectiva, como pode se construir a paisagem macaense no sentido simbólico, quer dizer, existem símbolos próprios à comunidade macaense ?
D.B. Acho que há, entre os macaenses, a memória de um tempo talvez ligado à infância, talvez à juventude, de um Macau mais sossegado, uma cidade mais provinciana, e existem, digamos ex-libris daquele Macau, por exemplo, a Avenida da Praia Grande, a avenida à borda da água, agora completamente fechada por aterros, ainda existe a avenida mas já não é uma avenida marginal, nem uma avenida à beira-mar, como era na juventude de Senna Fernandes, como aparece no romance A Trança Feiticeira, portanto, há lugares. Nos romances deste escritor, havia certas actividades, se davam passeios até praias que já não existem mais porque passaram a ser aterros também, passatempos, por exemplo… havia mais espaço verde em Macau, mais zonas verdes, mais natureza, que já não existe, portanto, há uma tentativa - talvez entre os macaenses, como Senna Fernandes, Deolinda da Conceição[14] e no próprio António Conceição Júnior[15] que é um homem do seu tempo, um homem muito moderno, aliás - em recuperar um Macau mais provinciano, idealizado talvez, menos moderno. Só que na cidade claro [os ex-libris] progridem e ainda se mantêm. Um jornalista português, que viveu muitos anos em Macau, no início do século XX, falou na modernidade, nesse aspecto negativo da modernidade que estava chegando em Macau nos anos 20. Portanto, há sempre um saudosismo, é a condição humana. Bristol já não é agora como quando eu cheguei, mas é, ainda é, só que eu mudei (riso). Só que eu estou mais velho.
V.S. Relativamente à questão da oposição entre ‘cidade cristã’ e ‘cidade chinesa’, achei uma curiosidade no romance Amor e Dedinhos de Pé de Henrique de Senna Fernandes, os nomes de ruas da ‘cidade chinesa’ são nomes portugueses. Portanto, queria saber como é que se articulam esses dois espaços, se se trata de uma clivagem física ou imaginária, fictícia ?
D.B. Há uma clivagem física porque no fundo a ‘cidade cristã’ era a parte da cidade mais virada para o mar e a ‘cidade chinesa’ era a parte da cidade mais virada para o porto interior, para as zonas mais a norte. Portanto, há uma clivagem e a divisão sempre foi a Avenida Central quer dizer era importante que a avenida fosse uma rua que atravessasse o centro de Macau, de um lado era a ‘cidade cristã’ e do outro lado a gente entrava progressivamente numa ‘cidade chinesa’. Vê-se nitidamente, por exemplo n’A Trança Feiticeira: a Rua do Campo parece efectuar a clivagem entre uma cidade em que os portugueses se sentem em casa e em que os chineses estão de visita e a outra metade em que os portugueses e os macaenses se sentem fora do lugar, de um ambiente estranho e são vistos como pessoas de fora, portanto, aquilo existe. Enquanto aos nomes das ruas, isso é interessante, os nomes das ruas foram portugueses, hoje em dia estão escritos em português e em chinês, mas se você chegar a Macau e apanhar um táxi e disser : ‘Olha, Avenida Almeida Ribeiro’, não sabe, porque tem o nome chinês que é Sá-Ma-Lou. Portanto, você tem que dizer isso ou apontar para um mapa com os caracteres em chinês porque ele não entende, portanto, os nomes em português existem, e há alguns nomes em português muito pitorescos como Beco ou Rua das Estalagens, Beco dos Diplomatas, muito estilo Alfama, mas os chineses desconhecem esses nomes, eles usam outros nomes, há sempre um nome chinês e um nome português para um mesmo espaço em Macau. Mas há, ao mesmo tempo, uma espécie de convivência, uma dependência da ‘cidade cristã’ e da ‘cidade chinesa’, que parecem viver de costas um para o outro. Mas há uma dependência porque os chineses, às vezes, vão trabalhar à ‘cidade cristã’, nos romances de Senna Fernandes, n’A Trança Feiticeira, A-Leng vai vender água na ‘cidade cristã’ e sente-se estranha, portanto. Quando o macaense vai à ‘cidade chinesa’, considera-se português, o Senna Fernandes escreve : ‘eu era o único Português naquele…etc…’
V.S. Então são dois espaços que não convivem ?
