A reatualização de um quadro da fé cristã em “Presepe”
Adilson dos Santos
Universidade Estadual de Londrina
O presépio ou presepe, como também é chamado, é um dos símbolos mais antigos e característicos das festividades natalinas dos cristãos. Do latim “praesepiu”, o termo possui três significações, segundo o Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa:
1. Lugar onde se recolhe gado; curral, estábulo. 2. Representação, na tradição do Natal, do estábulo de Belém e das figuras que participaram, segundo o Evangelho, do nascimento de Cristo, e das cenas que a ele se seguiram. 3. A manjedoura[1] onde o Menino Jesus foi posto ao nascer (1999: 1633).
Ampliando esta definição, a Grande enciclopédia portuguesa e brasileira diz que, ao reportarmo-nos
rigorosamente à origem da palavra, devemos admitir como presépio toda a representação plástica das cenas primeiras da vida de Jesus, o nascimento e as adorações quase imediatas, isto é, tudo quanto nessa vida prodigiosa se passa no estábulo, gruta ou arribana em que o Divino Menino veio ao Mundo. No entanto, embora devesse ser esta a extensão primitiva do vocábulo, o certo é que ela se limitou um pouco e na sua acepção popular quase está reduzido à designação dos grupos de figuras modeladas (quase sempre em barro) e de índole rústica ou popular, representando um conjunto mais ou menos fantasioso do Nascimento, Adorações, etc., e tendo como parte central a arribana sacrossanta (s/d: 184).
De acordo com o evangelho de São Lucas, em virtude do decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de todos os povos do império, todas as pessoas tiveram de se alistar, cada uma na sua própria cidade. Com sua esposa Maria, que estava grávida, José foi para a região da Judéia, na cidade de Belém. Enquanto o casal se achava neste lugar, chegou o tempo de a criança nascer. Então, conforme se lê na Bíblia de Jerusalém, Maria “deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (Lc 2, 7). Avisados por um anjo da boa nova, alguns pastores que estavam passando a noite nos campos arredores deixaram seus rebanhos de ovelhas e foram visitar aquele que seria o redentor prometido por Deus para redimir o povo de Israel. Consoante o evangelho de São Mateus (2, 1-11), a criança também recebera, posteriormente, a visita de magos do Oriente que, guiados pela estrela do menino até o local onde o mesmo se encontrava, vieram adorá-lo e presenteá-lo com riquezas e perfumes da Arábia: ouro, incenso e mirra.
As cenas passadas na estrebaria em que Cristo nasceu juntamente com as figuras que lá estiveram foram amplamente reproduzidas pela arte sacra. Segundo a Enciclopédia luso-brasileira de cultura, a partir do séc. IV, já é possível constatar, inclusive, um acréscimo ao grupo de personagens. “As representações do presépio, conhecidas”, a partir deste período, “costumam incluir um boi e um jumento aquecendo o Menino” (s/d: 1034) – informação essa que não consta nas sagradas escrituras. Ao relatarem o episódio do nascimento de Cristo, os evangelistas São Mateus e São Lucas sequer mencionam a presença de animais na gruta. Ainda de acordo com a Enciclopédia luso-brasileira de cultura, deve-se tal fato
a uma interpretação isolada do contexto de Is., 1, 3 [2], e a uma tradução errada de Hab., 3, 2, na antiga versão itálica, com origem nos LXX: “manifestar-vos-eis entre dois animais” em vez de “manifestai-a (a Vossa glória) através dos tempos” (Vulg.: “in decursu annorum”) (s/d: 1034) [3].
A partir do séc. VII, as representações do presépio vão se multiplicando, porém, só se tornam verdadeiramente populares por intervenção de São Francisco de Assis – muitas vezes visto até como o criador do primeiro presépio. É a ele que a tradição atribui a iniciativa da devoção. Segundo consta, no ano de 1223, em vez de celebrar a solene missa da noite de 24 de dezembro, no interior de uma igreja, como era de hábito, o santo resolveu celebrá-la dentro de uma gruta, na floresta de Greccio, com seus confrades e concidadãos. Tentando reviver a ocasião do nascimento de Cristo, São Francisco mandou preparar uma manjedoura cheia de feno e colocar perto dela um jumento e um boi. No feno, ele depositou a imagem do Menino Jesus, formando, dessa forma, um berço e, ao mesmo tempo, o altar para a especial celebração. Além disso, ele também mandou pôr, ao lado da manjedoura, as imagens da Virgem Maria e de São José, produzindo, assim, um grande presépio. A reconstituição feita pelo santo visava tornar mais acessível e clara, para os cidadãos comuns de Assis, a celebração do Natal. Por meio deste expediente, eles poderiam visualizar o que se passara em Belém:
Desde então, os franciscanos tornaram-se os propagandistas desta figuração do Natal [por toda a Europa], que se foi enriquecendo de quadros e personagens ao gosto de cada povo e constituiu excelente motivo de inspiração para os artistas. Arma-se o presépio nas igrejas e nas casas, durante o tempo do Natal, sem caráter obrigatório, segundo a vontade e os recursos dos devotos (Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, s/d: 184).
