O mundo lá fora - imagens do sertão em Rachel de Queiroz

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Giulia Manera

Université Paris Ouest Nanterre La Défense / CRILUS

Universidade de São Paulo /FFLCH

 

 

« [...] Se você não conhece a sua terra e quer conhecê-la, por favor não vá atrás de compêndios nem se entregue à orientação de algum frio guia[...].

Não se fie em dados estatísticos, porque as estatísticas não passam de manipulação de algarismos; e muito menos acredite em mapas, mapas não chegam sequer a ser retratos, são meros perfis caricaturais onde só um elemento tem valor, a linha – e tudo o mais é desprezado. Escute o poeta, é ele que lhe dará da sua terra uma imagem viva. » (Queiroz, 1967 : 9)

 

 

O exercício de escrever um artigo respeitando rigorosamente o tema proposto pela revista pode parecer, em uma primeira análise, uma operação com resultado parcial, talvez frustrante. A matéria sempre é ampla demais, querendo resistir com tenacidade a cada tentativa de se organizar dentro do limite dos quarenta mil caráteres consentidos.

 

Por qual viés analisar a representação do sertão em Rachel de Queiroz?

 

Depois das dúvidas iniciais, o limite e o tema impostos se revelam,contudo, uma lente preciosa, que permite enxergar o objeto de pesquisa através de uma perspectiva inédita. Nessa ótica, queremos, nestas páginas, esquecer personagens e protagonistas, enredos e histórias, procurando focar a nossa análise na paisagem material e na paisagem simbólica do sertão, cenografia finalmente liberada da presença dos atores. Resolvemos organizar a matéria literária seguindo quatro eixos temáticos, com a finalidade de analisar as diferentes representações do sertãonas páginas de Rachel de Queiroz.

 

O sertão da memória

 

Para Rachel de Queiroz, o sertão é, antes de um locus literário, antes deuma cenografia narrativa, o lugar da infância, o lar. Além de nascer numa família cearense, a escritora foi criada no sertão. Daniel de Queiroz, seu pai, fazia parte de uma importante família originaria de Quixadá e a mãe, Clotilde Franklin de Queiroz, era uma descendente, do lado materno, de José de Alencar. Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, mas já aos cinco anos de idade, em 1915, voltou a morar na fazenda da família, onde começou a ser alfabetizada pelos próprios pais. No mesmo ano, em razão da violência da seca, os Queiroz abandonaram o sertão para morar no Rio de Janeiro e em Belém durante dois anos[1].

 

Esses fatos não são lembrados para satisfazer uma presumida curiosidade do leitor, mas para mostrar de que maneira o sertão, com o seu ritmo e com os seus códigos, participa da biografia de Rachel de Queiroz. O elo da escritora com a região de origem é profundo: o sertão é um território ao mesmo tempo material e simbólico, onde se situam as lembranças da infância[2] e onde se encontrava a fazenda Não me deixes,que foi propriedade de Rachel de Queiroz até a sua morte. Um nome que, por si só, poderia resumir a relação da autora a sua terra; uma relação feita de vínculos, de raízes e, ao mesmo tempo, de distância.

 

Nas palavras da escritora, o sertão permanece como sinônimo de fazenda: é no interior deste espaço familiar fechado e definido – mas ao mesmo tempo aberto ao mundo – que a jovem Rachel de Queiroz começa a sua formação como leitora e como escritora:

 

As nossas famílias rurais nordestinas cultivavam muito as letras, como as de Joaquim Nabuco, José Lins do Rego e Gilberto Freyre. No Ceará, as fazendas não eram abastadas, pois a região é pobre. [...] Não tínhamos o palaciado dessas Casas Grandes. A “fazenda” era no sentido de casa de residência. Essas «casas» eram rústicas mas modestas: tinham sempre um filho doutor ou padre, a filha professora ou freira, o genro bacharel ou médico [...]. Eram um pouco assim as nossas famílias (Queiroz apud Nery, 2002: 41)

 

Se Rachel de Queiroz conseguiu escapar da dicotomia freira ou professora[3], encarnando nesse sentido uma alteridade em relação aos papéis femininos da época, ela assume e reivindica nas suas páginas o processo de formação intelectual próprio das famílias nordestinas de fazendeiros. O assunto retorna várias vezes na escrita da autora, com uma frequência que revela a importância de se construir e se representar a partir do universo da fazenda, da casa e da terra. Se nas crônicas, nos romances e nos livros de memória, a imagem da fazenda é recorrente, ela chega a absorver a função de marco identitário, alpha e ômega da existência da autora. Como, por exemplo, na crônica Fazenda velha e açude, escrita em 1952:

 

Cartas de leitores me pedem de vez em quando para contar como é uma fazenda do Nordeste [...]. O Junco: neste mundo tão grande não há pedaço de terra mais preso ao meu coração do que aquele trecho bravio do município de Quixadá, a 180 quilômetros do Oceano Atlântico. Engraçado, lá não nasci. Mas por lá deveria andar antes de nascer e para lá hei de voltar depois de morta [...]. Já entenderam que o Junco é uma fazenda. Uma fazenda à velha moda do Nordeste [...]. Casa-grande sem senzala, que lá temos dessas anomalias. Os escravos da sala e da cozinha dormiam na própria casa da fazenda, e os escravos de campo, vaqueiros na maioria, eram todos casados, moravam em casa sua [...]. Negro do junco não apanhava nem fugia. Isso de negro judiado eram coisas mais para Bahia e Pernambuco, terras de sinhôs duros [...](Queiroz, 1977: 133-135).

