Na órbita de Planète : a construção de um estilo de vida alternativo

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Renata Palandri Sigolo[1]

Universidade Federal de Santa Catarina

Laboratório de História, Saúde e Sociedade

 

 

 

 

 

Em 1961, a França viu nascer uma nova revista que iria causar polêmica com a proposta de abordar campos até então considerados marginais e que se tornou uma janela importante na compreensão da revolução cultural ocorrida nos anos 60. Planète surge em uma sociedade que dava sinais de descrença e insatisfação em relação ao mundo pautado no consumo, onde a opção à mudança se relacionava a um modelo de revolução totalizante proposta pelo socialismo. Amada e, ao mesmo tempo, odiada, é certo que ela não passou despercebida : sua difusão ocorreu em outros países como no Brasil, onde é lançada em 1972 batizada como Planeta.

 

O período no qual estas revistas estão inseridas foi analisado por diferentes intelectuais que interpretam a sociedade pós-industrial através de vários ângulos. Para o sociólogo Antony Giddens (1991), vivemos em um universo repleto de eventos cuja natureza não compreendemos plenamente e que resultam do que ele denominou de “radicalização da modernidade”. Para explicar o conceito, o sociólogo lança mão da imagem do carro de Jagrená, que é puxado pelos fiéis do deus hindu Jaganath durante o festival que lhe é dedicado, e cujo o controle é limitado e imprevisível mas a viagem não é totalmente desagradável. Assim como o carro de Jagrená pode provocar algumas mortes por atropelamento, a radicalização da modernidade tende a ser inevitável e pode provocar resultados drásticos.

 

A separação entre tempo e espaço é uma das chaves para a compreensão do intenso dinamismo social que é característico deste contexto de transformações. O processo de “desencaixe” permite que as experiências e hábitos sejam deslocados de seus contextos locais e sejam conectados a ambientes globalizados. A relação entre local e global se torna mais intensa, proporcionando a reconstrução de ideias e conceitos que antes pertenciam a um espaço e tempo mais lineares e restritos.

 

Simultaneamente à reelaboração de conhecimentos, a radicalização da modernidade proporciona a modificação profunda na existência cotidiana e na construção da individualidade e da intimidade. A pluralização de contextos de ação (Giddens,2002), a diversidade de opções e influências permitem ao indivíduo orientar suas atividades diárias e construir sua identidade tendo em vista a construção de um estilo de vida, importante não só para a autodefinição como para o norteamento das tomadas de decisão e do comportamento dos mesmos.

 

A definição de um estilo de vida implica na seleção de concepções e ações que podem estar baseadas em uma gama bastante diversa de informações. Também inclui a rejeição, de forma mais ou menos consciente, dos modos mais amplamente difundidos de comportamento social. A definição de um “eu” ou de uma comunidade é feita igualmente pela denominação de sua antítese, do que é excluído pelo indivíduo ou grupo.

 

Ao traçar as linhas norteadores da modernidade radicalizada, Giddens nos conduz à ideia de que vivemos, após os anos 60, importantes mudanças que afetam a todos mundialmente, embora devamos considerar especificidades relativas a cada contexto (Nizet, 2007). Trata-se mais de uma continuidade que uma ruptura , daí a crítica feita por ele ao termo “pós-modernidade”.

 

Difícil determinar quando começaram as transformações que hoje vivemos e torna-se inviável apontar uma causa desencadeadora. É possível acompanhar a imprecisão de um momento fundador quando observamos os debates que giram em torno de Maio de 68, bastante evocado devido à memória de seus 40 anos. Vários historiadores (Ross, 2005; Dreyfus-Armand, 2008) concordam com uma análise que integre a pontualidade dos fatos com as transformações mais profundas e de longa duração vivenciadas pela sociedade. Assim, torna-se mais adequado falarmos em “anos 60” para designar um contexto que ultrapassa o tempo e o espaço de um evento.

 

Do mesmo modo, não podemos determinar um momento preciso mas podemos contextualizar o interesse pela afirmação da individualidade e de um estilo de vida marcado pela busca do bem-estar nos anos 60 através do movimento contracultural. A contracultura se manifestou de diferentes maneiras e participou de vários níveis que envolviam o cotidiano dos indivíduos, como suas atitudes e relacionamentos. Apostando nas “enormes possibilidades da experiência humana” seus paradigmaspropunham a valorização da imaginação, a crítica à racionalidade científica e a redefinição da realidade por meio do desenvolvimento de outras formas de interpretação do mundo (Caute, 1988:52-68).