Como o texto citado faz notar, recorrentemente, artistas consagrados e também menores afastaram-se da tradição cristã e, numa atitude de despreocupação com relação à fidelidade histórica – porém, de reatualização do evento ocorrido em Belém sob uma perspectiva mais “local” –, colocaram, no lugar de figuras secundárias, personagens e costumes extraídos de sua própria época. Em suas produções, o que predominou foi o espírito popular do presépio. Aliás,
o verdadeiro sabor dos presépios está exatamente na sua falta de erudição. Só o conceito popular lhes pode transmitir o cunho de sinceridade com que sabem prender o coração dos simples, pondo ante os seus olhos quadros semelhantes aos da sua vida, personagens ao seu convívio, terras iguais à sua terra e amor igual ao seu amor. [...] Os nossos principais barristas de presépio foram também admiráveis estatuários que não desdenharam pôr de banda a opulência do mármore, o estudo e a execução dos seus monumentos, para irem até à alma exprimir o mundo em que vive (Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, s/d: 185).
No Brasil, o presépio foi provavelmente introduzido no início do séc. XVII, na cidade de Olinda (PE), pelo franciscano frei Gaspar de Santo Agostinho. Três séculos depois, mais precisamente na década de 1960, o mineiro João Guimarães Rosa se inspira no velho e amplamente abordado tema da natividade do Menino Jesus e dá à luz ao conto “Presepe”. Este trata da estória de Tio Bola, um octogenário que, na noite de Natal, refaz, num estábulo, com seu próprio corpo, o presépio.
Conforme já indicado nesta breve apresentação do enredo, em “Presepe”, o tempo da estória não excede os limites de uma noite. Inicia-se antes das dez horas do dia 24 de dezembro e termina ao alvorecer. Toda a ação se desenvolve nos espaços de uma fazenda. É lá que vivem dois grupos de personagens marcadamente distintos: o primeiro, composto por Tio Bola, Nhota e Anjão; e o segundo, formado pelos “outros” (Rosa, 1985: 134) [4], isto é, “os parentes” (134), “meninos e adultos” (134) que gozam de maior importância no âmbito familiar.
Assim visto, em oposição ao segundo grupo, o primeiro é o dos marginalizados. Atendo-se às caracterizações dadas pelo narrador, é possível compreender as razões de tal fato. Nhota é a cozinheira da família. A julgar pelo que se observa, seus afazeres não se restringem às panelas. Além da feitura dos pratos, dos diversos serviços domésticos, ela parece ser igualmente a responsável por cuidar de Tio Bola. Trata-se de uma pessoa que vive às portas da morte. Segundo o relato, ao amanhecer de cada dia, “Nhota entoava o Bendito, [porque ainda] não tinha morrido” (136). De acordo com o narrador, “cardíaca” (134), ela diariamente “rezava” pelos cantos da casa “para tomar ar, não baixando minuto” (135). Quando precisava se reportar a alguém, “não chamava alto, porque lá a doença não lhe dava fôlego” (135). No que diz respeito a Anjão, este é apresentado como o “terreireiro, imbecil” (134), uma espécie de agregado sem voz e vez. Sua função é prestar serviços avulsos.
Diferentemente de Nhota e de Anjão, Tio Bola carrega o sangue da família. Todavia, ele está na velhice, o que acarreta alguns dissabores. Trata-se de uma fase da vida muitas vezes marcada pela solidão e pelas incompreensões dos mais jovens. Quando se está neste estado, os laços consangüíneos nem sempre contam. Não é de se estranhar que seus parentes não o levam em consideração, ninguém quer escutá-lo e, muito menos, ficar ao seu lado. Conforme se lê: “Meninos e adultos [...] o atormentavam, tratando-o de menos” (134). Acrescente-se a esta situação as intolerâncias com relação às debilidades físicas decorrentes de sua idade avançada: “Tio Bola, desestimado, cumpria mazelas diversas, seus oitenta anos” (134). Ele, que “tão gordo fora” (136) – o que explica a razão de seu nome –, estava, então, “tão magro, tão fraco: [que] nem piolhos tinha mais” (134). Agora, o designativo “Bola” apenas reflete a sua condição de idoso esquecido, alguém que é jogado de um canto para o outro da casa. É justamente em função deste quadro que seus parentes vivem sem com ele conviver.
Assim sendo, pode-se dizer que tanto a condição física quanto a social dos personagens Tio Bola, Nhota e Anjão funcionam como fatores de exclusão. Entretanto, independentemente de sua posição periférica no universo familiar, serão eles que constituirão as figuras principais de uma tradicional representação natalina, cabendo especial destaque para Tio Bola.
