Michel Giacometti: a voz pelos caminhos da tradição

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Miguel Magalhães

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UNL

Instituto de Estudos de Literatura e Tradição – IELT

 

 

I - Caminho para um espólio

 

Michel Giacometti nasceu em 1929 em Ajácio, Córsega. Criado no Norte de África por um tio, funcionário colonial, Giacometti contactou desde cedo com o Outro e com o exotismo. Viajou por vários países e conheceu algumas universidades, incluindo a Sorbonne, onde frequentou um curso de literatura e etnografia, que nunca terminou1. Em 1956, organiza uma missão internacional para os Estudos de Folclore das ilhas do Mediterrâneo, a Mission Méditerranée 56, que não chegou a concluir, tal era a dimensão da pesquisa a que se propunha. Este projeto tinha como objetivo investigar e registar todas as tradições de todas as ilhas do Mediterrâneo. Podemos encontrar no arquivo Michel Giacometti2 uma coleção de fotografias deste trabalho, que permanece até hoje como a única prova documental deste projeto.

 

Estabelece-se em Portugal em 1959, onde começa imediatamente uma investigação etnomusical no nordeste do país, em Trás-os-Montes. Giacometti procurava a genuína canção popular, muito diferente daquela que era produzida pelas agências de propaganda do Estado Novo e que faziam parte da chamada “Política do Espírito”. O SNI (Secretariado Nacional de Informação) coordenava e promovia as manifestações de cultura popular que eram completamente estereotipados pelos órgãos oficiais e não revelavam a verdadeira música tradicional; muito mais rica e expressiva do modus vivendi do povo português. Michel Giacometti apercebeu-se rapidamente do aspecto funcional da música tradicional e as suas múltiplas convergências que se traduziam num discurso heterogéneo. Mas acima de tudo, ele percebeu a necessidade de salvar essas tradições através de meios audiovisuais que começaram a popularizar-se nesta época, uma vez que estas tradições musicais, sobretudo ligadas aos trabalhos manuais, desapareciam rapidamente devido à rápida mudança social que ocorria em Portugal.

 

Pela minha parte, segui as passadas de Kurt Schindler, assim como as de Rodney Gallop, de Armando Leça e de Jorge Dias (cuja monografia de « Rio de Onor » inclui notações musicais de Margot Dias). Também encontrei em Tuizelo o padre Firmino Martins, venerando velhinho, para quem os anos não fizeram diminuir o tenaz esforço que tem devotado ao estudo das tradições da sua região.


Trinta anos depois da passagem de Kurt Schindler por essa aldeia, nada tinha sido perdido dos preciosos “romances” que fazem o encanto da povoação, não sendo raro ouvir as crianças a cantá-los. (Correia, 2004: 43).

 

No início da década de 60 conhece o maestro Fernando Lopes-Graça com quem inicia imediatamente uma parceria tanto profissional como pessoal e que duraria até à morte de Giacometti. Esta parceria foi importante porque trouxe para o trabalho de Giacometti um conhecimento científico na área musical que o etnomusicólogo não tinha. Recordamos que Fernando Lopes-Graça tinha uma extensa obra musical editada mas também literária e ensaística. Em conjunto, criaram os Arquivos Sonoros Portugueses onde estabelecem um plano de edições que consistia na recolha, estudo e divulgação da música tradicional portuguesa. Embora direccionados para a música tradicional, os Arquivos Sonoros Portugueses3 editaram também outros músicos e géneros como o próprio Fernando Lopes-Graça (1961) e José Mário Branco (1969). Mas rapidamente aperceberam-se que não era suficiente gravar a música porque esta era uma pequena parte de um conjunto mais amplo de ações que não podiam ser separadas. Michel Giacometti foi sensível ao facto de a música (e, num sentido mais lato, todas as tradições) estar integrada num contexto específico do qual fazem parte, entre outros, a hora, os intérpretes, a acção que decorre, entre outros. Esta percepção da importância do contexto em torno da música aproxima-se da noção de performance de que nos fala Paul Zumthor:

 

Les conventions, règles et normes régissant la poésie orale embrassent, en deçà et au-delà du texte, son occasion, ses publics, la personne de celui que le transmet, le but qu’il vise à court terme. (Zumthor, 1983: 147).

