Itinerância e Resistência: múltiplas faces da língua portuguesa e sua importância nas literaturas africanas

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Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco

 

Eu creio que pela mediação da poesia
os poetas fundaram os povos.
E os povos fundaram a língua.
E a língua fundou as nações.
Língua de viagem e mestiçagem,
como gosta de dizer o meu amigo Manuel Rui.
Rio de muitos rios.
E talvez pátria de várias pátrias.
Sem esquecer que há o português da opressã
o e o português da libertação.
O português de múltiplas tiranias
e o português das várias resistências.
A língua é a mesma. Mas não é a mesma.
É una. Mas é diversa.
Tanto mais ela quanto mais diferente.
Tanto mais pura quanto mais impura.
Tanto mais rica quanto mais mestiça.

 

Manuel Alegre[*]

 

 

 

A epígrafe sintetiza o que pretendemos demonstrar, ao longo de nosso texto, a respeito do importante papel e do percurso da língua portuguesa nas Literaturas Africanas. Por intermédio dela, o poeta português Manuel Alegre, de maneira poética e lúcida, ressalta a riqueza, o movimento e a multiplicidade desse idioma, cujas ambivalências e contradições o tornaram uno e, ao mesmo tempo, diverso; instrumento, no decorrer de vários séculos, de tiranias e resistências: um rio de muitos rios...


A imposição da língua portuguesa em África se deu, de modo mais sistemático e oficial, na segunda metade do século XIX, quando Portugal, impedido de efetuar o tráfico negreiro, passou a colonizar efetivamente suas possessões no continente africano, criando escolas, instaurando a imprensa. Durante o período colonial, as normas recomendadas eram as do português de Portugal, embora, em grande parte dos espaços rurais, continuassem a ser faladas as línguas africanas locais e, nos bairros periféricos das cidades mais importantes, predominasse um português já bastante africanizado.

 

No período das independências dos países africanos que foram dominados por Portugal, com o apogeu dos nacionalismos pós-Segunda Guerra, a noção de pátria se fortificou e as identidades linguísticas foram pensadas como fatores de construção da nacionalidade a ser conquistada. No calor dos discursos, a utopia revolucionária forjou uma ideia de língua vinculada à de unidade nacional. O idioma português foi, então, entendido como agente aglutinador, responsável pela coesão cultural e política dos jovens países africanos tardiamente libertados.

É importante enfatizar, contudo, que, antes das independências, em Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, já havia uma boa literatura que serviu para afirmar a terra, a língua, a identidade desses territórios em África:

 

Antes das grandes proclamações políticas, Angola já tinha de certo modo nascido da criação literária de Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, António Jacinto, Luandino Vieira e outros. Como Cabo Verde estava na prosa e na poesia de Baltazar Lopes, Moçambique nos poemas de José Craveirinha, S. Tomé na escrita de Francisco José Tenreiro e de Alda Espírito Santo. Acontece que, em cada um destes países, a afirmação das respectivas identidades culturais, como a própria proclamação das respectivas independências, foi feita em português. A língua da opressão colonial transformou-se em língua de libertação nacional.  (Alegre, 2003: site)

 

Antes das independências, quando já havia sido iniciado um processo de "descolonização" com muitas críticas ao regime colonial, a língua portuguesa se impôs, afastando-se dos traços e dos ritmos lusitanos com que partiu do Tejo. Expropriado, recriado, os discursos literários dessa época optaram por um português africanizado que buscava reinventar as estruturas orais da fala, incorporando vocábulos africanos, assumindo transgressões sintáticas e semânticas. Em Angola, por exemplo, diversos escritores e poetas se valeram de um português quimbundizado dos musseques, dos quimbos e sanzalas. As línguas locais passaram a coexistir com o português e foram mescladas, muitas vezes, ao idioma imposto pelo colonizador. Diversos textos literários adotaram algumas expressões de diferentes línguas africanas de Angola, entre elas: o quimbundo, o mbunda, o ovibundo e outras. Recriada, a escrita literária foi kazukutada, ou seja, foi "desordenada, agredida", pois kazukutar é um termo quimbundo que significa "instalar a desordem". Fecundado com sêmen africano, o português literário assumiu-se, então, como um "discurso verbalmente mestiço".