 

A construção de novos paradigmas a partir das ideias que frutificaram nos anos 60 e a defesa de um “estilo de vida” pautado nesses princípios também podem ser entendidos dentro de suas relações com as expressões políticas na sociedade. O crescimento e o fortalecimento dos grupos de defesa de minorias étnicas e culturais que frequentemente não encontravam meios de expressão em vias políticas mais tradicionais como partidos e sindicatos foram fatores importantes na construção de formas peculiares de expressar vontades políticas e construir estratégias de sobrevivência diferentes das que se buscava criticar. As manifestações do flower power, gay power, black power e contra a Guerra do Vietnã foram momentos de exercício político de crítica à ordem estabelecida, assim como Maio de 68, um dos momentos ícones de possibilidade de transformação autogestionária e criativa.

 

Nesse contexto de transformações nasce a revista Planète. A “aventura Planète[2] tem sido objeto de várias pesquisas e as análises propostas convergem em alguns pontos. Um deles se refere à importância de aliar a compreensão do contexto de surgimento da revista à iniciativa pessoal de seus criadores. Quando buscamos as origens da revista Planète nos deparamos com os personagens anteriormente indicados: Louis Pauwels e Jacques Bergier e o  lançamento de seu livro, em 1960, Le Matin des Magiciens, que forneceu alguns elementos do realismo fantástico.

 

A obra foi fruto do diálogo de cinco anos entre dois intelectuais que possuíam diferentes interesses. Enquanto Bergier era o “homem da ciência”, engenheiro químico apaixonado por ciência-ficção, Pauwels era o “homem das letras”, interessado pela espiritualidade através do estudo do hinduísmo e das obras de Gurdieff. Em Le Matin des Magiciens, é Pauwels quem redige e constrói as reflexões e Bergier quem fornece a matéria prima, através de dados e referências (Gutierez, 1998:11).

 

No prefácio, Pauwels apresenta, através da exposição de seu próprio caminho intelectual, o que viria a ser o amálgama das ideias fundadoras do realismo fantástico. Seu objetivo central era fazer a crítica à sociedade na qual vivia, como ele próprio explica:

 

Ce livre résume cinq années de recherches, dans tous les secteurs de la connaissance, aux frontières de la science et de la tradition. Je me suis lancé dans cette entreprise nettement au-dessus de mes moyens, parce que je n’en pouvais plus de refuser ce monde présent et à venir qui est pourtant le mien. [...] J’ai longtemps cherché, comme le souhaitait le Rimbaud de mon adolescence, ‘la Vérité dans une âme et un corps’. Je n’y suis pas parvenu. Dans la poursuite de cette Vérité, j’ai perdu le contact avec des petites vérités qui eussent fait de moi, non certes le surhomme que j’appelais de mes vœux, mais un homme meilleur et plus unifié que je suis.” (Bergier; Pauwels, 1960: 15)

 

Pauwels relata sua busca em compreender o homem e a sociedade feita através do esoterismo de Gurdieff e que o teria levado a um afastamento do cotidiano através da busca por uma verdade em seu interior. Ao encontrar Bergier suas pesquisas tomam um novo rumo, contudo, sem  abandonar sua antiga jornada na compreensão de um sentido para a vida e para o ser humano. Ao olhar também para fora, para a sociedade a qual pertencia, ele se revela encantado com o mundo que vê e que mostra ser uma confirmação da transformação interior que continua sendo merecedora de sua atenção: “une révolution s’opère sous nos yeux , et c’est un remariage inéspéré de la raison, au sommet de ses conquêtes, avec l’intuition spirituelle” (Bergier; Pauwels, 1960: 17)

 

A crítica ao racionalismo do século XIX e à noção de progresso é feita por Pauwels e Bergier, aliando a visão microscópica  do universo interior humano à visão telescópica do universo exterior, em uma relação bastante alusiva à correspondência entre macro e microcosmos que povou o imaginário ocidental até o advento da Modernidade. A essa visão espacial, Bergier e Pauwels aliaram uma noção temporal peculiar, ou seja, “projeter son intelligence très loin en arrière et très loin en avant” (Bergier; Pauwels, 1960: 17), ou como analisaria Edgard Morin, “le passé est interprété en fonction du futur” (Morin, 1965:2)  em uma tentativa de explicar o passado, notadamente os “mistérios de civilizações longínquas” através de possibilidades e esperanças futuras em especial no campo tecnológico, uma aliança entre esoterismo e ficção científica.