Na noite de Natal, devido aos “achaques de velhice” (134), o octogenário personagem é deixado na fazenda, enquanto os familiares vão à vila, para assistir à missa do galo. A fazer-lhe companhia ficam tão-somente a “cardíaca” Nhota e o “imbecil” Anjão. A princípio, Tio Bola “aceitara ficar, de boa graça, dando visíveis sinais de paciência” (134). Consoante o narrador, ele “apreciara”, inclusive, “a ausência” daqueles que “o atormentavam, tratando-o de menos; dos outros convém é a gente se livrar” (134). Para ele, solidão era sinônimo de quietude. No entanto, logo que a casa fica vazia, o personagem tem a dolorosa sensação de que “os parentes figuravam ainda mais hostis e próximos” e se dá conta de que “a gente precisa também da importunação dos outros” (134) – o que significa dizer que a quietude não está sujeita apenas à presença física das pessoas. Embora ele tome consciência de tal fato, uma dúvida parece ainda incitar a sua curiosidade: “Por que é que a gente necessita, de todo jeito dos outros?” (134).
Mesmo “desestimado” (134) pelos familiares, Tio Bola gostaria de estar na companhia deles, na igreja, partilhando todos juntos das comemorações natalinas. De fato, “Natal era noite nova de antigüidade” (134), “animação para surpresas, tintins tilintos, laldas e loas!” (135), e o que ele “topava” naquele momento era “tristeza” (134). Tomado, então, do desejo de participar da celebração, Tio Bola “quis ver visões. Seu espírito pulou tãoquanto à vila, a Natal e missa, aquela merafusa” (134), ou seja, aquela “agitação, festividade” (Martins, 2001: 329). Contudo, esbarrou na “falta de continuação” (134). Para aplacar a carência afetiva, ele se põe à luta: “Tudo cabendo no possível, teve uma idéia. Não de primeira e súbita invenção” (134). Conforme o narrador, “a idéia [de construir a cena do presépio] lhe chegou então, fantasia, passo de extravagância” (134), e foi tomando corpo devagar, até tornar-se sensível.
Primeiramente, para fugir das advertências de Nhota, Tio Bola finge recolher-se. Ele sabe que a cozinheira não tem papas na língua – “Mecê não mije na cama!” (134) – o que poderia impedir a execução de seus planos. Homem velho e “afobado” (134), Tio Bola também era “azafamoso” (134), ou melhor, “agitado, ativo, esperto” (Martins, 2001: 56). A ansiedade com a qual aguardava pela encenação particular do presépio era tão grande que a sensação que tinha era a de que ele “não cabia no quarto” (134). O único lugar no qual ele conseguiria estar naquela noite seria no palco a ser brevemente improvisado. Por isso, nem chega a entrar no quarto. Escuta o aviso de Nhota e fica pelos corredores da casa. A seguir, utilizando-se dos recursos disponíveis na fazenda, manda Anjão trazer ao curral um boi qualquer.
O remate da idéia vem logo após, com a visão do curral: “No pequeno cercado estava já o burro chumbo, de que os outros não tinham carecido” (134). Ao vê-lo juntamente com o boi em volta do cocho, Tio Bola dá por concluído o cenário: “O burro e o boi – à manjedoura – como quando os bichos falavam e os homens calavam” (135). A sucessão de tais fatos dá um sabor ainda mais especial à sua idéia, pois concorre para o mesmo fim. Faz sugerir a mão do destino: “Os currais todos ermos, menos aquele... Tremia de verdade” (135).
Por volta das dez horas, tendo Anjão e Nhota se afastado, Tio Bola, trajando alpercatas, camisolão e sem carapuça, dirige-se sorrateiramente ao curral: “Lá fora o escuro fechava. [...] Devagar descera, com Deus, a escada. Burro e boi diferençavam-se, puxados da sombra, quase claros. Paz. Sem brusquidão nem bulir: de longe o reconheciam” (135). No que se refere ao boi, seu nome é Guarani. Trata-se de um animal “severo brando” (135), “grosso, baixo, tostado, quase rapé” (135), de “testo lento” e “olhos redondos” (136). Jacatirão, por sua vez, é o nome do “prezado burrinho de sela” (135). Dotado de “orelhas” e de “fofas ventas” (136), tem “cor de rato” (135).