 

Condensadas nessas linhas, pode-se encontrar as coordenadas que permitem a própria Rachel de Queiroz se situar: se a fazenda é ponto de partida e retorno, ela se identifica ironicamente com a anomalia de uma casa-grande sem senzala. Uma referência significativa, que revela a vontade da escritora de marcar um ponto de vista excêntrico em relação às instâncias regionais propostas pela obra de Gilberto Freyre[4].

 

Como a fazenda, a seca representa o outro elemento recorrente nos escritos memoriais e nas crônicas da autora que se referem ao sertão. Trata-se de um componente que, para Rachel de Queiroz, assume significações múltiplas: a própria memória familiar[5], a tradição oral do sertão e a materialização do sentimento da fragilidade da vida[6]. Naentrevista publicada noCadernos da Literatura Brasileira que lhe é consagrado, a autora fala da complexidade do tema da seca, assunto ao mesmo tempo pessoal e coletivo. Por ter ouvido as histórias paternas sobre a seca de 1915, afirma:

 

[…] Fiquei com aquilo gravado na cabeça; além do mais, há evidentemente no sertão relatos contínuos da tragédia das secas. Existe no Nordeste uma memória da seca; ela é, de fato, a presença mais constante. [...] É um assunto permanente no Nordeste(1997: 22).

 

Fig.1.O Quinze, primeira edição autofinanciada, Instituto Gráfico Urânia,1930.

 

Essa memória da seca, coletiva e familiar, influencia Rachel de Queiroz na construção do seu primeiro romance, O Quinze, publicado numa edição autofinanciada em 1930. Um elemento vivo, muito mais que uma imagem literária. A autora afirma ter lido Pelo Sertão de Afonso Arinos somente depois de O Quinze, assim como A Bagaceira[7]. Admite igualmente nunca ter sido uma leitora entusiasta de Os sertões de Euclides da Cunha. Reconhece, no entanto, a influência da obra de Rodolfo Teófilo nos seus primeiros escritos.

O sertão que Rachel de Queiroz conta e representa - nas crônicas, nos romances, nas peças - é um sertão de facetas múltiplas, constituído pelas experiências familiares, pelo imaginário coletivo epelas leituras. Um sertão sempre pessoal.

 

O sertão que fala, o sertão que come

 

 

«Sou boa dona de casa,

melhor cozinheira do que escritora»

(Queiroz apud Hollanda, s.d: 9)

 

Entre as múltiplas perspectivas de leitura do elemento sertanejo nas obras de Rachel de Queiroz, existe uma que seria possível ser definida como sinestésica, ou melhor, fonético-gustativa. É a da fala e da cozinha sertaneja,cuja memória se encontra no paladar e nos ouvidos da escritora é filtrada nas suas páginas através de um processo de elaboraçãoliterária. A língua e a recorrente citação dos elementos da culinária da região são utilizados pela autora para construir uma imagem viva e real – mas nunca no sentido naturalista do termo, mimético e folclórico – da terra de origem.

 

Desde o primeiro romance, Rachel de Queiroz se monstra altamente consciente da sua linguagem literária, chegando a esclarecer ao leitor as finalidades e as modalidades da sua apropriação da fala do sertão. Na introdução à primeira edição de O Quinze, dirigindo-se – não sem ironia – ao « respeitável público », Rachel de Queiroz explica e defende as suas escolhas estilísticas e lexicais:

 

Escrevendo o meu livro, fi-lo na linguagem corriqueira, de todo mundo, deixei que a penna corresse como corre a língua, e fui arrumando os verbos e as locuções, os verbos e os pronomes (Nossa Senhora, os pronomes!) no nosso geito habitual e caseiro, simplesmente, singelamente [...].
Correm ahi, dentro do O QUINZE, palavras e expressões genuinamente cearenses, desconhecidas fóra do nosso meio. Como por exemplo inorar (ignorar) que significa no sertão reparar, notar, comentar... andar por terra no sentido de viajar pela estrada de rodagem, a pé ou a cavallo, em logar de andar no trem; «espritado», «variar», «nambi», e muitos mais.
Aconselharam-me a fazer um glossário.
Mas glossário, é coisa muito grave. É para livro consagrado, livro em terceira ou quarta edição. Num romance anonymo, editado em província, ele da uma impressão de terrível de presumpção e pernosticismo...
E resolvi não fazer...[8] (Queiroz, 1930: 2-3)

 

Nessas linhas, que espantam pela lucidez e pela segurança de uma jovem de vinte anos que apresenta o seu primeiro romance, a língua é definida com exatidão nos seus tons e nas suas intenções: Rachel de Queiroz assume o uso de uma linguagem habitual e caseira, genuinamente cearense e sertaneja. Assim fazendo a escritora não somente consegue se posicionar dentro da geografia literária da época, mas, com a sua prosa enxuta e sempre controlada, reivindica também uma alteridade. A intenção de Rachel de Queiroz é evitar os « exageros » da linguagem sobrecarregada de adjetivos e longas descriçõesque caracterizam o realismo típico do final do século XIX[9]. Tal leitura permite entender como a postura autoral de Rachel de Queiroz se realizanuma « integração necessária» ao mundo que representa na página, para retomar a leitura de Antonio Candido a propósito deGrande Sertão: Veredas[10].

