Miguilim e sua libertação pela arte
Lélia Parreira Duarte
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
A ideia de se poder definir o gênero homo
atribuindo-lhe a qualidade de sapiens, ou seja,
de um ser racional e sábio,
é sem dúvida uma ideia pouco racional e sábia.
Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema,
convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor;
em carregar consigo uma fonte permanente de delírio;
em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo,
existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação.
Há no ser humano um foco permanente de Ubris, a desmesura dos gregos.
(Edgar Morin, 1998, p. 7)
A epígrafe escolhida para esta reflexão sobre “Campo geral”, de Guimarães Rosa, parece bem adequada à personagem Miguilim, bom exemplo do homo demens de que fala Edgar Morin. É que Miguilim, extremamente sensível, afetivo e apaixonado, é marcado pela violência de um pai que ele enfrenta algumas vezes com seu silêncio desafiador, com a ostensiva ligação com a mãe, ou ainda com a desmesura de secretos planos de vingança, sacrifícios sanguinolentos e morte.
Essa reação de homo demens exemplifica-se, na perspectiva do pai, pela fúria com que o menino defende o Grivo das agressões de Liovaldo, o irmão “malino” que mora na cidade, só sabe ter aquelas conversas sobre sexo de que gostava o Patori e despreza todos da casa, com seu olhar superior. O pai aproveita a presença do tio Osmundo e de Liovaldo para testemunhar os “crimes” do filho, justificando assim a violência com que o espanca diante de todos, sem possibilidade de clemência ou abrandamento dos castigos que lhe inflinge.
Mas também Miguilim se vê como uma espécie de homo demens, porque até agride o Dito[1], ao ficar cheio de raiva quando vai fazer festa na cabeça do Rio Negro e quase tem a mão quebrada pelo touro. Miguilim se angustia ao perceber em si mesmo ecos da violência que tanto condena no pai, sendo que até o rápido perdão do irmão querido traz acréscimos ao seu medo e sensação de impotência.
Assim Miguilim espelha e repete, de certa forma, o humor instável do pai, em seu desespero pelas condições precárias de vida, sua impaciência com a falta de jeito do filho – cuja dificuldade de visão ninguém percebe – e sua paixão funesta pela mãe, em função da qual expulsa tio Terêz de casa, assassina Luizaltino e acaba por matar-se.
A memória do mal fundamenta portanto essa narrativa / poema, em que a loucura do pai termina no sacrifício maior da própria vida; Miguilim, porém, consegue utilizar positivamente suas tendências de homo demens e, assumindo a nulidade radical que o caracteriza, pode atingir a vida da criatividade e da libertação.
O percurso de Miguilim
Não é fácil o percurso do menino, entretanto, pois as suas características lembram também as do homo sacer (de que fala Giorgio Agamben (2004)): aquele que pode ser objeto de morte violenta, sem que o autor de tal morte seja considerado um homicida[2]. Miguilim sofre a violência que o pai exerce por direito, com a sua lei incontestável e de forma indiscutível, pois se ele é o criador, aquele que fecunda, o seu poder é reflexo do mundo divino, estando assim justificados a violência e o terror falocêntrico[3].
Confirmando esse terror falocêntrico que se assemelha ao das Fúrias da tragédia grega, as quais nunca esquecem o mal e para quem não existe perdão ou esquecimento, os outros homens da família – tio Osmundo e o irmão mais velho, Liovaldo – referendam a violência desse pai que está sempre pronto a castigar Miguilim[4], o sacrificável submetido sem apelação, sem defesa e sem socorro a uma violência que representa a lei solar-masculina que domina pelo medo e pela potencial punição. Pois Miguilim é o que mais fica de castigo na turma dos irmãos: o mais frequente recebedor das surras e o mais constante usuário do tamborete do castigo. Além disso, é sempre ligado às negatividades, certamente por sentir-se constantemente rejeitado pelo pai, que só se lembra dele para castigá-lo, para rir dele ou para dar-lhe trabalho, “xingando e nem olhando Miguilim” (Rosa, 2006: 107)[5]; em nenhum momento o pai lhe dedica uma atenção positiva; apenas o toma como interlocutor quando não há testemunhas do fato, mas então trata de assuntos de que o menino não consegue participar.