 

Desta forma, Giacometti e Lopes-Graça registam não só a música mas também todo o contexto em que é produzida, através da transcrição musical, do registo fotográfico e, mais tarde, pelo registo audiovisual, formando um retrato panorâmico e abrangente das tradições, costumes e modo de vida do povo português. Partindo deste princípio, registaram também (além das canções) poesias, teatro popular, romances, entrevistas, orações, receitas de medicina popular e tudo o que puderam encontrar durante as suas pesquisas.

 

As músicas recolhidas foram posteriormente seleccionadas e editadas por um sistema de assinaturas, uma vez que eram edições limitadas. Os discos em vinil da Antologia da música regional portuguesa foram publicados em cinco partes dedicadas às várias regiões do país: Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Alentejo e Algarve.

 

As gravações de Giacometti, apresentam outro interesse: o destes cantos terem sido muitas vezes recolhidos durante as horas de faina. Com ele, ouvem-se pela primeira vez em Portugal vozes oriundas de várias regiões, interpretadas em cada fase do ciclo do cereal: a lavoura, sementeira, rega, sacha, colheita, debulha e desfolha dos cereais. Deste conjunto de cantos funcionais surgem melodias e letras, técnicas de interpretação e timbres de vozes que mostram que o campo mantém bolsas de memória dessincronizadas da cidade. Um poço de riquezas que constitui em si uma História viva e autónoma. (Caufriez, 2004, 22).

 

A partir de 1965, Giacometti inicia a recolha da literatura popular portuguesa e sistematiza-a através de dois projectos que tinham em comum a colaboração de Manuel Viegas Guerreiro (1912-1997). O primeiro projecto foi a Linha de acção de recolha e estudo da literatura popular (realizado entre 1972 e 1980), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o segundo, o Plano "Trabalho e Cultura " (1975), através do Serviço Cívico Estudantil. Na sequência da Revolução dos Cravos, que em 25 de Abril de 1974 põe fim ao regime ditatorial do Estado Novo, um dos serviços culturais que sustentava a Política do Espírito era a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Michel Giacometti é convidado a pertencer à comissão que iria proceder à reestruturação deste organismo num outro, o INATEL. Dentro da estrutura do INATEL, Giacometti encontra espaço para a instituição de um Centro de Documentação Operário-Camponesa (CDOC):

 

O Centro de Documentação Operário-Camponesa, nome do projecto por ele divulgado, com um programa próximo do conceito museu-laboratório, era constituído por um Sector de Pesquisa com equipas móveis de investigação, um Sector de Documentação com arquivo e estúdio e um Sector de Divulgação com sala de exposição, biblioteca, videoteca e audioteca e um auditório polivalente. Em associação com o Plano Trabalho e Cultura todo o material recolhido nesta campanha viria para o CDOC, assim como estava prevista a integração dos Arquivos Sonoros Portugueses. Michel Giacometti é afastado do INATEL e o plano de reestruturação é abandonado. (Correia, 2004: 15).

 

Através do Plano Trabalho e Cultura são organizadas equipas de estudantes em idade pré-universitária (na sequência da revolução ocorreu um hiato de um ano em que não houve acesso ao primeiro ano do ensino superior) que serão distribuídos de norte a sul do país, numa gigantesca rede de contactos, para recolher junto da população (rural) a literatura popular, instrumentos agrícolas e fazer o levantamento das condições de saúde e de higiene das populações. Tratava-se um projecto de cunho vincadamente militante, com traços do Travail et Culture francês, como fazem notar Branco e Oliveira (1993).



[Figura 1 e 2: Ficha de recolha do Serviço Cívico Estudantil
Local: Portalegre
Autor: Plano Trabalho e Cultura – Equipa A/1
Data: 1975
Cota: MG-SCE-A1-043/044
Museu da Música Portuguesa / Fundo Michel Giacometti]

 

 

O Plano Trabalho e Cultura4 prolongava-se por dois meses, em que cada equipa prospectava três locais diferentes num mesmo concelho. Esta distribuição nem sempre funcionou do mesmo modo uma vez que nem sempre as equipas conseguiram cumprir os apertados prazos impostos (juntamente com a desconfiança das populações e alguns problemas logísticos e humanos). Foram dados aos brigadistas (nome pelo qual eram conhecidos os estudantes, de acordo com o espírito da época) cursos intensivos em fotografia, som e métodos de recolha e entrevista, que eram acompanhados de uma pequena colecção de manuais, desenvolvidos para orientar os alunos. Nestes manuais, inteiramente desenvolvidos pelos coordenadores, podemos encontrar além dos métodos de pesquisa, importantes exemplos de literatura tradicional, bem como calendários de celebrações e festas regionais às quais era importante os estudantes estarem atentos.