D.B. Toleram-se mas não convivem não…
V.S. Portanto, o espaço físico encontra-se provocado pelo espaço das palavras, espaço da língua, no caso de Macau, o português e o patois[16] que se opõe ao chinês. Relativamente ao espaço físico próprio ao imaginário macaense, acha que se constrói através da língua portuguesa ?
D.B. Sim. O que você está dizendo é se a língua portuguesa influencia a visão do espaço ? Suponho que sim porque se há duas comunidades que realmente vivem de costas uma para a outra, então a língua chinesa se refereria, em literatura, a uma realidade diferente da língua portuguesa. As línguas restringem-se realmente às comunidades que as falam. Antes de 99, começaram a traduzir pequenos contos, crónicas de escritores chineses para português. Existe uma antologia[17], por exemplo, de vozes femininas, escritoras chinesas de Macau ou estabelecidas em Macau, e lendo essas crónicas, não vi referência alguma aos portugueses ou a Macau como uma cidade administrada por Portugal. A única referência que eu encontrei foi uma referência à calçada portuguesa que é terrível para quem anda de saltos altos (riso).
V.S. O dialecto, o patois, adapta-se às realidades do território e da população macaense, esta língua crioula reveste uma importância na memória colectiva ?
D.B. Acho que sim, embora ninguém a fala, quase ninguém a fala…
V.S. Representa uma espécie de relíquia para a comunidade ?
D.B. Sim, porque é uma criação única daquele lugar. O chinês que se fala em Macau é mais ou menos o cantonense do sul da China, da Província de Guangdong, poderá haver uma ou outra influência, talvez, mas é essencialmente o cantonense. O português que se fala tem alguma palavra, talvez alguma expressão que não seja correcta em Portugal, mas a língua realmente que foi criada e que se desenvolveu naquele lugar é o patois e o patois claro, como você sabe, morre, quando a partir de fins do século XIX, as instituições educativas foram estabelecidas, pelo Estado Português, em Macau, e ao mesmo tempo os macaenses ficaram conscientes de que a língua que eles falavam não tinha o status do português[18]. Era uma língua inferior, uma língua limitada à cultura oral. Eles deviam deixar o patois e começar a falar português como devia ser, se bem que, às vezes, tinham dificuldade em falar português porque há… por exemplo, não sei se reparou, nos romances de Senna Fernandes, há personagens que não falam português muito bem e que têm dificuldade em falar português, que querem falar, mas não falam correctamente. Portanto, o patois começa a morrer. Mas não há dúvida que o patois é uma marca da identidade de Macau. Tem que ser não é ?
V.S. Portanto, o patois podia representar uma espécie de elo de ligação entre o português e o cantonense ?
D.B. Também há termos no patois e no próprio português de Macau que têm outras origens, na língua malaia ou até no hindi, há certas palavras que têm outras origens porque o patois de Macau tem uma forte influência do chinês. Havia vários crioulos, a língua crioula de Malaca, e claro que Macau foi colonizado, digamos a partir de Malaca. Portanto, há afinidades entre a língua crioula de Malaca, o papiá-kristang e o patois macaense. É bem interessante. O patois que se fala em Malaca está ameaçado, há cada vez menos pessoas que falam aquilo. São os efeitos, suponho, da globalização. Mas ainda se fala, ainda é uma coisa viva em Malaca, ao passo que em Macau já não é, quer dizer ainda existe nessas manifestações culturais, teatrais[19], há uma pequena comunidade que tenta manter aquilo vivo mas não é uma língua que se fala na rua.
V.S. Gostava agora que falássemos, outra vez, sobre a problemática central que é a identidade macaense, portanto, a identidade macaense remete para que categoria de indivíduo, ou etnia, português, chinês, chinês que fala português e que se tornou cristão ou uma espécie de indivíduo que fica entre o português e o chinês ?