 

Um estilo enxuto e mesurado, que Rachel de Queiroz descreve como « espontâneo », capaz de filtrar a prosa sertaneja sem ceder ao uso excessivo de expressões locais, na tentativa de evitar um efeito superficialmente folclórico. A relação entre a língua regional e a escrita literária resulta de uma constante elaboração e reflexão quemantem Rachel de Queiroz, desde o primeiro romance até às ultimas crônicas, sem nunca deixar de exercer um controle rigoroso sobre a linguagem. Na crônica Língua escrita em 1959, defendendo-se daqueles que lêem em suas histórias ambientadas no sertão a tentativa de se tornar um« Guimarãezim Rosa dos pobres». Esta crônica se torna mais uma ocasião para analisar e defenderas suas escolhas lexicais:

Apenas tento registrar expressões costumeiras, botar em uso uma sintaxe já existente […] acomodando-me eu a ela, em vez de acomodá-la a mim, como é o caso do mestre Rosa. [...] Conseguir uma linguagem literária que se aproxime o mais possível da linguagem oral, [...] no que a linguagem oral tem de original e rico. [...] Uma das vantagens das formas regionais é que, se são de âmbito mais estrito, são porém muito mais estáveis do que a gíria de cidade grande[...]. Por isso tento, com maior insistência, [...] incorporar a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo. [...] Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia brigando por isso, e fez escola. (Queiroz, 1994: 22-23)

 

Estas palavras, escritas quase trinta anos após aquelas que introduzem O Quinze antes citadas, mostram como o processo de incorporação e elaboração da fala sertaneja representa uma constante na prática narrativa de Rachel de Queiroz. Uma constante que vai além das primeiras provas literárias e do momento do dito romance regionalista. Uma análise que pode ser reforçada pela leitura dos diferentes registros linguísticos de O Memórial de Maria Moura. No seu último romance, Rachel de Queiroz continua explorando as possibilidades expressivas da linguagem sertaneja, sem portanto ceder aum realismo mimético ou uma imitação caricatural do falado. A língua reveste aqui uma função identitária, tanto no sentido individual como coletivo do termo, passando a ser um instrumento utilizado pela autora para aprofundar o caráter e o état d’âme da personagem. O capítulo de O Memórial que descreve a chegada do beato Romano na minúscula aldeia « as Bruxa », depois de uma longaerrânciano sertão, pode representar um exemplo significativo deste uso de diferentes registros linguísticos. As crianças que o padre encontra falam em uma língua própria, resultado do isolamento e do analfabetismo, uma língua na qual cavalo se torna «cavau» e, para indicar onde se acha o chefe da aldeia eles dizem: « Tali, ói, naquela casa ».Nem os nomes próprios se salvam deste processo: Rachel de Queiroz imagina para as três crianças os nomes Cau, Rana e Vico, derivados dos esquecidosKarl, Hanna e Viktor, assim como o próprio nome da aldeia lembrando «Prússia», que seria seu nome original.Esta disseção das palavras, reduzidas ao osso e a sons primitivos, não tem a função de divertiro leitor ou de darum toque de cor local ao episódio.Serve, ao contrario,para representar foneticamente a sensação de estranhamento da personagem. Quando o Padre, em fuga, depois uma longa viagem, ouve pela primeira vez os habitantes da aldeia falar, ele sente ter chegado ao « fim do mundo », onde se fala uma língua outra. (Queiroz, 1992: 273-284).

 

Além dos sons e das vozes, um instrumento ulteriormente utilizado por Rachel de Queirozpara restituir uma imagem viva do sertão, são as referências aos seus sabores. Elementos certamente de segundo plano em relação à linguagem, os ingredientes e as receitas do interior cearense se revestem, no entanto, de uma função significativa na prática literária da autora.

 

Como a língua, as referências gastronômicas servem para dar do sertão uma imagem imediata, espontânea: o paladar constituipara Rachel de Queiroz umpotente instrumento identitário. Nos seus romances, nas crônicas ou nas memórias, a rapadura, a farinha, a carne de sol, assim como os demais ingredientes da cozinha sertaneja são citados inúmeras vezes, deixando que o imaginário gustativo participe ativamente para complementar o ambiente que a escritora descreve.