 

Pela dimensão e meios que pôs à disposição de Michel Giacometti, o Plano Trabalho e Cultura constituiu-se como o mais importante projecto para o etnomusicólogo porque permitiu ampliar a rede (já vasta) de contactos e reunir informação que Giacometti pode explorar mesmo depois da extinção formal do projecto. Na sequência destas recolhas existem, actualmente, além de milhares de fichas dactiloscritas, fotos, objectos etnográficos e instrumentos agrícolas únicos (tanto doados como comprados), estes últimos constituíram o núcleo museográfico fundador do Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal.

 

Em relação às recolhas de cultura e literatura tradicional, importa sublinharmos a génese “voluntária” e “apressada” deste espólio: uma vez que as recolhas eram feitas por jovens que cumpriam um serviço cívico e que não tinham experiências anteriores em recolhas etnográficas, é importante mantermos presente que a quantidade de material recolhido poderá não ser proporcional à sua qualidade. Alguns materiais foram estudados e publicados posteriormente, como apontam Maria Aliete Galhoz5 e João David Pinto Correia (as anedotas em 1986, o romanceiro em 1987 e 1988, e os contos em 1994). Muitos outros foram transcritos e guardados para estudos posteriores que não chegaram a realizar-se. Prova dessa recolha extensiva são as anotações no canto superior direito das fichas de recolha que contêm a indicação da cassete onde tinham sido gravados os espécimes transcritos e que, no decurso de uma primeira selecção feita por Giacometti, foram rejeitadas. Giacometti utilizou também o trabalho dos brigadistas como forma de prospectar futuros locais uma vez que as gravações feitas pelos brigadistas, além de semiamadoras, não tinham qualidade técnica para edição.

 

Antes do Plano Trabalho e Cultura, Michel Giacometti realizou dois pequenos filmes (com cerca de 15 minutos cada) que se tornariam (intencionalmente ou não) a génese de uma série documental para televisão. O primeiro foi gravado em 1962 e intitula-se O alar das redes; o segundo, gravado em 1963, tem como título Rio de Onor, uma reunião do Concelho. É provável que Giacometti tivesse outras gravações às quais se perderam o rasto.

 

Entre 1970 e 1973, concebe para a RTP o programa Povo que Canta, realizado por Alfredo Tropa, num total de 37 programas bimestrais que reuniam em formato audiovisual a sua pesquisa entre 1960 e 1970. Além da importância documental em termos etnomusicológicos, Povo que Canta constituiu-se como uma janela que o Portugal citadino abria para esse aparentemente longínquo Portugal rural. Passou, por isso, a documento não só etnográfico, mas também de uma época, de um Portugal, em muitos aspectos, atrasado e duro. A imagem da mulher da roda (13º programa da série) continua a ser uma das mais icónicas do programa e acabou por tornar-se a imagem de um outro Portugal, longe da maquilhagem do Estado Novo.

 

A mulher que sobe a ladeira inclinada, de costas para o Zêzere, é Apolinária de Jesus [1907-1974]. Vai descalça para a roda. O moinho de Manuel Marques, seu marido, é lá no fundo do vale. Canta hoje na roda e aos domingos na igreja. Não sabe ler nem escrever, as cantigas que canta vieram de Lisboa. E outras que de memória aprendeu com aqueles que para trás tocaram a roda. De mãos presas a frágeis ramos, toca o engenho. Os pés duros fazem a pequena roda de horta mover-se com rapidez. É a mais forte imagem da série Povo que Canta. Nunca se viu na télévisão. Não soube que foi metáfora de dura poesia para um país amordaçado. Mas sabe sorrir… (Lima & Marques, 2010: 9)



[Figura 3: Michel Giacometti registando a cantilena da roda
Local: Dornelas (Pampilhosa da Serra, Coimbra)
Autor: S. N. Santiago
Data: Agosto de 1969
Cota: ICO-MG-2371
Museu da Música Portuguesa / Fundo Michel Giacometti]