 

Através de Le Matin des Magiciens, seus autores fundam a escola do “realismo fantástico”, reconstruindo a ideia de fantástico que, para a ciência racionalista, era antagônica à noção de realidade. O objetivo era explorar “un fantastique qui n’invite pas à l’évasion, mais bien plutôt à une profonde adhésion”, uma noção onde “le fantastique est une manifestation des lois naturelles, un effet du contact avec la réalité quand celle-ci est perçue directement et non pas filtrée par le voile du sommeil intellectuel, par les habitudes, les préjugés, les conformismes.” (Bergier; Pauwels, 1960: 19)

 

O sucesso da obra fez com que os autores concretizassem o já manifestado desejo de dar continuidade ao debate em torno do “realismo fantástico”, através da criação de Planète. Grande sucesso, a tiragem do primeiro número da revista foi reimpressa até atingir 100.000 exemplares, possuindo 30.000 assinantes em seu décimo terceiro número. O perfil de seu leitor, identificado por pesquisa feita pela própria revista,  era do “homem jovem, urbano, com estudos superiores e chefe de família (Cornut, 2006:21).

 

Planète emergeria na França no final do ano de 1961, em oposição às revistas consideradas “intelectualizadas” e pessimistas[3],  propondo  uma visão otimista do mundo e uma nova forma de engajamento em uma “política do cotidiano”. Possuindo uma equipe de reportagem bastante diversa[4], o periódico evitava assuntos que pudessem provocar disputas e prováveis rompimentos, como a política partidária. Mesmo porque a grande “revolução” prevista por Planète tinha bases no cotidiano e podia ser pressentida, prevista pelos acontecimentos que a rodeavam. Pauwels (1961:64) compara os anos 60 com a Renascença, afirmando que a mesma vontade de conhecer imperava em sua época e que não tardariam a presenciar uma revolução que abalaria tanto as formas de conhecimento usuais, baseadas no cartesianismo como os costumes.

 

Em uma busca por alternativas, a revista tinha como foco reabilitar o que possa ter sido esquecido ou rejeitado. Assim, tudo o que contestava o pensamento hegemônico era seu objeto de interesse: a possibilidade de vida em outros planetas (e consequente visita de OVNIS à Terra), parapsicologia, medicinas paralelas, paranormalidade e “novas ciências” , religiões e seitas, literatura   fantástica e ficção científica, civilizações antigas e seus mistérios, inovações  tecnológicas, suas possibilidades futuras e as transformações da sociedade contemporânea.

 

A escolha de temas tão variados deve ser compreendida por meio da proposta da revista. No primeiro editorial de autoria de Pauwels, a inquietação que havia gerado sua obra conjunta com Bergier é renovada, através de novos questionamentos e problemas, diante da sociedade que se apresenta e cujas respostas ainda não podem ser ouvidas:

 

[Les problèmes] qui nous occupent exigent, non pas pour être résolus, mais simplement pour être vus, une position de l’esprit surplombant celle que lui assigne notre culture admise. Comment nous rendre maîtres d’une représentation de l’univers conforme à l’avancée fantastique des sciences? Comment saisir le fil du devenir humain dans la massification, dans la planétarisation? Comment établir la communication entre le monde intérieur de l’homme et une réalité extérieure que la connaissance nous révèle déployée à l’infini? Rien ne nous prépare ou ne nous aide à formuler ces vastes 'comment’? (Pauwels, 1961:8)

 

A todas essas questões, Planète não fornece propriamente respostas, mas pretende ser um local de fermentação de novas ideias.  Estas não se apresentam de forma homogênea em todo o período de vida da revista. Podemos perceber duas fases que apresentam de formas diferentes suas inquietações. A primeira, que cobre um pouco mais da  metade de sua existência, está impregnada pela ideia de progresso e exalta as virtudes da técnica, vista como resposta para as esperanças depositadas no futuro (Cornut, 2006:138). O Ocidente é apresentado como a “civilização da técnica” em contraste com seu antigo papel colonizador. Ao mesmo tempo que mantém uma dívida para com os países do Terceiro Mundo, constitui-se em modelo a ser alcançado por estes, o que contrasta paradoxalmente com o discurso de valorização das civilizações “desconhecidas” sustentado por Planète.