 

Só comparo o Nordeste à Terra Santa. Homens magros, tostados, ascéticos. A carne de bode, o queijo duro, a fruta de lavra seca, o grão cozido em água e sal. Um poço, uma lagoa é como um sol líquido, em torno do qual gravitam as plantas, os homens e os bichos. Pequenas ilhas d'água cercadas de terra por todos os lados, e em redor dessas ilhas a vida se concentra. O mais é a paz, o sol, o mormaço. (Queiroz, 2002: 111)

 

Nas páginas de Rachel de Queiroz os sabores servem também como veículo da memória: a esta associação entre comida, lembranças e território, não inédita na literatura, a autora chega a dedicar um pequeno e delicioso livro autobiográfico, O Não me deixes, suas histórias e sua cozinha, publicado pela José Olympio em 2002.

 

Fig.2 O não me deixes, capa da primeira edição.

 

Nestas páginas se encontram várias receitas do sertão – como, por exemplo, feijão de corda novinho, galinhas à cabidela, castanhas de caju confeitadas, aluá, cajuína – intermediadas com episódiosda fazenda da escritora e descrição da vida do Nordeste. Nas últimas páginas se encontra também um pequeno glossáriopara explicar ao leitor desprevenido para quem serve o caititu, e o que são o cincho, o mocororó o a urupema. (Queiroz, 2010: 118)

 

Mesmo não sendo um texto de primeiro plano na sua ampla bibliografa, em O Não me deixes Rachel de Queiroz reivindicaa cozinha como parte integrante da sua identidade, fornecendo ao leitor uma imagem mais íntima e pessoal do sertão, em que sabores, lugares e lembranças se encontram profundamente interligados.

 

O Sertão, feminino singular

 

Além da dimensão memorial e autobiográfica, nas páginas ficcionais de Rachel de Queiroz, o sertão assume a valência de espaço fortemente simbólico. O sertão se torna assim um universo transposto ao plano literário,regulado por leis e ritmos próprios. Dentro deste universo, as personagens mais significativas e originais são, salvo poucas exceções, as personagens femininas. Uma leitura da prosa e da dramaturgiade Rachel de Queiroz podem confirmar esta hipótese: dos quatro romances que apresentam ambientações sertanejas – O Quinze(1930), João Miguel (1932), Dora Doralina(1975)e O Memorial de Maria Moura(1992) –três têm como protagonista uma mulher[11]. A mesma consideração pode ser feita pelas peças, Lampião (1953) e A beata Maria do Egito (1957), nas quais os papeis femininos dominam a cena[12].

 

 

Fig.3 Lampião, primeira edição José Olympio, 1953, capa de Santa Rosa.

 

Página após página, as narrações de Rachel de Queiroz criam uma galeria de retratos femininos marcantes, capazes de representar « uma nova percepção da mulher e da realidade sertaneja» (Arrigucci, 2001). Todas essas personagens são caracterizadas por uma complexa relação com o território e, em nenhum caso, o fato de serem sertanejas representa para elas apenas uma característica exterior, uma simples localização geográfica. Para Maria Moura e Conceição – a protagonista de O Quinze – assim como para Dora, a beata Maria e Maria Bonita, o sertão assume sempre significaçõesduplas: um sertão doméstico, que se olha através doalpendre, espaço da família e da fazenda, e o sertão na imensidade da sua paisagem, um « mundo lá fora » (Queiroz, 1996: 62) grande e desconhecido. Nessa perspectiva, o abandono da dimensão doméstica e familiar para o espaço aberto representa para as personagens imaginadas por Rachel de Queiroz um momento fundamental de afirmação existencial. Aventurar-se pelo sertão, ou simplesmente sair de casa para a rua[13], pode ser lido como um rito de passagem ao mesmo tempo material e profundamente simbólico. Sempre irreversível, este processo implica, nos textos de Rachel de Queiroz,numa crítica radical dos papéis em que a sociedade confina a mulher.

 

A protagonista de O Quinze assim como Maria Moura, heroína do homônimo Memorial, constituem dois exemplos significativos da representação do feminino que se encontra nas páginas de Rachel de Queiroz; uma representação na qual o sertão com as suas paisagens é, ao mesmo tempo, palco da ação e veículo de transformação das personagens.

 

No seu primeiro romance, a autoraconsiderou a chegada da seca como oelemento de ruptura do status quo. Na dramaticidade dos eventos, Conceição revela-se consciente da sua alteridade e, renunciando ao namoro e ao casamento com o primo Vicente, passa a incarnar um novo tipo de mulher. Uma mulher que renuncia ao seu papel “natural” de mãe e esposa para se dedicar à leitura, ao trabalho, à assistência aos retirantes[14]. Neste romance, a segurança com a qual a jovem circula na cidade e no campo onde eramacolhidos os retirantes materializa a distância do tradicional papel feminino. Este é representado pela avó de Conceição, Dona Inácia, que fora da dimensão fechada e hierarquizada da casa da fazenda, parece perdera sua identidade e não sabe mais quem é.