 

 

Se o programa Povo que Canta mostrou a face desconhecida das tradições musicais portuguesas, também mostrou esse Portugal apócrifo, onde a carrinha de filmagens se atolava nos caminhos de lama ou onde podíamos ver os camponeses a trabalhar sem descanso; longe do país idílico e solar, da ilha de paz e imutabilidade no meio da modernidade que o salazarismo vendia ao estrangeiro em campanhas de turismo. Povo que canta tornou-se não só um documento etnomusical como também um documento social, com uma forte vertente militante no horizonte. O fim da euforia revolucionária saída do 25 de Abril de 1974 e a estabilização do sistema democrático não fazem diminuir a persistência e vontade de Giacometti em continuar as suas recolhas. Se por um lado o fim do Serviço Cívico Estudantil e, com ele, o fim do CDOC deitam por terra esse projecto tangível do museu-laboratório, por outro lado Michel Giacometti não desiste da ideia de um local onde pudesse depositar tanto a sua investigação como o próprio espólio dos Arquivos Sonoros Portugueses, iniciando a partir deste momento a busca por uma instituição que pudesse albergar este património.

 

Em 1981, publica conjuntamente com Fernando Lopes-Graça o Cancioneiro Popular Português que acaba por ser a única referência (publicada) que temos sobre o seu pensamento como etnomusicólogo. A obra, composta por um livro e uma cassete, teve uma tiragem de 20.000 exemplares que esgotaram quase imediatamente. Trata-se de uma colecção de canções e música instrumental que tenta mostrar a diversidade musical em Portugal, composta por 250 espécimes musicais transcritos. O seu corpus foi constituído por uma selecção de entre “cerca de 7000 espécimes musicais, dos quais perto de 4000 provenientes de cancioneiros e obras várias, e 3000 das nossas recolhas” (Giacometti & Lopes-Graça, 1981: 6). E tinha como objectivo principal “aproximar vozes, ritmos e gestos, dispersos ou perdidos no tempo, cuja confrontação permitiria esboçar a traços largos a fisionomia da nossa canção popular” (Giacometti & Lopes-Graça, 1981: 7). Para a organização do mesmo, os autores preferiram organizar os espécimes em nove passos que correspondem a etapas ou fases da vida do Homem: Do berço à Cova; As estações, os meses e os dias; A idade do pão; As mãos e os ritos; A candeia e as horas; Por terreiros e arraiais; As vozes e os gestos; O amor e o maldizer e finalmente, Entre pazes e a Guerra. A divisão permite aproximar o objecto de estudo que é a música ao seu contexto de produção que é a vida do Homem; ou como o próprio autor refere na introdução, faz parte do tecido social. E por isso, Giacometti reafirma:

 

A estes grupos, chamamos passos, no sentido de constituírem eles, para assim dizer, o terreno visível ou as direcções possíveis em que se movem os cantos e se ajustam dialecticamente à vida e suas normas na comunidade rural. (Giacometti & Lopes-Graça, 1981: 5).

 

Esta estruturação não é inédita e tinha sido ensaiada num trabalho anterior, o Romanceiro Geral do Povo Português, publicado em volume em 1964, e que teve como autores Alves Redol (que organizou, prefaciou e anotou o texto literário), Fernando Lopes-Graça (que escolheu, transcreveu e harmonizou os textos musicais) e Maria Keil que o ilustrou. Não podemos ignorar outros trabalhos feitos em equipa, como aqueles desenvolvidos sob a orientação de Manuel Viegas Guerreiro e Lindley Cintra na Faculdade de Letras e com quem Michel colaborou ativamente, mas também não podemos deixar de sublinhar que são, na sua maioria, trabalhos que partem da academia. O Cancioneiro Popular Português, tal como o Romanceiro Geral do Povo Português alguns anos antes, pretendiam devolver ao povo esse património envergonhado, atribuir-lhe grandeza e, de certa maneira, legitimá-lo. Não significa, porém, que Giacometti não se preocupasse com os aspectos técnicos e teóricos do trabalho e prova disso são as abundantes notas a cada uma das canções que figuram no final do volume (relembramos que Maria Aliete Galhoz tinha sido responsável pelas notas à Antologia da música regional portuguesa) e que traziam esse traço de erudição, necessário para o reconhecimento do trabalho.