Isso confirma os problemas do menino no seio daquela família, cuja religiosidade negativa é tão marcada pelo medo do inferno, pela instabilidade do tempo e das finanças e pela ameaça do ambiente inóspito, das mudanças, do desemprego. O fato de ter sido crismado é também diferença que serve ironicamente para afastar Miguilim do convívio daquela família tão religiosa: lembre-se que, assim que ele volta da crisma com tio Terêz, o pai leva os irmãos para a pescaria, ficando ele em casa de castigo, porque, na sua ânsia de entregar para a mãe o presente que lhe trouxera e que devia consolá-la e alegrá-la – e que consistia na notícia de que o Mutum era bonito, como dissera o moço da cidade –, o menino não dera ao pai a esperada atenção. Recebe por isso duplo castigo, já que a mãe também não dá valor ou crédito ao presente que ele lhe trouxera...
A circunstância de Miguilim não enxergar bem tem certamente relação com os seus problemas, que se poderiam resumir na sua memória traumática, na perspectiva da negatividade do Mutum (e da vida nele vivida) e nas suas constantes dúvidas. Por isso precisava ele contrapor à racionalização dos outros a sua percepção, o seu pensamento fragmentado, de imagens em constante movimento, em busca recorrente de um tu que pudesse ajudá-lo a compreender. Por isso também precisava ele do socorro da linguagem: quando perde o irmão querido busca ansiosamente recuperá-lo através das palavras da mãe (quer ouvir de novo o que ela dissera sobre os cabelos, o nariz, o machucadinho do pé, quando estavam lavando o menino morto). Como a mãe não consegue lembrar as palavras então ditas, ele as repete alto, imitando-lhe a voz, como se a partir dos sons pudesse ter o alívio das lágrimas[6], pois precisava guardar aquelas expressões, “decoradas, ressofridas; se não, alguma coisa de muito grave e necessária para sempre se perdia” (p. 105) e ele não poderia mais encontrar o que tanto desejava: “algum sinal do Dito morto ainda no Dito vivo, ou o Dito vivo mesmo no Dito morto” (p. 105).
O ambiente falocêntrico do Mutum desautoriza qualquer manifestação de lei ou de acolhimento / proteção da noite-feminina: se a mãe do menino é completamente impotente para defendê-lo, diante da autoridade suprema daquele pai que julga e condena, a avó paterna, com suas implicâncias, apenas confirma, com a constante repressão, o banimento e a condição de sacrificável de Miguilim, em favor de quem nunca levanta a sua voz. Miguilim traz assim a “Campo geral” o testemunho de um superstes – aquele que, como diz Benveniste, é um sobrevivente: é o que viu e ouviu e que subsiste “além de” (1995: 278).
A violência que o atinge é inevitável, naquela prisão do espaço concentracionário do Mutum, embora nunca haja clareza relativamente à sua culpa e ao seu existir negativo. A sua nuda vita de homo sacer é regida por uma lei soberana que define o que ele pode ou não fazer, o que deve ou não dizer, nos limites de uma incompreensão que ele não consegue medir. Trata-se de uma exclusão inclusiva, de uma regra que formalmente o bane enquanto sujeito, forçando-o entretanto a “viver” (e a morrer simbólicas mortes diárias), de acordo com o que essa regra institui. Quando Miguilim se sente em perigo de morte, tenta reunir a família para rezar e insiste com a avó por uma nova sessão de rezas, com a desculpa das chuvas, já que “dura e braba desconforme, então ela devia de ter competência enorme para o lucro de rezarem reunidos” (p. 42-43). Mas Vovó Izidra não quer saber de sua aflição e não o atende, esbravejando: “– Tu tem é severgonhice, falta de couro! Menino atentado!...” (p. 43). Posteriormente Miguilim tem ainda mais acentuada a sua tonalidade trágica, pois a avó quer reprimir até suas manifestações de sofrimento, depois da morte de Dito: “Isso nem é mais estima pelo irmão morto. Isso é nervosias...” (p. 104).