No curral, o velho fazendeiro sente o “cheiro de estercos” (135), tateia o cocho e constata que este está “limpo, úmido de línguas” (135). A visão de “estrelas miudinhas” (135) no céu aberto e o silêncio à volta geram um ambiente “que nem o esquecido, em vivido” (135), lembrando-lhe, desse modo, a sua atual condição. Por isso, “Tio Bola devia distrair saudades, a velhice entristecia-o só um pouco” (135). Segundo o narrador, ele “riu do que não sentiu; riu e não cuspiu” (135). Por anos a fio, ele fora submisso à autoridade dos parentes. Agora que estes “semelhavam fugidos” (135), “quem vinha rebater-lhe o ato, fazer-lhe irrisão? De anos, só isto, hoje somente, tinha ele resolvido e em seu poder [...]. Caduco de maluco não estava. Não embargando que em espírito da gente ninguém intruje” (135).
Tio Bola parece não acreditar que se encontra completamente desligado do mundo convencional: “Estava ali a não imaginar o mundo. Por um tempo acostumava a vista” (135). “Tão com ele, no meio espaço, de-junto” (135), estavam “gado e cavalgadura” (135), como que ambos posicionados numa atitude de expectativa. Então, agindo na mais pura liberdade, Tio Bola “apoiou-se no topo do cocho. Bicho não é limpo nem sujo” (135). De início, pensa somente em permanecer ali, na companhia dos animais: “A gente podia esperar, assim como eles, ocultado num ponto do curral. Tudo era prazo” (135). Porém, em seguida, resolve deitar-se no cocho. É quando, então, ocupa a manjedoura, justo no lugar onde o Deus-Menino fora depositado séculos atrás, e, neste gesto, faz-se simbolicamente criança outra vez: “Deitava-se no cocho? Não como o Menino, na pura nueza... O vôo de serafins, a sumidez daquilo. Mas, pecador, numa solidão sem sala. E um tiquinho de claro-escuro” (136).
Neste clima, o octogenário personagem pouco se importa com a opinião alheia: “Teve para si que podia - não era indino - até o vir da aurora. Que o achassem sem tino perfeito, com algum desarranjo do juizo!” (136). Curiosamente, nesta passagem, observa-se uma referência, às avessas, de um trecho do evangelho de São Mateus que é dito na missa pelos fiéis e pelo padre após o momento da consagração. Durante a celebração da missa, mais precisamente dentro da parte intitulada “Rito da Comunhão”, ao aproximar-se o momento dos fiéis comungarem, a assembléia se reconhece “indigna” de receber o Corpo de Cristo e pede perdão recitando o “Cordeiro de Deus”:
Terminado o “Cordeiro de Deus”, o Presidente levanta a Hóstia consagrada e a apresenta à Assembléia, dizendo:
“Felizes os convidados para a Ceia do Senhor!
Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo!”
E a Assembléia responde:
“Senhor, eu não sou digno
de que entreis em minha morada,
mas dizei uma palavra e serei salvo”.
Esta resposta da comunidade é tirada da resposta que aquele oficial romano, o centurião, deu a Jesus: “Senhor, eu não sou digno de receber-te em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu servo ficará curado” (Mt 8, 8) (Cechinato, 2004: 117).
Como se pode constatar, em oposição aos familiares que se encontram na igreja, reconhecendo-se “indignos” de receber o Corpo de Cristo, Tio Bola, deixado na fazenda por “achaques de velhice”, coloca-se na condição de “digno” de assumir o papel do Deus-Menino. É interessante notar que não apenas ele opera uma inversão na narrativa, mas igualmente um dos animais que o acompanham. Diz o narrador que, iniciada a encenação, Tio Bola “viu o boi deitar-se também - riscando primeiro com a pata uma cruz no chão, e ajoelhando-se - como eles procedem” (136). A ação que deveria ser concretizada pelo homem – o sinal da cruz – é realizada pelo animal, assinalando, dessa maneira, o seu importante papel na encenação. Conforme indicado anteriormente, não é em decorrência do mero acaso que se dá a reunião do boi e do burro, em volta do cocho, pouco antes de se iniciar a encenação do octogenário personagem. Pelo contrário, o fato de estarem juntos, ao mesmo tempo e em extrema conexão, visa proporcionar o revivescimento de um tempo primitivo, tempo em que, segundo o narrador, “os bichos falavam e os homens calavam” (135).
Com efeito, durante a representação do presépio, Tio Bola experimenta uma espécie de suspensão da noção cronológica do tempo: “O mundo perdeu seu tique-taque. [...] A hora dobrou de escura. Meia-noite já bateu?” (136). O personagem olha para o céu e a única coisa que consegue constatar é que as “estrelas prosseguiam o caminhar, levantadas de um peso. Fazia futuro” (136). Talvez aí resida a razão da curiosa expressão utilizada pelo narrador para expressar o sentimento de euforia do ancião com relação ao evento que se celebrava: “Natal era noite nova de antigüidade” (134), noite na qual acontecia “um brotar, de plantação, do fundo” (136), no coração das pessoas. Fora do tempo e do espaço, Tio Bola vivencia uma ordem distinta, única, mágica, na qual “o contrário do aqui não é ali...” (136) e “a noite era o dia ainda não gastado” (136).
