Numéro 4-5: comptes rendus - A poética migrante de Guimarães Rosa
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Fantini, Marli (org.), A poética migrante de Guimarães Rosa, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, 448 p, Col. Invenção. |
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Desde a publicação de Sagarana e de seu primeiro comentário crítico, feito por Álvaro Lins no CORREIO DA MANHÃ em 12 de Abril de 1946, uma extensa fortuna crítica orbita a obra de João Guimarães Rosa. São abordagens de toda sorte, que evidenciam a multiplicidade dos níveis em que opera o texto rosiano.
Em 2008, o centenário de nascimento do escritor permitiu que sua obra ganhasse evidência e, do mesmo modo, os discursos acerca dela. A publicação de A poética migrante de Guimarães Rosa, durante o Congresso Internacional Centenário de Dois Imortais - UFMG, em Belo Horizonte, é prova disso e dá tom comemorativo ao volume organizado por Marli Fantini.
Em suas quase quinhentas páginas, desfilam artigos sobre a obra do escritor mineiro e, indicando sua amplitude, os textos são agrupados de acordo com aspectos bastante distintos. Cada uma das nove partes é nominada, segundo determinada característica, utilizando pequenas citações da obra de Rosa.
A primeira delas, “Liquelices, refinices e salamaleques”, traz o ensaio de Walnice Nogueira Galvão sobre o conto “Orientação”. Nele, a pesquisadora faz um passeio pelos movimentos migratórios brasileiros, apontando a singularidade da situação, e mostra como do relacionamento improvável entre um chinês e uma sertaneja surge um processo inverso de aculturação.
Ettore Finazzi-Agró e Cid Ottoni Bylaardt discorrem sobre “Meu tio o Iauaretê”, em “Isso não á falável”. O primeiro, através das fronteiras que decorrem da situação paradoxal do homem-fera. O segundo, pela comparação com o romance Grande sertão: veredas. De modo geral, ambos tratam do valor singular deste conto, sobretudo da estratégia narrativa similar àquela utilizada no romance de 1956.
“Amizade dada é amor” trata do relacionamento entre os personagens Diadorim e Riobaldo de Grande sertão: veredas. No ensaio de Cleusa Rios Passos, verificam-se os limites entre o masculino e o feminino, nos domínios da psicanálise. E Márcia Marques de Morais demonstra, através da análise dos significantes, como se confundem e se misturam os elementos que delineiam esse amor proibido.
“O quem das coisas” reúne o estudo de Francis Utéza sobre o mito e o metafísico no romance rosiano, as provocações de Luiz Roncari acerca do mítico e do histórico na novela “Buriti”, e o artigo de Suzi Frankl Sperber sobre a busca da Terra sem Mal, indígena e utópica, no romance rosiano.
“O sertão está em toda parte” coliga trabalhos dedicados ao comparativismo. Kathrin H. Rosenfiled relaciona as obras de Machado e Rosa, a partir da observação da ironia.
Horácio Costa compara Grande sertão: veredas à obra do mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo. E Marli Fantini, organizadora da coletânea, contribui com a aproximação do romance rosiano com Vidas secas de Graciliano Ramos, tendo em foco as questões relativas ao espaço e ao meio-ambiente nos dois romances.
A sexta parte, “Vivendo o visto mas vivando estrelas”, tem ensaios acerca de contos incluídos em Sagarana e Primeiras estórias. José Carlos Garbuglio observa o apuramento da narrativa rosiana ao longo de sua produção. Maria Lúcia Dal Farra apresenta as relações imagéticas entre Primeiras estórias e o filme Outras estórias. E Maurício Salles Vasconcelos faz aproximações entre “Campo geral” e o filme Mutum.
Em “Eu quero a viagem dessa viagem”, Ana Luiza Martins Costa observa o papel da viagem para o escritor mineiro e, nesse caso, a importância do contato com a terra para a atividade literária. Denílson Lopes faz leitura da novela “Buriti”, ao lado de outras obras da literatura brasileira, tendo em foco o tema da volta para casa. Eduardo F. Coutinho mostra como a presença do mito associa-se à lógica racionalista no discurso de Riobaldo, em Grande sertão: veredas.
Na penúltima parte, “O senhor tolere, isto é sertão”, contribuem Sandra Guardini T. Vasconcelos e, em coautoria, Maria Célia Leonel e José Antonio Segatto. O primeiro artigo versa sobre a introjeção do princípio organizacional da sociedade brasileira na obra de Rosa. O segundo avalia a fortuna crítica rosiana, revisando alguns estudos já consagrados, ressaltando o valor da discussão acerca do tema, sua complexidade e a necessidade de uma leitura mais apurada destes textos críticos.
Por fim, em “A vereda é um oásis” Elza Miné e Neuza Cavalcante apresentam leitura dos aspectos característicos das cartas de João Guimarães para Aracy de CarvalhoGuimarães Rosa, ressaltando a afinidade e os interesses comuns do casal.
A despeito da multiplicidade de seus autores, temas e pontos de vista, o conjunto dos artigos publicados em A poética migrante de Guimarães Rosa soa homogêneo e o aprofundamento crítico dos textos não decepciona, constituindo importante subsídio para leitores iniciados ou não na obra de Rosa.
Assim, o pesado volume ratifica a amplidão das leituras rosianas, além do trabalho cuidadoso de estudiosos que, durante décadas, se dedicam à análise da obra deixada pelo escritor mineiro. Em sentido mais amplo, a publicação deste livro, que envolve a participação de tantos especialistas, somada aos eventos que celebraram o centenário de nascimento do autor, reafirma o interesse sobre a obra do escritor diplomata e indica o longo caminho, ainda a ser trilhado, nessas veredas de Rosa.
Anderson Teixeira Rolim
Universidade Estadual de Londrina
Doutorando