 

A diferença das línguas nacionais abala o edifício hegemônico da língua imposta pela dominação e de certo modo impede que se consolide o etnocentrismo ou se aceite sua fatalidade. A língua portuguesa, ao dobrar-se às necessidades de seus novos utentes, se faz ela própria um instrumento que se volta contra o processo de dominação, abrindo-se para o dialogismo cultural que passa a veicular. (Padilha, 2002: 51)

 

Temos exemplos disso na prosa angolana, com escritores como Luandino Vieira, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, António Jacinto, Uanhenga Xitu, entre outros, que combinaram o português e o quimbundo, recriando a língua portuguesa, segundo uma perspectiva e ritmo locais. Ao efetuar, assim, a subversão do instituído por meio da ludicidade da linguagem literária, essa literatura conseguiu afirmar a diferença angolana, apresentando traços característicos da cultura e dos falares de Angola.

 

Em Cabo Verde, ao lado do crioulo, houve também uma crioulização do idioma português imposto pela colonização portuguesa, o que acabou desenvolvendo uma situação de bilinguismo, hoje tão bem estudada por linguistas caboverdianos como, por exemplo, Manuel Veiga.

 

Foi o Movimento de Claridade que iniciou um processo intenso de caboverdianização da escritura literária em Cabo Verde. As mornas – melodias típicas do Arquipélago, que traduziam o dilema do povo das Ilhas, obrigado a partir, com vontade de regressar – foram, em canções mais modernas, recriadas e passaram a defender "o ficar para resistir". Há textos da literatura caboverdiana escritos em crioulo, como os poemas de Sérgio Frusoni, os de Kaoberdiano Dambará e o romance Odju d´agu, de Manuel Veiga, entre outros, que tanto valorizaram e afirmaram as matrizes culturais crioulas das Ilhas.

 

Em Moçambique, o poeta José Craveirinha defendeu ser imperioso adotar uma posição clandestina para poder sublevar o tecido linguístico. Muitos de seus poemas, entre os anos 1948 e 1959, buscaram afirmar as raízes africanas de Moçambique. Pela consciência da necessidade de contaminar a língua do colonizador, entre outros fatores, Craveirinha inseriu no português termos do xi-ronga, língua africana falada por sua mãe. Com uma linguagem erótica, guerreira, vibrante, áspera, luxuriante, a poesia de Craveirinha, ainda hoje, estremece quem a lê. Sente-se em seus versos um rumor, um roçar nervoso de vocábulos, alguns escritos em xi-ronga, atritando-se, insubmissos, com a língua portuguesa.  No conhecido poema "África”, o eu-lírico confessa o desejo de macular o português, fecundando-o com expressões de línguas locais:

 

E ergo no equinócio de minha terra
o rubi do mais belo canto xi-ronga
e, na insólita brancura dos rins da
madrugada, a carícia dos meus dedos
selvagens é como a  tácita harmonia
de azagaias no cio das raças,
belas como falos de ouro eretos no
ventre nervoso da noite africana.
(Craveirinha, 1980a: 17)

 

Incorporando ritmos africanos, "gritos de azagaias no cio das raças", o "tantã dos tambores" ressoando na pele do poema, o sujeito lírico chama miticamente a ancestralidade e impõe sua poesia como um canto erótico de rebeldia. Os versos citados anteriormente encontram-se no pórtico de Xigubo; abrem este livro, cujo título, em xi-ronga, significa "tambor” e “dança guerreira que prepara ou comemora as batalhas". Portanto, os poemas, reunidos neste volume, sob a designação Xigubo, metaforizam a conclamação e a defesa das raízes africanas que foram silenciadas pela colonização.

 

Na poética de Craveirinha, a língua portuguesa, que o aparelho colonial desejaria imune a alterações, é sublevada; passa por um processo de moçambicanização, abrindo caminho para as gerações posteriores. Exemplo disso é o poema "Inclandestinidade”, de Cela 1, onde o eu-poético assume a contramão da língua e da História:

 

Cresci.
Minhas raízes também
e tornei-me um subversivo
na genuína legalidade.
Foi assim que eu
subversivamente
clandestinizei o governo
ultramarino português.
Foi assim!
(Craveirinha, 1980b: 85)

 

A voz lírica, com metáforas iradas e versos agressivos, transgride a norma e as regras impostas pelo domínio português. Não há ressentimentos contra a língua portuguesa; mas, contra o colonialismo. O idioma português é renovado por neologismos e pela inclusão de termos em xi-ronga. A subversão se faz tanto em nível ideológico-linguístico, como estético-literário.