Deitado no cocho, o octogenário personagem encontra quietude. Mesmo com “seus rústicos cotovelos” “de fora” e “o comichar, de uma coceira seca”, ele “tombou no quiquiri de um cochilo. Relentava” (136). Ao deslizar de vez para o sono, Tio Bola parece perder gradativamente as funções vitais: “Soporava. Dormiu reto. Dormindo de pés postos” (136). Ora, dormir “reto” e “de pés postos” evoca a idéia de morte. Lembra a expressão “esticar as canelas”. Morre, portanto, o velho Tio Bola para fazer surgir a figura do recém-nascido Cristo.
É no “tremeclarear” (136), quando chega a “vez de espertar-se, viver, esta vida aos átimos” (136), que o presépio se completa de uma vez por todas. Neste momento, aparecem as figuras de Nhota e de Anjão simbolicamente ocupando o lugar dos pais do Deus-Menino. Assim que Tio Bola acorda, o narrador arremata a descrição do quadro: “A Nhota dormia também, ali sentada no chão, sem um rezungo. O Anjão, agachado, acendera um foguinho. Conchegados, com o boi amarelão e o burro rato, permaneciam; tão tanto ouvindo-se passarinhos em incerta entonação” (136). Veja-se, aqui, o findar de uma encenação que esteve enquadrada na chamada regra das três unidades: um único acontecimento (o nascimento de Cristo), transcorrido num único lugar (o curral da fazenda) dentro dos limites de um único dia (a noite de Natal).
Em “Presepe”, enquanto representa o papel do recém-nascido, Tio Bola tem a oportunidade de sentir em si a plenitude da vida. É como se do homem velho, em quem nasceu o Menino, brotasse um homem novo. Todavia, a magia do presépio e as sensações por ele suscitadas somente duram até a hora da estrela-d’alva se retirar. Quando “a última estrelinha se pingou para dentro”, “Tio Bola levantou-se - o corpo todo tinha dor-de-cabeça” (136). É hora dos três retornarem à vida diária da fazenda, momento de se desmontar o presépio e saudar o novo dia que terá sabor de velho, já que “os outros vinham voltar, da vila, de Natal e missa-do-galo” (136-137). Antes, porém, o velho fazendeiro aproveita os últimos minutos que lhe restam de liberdade para dar as últimas ordens: “o Anjão soltasse burro e boi aos campos, a Nhota indo coar café” (136). Logo depois, “subiu a escada, de camisolão e alpercatas, sarabambo, repetia: - ‘Amém, Jesus!’” (137).
Como se pode observar, no conto rosiano, há a presença de vários elementos que possibilitam a criação de uma atmosfera mística. O narrador dá mostras de conhecer o universo cristão e tece todo o seu relato utilizando-se de termos e expressões que estão em harmonia com o assunto narrado, tais como: “missa-do-galo” (134), “Natal” (134), “seu espírito pulou...” (134), “feitiço” (134), “laldas[5] e loas[6]” (135), “Deus” (135), “Menino” (Jesus) (136), “o vôo de serafins[7]” (136), “pecador” (136), “riscando [...] uma cruz no chão” (136), “ajoelhando-se” (136), “prazo de três credos[8]” (136), “estrela d’alva[9]” (136) e “entoava o Bendito[10]” (136). A ação tem início justamente na véspera de Natal – poucas horas antes do momento que se comemora o nascimento de Cristo – e, de modo figurado, acontece num espaço bíblico (curral e manjedoura), com personagens bíblicos (Sagrada Família) e retirados da tradição (burro e boi). Além disso, a própria finalização do conto se dá através de uma fórmula geralmente usada no fim das orações, sejam elas pessoais ou pertencentes à liturgia religiosa: “Amém”. É o “Amém, Jesus!” (137) que Tio Bola profere após sua espontânea manifestação de religiosidade no curral da fazenda.
Ainda no que diz respeito à questão da religiosidade, percebe-se, em “Presepe”, que, além de Tio Bola, todos os demais personagens apresentam certa tendência para os sentimentos religiosos, para as coisas sagradas. Os familiares que vão à vila saem com o objetivo de participar da solene missa do galo. A cozinheira Nhota tem por hábito fazer preces pelos cantos da casa e rezar o Bendito pela manhã. O imbecil Anjão, por sua vez, tem estampada no próprio nome – forma aumentativa de “anjo” – a marca de sua religiosidade. Contudo, diferentemente dos seres espirituais tidos por mensageiros entre Deus e os homens e responsáveis por velar sobre cada pessoa, afastando-a do mal e inclinando-a para o bem, o terreireiro “gostava do que parecesse feitiço ou maldade” (134).