 

Michel Giacometti não recolheu apenas o património popular imaterial mas também reuniu um conjunto significativo de instrumentos musicais, num total de 381 peças que cobrem, se não completamente então na sua maioria, do instrumental português. Esta colecção, da qual faziam parte instrumentos populares e eruditos, foi constituída sempre com a preocupação de não contribuir para a extinção de singularidades musicais. Por este motivo, Giacometti garantia-se sempre da existência de mais exemplares do instrumento ou, no caso muito comum do "fabrico próprio" de que o instrumentista/construtor tinha capacidade para fazer um de substituição. Esta colecção irá constituir o núcleo fundador do Museu da Música Portuguesa, em Cascais, quando, em 1981, a vende à Camara Municipal de Cascais e à qual irá juntar, em 1989, a sua biblioteca especializada, com cerca de 4000 volumes. Michel Giacometti vislumbrava, finalmente, um local onde poderia depositar o seu trabalho e, entre 1988 e 1990, pertenceu à comissão de instalação do museu. Ainda em 1984, vende o seu arquivo sonoro à Secretaria de Estado da Cultura, que é integrado no Museu Nacional de Etnologia. Os anos 80 do séc. XX tornaram-se, deste modo, o início de uma institucionalização e reconhecimento do trabalho do etnomusicólogo que viria a falecer a 24 Novembro de 1990, em Faro.

 

 

II – Depois de Giacometti

 

Intitulámos a primeira parte deste trabalho de Caminho para um espólio, roubando de forma propositada a ideia do título de um catálogo de uma exposição dedicada ao trabalho de Michel Giacometti. Esse catálogo pretendia não só dar a conhecer a vida e obra do etnomusicólogo como também “a história da criação das unidades que acabaram por servir de fiéis depositários […]”. O nosso trabalho pretende também mostrar não só alguns aspectos biográficos do etnógrafo corso (os poucos que se conhecem) como também a história da constituição do espólio e as complexas circunstâncias que lhe deram origem. É com esta complexidade no horizonte que foram editados os volumes Artes de Cura e Espanta-Males (2009) e o Romanceiro da Tradição Oral (2009). O primeiro relativo à medicina popular e o segundo com as recolhas do romanceiro. Ambos os volumes foram publicados em edições-documento, com intervenções mínimas devidamente assinaladas, decisão editorial que se justifica pelo facto de o fundo depositado no Museu da Música Portuguesa (que deu origem aos volumes) serem peças de uma obra maior que falta reunir. Além de contextualizarem o momento específico em que foi recolhido, essas notas e observações devem ser analisadas em conjunto com a marginália, presente tanto nas fichas de recolha como na própria biblioteca,e que revelam muito daquilo que foi o percurso de Michel Giacometti enquanto investigador. No caso específico do Romanceiro da tradição oral, as anotações manuscritas nas fichas indicavam o sistema de classificação que o investigador seguiu para a classificação dos romances. Giacometti utilizou o Romanceiro Português compilado por José Leite de Vasconcelos embora, como assinale Maria Aliete Galhoz (Galhoz, 2009), esta classificação tenha algumas falhas reveladas em estudos posteriores.



[Figura 4: Artes de Cura e Espanta-Males.]


 

O volume Artes de Cura e Espanta-Males tinha menos informação na sua marginália embora os coordenadores da edição tivessem presentes duas informações: a primeira de que as doenças estavam separadas por especialidades médicas, indicador de um trabalho de pesquisa com vista a uma “primeira arrumação” do material, e a segunda, prestada oralmente por Maria Micaela Soares6, a de que ainda na década de 70 havia um projecto de edição/organização da medicina popular que não chegou a realizar-se. Sabemos, no entanto, como se constitui o arquivo de Medicina Popular e quais as principais preocupações que estavam subjacentes à sua recolha, além das dificuldades. Uma das principais preocupações de Giacometti na recolha dos dados da medicina popular era a própria abordagem ao tema no seio das populações. Os cuidados de saúde eram, frequentemente, realizados na intimidade familiar porque a doença isola o Homem e o seu corpo da sociedade e, ao privar o Homem do seu instrumento de trabalho, a doença conduzia, frequentemente, à miséria. Deste modo, o etnógrafo corso aconselhava os pesquisadores de campo a abordar este tema através das mulheres da família, uma vez que era a estas que cabia a função de cuidar dos filhos e de tratar os doentes quando o tratamento médico especializado não era acessível.