D.B. Certas famílias tradicionais de Macau, famílias eurasianas, como no livro da Ana Maria Amaro[20], sobre os filhos da terra, consideravam que o verdadeiro macaense não tinha mistura chinesa. Quando estas primeiras famílias se estabeleceram em Macau, vinham de Malaca, tinham ascendência inclusive goesa, depois haveria também a presença japonesa em Macau… Só depois é que os portugueses começaram a se misturar com os chineses através de casamentos e ligações de tipo matrimonial. Portanto, segundo esta corrente de pensamento, o verdadeiro macaense é outra mistura. Representa talvez uma tentativa, uma tendência, em criar uma identidade macaense que não aceita a outra : ‘A minha identidade não é sua, não aceita você !’ Por outro lado, segundo outra corrente, quem se estabelece em Macau, adopta ou se identifica com a cidade e com a comunidade macaense, começa a falar português, é aceite. E de certa forma, é uma maneira da comunidade sobreviver. Aceitar todos ou ter uma margem de aceitação muito maior. Portanto, aceita-se o inglês que passa a falar português e talvez se case com uma macaense ou uma chinesa, as crianças falam português, ou é católico, torna-se macaense, de certa forma. E essa corrente é muito mais presente na diáspora, porque há uma forte ligação entre diáspora de Macau, macaense e Macau, terra de origem, portanto, como muitas etnicidades, muitos grupos, digamos de fronteira, entre dois mundos, vários mundos. Não entre vários mundos, porque o mundo é o mesmo, mas entre várias comunidades. Há um espécie de incerteza, uma capacidade de absorver pessoas, mas à medida que surge uma elite naquela comunidade, a elite que começa a decidir quem por de perto pertence ou não, quem pretende ser ou não…
V.S. Pois, achei vários artigos, várias teorias contraditórias e eu acho que a corrente que poderá assegurar a continuidade desta comunidade é aquela que vai ser, que tende a ser mais tolerante e aceitar mais pessoas e… porque senão, se formos entender aquela teoria : ‘um macaense tem que falar a língua portuguesa, tem que ser cristão, tem que conhecer a cultura portuguesa’, então a comunidade macaense já não existe…não sei…
D.B. Sempre havia, claro, aquela tendência de esperar que o macaense se identificasse com a língua portuguesa e com a religião católica. Ora à medida que o macaense ficava muito cosmopolita, não falava muito bem português apesar de se considerar português, falava melhor inglês porque o inglês é a segunda língua, a primeira língua europeia que os chineses aprendem, e também por influência de Hong Kong e de outros assuntos. O Leal de Carvalho[21] descreve o macaense, se não me engano no romance sobre a diáspora chinesa em Macau, A IV Cruzada: descreve o macaense como uma pessoa muito hospedeira, à antiga moda portuguesa, informal, alegre mas cosmopolita, como se os portugueses de Portugal não fossem cosmopolitas, mas o macaense é. Representa um aspecto talvez da experiência macaense, quer dizer Macau é uma cidade cosmopolita, virada para a China, para Hong Kong, para o Sudoeste asiático, há muitos estrangeiros que passam por Macau ou se estabelecem em Macau por tradição. Sendo um ambiente muito cosmopolita, portanto, por não ter…, tem uma identidade própria, mas talvez por ter, por tradição, uma espécie de incerteza histórica, - ‘o que vai ser de Macau’ - há uma capacidade em aceitar todo o mundo e hoje em dia, para que Macau se torne uma cidade internacional, isso implica aceitar pessoas de todas as partes e isso implica coisas para a própria comunidade macaense.
V.S. Quer dizer que os critérios que distinguem um macaense de um chinês, tradicionalmente a língua, o sentimento de pertença a uma elite, o mito de um povo eleito tornam-se cada vez mais retrógrados ?
D.B. Sim. Talvez o macaense possa contribuir para Macau, hoje em dia, numa visão para o exterior, uma contribuição que faça com que Macau se torne um centro internacional, para não utilizar clichés - mas eu vou utilizar clichés que seja o elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente, que é a retórica tradicional de Portugal.
V.S. O Prof. fala no seu artigo « Imperial Diasporas and the search for the Authenticity/The macanese fiction of Henrique de Senna Fernandes »[22] de identificação a uma missão imperial relativamente ao Império português e de culto do mito de povo eleito. Hoje na sociedade actual de Macau, esta noção de povo eleito, de uma missão imperial estará sempre presente na mente dos macaenses ?