A violência sofrida por Miguilim acentua-se pelo peso da religião, pois a idéia do inferno, com suas promessas de castigos e violências, funciona como uma outra vertente da autoridade suprema do pai, pronta sempre a castigar e punir, como que representando a ameaça/presença da morte.
O testemunho de Miguilim não é exatamente como o da era das catástrofes, tão focalizado pelos estudos pós-coloniais – das guerras e massacres que marcaram o século XX. Como eles, entretanto, poderia ser visto como concessão de espaço aos excluídos[7], pois as penas e angústias do menino que vivia sob constante ameaça seriam como as daqueles soldados que temiam sempre pelo agravamento da guerra e por suas consequências. Além de sua própria situação de banido e sacrificável, Miguilim testemunha, por exemplo, o banimento – com a morte simbólica – do tio Terêz, bem como o assassinato de Luizaltino, o suicídio do pai e a tristeza constante da mãe, e ainda o desamparo que marca a doença e morte do Dito, o que acentua o estado de banimento/exílio e negatividade do Mutum.
É interessante porém observar como Miguilim consegue reverter essa situação de homo sacer através do uso da linguagem: ao contar as suas histórias desrespeitando regras e ignorando valores, ao escolher para a sua trama o jogo e a leveza, ele faz como que um pacto com o diabo e pode assumir a liberdade, vencer a morte e exercer a criatividade, como veremos em seguida.
Miguilim como homo sacer
Outros episódios ligados à questão da linguagem confirmam a condição do menino de homo sacer e/ou herói trágico: ainda antes de morar no Mutum, Miguilim tivera traumática experiência com o entendimento das palavras: foi quando, encantado com um peru[8], Miguilim repetiu, para agradar, o som do que gritava um menino grande: “É meu!”, recebendo em troca uma pedrada na cabeça, o que o coloca em tão grande perigo que a mãe fica em desespero: “Acabaram com o meu filho!...” (p. 14). Também quando volta da crisma e usa a ficção, chamando de santinho um retrato de mulher recortado de uma revista, e quando começa a inventar uma estória – que se constituiria como o presente que não pôde trazer e que interessa ao irmão menor, ainda não contaminado com o pragmatismo dos adultos –, é ameaçado com o fogo do inferno.
É só depois de muito sofrimento que Miguilim começa a ter uma outra percepção da linguagem e a reconhecer que a questão não estaria nos enunciados ou na sua “verdade”: não importava haver ou não beleza no Mutum (“nem ele sabia distinguir o que era um lugar bonito e um lugar feio” (p. 13)), pois o importante seria o “como” expressar-se. O moço tinha falado sobre o Mutum “de longe, de leve, sem interesse nenhum” (p. 13); não importavam também as palavras, quando a mãe falara no Dito morto. Para Miguilim haveria então um erro ou uma inadequação, no começo de tudo, pois não entende nem mesmo as suas próprias falas; quando tio Terêz o consola por ter perdido a pescaria e lhe pergunta em que estava pensando, Miguilim estranha a própria resposta e fica num “atordoado sentimento de perdão” (p. 13), já que pensava na liberdade dos sanhaços e responde que estava pensando no pai, como que cumprindo a obrigação – o sentido esperado –, de aprender com o castigo, assumindo a sua condição de homo sacer – o banido, o fora-da-lei, que deve ser sempre castigado, quase que por apenas existir. Como o herói trágico, que é naturalmente bom mas comete inadvertidamente um crime, Miguilim sabe-se culpado e deve aceitar a sua culpa[9].