 

A segunda etapa corresponde a meados dos anos 60, ocasião em que a sociedade de consumo passa a ser criticada. O discurso sobre o progresso torna-se ambíguo e menos exaltado, revelando o temor de uma sociedade desumanizada e estandartizada às custas de uma crescente tecnologização. O papel da juventude enquanto força motriz de mudanças é exaltado, principalmente em sua recusa em relação ao engajamento político -partidário e aos valores morais da geração anterior.

 

Justamente por privilegiar objetos desacreditados pela ciência racionalista e não ter um engajamento político partidário (era acusada de ser capaz de contemplar russos e americanos em plena Guerra Fria), Planète foi alvo de extenso debate que ocupou vários espaços da mídia, como o jornal Le Monde e os periódicos Courrier Rationaliste, France-Observateur, Arts, Fiction, gerando aversão em um público dos mais heterogêneos, indo dos membros da União Racionalista aos marxistas.

 

Toda a crítica dirigida à revista talvez tenha servido como catalizadora de seu crescimento, atraindo ainda mais a atenção do público. De fato, a proposta contida em Le Matin des Magiciens de criar uma espécie de instituto de estudos sobre os temas relacionados ao realismo fantástico se amplia para além da revista: várias edições estrangeiras, viagens culturais, publicações da Editora Planète, palestras e eventos junto à Jeunesses Musicales de France, ao Club Méditerranée, ao Théâtre des Nations. A proposta inicial de Planète torna-se um estilo de vida alimentado por várias oportunidades de encontro (Veraldi, 1996:20).

 

A primeira fase de Planète se encerra em julho/agosto de 1968, pouco depois dos eventos históricos de “Mai 68”. Após essa data, a revista recebe o nome de Nouveau Planète. Há uma clara relação entre os objetivos do realismo fantástico e o movimento de Maio de 68, principalmente no que se refere à rejeição da cultura e ciência institucionalizadas naquele momento. Ambos os movimentos pertenceram ao mesmo contexto de crítica ao sistema estabelecido, partilhavam da atmosfera social que favoreceu a contestação e a apresentação de novos caminhos.

 

Ao olhar posteriormente para o fato em si, Pauwels vê, nas barricadas de 68, muitos “enfants de Planète”. No entanto, não podemos afirmar que haja uma relação de causa e efeito entre a revista Planète e a eclosão do movimento, pois nem mesmo o perfil de seus leitores corresponde ao dos manifestantes. O que se percebe é o inverso, Maio de 68 interferiu no futuro da revista. A equipe editorial se dividiu em suas opiniões sobre o acontecimento: Bergier, contrário ao Maio de 68, se afasta da nova revista, que fica a cargo de Pauwels. A Nouveau Planète não atinge o sucesso obtido pela predecessora e se afasta, gradativamente, dos objetivos iniciais do realismo fantástico. (Gutierez, 1998:83)

 

No Brasil, Planeta teve como editores responsáveis Luís Carta e Ignácio de Loyola Brandão. Esse último  conheceu Pauwels em Paris, no ano de 1972, e descreve sua impressão da revista francesa : “curiosamente, a revista morreu na França e renasceu aqui, vivendo muito mais do que no lugar de origem, que era considerado um país do espírito, da luz.” (Afonso, 2007)

 

Seu primeiro número teve a tiragem de 70.000 exemplares, com a venda de 64.585, sem contar a distribuição efetuada em Portugal. Em janeiro de 1973, o número cinco tem 120.000 exemplares publicados  (Planeta,1973: 3). Planeta recebe, no número de lançamento, cartas de vários leitores[5] cumprimentando a iniciativa, sendo avaliada como “um dos principais veículos de propostas alternativas no campo das religiões, da terapia, da formação e cultivo pessoal e demais tendências ligadas à temática da Nova Era »(Magnani,2000:33).

 

Apesar de ter um contrato com Planète e dela publicar material traduzido, a revista brasileira possuía uma equipe que tratava de temas nacionais. A preocupação em ser um espaço no qual os brasileiros se reconhecessem, e não apenas a filial de uma revista estrangeira, fica clara já no primeiro número: sua capa estampa a foto de uma componente do Grupo Folclórico Malungo, chamando a atenção do leitor para a matéria “Candomblé, umbanda e macumba no Brasil”.