D.B. Não. Os macaenses podem sentir agora que são um povo feito em Macau, e por isso, é uma comunidade que faz realmente a identidade de Macau como uma cidade chinesa específica e não qualquer cidade chinesa. A ligação com uma missão imperial já acabou há muito tempo e essa visão talvez seja restrita ao período de colonialismo formal, entre 1845 e 1966, em que o macaense realmente se identificava com a ‘capitalidade’, investindo no capital de portugalidade, para citar Pina Cabral[23]. Mas antes disso, Macau era uma cidade quase autónoma, era uma espécie de República. Alguns referem-se a Macau como uma espécie de República veneziana no Oriente, pois, as ligações com Portugal eram irregulares, quando chegava o governador, encontrava o Leal Senado que era o ‘fórum dos macaenses’ quer dizer a grande burguesia comercial de Macau. O que aconteceu depois de 1966[24], foi uma espécie de retroversão ao período anterior ao século XIX, mas essa identificação com o imperialismo português talvez seja limitado a um período de pouco mais de cem anos.
V.S. Então, de hoje em dia, que elo de ligação une os macaenses a Portugal, ao mundo lusófono ?
D.B. Depois da transferência, os macaenses queixavam-se de que Portugal ignorava Macau, que Portugal já não ligava a Macau, mas depois, eles habituaram-se àquilo. Há uma ligação afectiva com a herança portuguesa e com Portugal, mas trata-se de um Portugal idealizado, segundo o tipo de contacto que os macaenses têm com Portugal. Acho mais importante as ligações com o mundo lusófono e vem aí a influência do governo chinês: o governo chinês decidiu que Macau será um elo de ligação com os países de língua portuguesa e não só Portugal, com Angola e Moçambique, porque a China está investindo fortemente em África. Sempre houve chineses em África, especialmente em Moçambique. Havia uma espécie de elo de ligação até no tempo colonial entre a China e o Moçambique, mas agora a China está a entrar a sério em África, em Angola, por interesses económicos. Portanto, Macau foi denominado pelo governo de Beijing[25] como o elo de ligação entre a China e os países lusófonos. O Brasil também em teoria, só que os brasileiros que querem negócios com a China, não se dão ao trabalho de passar por Macau, vão directamente a Shanghai ou Beijing. Mas pelo menos essa é a teoria. Portanto, na medida em que os macaenses se identificam com essa política ou vêem futuro nessa política, entrarão neste papel, talvez.
V.S. Como manter viva a identidade macaense olhando para o passado e conservando uma memória colectiva ou virando-se para novos valores, para o futuro ?
D.B. São as duas coisas ao mesmo tempo, a identidade muitas vezes é fictícia, é uma narrativa que a gente faz.
V.S. Mas ela é transmitida de geração em geração ?
D.B. É transmitida, portanto é importante, mas uma identidade ligada só ao passado, é uma identidade destinada a ser esquecida, mais cedo ou mais tarde. É preciso adaptar-se ao mundo de hoje e ao futuro. O macaense, como qualquer comunidade interétnica, adapta-se bastante bem como sempre se adaptou às mudanças históricas; portanto, o macaense vai se adaptando às mudanças que atingem Macau hoje em dia, e que são muito fortes. Com o processo de integração na China, há não só uma influência chinesa mais sensível, como também há uma presença internacional talvez maior ainda. Portugal saiu mas pessoas de todos os países vivem em Macau, portanto, o macaense por ser eminentemente adaptável, por falar várias línguas incluindo o português, se adaptará às novas realidades.
V.S. E para retomar um cliché, o Prof. acha que a identidade macaense baseia-se num eterno compromisso entre o Oriente e o Ocidente ?