 

Nesta perspectiva Conceição pode representar uma primeira ruptura da rígida cartografia de gênero segundo a qual a mulher é confinada dentro de casa – «o único lugar que a mulher pode frequentar sozinha é a igreja» (Queiroz, 1996:102) – quando, pelo contrario, o homem pode circular livremente. Uma dicotomia totalmente anuladana personagem de Maria Moura. Imaginando a sua protagonista mais radical, uma mulher que vive no sertão cearense durante o século XIX, Rachel de Queiroz a torna um medium ideal para desenvolver um discurso sobre os papéis femininos, sobre a diferença e a procura de autonomia. Neste processo o sertão, na dupla valência de espaço fechado/aberto –feminino/masculino, representa um elemento altamente simbólico. O momento em que, depois de ter incendiado a casa da fazenda O Limoeiro para evitar um casamento forçado com o primo, a jovem se encontra pela primeira vez sozinha no sertão é o momento em que inicia a sua transformação de sinhazinha em Dona Maria Moura. Acompanhada apenas de um bando de « cabras » de confiança, é naimensidade de um «grande sertão» (Queiroz, 1996: 188) lírico, mas sempre real, que Maria Moura reconhece na conquistada independência a autêntica realização dos seus sonhos de criança:

 

As viagens que eu fazia em menina eram mais uns passeios – uma légua, duas, raramente passava três léguas, ida e volta. Eu sonhava em ganhar os caminhos, atrás dos comboieiros, tangendo tropa de burro. Teve um cantador no Limoeiro que, no desafio, quando um perguntou ao outro onde é que ele morava, o cabra soltou a voz e respondeu: "Em cima das minhas apragatas, em baixo do meu chapéu...". Fiquei sonhando com aquela liberdade. Meus sonhos de menina não eram sonhos de mocinha; Mãe se escandalizava. Pois agora eu era livre. Em cima do meu cavalo Tirano, embaixo do meu chapéu de palha... . (Queiroz, 1996: 87)

 

Em um crescendo, a protagonista de O Memorial adquire uma sempre maior consciência de si e, após ter vivido chefiando um bando de jagunços e assaltando com eles os viajantes, se torna dona da Casa Forte, encontrando finalmente o seu « canto no mundo ». O percurso existencial de Maria Moura se materializa, então, numa viajem bem real pelo sertão: da fazenda ondereina a ordem masculina, após uma longa peregrinaçãoatravés da geografia da caatinga -toda igual, como um mar[15] - até um espaço de autonomia e liberdade.

 

O de Maria Moura é um percurso similar ao que cumprem, mesmo se os destinos e sortes são distintos, outras personagens imaginadas por Rachel de Queiroz, como a beata Maria e a cangaceira Maria Bonita, assim como Dora, protagonista do homônimo romance. Todas tendo em comum o abandono do lar familiar, a renúncia ao papel de esposa e mãe, « numa forma ostensiva de ruptura com a opressão do passado » (Xavier, 1998: 39) que se realiza sempre através uma apropriação metafórica do espaço aberto do sertão. Nesta perspectiva, é interessante considerar que a recusa do casamento implica não somente uma simbólica cesura da autoridade masculina sobre a mulher - que não transita mais do controle do pater famílias ao controle do marido - mas abala a bem mais prosaica função material do contrato matrimonial. Uma função que implicava na transmissão da propriedade, pois « le mariage mettait beaucoup d’intérêts en jeu : […] de nature religieuse […], et de nature civile -, le mariage avait des implications sur la transmissions de la propriété. On peut y ajouter les intérêts de nature économique et politique » (Rêgo, 2006 : 54).

 

Nas páginas de Rachel de Queiroz, interconectam-se as geografiasmaterial, simbólica e social do sertão,e a escrita se torna um instrumento de questionamento das categorias constitutivas da identidade sertaneja. Maria Moura, descendente direta das matriarcas nordestinas[16] e arquétipo à rebours de tantas outras personagens imaginadas por Rachel de Queiroz, pode ser lida como uma tentativa de reincorporar as figuras femininas ao espaço aberto do sertão.

 


O sertão universal, o sertão individual

 

 

« Em frente, todos os novos caminhos para mim eram um mistério. Na escola, eu tinha estudado os mapas da França, de Portugal, da Terra Santa. Mas aquele grande sertão, diante de mim, nunca vi mapa que o retratasse. Era como se eu avançasse por sobre as águas do mar. Tudo igual, sem horizonte » (Queiroz, 1996:188)

 

 

Se nas suas páginas Rachel de Queiroz declina o sertão, na sua materialidade geográfica como na sua valência simbólica, em múltiplas representações, qual é finalmente a sua imagem mais significativa?Fiel a sua origem etimológica obscura[17], o sertão representado por Rachel de Queiroz recusa uma interpretação unívoca. Locus da memória e origem, espaço lexical original, lembrança de sabores e ingredientes próprios, figuração da condição existencial da personagem, ele se declina continuamente em diferentes representações. Essas imagens compõem, portanto, um conjunto coerente e pessoal que a autora não se cansa de atualizar através de sua escrita.

 

Interessante destacar como, pela autora, as referências à realidade sertaneja são constantes: além do momento regionalista, em que o Nordeste pode ser visto como um assunto identificadordo Romance de 30, a escritora continua a representar a realidade sertaneja, contribuindo para ampliar e renovar o seu imaginário.

