Adivinhas e motivadores de leitura : Folhetos de cordel em performance

Attention, ouverture dans une nouvelle fenêtre. Imprimer

 

Maria Claurênia Abreu de A. Silveira

PROLING- Universidade Federal da Paraíba

 

 

As pesquisas sobre leitura na Educação Básica, no Brasil, tem cada vez mais se ampliado, não só para elucidar questões de compreensão e recepção de textos escritos e/ ou audiovisuais, mas também com vistas a, em uma abordagem na direção das práticas de leitura, discutir sobre a necessidade de incentivar a formação do hábito de ler para, entre outras conquistas nesse âmbito, garantir não só que os alfabetizados sejam leitores proficientes mas também que crianças, desde os primeiros anos de vida, sintam-se motivados a buscar os textos,  valorizá-los, inclusive com performances de leituraAs dificuldades de leitura, registradas entre as crianças que frequentam a escola, incentivam pesquisas que busquem formas de favorecer a ampliação do número de leitores competentes e habituais, aqueles que se detêm para apreciar um bom texto. Objetiva-se propor e analisar formas de interação em atos de leitura, estudar intercomunicações que se apoiem na oralização dos textos e na performance oral, evidenciar formas eficientes de motivar a leitura, especialmente sugerida na escola, envolvendo não só alunos, mas também professores.

Um enfoque que merece estudo, sobre oralidade na escola, concentra-se, especificamente na ação e no efeito da presença de contadores de história na sala de aula. Observam-se atividades orais como leitura em voz alta, contação de histórias, encenação de textos, visando também à ampliação da capacidade de fala dos alunos. Neste texto, apontam-se possibilidades de atuação do falante na direção dos seus ouvintes (no caso da sala de aula, alunos e professor(a)), visando à conquista dos alunos como falantes/leitores interessados em novos textos. Busca-se incentivar ações dos mediadores de leitura que, por sua vez, devem motivar os ouvintes para o ato da leitura. A performance do contador de história mostra-se pertinente, no que se refere ao modo como a sua voz empresta cor, ritmo, sonoridade ao dizer, favorecendo assim a interação necessária para evidenciar o texto em pauta. A forma como tal ação é recebida pelo ouvinte interessa igualmente. A voz em ação marca o texto e pode motivar o ouvinte a também participar. No caso da motivação à leitura, a voz que dá vida ao texto lhe empresta dinamicidade e convida os ouvintes a uma leitura posterior do que está sendo apresentado.  Essa integração através da voz, e com referência à força real da voz, é apontada por Zumthor (1993 : 9), quando afirma que “a oralidade é uma abstração; somente a voz é concreta, apenas sua escuta nos faz tocar as coisas”.

 

1. Folhetos de cordel/ folhetos de feira/ folhetos de adivinhação

O folheto de cordel, ou a literatura de cordel, tem sua apresentação, principalmente, sob forma de pequenos livros, de dimensões aproximadas de 10,0 X 15,0 cm., cujo número de páginas varia entre 8 e 48. Antes de chegar a essa designação, no Nordeste, essas publicações, por circularem nas feiras livres, eram denominadas folheto de feira. Segundo Santos (2006: 60), Sílvio Romero foi o folclorista que primeiro referiu-se aos folhetos sob a denominação literatura de cordel. Hoje, essa produção literária tem sido muito difundida como simplesmente cordel, termo herdado, ainda segundo Santos (2006:61), do cordão que servia de suporte para a venda de livros e de folhas volantes, nas ruas de Valença, na Espanha, desde o século XIII e em Portugal, no século XVII.  Textos de peças de teatro (farsa, entremez), impressos em papel barato, vendidos nas ruas, expostos presos a cordões, também eram conhecidos como livraria de cordel ou literatura de cordel.  Hoje, muitos leitores desse gênero usam a denominação folheto, ignorando a que tem sido mais difundida pelos próprios poetas que se referem aos folhetos como cordéis.