D.B. Por tradição, mesmo quando via o lado chinês negativamente, o macaense falava chinês; muitos dos hábitos macaenses surgiram de uma herança chinesa que poucos escritores exploram, de uma identificação com a China. Um sector enorme da população macaense inclina mais para o lado da China que para o lado português. Isto na maneira de ser e nos hábitos culturais do macaense. O Senna Fernandes, agora é viúvo, a mulher morreu mas a mulher era chinesa, chinesa de Macau. Agustina Bessa-Luís, naquele romance, A Quinta Essência[26], explora de modo muito sensível a herança chinesa do macaense, o livro é difícil de ler, como todos os livros de Agustina, mas ela conseguiu captar aquilo muito bem. Portanto, a herança chinesa do macaense é importante e ainda pouco estudada: quer dizer há um lado do macaense que é muito próximo do chinês de Macau, quer dizer há uma continuidade como em muitas cidades crioulas. Um antropólogo português, que fez um mestrado ou um doutoramento na Inglaterra, publicou um livro na Inglaterra sobre a comunidade caboverdiana em Portugal. Ele descobriu que realmente havia duas comunidades distintas : a dos que retornaram a Portugal, depois da independência, que muitas vezes são de pele mais clara, era a elite, aquela sociedade crioula, e por outro lado os emigrantes que vêm de Cabo Verde, que têm muito pouco contacto com aquela classe. Este elemento de classe existe também no macaense mas também há uma espécie de continuidade, na minha opinião, entre os chineses de Macau, o macaense e o português. E o macaense abrange, o macaense faz o elo. Mas há também macaenses que fazem, tradicionalmente, o elo de ligação entre a elite portuguesa e a comunidade macaense, e há outros macaenses que fazem a ligação entre os macaenses e a comunidade chinesa. Realmente, há uma continuidade naquela comunidade crioula que faz parte da complexidade da própria comunidade macaense, elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente, sim, mas sem ser… O macaense tinha um papel específico no tempo do colonialismo porque o macaense ficava na função pública, não escrevia chinês mas falava chinês, falava cantonense, falava português, portanto fazia um elo ‘prático’. Esse elo talvez seja mais abstracto agora.
V.S. Portanto, no trabalho que apresentei no ano passado[27], interroguei-me em relação à noção de regionalismo, no romance Amor e Dedinhos de Pé e considerei que o romance traduzia várias peculiaridades locais, próprias ao ambiente de Macau e que podíamos aplicar o termo, de certa maneira, de regionalismo neste romance. O Prof. acha que podemos falar em regionalismo neste tipo de literatura e a que nível, relativamente à China, a Portugal, ao Império colonial português ou ao mundo lusófono ?
D.B. A literatura macaense é uma literatura que representa uma parte do mundo lusófono, com as suas especificidades… Regionalismo português… Não porque não tem nada a ver com Portugal. Regionalismo, talvez chinês. Seria interessante ver uma literatura em português de Macau, como um elemento de regionalismo chinês. Há obras literárias que se passam em Macau, romances que são representativos talvez de uma literatura colonial. Mencionei um deles ontem, O Caso da Rua Volong[28] que era um romance sobre Macau, escrito por um oficial da marinha ; Jaime do Inso, A Caminho do Oriente[29] é outro caso. Mas isso é literatura colonial que tem o seu interesse, com algumas referências etnográficas, mas essencialmente, uma literatura que realça o papel de Portugal como poder imperial, já do início do século XX. Portanto sim, é uma literatura que expressa uma certa experiência da lusofonia, é uma literatura lusófona e talvez e sobretudo seja uma literatura macaense, uma literatura de Macau. Mas em termos de regionalismo, o regionalismo chinês é muito próprio do sul da China, talvez porque haja ligações entre Macau e o outro lado da fronteira. Também acho que não devemos perder de vista que Macau situa-se na Província de Guangdong e que tem por tradição fortes ligações com Cantão a capital, sem falar em Hong Kong claro. Podíamos falar num regionalismo talvez do sul da China ou da Boca do Rio das Pérolas…
V.S. Acrescento a vertente linguística, portanto, uma língua traduz uma realidade física mas também e sobretudo um modo de pensar, uma filosofia, o Prof. acha que podemos considerar que a língua também traduz um certo regionalismo ou não ?