 

Os objetivos de Planeta correspondiam aos primeiros anseios  de Planète, ao menos em seus anos iniciais de vida: aliar arte e ciência, investigar assuntos marginalizados em busca de seus significados, através da observação e de uma pesquisa “sem preconceito”. Na apresentação do primeiro número, os editores esclareciam:

 

Planeta defende o espírito de tolerância e de liberdade em todos os domínios do conhecimento contemporâneo. No exame dos aspectos essenciais, escondidos ou visíveis da aventura humana de nossos dias, ela propõe ao leitor exercer uma curiosidade sem limites ou preconceitos. Quer se trate de ideias, de artes, ciências humanas ou religiões ela não se permite criticas negativas, procurando, isto sim, o que une os homens e não o que os divide. Planeta é a versão brasileira da famosa revista Planète, fundada na França, em 1960, por Louis Pauwels e Jacques Bergier e que já tem edições na Itália, Alemanha, Espanha, Argentina e Holanda. Planeta é a revista que nos ajuda a entender, e que usa uma linguagem acessível a todos, e não exclui, na sua busca da compreensão de nossos tempos e de nossas vidas, os valores do sonho, da fantasia e da imaginação. (Planeta, 1972: 3)

 

O discurso dos editores é claro quanto aos interesses e à amplitude da revista, em harmonia com sua matriz francesa. Ao apresentar Planeta como pertencente a uma “rede” de periódicos internacionais tendo como matriz Planète, o editorial  alerta sobre a seriedade da proposta e esclarece que a revista “não se permite a  [sic]críticas negativas” demonstrando expectativa de que isso ocorresse, diante dos assuntos inusitados propostos.

 

Quando surgiu no Brasil, Planeta também gerou controvérsia. Ignácio de Loyola Brandão conta sua reação diante do questionamento das pessoas que descobriam que ele, ex-funcionário do jornal de centro-esquerda Última Hora, era redator-chefe de Planeta: “Era uma coisa muito complicada, tanto que eu era ironizado: “‘Loyola, você é um escritor sério e está metido nessa?’ Até que pegou, a revista enfrentou muito preconceito” (Afonso,2007).

 

Apesar do estranhamento que sofreu, o redator-chefe mostra segurança quanto aos objetivos e à importância da revista:

 

[...] ela era de abertura para mundos desconhecidos e, até então, massacrados. Lembre-se que fizemos isso num tempo de censura, e que às vezes a revista incomodava as pessoas: ‘mas por que estão falando disso? Qual o sentido político de falar do faraó?’ Porque eles buscavam pelo em ovo. No fundo, eu acho que PLANETA teve um sentido também libertário no começo. » (Ibid.)

 

Que Brasil era esse, que viu com desconfiança o surgimento de Planeta no início dos anos 70? A década é conhecida como o momento em que a ditadura militar exerceu a repressão de modo mais violento após o Ato Institucional n.5, em fins de 1968. Foi o “golpe dentro do golpe”, em um momento no qual a direita passava por uma crise interna, temendo suas próprias dissidências. O país vivia, no início dos anos 70, o que se convencionou chamar “anos de chumbo” aliado ao “milagre econômico”. Com o crescimento econômico somado à euforia da conquista do tricampeonato mundial, o governo militar construiu a imagem de um Brasil próspero e estável, dando legitimidade ao regime ditatorial. Mesmo as forças de direita se reagrupavam em nome da “eficiência e modernização” (Reis, 2004).

 

Em 1974, o general Ernesto Geisel assume a presidência com a proposta de efetuar uma transição controlada rumo à democracia e apoiar a luta da sociedade brasileira pelo restabelecimento das instituições democráticas. Porém, esse processo não foi linear nem estável, uma vez que a repressão se fazia sentir como forma de resistência das forças de extrema direita. Dentre as transformações no cenário brasileiro, destaca-se a mudança do perfil da sociedade que, entre 1950 e 1970, passou de predominantemente rural para urbana.