Dito era diferente de Miguilim: “era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas” (p. 19). Tinha uma situação melhor diante do pai e até se atrevia a desafiá-lo e a tentar convencê-lo. Observador e ligado ao real, sempre preocupado em ouvir tudo o que diziam os grandes, buscava compreender o sentido pretendido e aprender com os acontecimentos, aperfeiçoando sua esperteza, sua habilidade de usar palavras que pudessem abrandar ânimos exaltados e reverter o que era negativo em positivo. Bom ouvinte (nem fazia companhia aos meninos, “falava que carecia de ir ouvir as conversas todas das pessoas grandes” (p.35)), Dito preparava-se para crescer e tornar-se homo sapiens: por isso precisava aprender a manipular as palavras, construindo certezas que eram convenientes construções de linguagem, repetidoras de “verdades” já estabelecidas.
Bom aprendiz (mestre não é quem ensina, mas quem de repente aprende, já dizia o seu criador), Dito aprende os usos retóricos da linguagem e consegue contornar problemas como o da árvore que precisava ser cortada e o da estranheza de Miguilim, desorientado com o pedido do tio Terêz. Mas a esperteza maior do Dito surge quase no momento de sua morte, quando ele revela a Miguilim o grande segredo “aprendido” em seu leito de agonia: “ – Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...” (p. 100). Teria o Dito aprendido realmente essa grande lição? Ou procuraria ele, dessa forma, trazer indiretamente a Miguilim algum conforto para o sofrimento que ele teria com a sua morte? Parece que, mais uma vez, Dito demonstra sua diferença do irmão e o seu aprendizado de homo sapiens, seu conhecimento do interlocutor e sua habilidade para manipular palavras de forma pragmática, confortante e apaziguadora.
O encontro da terceira margem
Apesar de suas dúvidas e oscilações, Miguilim deseja ter confiança na linguagem, como o Dito; talvez por isso caia nos enganos do Patori que lhe dá uma pedra embrulhada em papel de bala ou acredite em Seo Deográcias, apoiado em Vovó Izidra que confia em seus conhecimentos de remédios, bem como no pai que o deseja como professor dos filhos, embora o julge “truqueado com tantos desmiolamentos” (p. 41). Por isso, quando Seo Deográcias observa Miguilim, magrelo e com as costelinhas à mostra, e prevê que “p’ra passar a héctico é só facilitar de beirinha”, pois “o caso aí maleja...” (p. 38), o menino assume que estava mesmo muito mal e que ia morrer, especialmente depois que Rosa lhe explica que “Héctico é tísico, essas doenças, derrói no bofe, pessôa vai minguando magra, não esbarra de tossir, chega cospe sangue...” (p. 46).
Miguilim busca então o socorro do poder – de Deus, da religião. Mas quando se vê aflito e impotente com a doença do irmão, que lhe confessara um dia o medo de morrer (“Não queria ir para o Céu menino pequeno” (p. 28)) e que nem podia ir ver a construção do presépio, de que tanto gostava, isto é, quando perde qualquer possibilidade de apoio ou ajuda, Miguilim busca o socorro do uso livre da linguagem e procura desenvolver a habilidade mostrada quando Siàrlinda contou “estórias de sombração”, oportunidade em que a mãe chegou a dizer que Miguilim era muito ladino (p.86). E começa a contar “estórias compridas, que ninguém nunca tinha sabido” (p. 96), como que colocando em prática a reflexão de Agamben: “Brincando, o homem desprende-se do tempo sagrado e o ‘esquece’ no tempo humano” (2005: 85). Encantado com a descoberta, que lhe lembra Seo Aristeu que, com suas narrativas, teve o poder de “vencer a sua morte”, Miguilim “não esbarrava de contar, estava tão alegre nervoso, aquilo para ele era o entendimento maior” (p. 97)[10]. Como que descobrindo heuristicamente a força da ficção, o menino percebe que em lugar do saber tácito é possível colocar a palavra fingida, com eliminação de predicados que seriam atribuídos à realidade. Ao desautomatizar assim a linguagem, desembaraçando-se do uso corrente do idioma, Miguilim podia libertar-se de sua grande preocupação – de como compreender o incompreensível – , para criar um mundo novo, onde pulsava a vida, eliminando a ameaça de morte que pairava sobre todos com a doença do Dito, o que lembra Kovadloff: “Poeta é, primeiramente, não quem sabe instrumentalizar o idioma, e sim aquele que se mostra apto para desembaraçar-se do uso corrente do idioma” (Kovadloff, 2003: 30)