 

 


[Figura 5: Romanceiro da Tradição Oral: recolhido no âmbito do Plano Trabalho e Cultura dirigido por Michel Giacometti.]


 

Foram fornecidos aos brigadistas do Plano Trabalho e Cultura7 dois documentos que constituíam o Inquérito C. O documento 12 compunha-se de um Levantamento das Condições de Saúde e, tendo como subtítulo Formulário, foi elaborado pelo próprio Michel Giacometti (a partir de um trabalho de campo do curso de pós-graduação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo, datado de 1969). Tratava-se de um documento extenso que se prolongava por 15 páginas de formato A4, abrangendo 60 perguntas. As questões inscritas neste documento eram centradas na base familiar e começavam geralmente por uma abordagem dos aspectos relacionados com as infra-estruturas domésticas, seguindo-se uma análise das condições de assistência médica e o recurso a remédios caseiros. Seguiam-se as questões sobre os hábitos alimentares e o levantamento do número de crianças que frequentavam a escola. O bloco final de questões examinava a relação da família com o exterior, isto com o objectivo de determinar quais eram as pessoas mais queridas da população e o tipo de convivência entre membros da família. Este questionário rematava com questões mais delicadas e íntimas, como por exemplo, se era feita alguma coisa para evitar os filhos, se sim, quais eram os métodos contraceptivos, entre outros aspectos. O facto de o questionário conter perguntas sobre natalidade mostra que este se dirigia preferencialmente a mulheres e que esta tarefa de prospecção deveria ser realizada pela componente feminina das equipas. Este facto justifica, em parte, a pouca recolha de campo nesta área pelo próprio Giacometti. Mas regressando à estrutura do inquérito, a pergunta nº 17 e a nº 25 faziam a ligação com o documento 13, intitulado Medicina Popular e Cautelas Supersticiosas (29 págs.). Eram elas:

 

Pergunta 17: “Em caso doença na família, a Senhora procura tratamento onde?"

a) Santa Casa da Misericórdia

b) posto de saúde da Casa do Povo

c) médico particular

d) farmacêutico

e) benzedor, endireita, bruxo

f) outros

 

Pergunta 25: “A Senhora costuma usar remédios caseiros (mézinhas)?

1. sim

2. não

3. não sabe

4. não respondeu

 

A resposta afirmativa da pergunta 25 era indicativa de que os brigadistas poderiam proceder ao inquérito do documento 13. Este documento tinha sido redigido por Giacometti com a importante ajuda de Rosália Heitor Ferreira e tinha uma estrutura diferente da do documento anterior porque organizava-se em torno de respostas condicionadas, por exemplo: Para certa doença utiliza o remédio X, Y ou Z? O contexto das questões organizava-se por ordem alfabética, onde eram listadas as doenças (nomeadas pelo seu nome científico e popular, se tal fosse conhecido) mais comuns. Esta organização dos questionários foi feita com base em dados recolhidos pelo próprio Michel Giacometti em trabalho de campo e pesquisa bibliográfica, como é referido no próprio questionário.

 

Pelo estudo destes dois documentos, podemos afirmar que a prospecção da medicina popular implica infiltrações, não só na esfera íntima e familiar das populações, como também incursões em áreas esquecidas e, sobretudo, envergonhadas porque dizem respeito à convivência que o Homem tem com a doença, o corpo e o meio social em que está inserido. Este corpus foi recolhido num período histórico da sociedade portuguesa que reflecte uma mudança de mentalidades em relação ao uso da medicina popular. A sua recolha (recordo, nos anos 60 e no pós-25 de Abril) coincidiu com dois períodos em que a sociedade portuguesa sofreu alterações profundas e substanciais.

 

O primeiro período a destacar foi a migração para os centros urbanos e a emigração para países mais desenvolvidos, que permitiram ao camponês comum tomar contacto com sistemas de saúde mais desenvolvidos e muito mais próximos da população. Estes movimentos populacionais contribuíram para o abalo das estruturas sociais tradicionais, a noção de aldeia, de comunidade e de pertença a um determinado grupo social alteraram-se profundamente, ao ponto de se estabelecerem novos princípios culturais de conduta.