Apesar de todos os personagens terem em comum um traço de religiosidade, existe uma clara divisão no conto. De um lado, tem-se o grupo daqueles que desfrutam de maior importância na esfera familiar e que vão “à vila, para missa-do-galo e Natal” (134). Trata-se do conjunto de parentes, meninos e adultos, identificados pelo narrador através do pronome indefinido “todos” (134), que quer dizer “todas as pessoas; toda a gente; todo o mundo” (Ferreira, 1999: 1969). Do outro, tem-se o grupo dos marginalizados, seres excluídos pela sua condição social e física e deixados completamente sós na fazenda. Os personagens deste grupo não fazem parte do “todo”. Nem mesmo o pronome indefinido pode enquadrá-los na família ou na intimidade da família. Aliás, foram “todos” que deixaram Tio Bola, Nhota e Anjão sozinhos na fazenda.
Não obstante seu caráter marginal em relação à “totalidade” familiar, são estes personagens que compõem o núcleo central do conto. São eles que assumem a cena e dão conta de representar o quadro do presépio. Embora seus tipos não sejam os mesmos da Sagrada Família, possuem em comum o fato de não significarem muito na sociedade em que estão inseridos. No caso de “Presepe”, pode-se dizer que é precisamente em função desta condição que os personagens produzem um espetáculo condizente com a perspectiva cristã, uma vez que os protagonistas do quadro são os excluídos.
Como acabamos de mencionar, assim como a Sagrada Família, Anjão, Nhota e Tio Bola são indivíduos anônimos do ponto de vista social. Excetuando-se esta característica, cada um deles possui particularidades bem distintas das figuras bíblicas que representam. O terreireiro Anjão é apresentado na narrativa como um “estafermo”, ou alguém “estafermado” (134), o que significa dizer que se trata de “pessoa parada e embasbacada”, “sem préstimo, inútil”, um “estorvo, empecilho” (Ferreira, 1999: 827). O narrador ainda o caracteriza como um “imbecil” (134), que fazia “gesto obsceno pelas costas” (134) de Tio Bola e “gostava do que parecesse feitiço ou maldade” (134). Seu papel na encenação é exatamente o de São José, homem biblicamente caracterizado como o “justo” (Mateus 1, 19) e reconhecido pelos cristãos como modelo de pai, de operário (Patrono dos Trabalhadores), protetor da Sagrada Família e da Igreja (Patrono da Igreja Universal).
No presépio de Tio Bola, a personagem representada por Nhota é a Virgem Maria. Tal qual a mãe de Jesus, a cardíaca cozinheira mostra-se piedosa e exerce uma função materna no conto. Ela é a responsável por cuidar de Tio Bola e o faz como se estivesse lidando com uma criança: “- ‘Mecê não mije na cama!’ - intimara a Nhota, quando, comido o leite com farinha, ele fingia recolher-se” (134). Entretanto, enquanto a mãe de Jesus é biblicamente[11] caracterizada como alguém que não elevava a voz para reclamar ou condenar, a cozinheira possui uma personalidade um tanto quanto autoritária e tem o hábito de tudo censurar. Diz o narrador que “Nhota [...] tudo condenava” (135).
Dos três personagens que atuam no presépio, Tio Bola é aquele que mais foge ao perfil do ser interpretado. O leitor fica admirado ao se deparar com um presépio cujo centro – o lugar do recém-nascido – é ocupado por um octogenário, ou seja, em “Presepe”, o velho tema da natividade é reatualizado através de alguém que, teoricamente, está às portas da morte. A diferença entre ambas as figuras não pára aí. Na cena recriada por Tio Bola, o imaculado Menino Jesus é interpretado por um pecador. Não é sem razão que o narrador diz: “Deitava-se no cocho? Não como o Menino, na pura nueza...” (136), isto é, na mais pura “nudez” (Ferreira, 1999: 1422), “mas, pecador, numa solidão sem sala” (136). Vale lembrar que, de acordo com a perspectiva judaico-cristã, nudez era sinônimo de pureza. O livro do Gênesis diz que Adão e Eva viviam nus no jardim de Éden. Com a desobediência do casal, esta situação se alterou: “Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus, entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram” (Gn 3, 7). Ao terem incorrido em pecado, veio a vergonha e surgiu o encobrimento do corpo.
Ainda que sua idade não corresponda à da criança recém-nascida, Tio Bola obtém sucesso ao materializar para si o espírito do Natal. Diga-se a propósito, é justamente na sua velhice que reside o encanto da representação. Vimos que ele fora deixado na fazenda e, que, para lutar contra a solidão, contra o sentimento de “falta de continuação” (124), e participar do Natal de uma maneira diferente da habitual, resolvera encenar o presépio. Assim, com a ausência dos familiares, o personagem pudera realizar, pela primeira vez, depois de anos de submissão, um espetáculo que só os sonhos, a sensibilidade e a “fantasia, passo de extravagância” (134), de um idoso carente seriam capazes de proporcionar. O resultado é que, durante a encenação, acontece o renascimento temporário de um ser. Neste momento, a arte promove uma mudança provisória na vida do personagem. Na pele/máscara do Menino que acabava de vir ao mundo, Tio Bola esquece o velhinho forrado de “mazelas diversas” (134), que parecia não ter mais nada a esperar, por estar próximo da morte, e passa a ver a vida de modo diferente.