O corpus dos folhetos enfocados neste artigo é o das adivinhas tradicionais como ponto alto da narrativa, ou aquele cujo texto traz aspectos de performances, em que as personagens ‘enfrentam-se’ fazendo uso unicamente da palavra, especificamente da palavra cifrada, aquela que compõe um enigma a ser desvendado. Nesses folhetos, a perspicácia dos adivinhadores é posta à prova (Jolles, 1976:115). Para este autor, “a adivinha é, portanto, do lado do interrogador, uma inquirição do adivinhador e um modo de pressioná-lo para que se mostre igual a quem o examina”. Quem é inquirido também demonstra ser detentor de um saber específico e especializado. Esse debate constrói um texto divertido e instigante.

Dos folhetos de adivinhação, constam sequências narrativas com embates entre personagens, que fazem uso de adivinhas. Considerando que o jogo da adivinhação consiste em uma atividade de caráter puramente verbal, as adivinhas, nesses folhetos, revelam um embate que se dá na ordem do discurso, quando uma personagem tenta vencer a outra através do domínio da palavra, através do dizer, fazendo uso da voz, revelando-se vencedor do embate aquele que sabe responder, condignamente, o que está sendo questionado. Observe-se a sequência inicial do folheto de Severino Oliveira, intitulado As perguntas do rei e as respostas de Camões, que marca o caráter oral do folheto, como texto produzido por escrito, motivado por temáticas orais, para ser lido em voz alta, para ser ouvido. Na segunda estrofe, apresenta características da personagem que detém os “saberes do mundo”, antecipando ao leitor a relação entre vivência, memória próprias dos que sabem dizer e elucidar adivinhas, consideradas aqui como textos que expõem a capacidade retórica, fundamentada em um saber de caráter tradicional.

 

Leitor se vós escutar

 

esta pequena proposta

 

da descrição de Camões

 

acha interessante e gosta

 

ouvindo o que ele fez

 

rir para cair de costa (sic)

 

[...]

 

Com 7 anos Camões

 

não era mais inocente

 

começou a viajar

 

pelo mundo abertamente

 

profetizando o futuro

 

o passado e o presente.

 

(Oliveira,  s/d:.1).

 

A troca de adivinhas constitui, nesse folheto, a totalidade do corpo da narrativa. O jogo encontra-se retratado ao longo  do folheto, enquanto em outros textos, esse jogo limita-se a compor o clímax. Esses folhetos podem ser considerados ‘consagrados’ pela preferência do público leitor, o que é demonstrado pela permanência do folheto em circulação, uma vez que continua, com sucesso, a ser publicado e comercializado.

Geralmente esses embates, que se constituem a partir do jogo de palavras, acontecem entre uma personagem de prestígio social, que lança o enigma, um rei, por exemplo, e uma personagem oriunda das classes menos favorecidas, que elucida a questão proposta, um Pedro Malasartes, um Camonge ou Camões, um João Grilo, personagens de índole picaresca reconhecidas na literatura de cordel e na cultura oral brasileira.  A forma como o jogo da adivinhação compõe o texto mostra que ele empresta comicidade ao texto, além de revelar a construção de uma das facetas do gênero textual adivinha, ou adivinhação, como também é denominado no Nordeste brasileiro.  Trata-se assim de um embate em que o enigma e a capacidade de elucidá-lo constituem clímax do texto em questão.  O jogo da adivinhação no folheto de cordel constitui um atrativo para os seus leitores. Apostando nesse fator de motivação, tem sido observada a adequação desses folhetos, especificamente, para integrar projetos de incentivo à leitura.