 

Essas características se refletiram no mercado editorial que, em 1972, registrava um livro por habitante/ano (Cosson, 2007:31). Diversos fatores contribuíram para este crescimento: a queda na taxa de analfabetismo (de 39% para 29% entre 1970 e 1980), o aumento de universitários (100.000 em 1970 para 1 milhão em 1980), além da melhoria na produção e comercialização de livros e da segmentação do mercado, atraídos por diferentes públicos-leitores. Porém, com a censura exercida de modo mais intenso após o AI-5, a imprensa brasileira precisou usar criatividade para sobreviver. Foi grande o número de periódicos alternativos que possuíam como tônica a oposição ao regime militar: entre 1964 e 1980, 160 foram criados; porém, apenas 25 não tiveram vida efêmera (Munteal; Grandi, 2005:138).

 

Dentro deste universo editorial, Planeta tinha um público diferenciado, com interesse em “determinado tipo de conhecimento, que não era o usual” e que, possivelmente, era colecionada por muitos de seus leitores, levando-se em consideração as observações de Loyola Brandão, de leitores e o próprio designer da revista, que tinha esse propósito. O formato de “revue de bibliothèque”, similar à revista francesa, pode sugerir que grande parte de seus leitores a utilizava em suas pesquisas sobre os temas veiculados pelo periódico e, portanto, formavam um grupo razoavelmente intelectualizado.

 

Analisando as cartas enviadas pelos leitores em seu primeiro ano de publicação, percebemos que, gradativamente, forma-se um circuito de informações e debates sobre assuntos publicados na revista ou relacionados a temas presentes no universo da contracultura. Alguns anunciavam a criação de grupos de estudo relacionados a diferentes áreas, como OVNIS, esoterismo, filosofias orientais ou pediam indicações bibliográficas para aprofundar o conhecimento sobre temas abordados por Planeta ; outros revelavam um prévio conhecimento da revista publicada em outros países. Até mesmo a fundação de um “Instituto de Pesquisa do Realismo Fantástico” é divulgada por um leitor na seção de cartas (Planeta,1973:6).

 

No Brasil, o debate em torno do movimento contracultural e sua importância está impresso com as tintas dos desdobramentos da ditadura militar. O próprio contexto que se seguiu a 1968 é interpretado de maneiras diferentes. Para o sociólogo Marcelo Ridenti, alguns intelectuais e artistas brasileiros que viveram este período partilhavam um “sentimento da brasilidade (romântico) revolucionária » (Ridenti, 2006), identificado no universo artístico brasileiro desde fins de 1950. Essa forma de romantismo, que teria permitido o desenvolvimento cultural dos anos 60 e início dos anos 70, caracterizava-se pela vontade de transformação e pela construção de um  “homem novo”, cujo referencial estava na idealização de um “homem do povo” vindo do campo, do interior o Brasil, não “corrompido” pela modernidade urbana capitalista.

 

O cenário brasileiro muda com a derrota das esquerdas com o AI-5 e o “milagre econômico”, quando a sociedade conheceu um movimento crescente rumo à modernização e à urbanização. Há, então, um declínio da utopia nacional-popular, na medida em que cresce a indústria cultural brasileira nas décadas de 1970 e 1980, quando, segundo Ridenti, “uma visão de mundo crítica foi transformada numa justificativa da ordem. ” (Ibid.:248)

 

Já para Heloísa Buarque de Hollanda (1981), apesar de frustradas as tentativas de transformações totalizantes , as buscas por mudanças na sociedade se expressaram de outras maneiras, alargando as atuações políticas para além da esfera político-partidária. O abandono de um projeto globalizante de tomada do poder, que caracterizou a década de 70, já encontrava suas raízes na década anterior, quando “setores jovens da produção cultural” propunham formas de resistência setorizadas. A juventude dos anos 70  possuía uma atitude contrária às ortodoxias e aos discursos já existentes:

 

as linguagens do sistema, as ‘formas sérias do conhecimento’ e especialmente ‘a forma séria do conhecimento por excelência’ que é a ciência foram questionadas. O mesmo parece acontecer em relação ao discurso da esquerda burocratizada que passa a ser confundido com o discurso da cultura oficial, com o próprio sistema. (Hollanda,1981)

 

A maioria dos autores que analisa a atuação jovem no Brasil nas décadas de 60 e 70 no Brasil segue a tendência de opor dois grupos: o de esquerda e aqueles que faziam parte do universo contracultural, ou, usando o jargão da própria esquerda da época, de um lado os “militantes de esquerda”, “sérios, comprometidos com a revolução social”; do outro lado os “desbundados”, “hippies”, que estavam “em busca de prazer individual”. As mudanças comportamentais vividas na segunda metade da década de 60 são vistas por eles como irresponsáveis e hedonistas. (Almeida,1998:403)