Observa-se, assim, um duplo ponto de vista em “Campo geral”: de um lado a narrativa apresenta perspectivas que testemunham a perda e a falta e, relacionando-se com a morte, elaboram estórias que falam da realidade do Mutum, com suas tristezas e negatividades. Entre elas estariam a da Pingo-de-ouro, a do sofrimento de Miguilim com o bilhete do tio Terêz, do Lobo-Afonso e do Pitôrro, que falam de monstros e de demônios, a do Patori, que matou “sem querer” e foi depois assassinado. Estariam ainda a estória da “morte anunciada” de Miguilim, a série sucessiva de desgraças acontecidas no “tempo-do-ruim” – com a frustrada caçada da anta, a morte do Julim abraçado com a tamanduá-bandeira, Tomezinho ferroado por marimbondo, a mão de Miguilim esmagada pelo Rio-Negro, a briga com o Dito, a fuga do vaqueiro Jé com a Maria Pretinha e a do mico-estrela, a que se segue o fatal corte no pé do Dito (p.89-94). Isso sem falar do assassinato do Luisaltino e do enforcamento do Pai.
Existe no texto, porém, uma outra perspectiva que focaliza o mistério e acentua o estranhamento da linguagem, código evanescente em que cabem igualmente o real e a fantasia. Essa perspectiva será certamente a de Seo Aristeu, artista cantador, dançador e tocador de viola, cujo olhar positivo livra Miguilim de sua morte anunciada. Será também a da contadora Siàrlinda, cujas estórias provocam um medo salutar, por se evidenciarem como construções de linguagem. Será também a do Grivo, que “contava uma estória comprida, diferente de todas, a gente logo ficava gostando daquele menino das palavras sozinhas” (p. 82). Serão ainda as que contava o papagaio do Luisaltino, estórias fragmentadas e papagaiadas, que não se podia levar a sério. E serão certamente as estórias de Miguilim, em que se acentua o caráter ficcional e a auto-referencialidade.
Deixando de lado a racionalidade, essas estórias exibem o seu caráter fictício, a artificialidade e a auto-referencialidade com que vencem a negatividade do Mutum. Por não se preocuparem em apresentar lições e verdades, podem entretecer o que Iser chama de real, ficcional e imaginário (Iser, 2002), para assim trazer o testemunho de sobreviventes que souberam fixar apenas indiretamente o “olhar da medusa”, para ficar oscilando entre extremos, sem chegar a conclusões definitivas e a verdades em que a esperança não tem lugar.
E assim se apresenta em “Campo geral” a possibilidade de salvação do homo sacer e se vislumbra a presença de Perséfone, com a sua ambiguidade: embora fale de morte e testemunhe tragicidades e incompreensões, o texto acena para a vida com a possibilidade de uso criativo da linguagem e uma comunicação amiga que pode eliminar a violência, por valorizar lúdica e amorosamente um outro que sofre as mesmas angústias e o mesmo medo da morte.
É então com essa segunda perspectiva sobre a morte, significativamente não a do eu, mas a do outro, que Miguilim assume o uso livre da palavra, articulada em ficção. É nesse momento que ele se arrisca a buscar a terceira margem que tentara alcançar logo depois da crisma, com a figura da mulher recortada no papel e vista como santa, ou a estória do jacaré que não pudera continuar, devido à preocupação dos irmãos com a mentira e com o inferno.
É no equilíbrio instável entre essas duas perspectivas que se apoia este estudo, pois se de um lado a narrativa fala de homo demens e de homo sacer e testemunha a negatividade do Mutum, com histórias de monstros, de demônios e de desgraças acontecidas no “tempo-do-ruim”, uma outra perspectiva focaliza o mistério e acentua o estranhamento da linguagem, lugar de passagem em que se constroi a sedução de textos que lidam positivamente com o vazio, brincando com as negatividades.