D.B. Acontece com todas as línguas que se espalharam em varias partes do mundo, o inglês que se escreve, ou que se fala na Jamaica, pertence àquela região, da mesma forma que o português que se utiliza em Macau é específico àquela região. Portanto, a língua traduz a experiência de uma certa região, a língua vai se transformando… o caso é muito maior no Brasil, é um caso à parte. Na África, o português infiltrou as sociedades indígenas africanas, mas não tanto como no Brasil onde é a língua de todo um povo. O português não é falado por todos os povos dos países africanos mas por uma proporção significativa da população que tem conhecimentos do português, mesmo que falem o português como segunda língua… muito mais do que em Macau, por causa da presença muito forte do chinês que é uma língua secular, falada e escrita com uma forte tradição cultural e porque os portugueses não impuseram o português como língua de ensino obrigatório nas escolas chinesas. Portanto, não precisavam de falar português, aquilo não interessava, não tinham necessidade em falar português para viverem a vida deles. Portanto, quando se fala da transformação da língua portuguesa em Angola e em Moçambique, é porque foi absorvida por africanos, que transformaram a língua portuguesa, manifesta-se na literatura, no Luandino Vieira, no Mia Couto e outros. Não parece acontecer tanto em Macau. Há relíquias de um português regional nas obras de escritores nomeadamente Senna Fernandes, mas a transformação não é tão grande como o experimentalismo linguístico, não é tão grande porque o português não se foi transformando ou quando se transformou, foi na época do patois e o patois foi abandonado.
V.S. Para concluirmos, o Prof. acha que se pode relacionar a noção de multiculturalismo ao caso macaense ?
D.B. Todos nós, de certa forma, absorvemos influências de outras culturas que se tornam parte da nossa cultura. O inglês com pizza, que é um prato italiano mas ao mesmo tempo foi-se transformando a pizza, com certeza que há pizzas agri-doces, foi acrescentado por causa de influências da comida chinesa. E o macaense é um caso muito semelhante, foi absorvendo influências do português, do chinês, transformando essas influências talvez para uma espécie de coisa nova, mais original. Multiculturalismo pode-se aplicar a Macau e, com certeza, os macaenses e a população de Macau, que pensam nessas coisas, gostariam de considerar Macau como um centro multicultural. Diversas comunidades vivem lá: a comunidade filipina, a comunidade tailandesa, a comunidade portuguesa, a comunidade macaense ligeiramente diferente talvez, a comunidade chinesa ou de outras regiões da China. Mas de certa forma, o macaense não é excepcional nisso, cidades parecem ser um ponto de encontro, um ambiente tipicamente cosmopolita. O estrangeiro ou o emigrante que vem à Inglaterra procurar trabalho, estabelece-se numa cidade porque se sente mais seguro talvez do que no campo, no meio de nada. As pessoas vivem entre culturas, absorvem certos aspectos de culturas com as quais têm contacto no dia-a-dia, eu imagino que em Paris é a mesma coisa, em Londres, em Bristol.
[1] David Brookshaw, Border Gate : Perceptions os China and Modern Portuguese Literature, Lampeter, The Edwin Mellen Press, 2002.
[2] David Brookshaw, Visions of China – Stories from Macau, s.l., Gávea-Brown - Hong-Kong University Press, 2002.
[3] Em 2006, 1,7% da população em Macau é de nacionalidade portuguesa.
[4] A transferência da administração portuguesa de Macau para a China ou handover ocorreu a 20 de Dezembro de 1999.
[5] Editoras portuguesas.
[6] A maioria da população chinesa de Macau fala o cantonês ou seja uma das vertentes da língua chinesa. Em 1992, o mandarim torna-se língua oficial em Macau adquirindo o mesmo estatuto que a língua portuguesa.
[7] A língua portuguesa é dominada por 2,4 % da população, é falada de maneira fluente e utilizada no quotidiano por cerca de 0,6% da população de Macau.
[8] Macaenses ou ‘filhos da terra’, naturais de Macau com ascendência portuguesa e asiática.
[9] Escritor macaense (1923) que publicou dois romances Amor e Dedinhos de Pé (1986) e A Trança Feiticeira (1993), e dois livros de contos Nam Van (1978) e Mong Há (1998).
[10] Por um período de mais de 50 anos, depois da transferência dos poderes (1999), a RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) conserva o mesmo sistema jurídico e administrativo especial (1 país, dois sistemas).
[11] João Aguiar (1943) escreveu uma trilogia cuja acção se situa entre Portugal e Macau : Os Comedores de Pérolas (1992) ; O Dragão de Fumo (1998) ; A Catedral Verde (2002). Em 2005, numa iniciativa editorial promovida pela editora Livros do Oriente e pelo diário Ponto Final chamada ‘Cinco Anos – Cinco Livros’, publicou O Tigre Sentado cuja intriga se passa em Macau.