 

Desde a publicação de O Quinze, Rachel de Queiroz utiliza o seu caráter sertanejo, biográfico e literário, com uma dupla finalidade: a de se integrar ao campo cultural brasileiro da década de Trinta e a de reivindicar a própria autonomia autoral e estilística.

 

A historiografia e a crítica literária reconhecem em Rachel de Queiroz uma expoente do "romance do Nordeste", romance que, para citar a análise de Antonio Candido, é considerado nos anos trinta:

 

[...] como o romance por excelência. A sua voga provém em parte do fato de radicar na linha da ficção regional (embora não "regionalista", no sentido pitoresco), feita agora com uma liberdade de narração e linguagem antes desconhecida. Mas deriva também do fato de todo o País ter tomado consciência de uma parte vital, o Nordeste, representado na sua realidade viva pela literatura. (1989: 187)

 

Nesta perspectiva, a leitura de O Quinze - o romance mais imediatamente sertanejo de Rachel de Queiroz - demostra como o olhar da autora sobre a sua região é sempre pessoal e inédito. Vários elementos podem inserir o texto no universo dos romances sociais e regionalistas publicados na década de Trinta, no entanto, uma análise mais atenta da sua estrutura e do dramatis personae, revela algumas diferenças significativas. No texto, por exemplo,a problemática não chega em nenhum momento a predominar sobre a personagem[18], um elemento que identifica o romance deste período. Conceição, com o seu individualismo, ocupa um lugar fundamental na economia narrativa, predominante, em termos de peso narrativo e dramático, em relação ao problema social e à paisagem. Uma afirmação que pode encontrar uma ulterior confirmação na análise de Frederico Schmidt segundo a qual otexto não apresenta em momento algum um caráter panfletário. Na leitura do crítico, O Quinze não chegaria a propor alguma solução à realidade social do Nordeste, mas se limitaria a descrever a situação com « tanta emoção, tão pungente e amarga tristeza » (1989: LVI – LVII), distanciando-se das tendências do romance da década de trinta.

 

Fig.4 Rachel de Queiroz com AgrippinoGrieco e José Lins do Rego numa propaganda da década de 1940 da José Olympioeditora.

 

Além dessas possíveis leituras, é a própria Rachel de Queiroz quem marca as diferencias entre as suas narrativas e as dos escritores seus contemporâneos.Numa entrevistaem 1977 para Haroldo Bruno, refletindo sobre o seu lugar no panoramaliterário dos anos trinta e quarenta, Rachel de Queiroz descreve com precisãoa não ortodoxia da sua escrita:

 

[…] Propriamente nunca fui regionalista ortodoxa; se minha literatura se fixava aqui, onde nasci e sempre vivi, era porque não a poderia situar num espaço imaginário e sim no meu espaço natural. [...] Também se não fui regionalista ortodoxa, nunca fui modernista de vanguarda; quando apareci, a ebulição já serenara e, da luta dos modernistas, nós – os meus contemporâneos e eu – aproveitamos as conquistas, sem que carecêssemos mais entrar nas brigas » (Bezerra, 2010: 37)

 

A partir do espaço natural, tornadopropriedade literária do autor, a escritoradefine a sua postura autoral. É um espaço capaz de marcar a sua « distância »dos outros regionalistas: «[…] Nas zonas mais úmidas do litoral, nos “brejos”, que são propriedade literária dos meus ilustres colegas José Américo e José Lins do Rego, a seca bate apenas de ricochete: eles vêem somente os bandos de retirantes pedindo esmola, o preço do feijão e da carne que sobe, as soledades magrinhas e líricas que dão pasto à fome amorosa dos moços brancos e servem de modelo aos romancistas» (Queiroz, 1989: 20). Estas palavras podem ser lidas como uma tentativa de esboçar uma geografia literária, ao mesmo tempo, material e simbólica, que orientariao olhar e a palavra do escritor. Uma geografia à qual Rachel de Queiroz se refere quando tenta explicar o próprio ponto de vista narrativo:

 

O approach do José Lins era do menino do engenho, de senhor de engenho. O meu nunca foi o da sinhazinha. É o da mulher totalmente integrada na vida nordestina. Eu assumo isso em todos os meus personagens. Eu não sou uma pessoa deslocada, sou aquela que não sai de lá mesmo quando sai. Essa diferença eu me reservo e cobro dos outros quando me confundem com a tropa geral dos literatos, eu me isolo disso. Realmente, meu ângulo é feminino, é pessoal.(Hollanda, 1997: 114)

 

É a partir deste ângulo – feminino, pessoal, mais ao mesmo tempo integrado à vida nordestina – que Rachel de Queiroz traça nas suas páginas um retrato do sertão, guiando o leitor através a sua paisagem.

 

Se é verdade que, como afirma Arrigucci, « nos voltamos para o sertão quando desejamos saber quem somos ou para formular as perguntas para as quais não temos as respostas »(2001), a leitura da obra de Rachel de Queiroz representa então um instrumento fundamental para quem queira entender o sertão e, talvez, a identidade brasileira.