Em projetos de leitura que enfatizem o folheto de cordel, pícaros da cultura popular, como os citados anteriormente, estão presentes e são divulgados em múltiplos enredos, de autores diversos, em vários títulos. Um motivo recorrente na cultura popular é aquele em que uma personagem picaresca vence uma disputa com uma autoridade reconhecida, como o rei, o delegado, o fazendeiro, através da astúcia ou a capacidade de vencer desafios verbais. Um Pedro Malazartes, como o nome já evidencia, pelas artes da astúcia que referendam sua ‘sabedoria’, faz uso da palavra e através dela, mesmo sendo pouco aquinhoado financeira e socialmente, vence o mais forte, rico e bem apoiado na sociedade.

No jogo da adivinhação, vence aquele que conhece os (des)caminhos do dizer, que através da palavra consegue dominar quem tem outro tipo de poder, mas não o que é mais importante neste embate: conhecer as respostas que estão escondidas nas palavras cifradas. Também no conto popular registra-se a presença da adivinhação, no chamado conto de adivinhação, que ‘empresta’ a designação aos folhetos aqui mencionados. Nesse tipo de conto, a adivinha é lançada no início, como deflagradora da narrativa, uma vez que o conto se desenvolve como forma de elucidar a adivinha proposta.

No folheto As perguntas do rei e as respostas de Camões, (Oliveira, s/d), todo o diálogo entre as personagens se estabelece através das adivinhas. O rei questiona e Camões elucida a questão, criando uma situação de performance. O Camões que participa dessa performance é a personagem picaresca, reconhecido na cultura popular, que não se confunde com o caráter erudito do Camões poeta português, guardando, no entanto uma verve, um saber que se mostra capaz de impor respeito. Observem-se os exemplos:

 

[...]

 

O rei disse: Adivinhaste

 

mais tenho outra para te dizer

 

se firme preste atenção

 

o que vou lhe esclarecer

 

se não der resposta certa

 

o jeito é você morrer.

 

Camões disse para o rei

 

minha língua não emperra

 

o rei disse então responda

 

ligeiro sem fazer guerra

 

quem é que nasce não morre

 

em cima da nossa terra?

 

Camões disse: Senhor Rei

 

o meu pensar não é torto

 

isto que o senhor pergunta

 

só parte de um aborto

 

quem nasce não morre mais

 

com certeza nasce morto

 

O rei disse: eu tenho outra

 

para você responder

 

a pergunta é a seguinte

 

responda se se atrever.

 

[...]

 

Esse folheto, em que ‘reina’ uma personagem picaresca, poderia também ser considerado uma peleja, no que se refere à disputa através das palavras, onde o vencedor é aquele que melhor sabe utilizá-las. O saber específico exigido pelas questões cifradas revela domínio de uma área do conhecimento, diferenciando e marcando positivamente aquele que demonstra domínio desse saber. Nas pelejas, dois cantadores se enfrentam no verso e na viola, buscando vencer um ao outro, na intenção de mostrar verve mais forte e convincente. Muitas pelejas publicadas em folhetos, envolvendo cantadores de viola famosos, retratam embates que não aconteceram,  mas que o folheto consagrou. Entre os folhetos em que a adivinha expõe personagens consagrados envolvidos em performances nas quais o gênero textual escolhido é a adivinha tradicional, revela-se o folheto O encontro de Pedro Malazarte com João Grilo e Camões, do poeta e xilo gravurista José Costa Leite (JCL, como assina suas gravuras)  em que três e não duas personagens trocam adivinhas. Nesse folheto, um debate a três, ocorre através das adivinhas, e, já na primeira sextilha, revela o seu caráter onírico. O Camões aqui retratado é o poeta lusitano e não o pícaro anteriormente referido.  Pedro Malasartes e João Grilo, também apresentados ao leitor/ouvinte, entram em ação, mantendo as características de pícaros que os consagraram no universo do folheto de cordel:

 

Dormi e sonhei que estava

 

Nas margens do rio Nilo

 

Lendo num livro dourado

 

Um belo conto em sigilo

 

Cheio de ilustrações

 