 

O estereótipo construído pela esquerda e que incidiu sobre os “adeptos” da contracultura pode ser compreendido à medida que percebemos nele uma maneira de reforçar certos valores, através da negativização do outro (Burke, 2004). Ao se deparar com a busca por mudança de comportamentos cotidianos e não mais por uma revolução macro-social, muitos militantes de esquerda, principalmente os mais ortodoxos, desqualificaram tais práticas, que passaram inclusive a ser motivo de exclusão de membros destes grupos. É compreensível que Planeta tenha sido, ao mesmo tempo, saudada com entusiasmo e também estranhamento ou desprezo em um Brasil onde, muitas vezes, só o pensamento rotulado de esquerda era considerado como transformador.

 

Dessa forma, a revolução proposta por Planète irá assumir, via sua congênere brasileira, uma nova dimensão, participando do universo New Age dos anos 70, e sofrendo a crítica da esquerda que via toda manifestação contracultural como sendo « um subproduto alucinado do fechamento do horizonte político pela ditadura militar » (Risério, 2005:26). No Brasil, a contracultura se desenvolveu « não por causa, mas apesar da ditadura », e Planeta foi importante veículo de debate destas ideias ao lado de outras revistas, boletins e editoras consagradas aos temas ditos “alternativos”.

 

A polêmica Planète criada por Pauwels e Bergier pretendeu ser um meio divulgador de ideias que orientassem a reflexão sobre o mundo e suas possibilidades rumo a uma sociedade utópica de bem-estar, projetada para um futuro no qual  a humanidade viveria em um « todo » harmônico, livre de desigualdades e oposições. A ideia de « revolução cotidiana », proposta pela revista francesa, foi propagada no Brasil por Planeta que se tornou importante veículo de novas ideias em um país assolado pela ditadura militar, em um período de intensa censura. Através da valorização de temas tidos como marginais, o periódico oferecia a possibilidade uma nova visão do individuo e da sociedade que tinha como fonte saberes  advindos de diferentes culturas e épocas e que eram reapresentados segundo a ótica da revista, podendo servir como resposta para a construção de um estilo de vida alternativo, que quebrava muitas vezes as visões de mundo hegemônicas do período.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas


Fontes

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Planeta, São Paulo: Três, n.5. p.3, jan. 1973.

Planeta, São Paulo: Três, n.6, p.6. 1973.

 

Bibliografia

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VERALDI, G. (org.) Planète. Paris : Editions du Rocher, 1996.

 

 

 


[1] Esta pesquisa está sendo desenvolvida graças ao apoio da Capes através de bolsa de Pós-Doutorado, convênio CAPES/COFECUB. Uma versão deste texto foi apresentado sob o título Planète et Planeta ou les revues en quête d'un mieux être alternatif no Colloque Médias et société du bien-être em 27 e 28 de novembro de 2008, promovido pela  Inathèque de France e aguarda publicação nos anais do evento.

[2] A publicação de Planète foi um sucesso tão grande que outros espaços foram criados a fim de dar continuidade e aprofundar os temas propostos pela revista. Assim criou-se a Editora Planète, promoveram-se  palestras,  temporadas culturais no Club Mediterranée e até mesmo viagens. O conjunto dessas propostas é conhecido como “aventura Planète”.

[3] Como a revista Tel Quel (1960).

[4] Cornut aponta, entre outros, Jacques Mousseau e Aimé Michel, que haviam circulado por um  meio intelectual diferente de Pauwels e Bergier.

[5] O número um de Planeta recebeu cartas de Jorge Amado, Francisco Luis de Almeida Sales (ex-Adido Cultural do Brasil na França), Fernanda Montenegro, Caio Graco (editor), Paulo Gaudêncio (psiquiatra)  e Luis Ernesto V. Gadelha (arquiteto). CARTAS. Planeta, São Paulo, n.1., s.p.. set.1972.

 

 

Pour citer cet article:

 

SIGOLO, Renata P. «Na órbita de Planète : a construção de um estilo de vida alternativo», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°7, automne-hiver 2010, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.