[12] Iniciativa editorial promovida em 2004 pela editora Livros do Oriente e pelo diário Ponto Final chamada ‘Cinco Anos – Cinco Livros’ para assinalar o 5° aniversário da RAEM. Projecto que consistiu na publicação semanal de capítulos de uma obra inédita com referência a Macau no jornal Ponto Final.
[13] Trata-se do romance inacabado A Noite caiu em Dezembro cujos capítulos foram publicados às sextas no diário Ponto Final.
[14] Jornalista e escritora macaense (1914-1957) que deixou um livro de contos Cheong-Sam, A Cabaia (1956).
[15] Artista design, filho da escritora Deolinda da Conceição e do jornalista macaense António Conceição.
[16] O ‘patois’ ou ‘patuá’, antigo dialecto local falado principalmente pela comunidade macaense.
[17] Lam Wai, Seng Soeng Ching, Lam Chong Ieng et alii, Sete Estrelas (Antologia de Prosas Femininas), Macau, Instituto Cultural de Macau, 1998 (tradução de Maria José Trigoso).
[18] Nos anos 30 do século XX, a língua portuguesa é promovida e valorizada pelo governo local tornando-se motivo de orgulho entre as famílias tradicionais macaenses. O’patois’ é banido dos lares, das escolas e da imprensa aparecendo de modo pontual na época do Carnaval.
[19] No final dos anos 90, um grupo de amadores ‘Doci Papiaçam di Macau’ representa peças em patuá no Teatro D. Pedro V.
[20] Ana Maria Amaro, Filhos da Terra, Macau, Instituto Cultural de Macau, 1988.
[21] Rodrigo Leal de Carvalho (1932), naturais dos Açores, residiu em Macau desde o final da década de 50 até 1999. Magistrado de formação, publicou vários romances, todos ligados a Macau : Requiem por Irina Ostrakoff (1993) ; Os Construtores do Império (1994) ; A IV Cruzada (1996) ; Ao Serviço de Sua Majestade (1996) ; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) ; A Mãe (2000) ; O Romance de Yolanda (2005) ; As Rosas Brancas do Surrey (2007).
[22] David Brookshaw, « Imperial Diasporas and the search for the Authenticity/The macanese fiction of Henrique de Senna Fernandes », in Lusotopie 2000, [mars 1997], p.271-282, http://www.lusotopie.sciencespobordeaux.fr/resu0017.html.
[23] João de Pina Cabral – Nelson Lourenço, Em Terra de Tufões, dinâmicas da etnicidade macaense, Macau, Instituto Cultural de Macau, 1993.
[24] Alusão aos acidentes da chamada Revolução ‘1,2,3’ que ocorreram em Macau a 3 de Dezembro de 1966 durante a Revolução Cultural chinesa.
[25] Pequim.
[26] Agustina Bessa-Luís, A Quinta Essência, Lisboa, Guimarães editores, 1999.
[27] « L’identité macanaise à travers l’œuvre de Henrique de Senna Fernandes (Amor e Dedinhos de Pé) ». Tese de Licenciatura defendida na Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense em Setembro de 2005.
[28] Emílio de San Bruno, O Caso da Rua Volong – Scenas da Vida Colonial, Lisboa, Tipografia do Comércio, 1928.
[29] Jaime do Inso, O Caminho do Oriente, Lisboa, Tipografia Élite, 1932.
[i] Vanessa Sergio est doctorante et chargée de cours à l’Université de Paris Ouest Nanterre La Défense. Sa thèse, qu’elle prépare sous la direction du Professeur Idelette Muzart-Fonseca dos Santos (Paris Ouest Nanterre La Défense) en bénéficiant de la co-orientation du Professeur David Brookshaw de l’Université de Bristol (UK), est intitulée : « Macao: vie culturelle et littéraire d’expression portuguaise dans la deuxième moitié du XXe siècle : Luís Gonzaga Gomes, ‘Fils de la Terre’ macanais ». Boursière de la Fundação Oriente depuis 2007, ce statut lui a permis de réaliser un voyage d’études entre octobre et décembre 2008 à Macao afin d’achever ses recherches bibliographiques sur le terrain.