Para Regina da Costa da Silveira, em seu estudo “Veredinhas da infância em ‘Presepe’, de João Guimarães Rosa”, este “é um momento de transcendência que o herói-ancião proporciona a si mesmo” (2005: 12). Mal sabia ele que, ao aspirar ser o duplo encarnado de Cristo, ou seja, imitador, no plano da arte, de um produto da religião, conseguiria empreender um cerimonial que não apenas o atingiria de forma tão efetiva, mas igualmente o leitor. É o que se pode notar no comentário da mesma autora: “Tio Bola está a nos dizer que a vida é sempre um espetáculo novo, ainda que encene memórias de um tempo muito antigo; um palco constante em que entramos quase sempre de improviso; um quadro sempre por desenhar...” (2005: 13).
Em “Presepe”, pode-se afirmar que a atitude do velho fazendeiro é a mesma dos artistas que mencionamos no início deste estudo. Dissemos anteriormente que o acontecimento da Palestina forneceu-lhes diversos motivos para desenvolverem a sua arte, fazendo reviver, à volta do Menino que acabava de vir ao mundo, personagens não só daquela época como dos tempos em que suas produções surgiram. Como eles, Tio Bola não foi o primeiro a imaginar e a recriar a cena do nascimento de Jesus. São inúmeras e ininterruptas as representações. Daí que sua “idéia” “não [foi] de primeira e súbita invenção” (134). No caso específico da representação de “Presepe”, Tio Bola parece ainda acatar a idéia de São Francisco de Assis, que recria a cena da natividade num espaço iluminado por estrelas e com um grupo restrito de cinco figuras: o Menino Jesus, a Virgem Maria, São José, um burro e um boi. Porém, em vez de se utilizar de bonecos para compor a Sagrada Família, como o santo o fizera, dramatiza o presépio vivo. Trata-se, pois, da parcela contributiva de sua criativa imaginação.
Neste conto, Guimarães Rosa traz para o campo de discussão o dualismo platônico, presente em A república, segundo o qual todas as coisas conhecidas são o duplo de uma realidade ideal e perfeita. Para Platão, existem dois mundos cuja oposição é insuperável: o “mundo sensível” e o “mundo inteligível”. O primeiro é o mundo em que nos encontramos – mundo das aparências. O segundo é o mundo das verdades e das essências imutáveis, conhecidas também como “Idéias”. Estas são as causas de tudo o que existe no mundo visível. De acordo com a perspectiva platônica, o “mundo inteligível” é real, não sendo o “mundo sensível” mais do que uma sombra deste.
Assim, tudo aquilo que vemos na realidade cotidiana é aparência, reprodução, cópia. Dito de outro modo, nosso mundo não passa de uma duplicata, de uma projeção fugaz e imperfeita. Deste motivo resulta a falta de apreço do pensador para com as manifestações artísticas. Sendo imitação da imitação, isto é, uma forma imitativa de representar o mundo, toda obra de arte seria um desvio em relação à essência, uma mentira, uma cópia sem valor. O filósofo entende que ela estaria duplamente afastada da verdade, ou melhor, “afastada três graus da natureza” (Platão, 2004: 324).
No conto rosiano, depara-se o leitor justamente com a representação de uma outra representação. Através de sua encenação particular, Tio Bola promove a recriação de um quadro já existente. Tendo-se em mente o modo platônico de contar os extremos, pode-se afirmar que sua imitação está afastada no quarto grau da verdade, tratando-se, pois, de uma cópia degradada de outra cópia já tida por degradada. No caso de “Presepe”, não há dúvidas de que este qualificativo deva ser mesmo atribuído à representação de Tio Bola. Ainda que fique evidente a representação da cena do Natal, com a recriação do ambiente em que se dera o nascimento de Cristo – tal como atesta o modelo de terceiro grau a que se refere –, os três personagens que participam do presépio são definidos em função da analogia às avessas com os duplos bíblicos. Neste ponto, a representação do octogenário personagem subverte as representações já consagradas. No entanto, isso não quer dizer que, no comentário figurado do ancião, o clima mágico da manjedoura tenha se perdido. Embora seja imperfeita do ponto de vista platônico, sob a perspectiva cristã, a cópia por ele produzida cumpre o seu papel. Trata-se de uma representação efetivada por personagens que estão à margem e que veicula a idéia de renascimento, vida nova, própria da simbologia natalina. Ela mostra que a imaginação não envelhece com o corpo, mas exerce um papel fundamental no processo de renovação da vida. Dito deste modo, por seu intermédio, mais uma vez, tornou-se vivo o longínquo episódio de Belém.