Desenvolvendo suas características de homo demens, Miguilim (como seu criador) cria histórias que exibem o seu caráter fictício e a artificialidade com que vencem a negatividade do Mutum, por não se preocuparem em apresentar lições e verdades, já que a moral não importa para a obra de arte, que não teme nenhuma lei, pois o seu campo não é o do poder (Cf. Blanchot, 2005: 39-40). Essas histórias podem elaborar “a questão profunda” de que fala Blanchot: frívola, atemorizante, divertida, amável e mortal, ela remete para um vazio que se dissipa na própria linguagem que a compreende (Blanchot, 2001: 50); podem elas assim entretecer o que Iser (2002) chama de real, ficcional e imaginário, para trazer o testemunho de um sobrevivente que soube olhar apenas indiretamente o “olhar da medusa”. Pode enfim elaborar cantos de Orfeu e ambiguidades de Perséfone, com brincadeiras que, exibindo a sua despreocupação com o valor, o pragmatismo e o sentido, concentram-se na leveza do peso infinito da obra de arte – na sua ausência de poder, na sua nudez e impotência – que correspondem, segundo Blanchot, ao primeiro movimento da comunicação (2005: 45).
Referências bibliográficas:
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BLANCHOT, Maurice. Não haverá chance de acabar bem. In O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-Moysés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 37-46.
__________________ A questão mais profunda. In A conversa infinita. Trad. Aurélio Guerra Neto. São Paulo: Escuta, 2001, p. 41-61.
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MORIN, Edgar. Prefácio. In Amor, poesia, sabedoria. Trad. Edgard de Assis Carvalho. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 7-11.
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SELIGMANN-SILVA, Márcio.
http://www.pucsp.br/projetohistoria/downloads/volume30/04-Artg-(Marcio).pdf - visitado em abr. 2009
[1] Diferentemente de Miguilim, Dito poderia ser visto como o homo sapiens, racional, sábio, contido e conciliador.
[2] Segundo Agamben, o homo sacer é o banido, o sacrificável submetido sem apelação, sem defesa e sem socorro, a uma vida nua que não tem direito nem ao menos à morte ritual.
[3] Márcio Selligmann-Silva relaciona patriarcado e testemunho, a partir de estudo da tragédia de Ésquilo, mostrando como o testemunho garante a impunidade da violência e a justifica.
[4] A dominação de tio Osmundo tem uma sutil representação: há um momento em que, aparentemente amável e conciliador, o tio dá uma moeda a Miguilim, o que poderia ser visto como um lembrete de seu poder, ou mesmo o óbulo devido ao Caronte, numa sugestão de que ele era ali indesejado e devia logo partir para o reino de Letes.
[5] Todas as citações serão dessa edição, indicadas a seguir apenas pelos números das páginas.
[6] O alívio das lágrimas podia ser, como a ficção, artificial: quando viajara com tio Terêz para a crisma, Miguilim padecera tanta saudade que parecia sufocado. Descobriu então, “por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava” (p. 102).
[7] Como os dos escritos testemunhais de soldados que lutaram nas guerras, recolhidos e estudados por Jean Norton Cru e referidos por Seligmann-Silva (2005: 83).
[8] Esse episódio do peru faz lembrar outra tristeza de criança nas estórias rosianas: trata-se do menino de “As margens da alegria”, para quem, com a morte de um outro peru, “Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam” (Rosa, 2001: 52).
[9] Blanchot diz que “Uma das atribuições de nosso tempo é a de expor o escritor a uma espécie de vergonha prévia. É preciso que ele tenha má consciência, é preciso que ele se sinta em falta antes de qualquer outra iniciativa” (2005: 43). Interessante lembrar que essa é a situação de Miguilim, antes de se assumir como um contador de estórias.
[10] Miguilim lembra assim Brejeirinha, de “Partida do audaz navegante”, e também “A menina de lá” que, distanciando-se de um mundo em que imperava o pragmatismo e o racionalismo, usam com liberdade e linguagem, num verdadeiro exercício de criatividade e de arte literária.
| Pour citer cet article: DUARTE, Lélia Parreira, « Miguilim e sua libertação pela arte », Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org. |