 

Passemos, agora, aos anos 1980, tempos posteriores às independências das ex-colônias portuguesas em África. Enfraquecida a crença utópica que alimentou os nacionalismos e processos revolucionários, a língua portuguesa não pode ser decantada, apenas, porque foi veículo de politização e permitiu a revolução. Deve ser pensada segundo outros parâmetros. Hoje, em plena época de crises, de desencantos, após a queda do Muro de Berlim, não cabe mais uma concepção monolítica do fenômeno linguístico, nem do histórico. As línguas, nas sociedades contemporâneas de consumo, cruzam-se, babélicas, com discursos do simulacro produzidos pela comunicação virtual. Persistem, entretanto, transgressoras, aquelas que, clandestinizadas, se fazem ouvir através de vozes paródicas, irreverentes – como é o caso de diversos escritores africanos, entre os quais: Pepetela, Ondjaki, João Melo, Filimone Meigos, Patraquim, Mia Couto, Paulina Chiziane, Dina Salústio, Arménio Vieira, Germano Almeida e muitos outros que usaram do humor para efetuarem fortes críticas sociais –, ou através de cantos líricos que, a par da desesperança atual, ainda investem no sonho e na própria poesia, operando com estratégias da intertextualidade.

 

Exemplificamos esta última vertente com o livro Preces & súplicas ou Os cânticos da desesperança, da escritora caboverdiana Vera Duarte que adverte, principalmente, para a crescente e assustadora perda da humanidade no contexto neoliberal. Os poemas de Vera não tecem loas ao sucesso, ao consumo, ícones do mercado que transforma as pessoas em mercadorias. Sua poiesis dá as costas a esse tipo de progresso, buscando exorcizar a barbárie por intermédio de intenso exercício de captação de lembranças e recônditos afetos advindos do outrora. É pela rememoração de fogos e ritmos do San Jon, que os ventos da memória e da imaginação transportam o sujeito poético aos tambores da Ilha de Santiago, fazendo-o relembrar tradições que se erigem, no poema, como estratégias de fuga e reação ao apocalipse de uma modernidade esfaceladora de identidades e histórias. Em consonância com o poeta Corsino Fortes, por exemplo, observamos que o eu-lírico de Preces & súplicas ou Os cânticos da desesperança procura ritmos identitários das ilhas na própria musicalidade poética. Opera, dessa forma, com uma poesia da sensibilidade, da luta pela igualdade e pelos direitos humanos. Recupera Eugénio de Andrade como poeta de grande trabalho com a densidade da linguagem; faz dialogar a metáfora da rosa de Eugénio com a da rosa mirabílica da geração poética do pós-25 de abril em Cabo Verde, da qual fazem parte vários poetas, entre os quais José Luís Hopffer Almada que também se inspirou nesta rosa para organizar a antologia Mirabilis. Há, portanto, na metáfora da rosa que aparece no seguinte poema de Vera Duarte, uma forte intertextualidade com os mencionados poetas:

 

Em África cresce uma rosa
É a rosa mirabílica
Flor de poesia
uma rosa entre cadáveres
(Duarte, 2005:19)

 

Essa rosa alegoriza, portanto, a crença na insurreição dos homens e das palavras, a resistência da literatura caboverdiana, pois “para lá da ilha, /só existe a poesia” (ibid: 62). “Sem a palavra/ A ilha não existe/ Sem a ilha/ Não existe o poema” (ibid: 64).

 

São também presentes, na produção lírica pós-1980 dos países africanos de língua portuguesa, vertentes intimistas que perseguem sentidos poéticos nas profundezas interiores de cada ser. Em Moçambique, por exemplo, podemos citar a poesia de Eduardo White, cujos versos voam com a imaginação e procuram ouvir o rumor da língua que, para Barthes, constitui o frêmito poético, a capacidade de a linguagem expressar-se de modo inaugural.