E nele estava Camões

 

Com Malazarte e João Grilo

 

Em Portugal Camões viveu

 

Num palacete central

 

João Grilo era brasileiro

 

Passou uns dias em Natal

 

Contando adivinhações

 

E foi conhecer Camões

 

Nas terras de Portugal

 

João Grilo disse a Camões

 

- Você é um bom freguês

 

Depois chegou Malazarte

 

Muito distinto e cortez

 

Mostrando ser gente boa

 

Numa praça de Lisboa

 

Ali se juntaram os três

 

Pedro Malazarte era

 

Muito “vivo” e popular

 

João Grilo era estradeiro

 

Gostava de aplicar

 

Era bastante escolado

 

E Camões por outro lado

 

Nele nem é bom falar.

 

 

Texto e xilografia de JCL

Texto e xilografia de JCL

 

A integração falante/ ouvinte, através da voz, que Zumthor (1997:13) denomina performance, expõe a necessidade de analisar essa complementaridade que deve haver entre o que é falado e o que é ouvido, no que se refere ao que é compreendido, internalizado e posto em prática, na leitura em voz alta, na escuta da vocalização dos textos:

palavra [é] a linguagem vocalizada, realizada fonicamente na emissão da voz, a voz ultrapassa a palavra [...]. A voz não traz a linguagem: a linguagem nela transita, sem deixar traço. A performance, por sua vez, implica competência. Além de saber-fazer e de um saber-dizer, a performance manifesta um saber-ser no tempo e no espaço.(Zumthor, 1997:15)

Zumthor (1997:155) analisa a performance, a partir de variadas “situações de escuta” do cotidiano de artistas. Para o autor, “implicando um tipo singular de conhecimento, a performance poética só é compreensível e analisável do ponto de vista de uma fenomenologia da recepção”. O saber dizer está atrelado a ser ouvido. A performance realiza-se na interação de quem faz e quem recebe, na mútua fruição do cantar, dizer/ ouvir, participar desse saber fazer. Tal postura recebe a adesão de Mey (2001:21), quando discute a respeito da supremacia do falante sobre o ouvinte, no que se refere à concentração dos estudos linguísticos no falante. Segundo o autor, “a ideia subjacente parece ser: o que é dito é mais importante; o que é entendido não é tão importante assim, ou ao menos não é digno de uma atividade descritiva”.

A voz que analisamos é aquela que traz a intenção de divulgação de um texto ou parte dele, visando não só ao seu conhecimento pelo ouvinte mas também a motivá-lo  a ler aquele texto, ser um leitor, a exemplo daquele que conduz a performance, aqui denominado mediador de leitura. A presença corporal de quem anuncia o texto é um componente importante da performance de quem se deseja mediador de leitura. Tal mediador precisa viabilizar o interesse do ouvinte pelos textos que estão sendo apresentados/ vocalizados. Dizer pressupõe a presença de quem ouve e participa. A voz é o canal preponderante para essa interação, a “vocalidade”, especificamente, “vocalidade é a historicidade de uma voz: seu uso.” (Zumthor, 1993:21).  É o que observamos no que concerne a objetivos de incentivar a leitura através da apresentação oral de textos lidos ou ditos a partir de textos memorizados, provindos também de uma memória textual que se mantém e pode ser divulgada também oralmente.

 

2. Adivinhação : a voz e o jogo das palavras

Muito se tem reforçado que incentivar a leitura, favorecer a criação e a manutenção do hábito de ler pressupõem ações constantes que viabilizem o contato com os textos. Um mediador de leitura faz uso da voz e reconhece o valor dessa “vocalidade”. A voz constitui um canal importante para a partilha dos textos. Assim, o mediador, aquele que intenta fazer com que os textos sejam conhecidos dos seus ouvintes e que esses ouvintes venham a ser leitores, redescobrem a importância da voz para favorecer, antes de tudo o gosto pela palavra, desenvolver a capacidade de ouvir e falar. A partir daí, pode-se ampliar tais ações no sentido de criar o envolvimento necessário à leitura. A voz traz a palavra que “sem cessar, relança o jogo do desejo por um objeto ausente, e presente, no entanto, no som das palavras.” (Zumthor,1997:13).