 

 

Referências bibliográficas

 

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XAVIER, Elodia. Declínio do Patriarcado: a família no imaginário feminino. Rio de Janeiro : Rosa dos Tempos, 1998, 125 p.

 

 


[1] A seca de 1915 é lembrada – mesmo se não diretamente, pois na época a autora tinha apenas cinco anos – várias vezes por Rachel de Queiroz como momento de abandono da terra natal.  Um sentimento que ela afirma ter herdado diretamente do pai, homem fortemente ancorado à terra de origem. Respondendo a uma pergunta sobre o pai, Rachel de Queiroz afirma que ele gostava de ser fazendeiro – quando a profissão oficial dele era procurador - e se não tivesse sido pela seca de 1915 ele nunca teria saído do Ceará. Uma vez acabada a seca, ele voltou a morar em Quixadá « [...] e disse que nunca mais iria largar a fazenda». (Queiroz apud Nery, 2002: 39)

[2] As lembranças da infância no sertão são frequentes nas páginas de Rachel de Queiroz, mais especificamente nas crônicas. A propósito, é possível citar, por exemplo,o texto intitulado Pici, de 24 de agosto de1975, no qual a escritora relembra as primeiras leituras na fazenda do pai. A sua formação intelectual, como também a sua venue à l’écriture – para parafrasear Cixous - são entãonordestinas. Pici faz parte de As Menininhase outras crônicas, citado na bibliografia.

[3] A carreira de professora de Rachel de Queiroz foi muito breve, um período evocado nas memórias Tantos Anos: « Quando escrevi O Quinze, entre 1929 e 1930, já era jornalista profissional. Foi então também que tive o único emprego público da minha vida: fui nomeada interinamente professora da Escola Normal, ganhando [...] um ordenado razoável nessa época. » (Queiroz; Queiroz, 1998: 27). Se Rachel de Queiroz foi por apenas um ano professora –o jornalismo e o sucesso de O Quinzerevelaram o seu talento como escritora – e ela nunca correu o risco de se encaminhar pela vida monástica.  Quando criança, ela não recebeu nenhuma educação religiosa e foi depois que a avó paterna descobriu que a neta nem sabia fazer o sinal da cruz que ela foi estudar no Colégio da Imaculada Conceição. Ver “História de um nome” in Rachel de Queiroz. Cadernos de Literatura Brasileira (1997: 10).

[4] Se é muito difícil medir a influência de Gilberto Freyre sobre os primeiros romances de Rachel de Queiroz, é interessante destacar como a crítica responde de maneira diferente à questão:  para José Aderaldo Castello e Luciana Stegagno Picchio - para citar apenas dois entre os maiores historiadores da literatura brasileira, mas a opinião é geral -  o movimento e o Congresso Regionalista do Nordeste do Recife de 1926 tiveram um papel determinante no desenvolvimento do Romance de 30, pelo menos do ponto de vista temático. Para ElviaBezerra, ao contrário, a influência do movimento de Gilberto Freyre no Ceará foi praticamente  nula. No ensaio intitulado Nata e Flor do nosso povo, propondo um paralelo com o autor de A arte moderna que, em 1924, conduzia uma campanha de difusão das idéias modernistas no Nordeste, Elvia Bezerra afirma: « Se a voz de Inojosa não ecoou em Fortaleza, tampouco ali aportou o Manifesto regionalista de 1926, com que Gilberto Freyre pretendera convocar o Nordeste para a renovação literária e que, prova o autor de AArte moderna, é, na verdade, de 1952 » (Bezerra, 2010 : 34). A data de 1952 refere-se à primeira publicação em volume da conferência ministrada por Freyre em Recife, momento a partir do qual o texto começa a circular e a ser conhecido fora das fronteiras regionais.

[5] A este propósito é interessante citar Tantos Anos, obra em que a escritora explica como a seca foi um elemento bem presente na experiência da família: « Em 1915, papai já deixara a cidade e estava muito interessado no sertão, onde mandara fazer umas plantações de arroz. Mas então veio a seca, ele perdeu a plantação e quase todo o gado. É a história que eu conto em O Quinze, embora na época eu só tivesse quatro anos » (Queiroz; Queiroz, 1998: 15)

[6] Um tema recorrente em várias entrevistas da autora e, mais especificamente, em Presença de Rachel: « […] desde pequena me interessava pelas histórias contadas pelos caboclos da fazenda, pelos que chegavam lá em casa e narravam o drama da terra, a dura luta contra a adversidade do ambiente, da falta de recursos, da fome, das doenças. Isso me tocava muito, me colocava em contato com a fragilidade da vida, a sua precariedade [...]. A seca por exemplo era um drama pungente e aterrador. Desde que nasci nunca tinha visto por perto uma seca, mas a tradição oral influía muito. A primeira grande seca a que assisti foi em 1932. A seca era tão violenta, a miséria tão gritante, que [...] é difícil ter noção do quanto o abandono era total » (Queiroz apud Nery, 2002: 67)