 

Em Eduardo White, cada palavra, cada metáfora e cada imagem criam tremores de sentidos que, amplificados, possibilitam à língua um sonoro e musical rumorejar, resultando as oceânicas trilhas percorridas através dos séculos: “um navio na língua, a língua resultante do embate de suas encapeladas vagas de encontro às quilhas do navio...” (White, 2001:9)

 

As línguas, tecidos por onde passam as diferenças, não podem mais ser concebidas somente segundo o paradigma da identidade ou, pelo menos, este conceito não pode mais ser explicado monoliticamente. É preciso entender com Boaventura de Sousa Santos que apenas existem “identidades em curso” (Santos, 1996:135); o conceito de identidade só pode ser compreendido na dialética da própria diversidade; portanto, os idiomas não podem mais ser considerados apenas como "vozes representativas da pátria e da nação". A língua portuguesa, por exemplo, tendo atravessado o Atlântico, o Índico, chegou a diferentes terras, recebeu novos saberes, nova musicalidade, novos acentos; conquistou novos afetos, novas subjetividades; multiplicou-se, grávida, de outros espermas, suores e salivas.

 

Cada vez mais se torna necessária uma reflexão crítica a respeito da questão das transformações sofridas pela língua portuguesa, pois muitos de seus laços, no decorrer dos séculos, se desfizeram e se refizeram em heterogêneas combinações. Sabemos quanto de diversidade esse idioma adquiriu, ao travar contato com outras línguas e culturas ao longo da história. Levado à África como língua de colonização, o português deixou marcas profundas; contudo, também sofreu metamorfoses em decorrência das diferenças linguísticas, culturais e sociais entre os povos que a falaram.

 

Tal consciência é clara em vários escritores contemporâneos, que têm como matéria vertente o idioma português. Ana Paula Tavares, por exemplo, na crônica intitulada "Língua Materna", demonstra grande lucidez a esse respeito:

 

[...] a língua mãe cresce connosco e ao mesmo tempo inaugura e aprende a distinguir os cheiros fortes da terra ou o sabor do pão de batata-doce, que como ela também leveda e tem que ser cuidado sob risco de passar do ponto e abater... Como as pessoas, a língua alarga-se à convivência com as outras, oferecendo-se mesmo ao acto de incorporar no seu próprio corpo outras sonoridades, outros empréstimos. (Tavares, 1998:13)

 

A autora chama atenção para as alterações e metamorfoses do português em convívio com as línguas angolanas e vice-versa, confessando a sedução exercida sobre ela pelas enriquecedoras trocas ocorridas no decorrer dos processos linguísticos:

 

Sempre observei com gosto a alquimia generosa da língua portuguesa engrossando ao canto umbundo, sorrindo com o humor quimbundo ou incorporando as palavras de azedar o leite, próprias da língua nyaneka. O contrário também é válido e funciona para todo o universo das línguas bantu e não só faladas nos territórios, onde hoje se fala também a língua portuguesa. (ibid.:13)

 

Seguindo os ensinamentos dos mais velhos guardiães de histórias de Angola, os textos de Paula realizam a alquimia da língua, transformando o corpo das palavras em vozes e gestos transmissores dos costumes de sua terra, a Huíla, região pastoril do sudoeste angolano. Aí, ela busca força e origem e descobre "as fronteiras móveis da oralidade, a contagem interminável das contas do colar da vida, nas suas voltas e mais voltas ao redor do fio" (ibid: 125):

 

Os contadores de história do meu país sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz e, uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. Os poetas também sabem desses ofícios: O David Mestre ainda era miúdo e já dizia: " [...]  Mover a voz para / fora. Subverter-lhe a derme/ inquieta no sopro" [Mestre, David. Do Canto à idade, p. 19]  (ibid: 14)

 

Esse constante subverter referido por David Mestre se encontra, também, em outros autores angolanos, entre os quais Paula Tavares, cuja obra se caracteriza por uma linguagem e por uma estrutura sempre prontas "a saltarem o cercado" das convenções. Está presente, ainda, muitas vezes, no falar coloquial dos povos que herdaram a língua portuguesa na África, no Brasil. E, nas propostas de muitos escritores brasileiros e africanos, é nitidamente intencional e consciente essa praxis subversora. Em Angola, Luandino Vieira, Boaventura Cardoso são mestres da quimbundização do português, recriando-o em africanas formas.