 

O segundo momento de mudança foi, sem dúvida, o próprio 25 de Abril de 1974, que conduziu à melhoria económica das populações e que permitiu o acesso aos cuidados de saúde. Esta conjuntura, juntamente com a democratização do acesso à educação, conduziu a uma aparente aceitação plena da medicina científica e a um quase repúdio das práticas tradicionais de cura.

 

É por esta recolha situar-se nesta fronteira cultural que reside a importância e singularidade deste espólio, embora não nos devamos esquecer que um trabalho de edição deve ser secundado por uma minuciosa pesquisa histórica que permita não só reconstituir os passos do etnógrafo como também contextualizar as recolhas porque Giacometti não olhava para este mundo rural que se perdia com nostalgia mas como material para construir uma memória e, consequentemente, uma consciência política.

 

 

 

Referências bibliográficas

 

ALMEIDA, Ana Gomes de, GUIMARÃES, Ana Paula e MAGALHÃES, Miguel (Coord.) (2009), Artes de Cura e Espanta-Males. Lisboa: Gradiva.

 

BRANCO, Jorge Freitas e OLIVEIRA, Luísa Tiago (1993), Ao encontro do povo – I. A Missão. Oeiras: Celta.

 

CAUFRIEZ, Anne (2004), «A antologia da música regional portuguesa por Michel Giacometti”. Michel Giacometti: Caminho para um museu. Cascais: Camara Municipal de Cascais.

 

CORREIA, Conceição (coord.) (2004), Michel Giacometti: Caminho para um museu. Cascais: Camara Municipal de Cascais.

 

CORREIA, João David Pinto (2009), Nota sobre "Algumas notas..." de Maria AlieteGalhoz. Centro de Tradições Manuel Viegas Guerreiro. Disponível em: <http://ww3.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/novidades/RTOMG_notas_JDPC.pdf>. (Consultado em 28/05/2014).

 

GALHOZ, Maria Aliete (2009), Algumas notas em torno ao Romanceiro da tradição oral recolhido no âmbito do Plano Trabalho e Cultura dirigido por Michel Giacometti. Centro de Tradições Manuel Viegas Guerreiro. Disponível em: <http://ww3.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/novidades/RTOMG_notas_MAG.pdf>. (Consultado em 28/05/2014).

 

GIACOMETTI, Michel e LOPES-GRAÇA, Fernando (1960-1970). Antologia da música regional portuguesa - 5 volumes. Cascais: Arquivos Sonoros Portugueses.

GIACOMETTI, Michel e LOPES-GRAÇA, Fernando (1981). Cancioneiro Popular Português. Lisboa: Círculo de Leitores.

 

LIMA, Paulo e MARQUES, J.J. Dias (2010), Michel Giacometti: Filmografia Completa(vol. 4). Lisboa: Tradisom.

 

RAMALHETE, Ana Mariaet al. (2009), Romanceiro da Tradição Oral: recolhido no âmbito do Plano Trabalho e Cultura dirigido por Michel Giacometti. 2 vols. Lisboa: Colibri

 

ZUMTHOR, Paul (1983), Introduction à la poésie orale. Paris: Seuil.

 

 


 

 

1 Foram feitos vários contactos com os serviços académicos e arquivos da Universidade da Sorbonne que se revelaram infrutíferos.

2 Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria no Monte do Estoril, Portugal.

3 Uma lista das edições dos Arquivos Sonoros Portugueses está disponível no sitio do MMP em: http://mmp.cm-cascais.pt/museumusica/mg/arquivos/listagem.htm

4 O trabalho em dois volumes de Branco e Oliveira (1993) é o mais completo, único e imprescindível, não só para conhecermos a biografia deste projecto de investigação como também para compreender como se processou o levantamento e registo do projecto.

5 A este respeito ler o artigo de Maria Aliete Galhoz, disponível em: http://ww3.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/novidades/RTOMG_notas_MAG.pdf

6 Maria Micaela Soares colaborou com Michel Giacometti em diversas ocasiões, nomeadamente no Plano Trabalho e Cultura, onde foi uma das coordenadoras.

7 A este propósito, consultar Branco e Oliveira (1993), p. 30-45.



Pour citer cet article:

 

MAGALHÃES, Miguel. «Michel Giacometti : a voz pelos caminhos da tradição», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°12, printemps-été 2015, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.