[7] Mesmo se vários críticos identificam em O Quinze uma influência direta do primeiro romance de José Américo de Almeida, na entrevista para os Cadernos Rachel de Queiroz, respondendo a uma pergunta sobre a leitura de A Bagaceira, afirma: « Eu li depois. Muita gente pensa que fui influenciada pelo livro de José Américo. Como éramos muito amigos, deixei que ele pensasse que eu tinha lido antes. O Zé Américo não me perdoaria se soubesse que eu não tinha lido A Bagaceira antes de escrever O Quinze » (1997: 22)

 

[8] Esta introdução, intitulada As clássicas duas palavras, aparece na primeira edição de O Quinze – edição autofinanciada do Estabelecimento Gráfico Urânia – como também na segunda edição do romance, da Companhia Editora Nacional de São Paulo. O texto, de grande interesse, desapareceu tristemente das edições sucessivas do romance e acabou sendo pouco citado e pouco conhecido. Resolvemos, portanto, nesta ocasião cita-lo, talvez de forma extensa, respeitando rigorosamente a grafia e as escolhas da autora (itálicos, aspas).

[9] Veja-se a esse propósito a entrevista Presença de Rachel: « Quando escrevi O Quinze, quis apresentar uma seca sem aquele excesso de urubus e cadáveres expostos ao sol, as mulheres sendo violadas por hordas de retirantes, […] em suma não queria carregar demais nas tintas[…]. Queria um realismo mais subjetivo que procurasse captar o lado humano dos que viviam aquele drama. A minha tendência literária sempre foi fugir dos exageros, dos adjetivos » (Queiroz apud Nery, 2002: 68).

[10] Nesse texto, publicado pela primeira vez em 1956 e republicado pelo Estado de São Pauloem 2006, Antonio Candido analisa a distância entre a obra de Rosa e o romance regionalista, destacando alguns elementos que, na nossa opinião, são encontráveis também em Rachel de Queiroz: « Mundo diverso da ficção regionalística, feita quase sempre de “fora para dentro” e revelando um escritor separado da realidade essencial do mundo que descreve; e que enxerta num contexto erudito elementos mais ou menos bem apreendidos da personalidade, costumes e linguagem do homem rústico, obtendo montagens, não a integração necessária ao pleno efeito da obra de arte » (Candido, 2006 : 9)

[11] Mesmo podendo ser considerado como ambientado no sertão, João Miguel apresenta uma exceção pois as vicissitudes do protagonista se passam inteiramente dentro de uma prisão. A paisagem sertaneja está então ausente e tem a simples função de localizar geograficamente os eventos.

[12] Apesar da peça Lampião ser dedicada ao famoso cangaceiro, Maria Bonita é uma personagem fundamental, capaz de garantir a coerência da ação dramática. Dessas considerações deriva a nossa escolha de considerá-la como a co-protagonista da obra.  Uma leitura que parece ser confirmada pelas palavras de Rachel de Queiroz declarando que a sua primeira intenção foi de intitular o texto Maria Bonita. Enquanto escrevia, portanto,« […] o Lampião foi crescendo, tomando força e a peça acabou sendo a história dele » (Queiroz, apud Martins, 1997: 84).

[13] Citamos a este propósito o título do capítulo que Elodia Xavier dedica à Rachel de Queiroz no Declínio do patriarcado.

[14] Para uma análise completa dos papéis femininos que se encontram nos romances da década de Trinta, veja-se a de Luís Bueno no terceiro capítulo da obra citada em bibliografia.

[15]Uma comparação, aquelaentre o mar e o sertão, que é sugerida pela mesma Rachel de Queiroz.  Durante a sua viajem pelo sertão Maria Moura tem a impressão de avançar « [...] sobre as águas do mar. Tudo igual, sem horizonte. » (p.188).

[16]Tratam-se de figuras históricas reais do sertão do século XIX - como Bárbara de Alencar, Federalina de Lavras e Marica Macedo. As histórias dessas três mulheres, personagens históricas e míticas ao mesmo tempo, circulavam na família de Rachel de Queiroz desde sempre. É a mesma escritora a recontá-las à Heloísa Buarque de Hollanda durante uma entrevista de 1989. Veja-se também os artigos de Hollanda, Matriarcas do Ceará – D. Fideralina de Lavras (1990) e O éthos Rachel (1997).

[17]Segundo o dicionário eletrônico Houaiss - edição 2001, que remete para o DicionárioEtimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, a origem etimológica da palavra sertão seria obscura apesar de « na opinião de certos autores, o vocábulo seria evolução do lat. «*desertánu- ».

[18] Retomamos aqui as categorias conceituais propostas para Antônio Candido na análise do romance da década de trinta. Segundo o crítico, os textos de autores como José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, como também de Rachel de Queiroz, seriam caracterizadospela marcante preponderância do problema sobre o personagem. (2006: 131)

 

 

 

 

Pour citer cet article:

 

MANERA, Giulia. «O mundo lá fora - imagens do sertão em Rachel de Queiroz», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°11, automne-hiver 2012, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.