 

Em Moçambique, também a literatura de Mia Couto recupera tradições populares e, artesanalmente, "retrabalha" a língua em brincriações semânticas, sintáticas, capazes de devolverem ao humano o gosto das palavras e o prazer dos sonhos que os muitos anos de guerra adormeceram em seu país. Seu discurso tece uma rede intertextual e simbólica com as crenças e os mitos moçambicanos. Opera metaforicamente com a linguagem e reinventa a língua portuguesa com paladares e entonações locais, efetuando construções fônicas, morfossintáticas e semânticas inusitadas, que visam ao resgate dos sentidos poéticos da vida, escamoteados pelos sofrimentos.

 

Os processos de revitalização da linguagem empregados pelo escritor se assemelham aos usados por Guimarães Rosa e Luandino Vieira. Os mais frequentes são os neologismos formados por afixação e aglutinação. Do primeiro tipo, citamos vários exemplos: “imovente”, “irresultava”, “sofrências”, “amanhãzinha”, entre outros; do segundo, lembramos a palavra “cabisbaixeza”, resultado da fusão dos vocábulos “cabisbaixo” e “tristeza”.

 

Michel Laban, estudioso da obra de Luandino, aponta processos como os citados, chamando atenção para as estratégias criativas da língua empregadas por esse grande escritor angolano:

 

[...] mas prefiro destacar outro fenômeno, ligado ao escritor Guimarães Rosa (escritor que Luandino Vieira descobriu durante os anos de cadeia): trata-se da elaboração de mots-valises, ou seja palavras entrecruzadas. Observemos, por exemplo, as formas empertigadouta, [...] esfingido [...], etc. (Laban. In Galves, 2009:134)

 

Laban ressalta a ludicidade e a ironia de Luandino, comentando os significados de palavras, entre outras, como empertigadouta, esfingido, resultantes da junção de empertigada + douta, de esfinge+ finge. Com base em estudos dos processos linguísticos usados, evidencia o poder subversor da linguagem de Luandino, demonstrando como ele e outros escritores angolanos conseguiram transformar o idioma da colonização em arma poderosa de conscientização contra o jugo colonial.

 

Em recente e belo poema ainda inédito, intitulado “Crónica Verdadeira da Língua Portuguesa”, João Melo reflete criticamente sobre a paradoxal questão de a língua infligida pelos conquistadores portugueses ter sido, justamente, a da libertação. Elegendo uma epígrafe de Luandino Vieira, “A língua portuguesa é um troféu de guerra”, demonstra como esse idioma se converteu em uma conquista dos povos oprimidos.

 

[...]
A libertação da língua portuguesa
foi gerada nos porões
dos navios negreiros
pelos homens sofridos que,
estranhamente,
nunca deixaram de cantar,
em todas as línguas que conheciam
ou criaram
durante a tenebrosa travessia
do mar sem fim.
Desde o nosso encontro inicial,
essa língua, arrogante e
insensatamente,
foi usada contra nós:
mas nós derrotámo-la
e fizemos dela
um instrumento
para a nossa própria liberdade.
( Melo, 2009: inédito)

 

O sujeito poético convoca Sophia de Mello Breyner para a cena de seus versos, lembrando como a poetisa apreciava a entonação aberta das vogais do Português do Brasil. Com a consciência de que língua é poder, ele discute, historicamente, a dureza e a imposição brutal dos antigos donos do idioma:

 

A poetisa portuguesa
Sophia de Mello Breyner
gostava de saborear
uma a uma
todas as sílabas
do português do Brasil.
Os antigos donos da língua
pensaram, durante séculos,
que nos apagariam da sua culpada consciência
com o seu idioma brutal,
duro,
fechado sobre si mesmo,
como se nele quisessem encerrar
para todo o sempre
os inacreditáveis mundos
que se abriam à sua frente.
( Melo, 2009: inédito)

 