Referências bibliográficas:
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GOULART, Audemaro Taranto. O “Presepe” de Guimarães Rosa: a representação representada. In DUARTE, Lélia Parreira et al. Veredas de Rosa. Belo Horizonte: PUC Minas; CESPUC, 2000, p. 97-103.
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PLATÃO. A república. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2004.
ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras estórias). 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
SILVEIRA, Regina da Costa da. Veredinhas da infância em “Presepe”, de João Guimarães Rosa. RBCEH - Revista brasileira de ciências do envelhecimento humano, Passo Fundo, p. 9-15, jul./dez. 2005.
[1] “Tabuleiro [de madeira ou de pedra] em que se põe comida para os animais nas estrebarias” (Ferreira, 1999: 1274).
[2] Eis a passagem: “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de entender”.
[3] Sem nos adentrarmos nos símbolos que comportam e nos aspectos culturais dos judeus, é bom frisar que os motivos do boi e do jumento são bastante recorrentes nos textos bíblicos. No evangelho de São Lucas, por exemplo, há uma passagem na qual Jesus cura uma mulher encurvada exatamente no dia de sábado, o que, aos olhos dos chefes da sinagoga, era considerado um ato grave, visto que, neste dia, qualquer espécie de “trabalho” era proibida pela Lei. Ao censurá-los, Jesus diz: “Hipócritas! Cada um de vós, no sábado, não solta seu boi ou seu asno do estábulo [ou “da manjedoura”, conforme tradução da Bíblia do Peregrino] para levá-lo a beber?” (Lc 13, 15).
[4] As demais citações referentes a “Presepe” limitar-se-ão ao número da página desta edição.
[5] “Canto religioso, louvor, loa. // Grafia inusual de lauda, do it., ‘canto religioso da literatura medieval italiana’” (Martins, 2001: 294).
[6] Nome dado às “cantigas populares em honra dos santos” (Ferreira, 1999: 1228).
[7] Os Serafins são seres que representam a presença e a majestade de Deus. Referindo-se a Isaías 6, 2, a nota de letra “f”, da Bíblia de Jerusalém, traz a seguinte definição de “Serafim”: “Etimologicamente: os ‘abrasadores’. Estes seres alados só o nome têm em comum com as serpentes abrasadoras de Nm 21, 6.8; Dt 8, 15, ou voadoras de Is 14, 29; 30, 6. São figuras humanas, munidas, porém, de seis asas, que lembram os seres misteriosos que conduzem o carro de Iahweh em Ez 1, e que Ez 10 chama ‘querubins’, como as figuras análogas fixadas na arca (Ex 25, 18+). A tradição posterior deu o nome de serafins e de querubins a duas categorias de anjos” (2006: 1263).
[8] “Oração cristã iniciada, em latim, pela palavra credo (creio), e que encerra os artigos fundamentais da fé católica” (1999: 576).
[9] Há duas passagens na Bíblia que apresentam a “estrela da manhã”, também chamada de “estrela d’alva”, como sendo o símbolo de Cristo, o ungido que iluminará até o fim dos tempos toda a escuridão (trevas). A primeira se encontra na II carta de São Pedro 1, 19: “Temos, também, por mais firme a palavra dos profetas, à qual fazeis bem em recorrer como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos corações”. A segunda está localizada no livro do Apocalipse 22, 16b. Jesus diz: “Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante Estrela da manhã”.
[10] O Bendito (Benedictus) é o cântico entoado por Zacarias quando do nascimento de seu filho, João Batista (Lc 1, 68-79), o precursor do Messias. Tanto João Batista quanto Jesus Cristo nasceram em momentos quase que paralelos. Enquanto estava grávida, Maria visitou sua prima Isabel, mãe de João, e, provavelmente, lá permaneceu até o nascimento e a circuncisão do mesmo. Este cântico é composto por várias reminiscências do Antigo Testamento e é rezado diariamente por pessoas ligadas à vida sacerdotal, monástica ou consagrada. Ele integra as “laudes” que, “na liturgia católica, [constituem] a segunda das horas canônicas (na aurora, após as matinas), composta de salmos e cânticos de louvor a Deus” (Houaiss & Villar, 2001: 1730).
[11] Segundo o evangelho de São Lucas 2, 19, diante das manifestações sobrenaturais que envolveram o nascimento de Cristo, Maria apenas “conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração”.
| Pour citer cet article: SANTOS, Adilson dos, “A reatualização de um quadro da fé cristã em “Presepe” , Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org. |