Sabedor, com Barthes, de que os poetas são aqueles que conseguem colocar a língua “fora do poder”, recriando palavras e frases, explorando novos saberes e musicalidades, o sujeito lírico abre as camadas da língua para destas tirar maior expressividade e sabor:

 

[...]
Era preciso traçar-lhe
novos horizontes.
Primeiro, então, abrimos
de par em par
as camadas dessa língua
e iluminamo-la com a nossa dor;
depois demos-lhe vida,
com a nossa alegria
e os nossos ritmos.
(Melo, 2009: inédito)

 

A metáfora de “abrir de par em par” a língua, visualmente, expressa a imagem de uma janela descerrada, que deixa a luz do sol entrar para aquecer as palavras e a pele da linguagem, fazendo com que estas produzam inovadores sentidos e afetos:

 

Nós libertámos a língua portuguesa
das amarras da opressão.
Por isso, hoje,
podemos falar todos
uns com os outros,
nessa nova língua
aberta, ensolarada e sem pecado
que a poetisa portuguesa
Sophia de Mello Breyner
julgou ter descoberto
no Brasil,
mas que um poeta angolano
reivindica
como um troféu de luta,
identidade
e criação.
(Melo, 2009: inédito)

 

Ao encerrarmos este breve percurso sobre os caminhos e a importância do idioma português nas Literaturas Africanas em Língua Portuguesa, constatamos que muitos  poetas  e  escritores africanos não só reinventaram a língua portuguesa, mas também refletiram sobre suas mutações, variações. Invertendo e subvertendo o estabelecido pelos paradigmas colonialistas, escritores e poetas fizeram uma revolução na língua do colonizador, africanizando-a por dentro.

 

Contudo, é importante ressaltar que os laços linguísticos do português com as línguas africanas nativas não surgiram com esse processo, tendo em vista serem bem antigos, conforme advertiu Mia Couto:

 

E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguas bantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quanto tempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantas outras se instalaram na língua portuguesa? Pois eu vos digo, tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-se no século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequer suspeita da sua origem longínqua. Meus amigos, a verdade é a seguinte: a lusofonia não começou hoje. A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rastro. De uma vez por todas, superemos receios e fantasmas. De uma vez por todas, namoremos o futuro para que ele se enamore de nós.  (Couto, 2007: site)

 

Seguindo os conselhos de Mia Couto, ultrapassemos receios e fantasmas. O importante é que a língua portuguesa, enriquecida por tantas particularidades e diferenças, se mantenha, tanto no presente, quanto no futuro, como elo capaz de permitir um debate plural e um diálogo crítico entre as culturas dos diversos povos que são usuários desse idioma.


“Troféu de guerra”, segundo Luandino, o admirável é que a língua portuguesa, ensolarada, no Brasil e em África, como a descreveu João Melo, possui camadas recônditas que os poetas e escritores estão sempre a descobrir e inventar, iluminando, com a imaginação criadora, a poesia da linguagem.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas:


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GALVES, Charlotte et alii [Org.]. África-Brasil: caminhos da Língua portuguesa. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2009.

LABAN, Michel. Encontro com escritores. Entrevistas. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1991, 2 v. (Angola), 925 p., 1992, 2 v. (Cabo Verde), 782 p., 1998, 3 v. (Moçambique), 1281p., 2002, 1.v. ( São Tomé e Príncipe), 465 p.

_____, “Estória de família”, de Luandino Vieira (1972): “o que se mistura, separa”. In GALVES, Charlotte et alii [Org.]. África-Brasil: caminhos da Língua portuguesa. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2009. p.115-126.

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[*] ALEGRE, Manuel. Comunicação apresentada na Expolíngua, em Madrid, em 2003.

 

Pour citer cet article:


Secco, Carmen Lucia Tindo Ribeiro. "Itinerância e Resistência: múltiplas faces da língua portuguesa e sua importância nas literaturas africanas", Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 6, printemps-été 2010, URL: http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=article&id=246:itinerancia-e-resistencia-multiplas-faces-da-lingua-portuguesa-e-sua-importancia-nas-literaturas-africanas&catid=75:nd-6-litteratures-africaines-de-langue-portugaise&Itemid=55