Observando-se crianças como público-alvo e referindo-se aos professores como mediadores de leitura, podem ser revistas e analisadas situações em que a palavra ganha força quando veiculada adequadamente, em situação de performance. A palavra pode ser absorvida mesmo que o ouvinte não apreenda plenamente o seu significado. A voz empresta ‘peso’ à palavra, mesmo quando seu significado não é exigido por quem ouve. O som, o ritmo, o encadeamento dos sons muitas vezes é o que passa a interessar ao ouvinte, naquele momento de escuta. Assim, quando se lança a adivinhação e esse texto é recebido como som e ritmo, brincar com a palavra é o que se impõe.

Retomando um fato observado, em situação de performance na Educação Infantil, as adivinhas, quando apresentadas a crianças, na faixa etária entre três anos e meio e quatro anos, aproximadamente, ganham status de jogo de palavras. A fórmula: “O que é, o que é?” passa a ser a senha para dar início ao jogo. Quando vocalizada “teatralmente”, em voz postada que convida a participar do jogo, é recebida com o prazer que antecede e acompanha a brincadeira. Nessa faixa etária, não se delineia para a criança o jogo de adivinhar, de buscar elucidar o enigma apresentado, mas a brincadeira de repetir a fórmula, de repetir a expressão na íntegra, de fazer as palavras ecoarem, confirmando a capacidade de repetir a senha ouvida, de oralizar a palavra para orientar a brincadeira.

Repetir alegremente a fórmula (o que é, o que é?) significa aceitar participar da brincadeira, reconhecer a senha e se integrar ao grupo participante. A adivinhação, que é dita logo em seguida à fórmula, também faz parte dessa “armadilha” que se relaciona ao uso da voz no jogo com as palavras aparentemente vazias de significado. Algumas crianças repetem as sequências, mas não percebem a intenção maior da charada, de um enigma a solucionar. A voz que traz a rima, os sons em ritmo é o que lhes atrai. Tomemos como exemplo a performance em que se vocaliza a adivinhação:

 

O que é o que é?

 

A torneira faz cho

 

A galinha faz có

 

E o cachorro late.

 

[chocolate]

 

Entrei no fundo do mar

 

Saí no fundo da areia

 

Quem quiser me decifrar

 

Pegue no be-a-ba e leia

 

[baleia]

 

A voz que traz o texto e orienta a performance traz a pergunta/questiona, verbaliza a adivinhação. Espera-se a resposta, mas a recepção não se constitui de acordo com o que seria o esperado. O texto ecoa para ganhar outro sentido para aqueles ouvintes/participantes da performance. O que agrada a tal plateia é procurar repetir cada fase do texto que se impõe por seu formato já cristalizado. O texto da adivinhação tem uma ressonância que agrada ao ouvido, diverte, incentiva o esforço da imitação.

 

Repetir o texto, verso a verso, é o que motiva esses ouvintes/participantes.

Primeiro é apresentada a fórmula (o que é o que é?), que muitos dos participantes repetem divertidamente. A intenção de quem fala pode ser incentivar o desafio, o questionamento, a expectativa da resposta ao desafio que se lançou. Mas quem ouve, envolve-se com o som das palavras, sua repetição, talvez o gosto de também ser capaz de reproduzir o mesmo texto, os mesmos sons encadeados. Ainda não percebe outros usos do gênero, principalmente, exigir uma resposta condizente com a questão estabelecida. É isso o que, com esses participantes, compõe tal performance oral: o mediador propõe a questão a ser desvendada e (alguns dos) seus ouvintes a repetem tantas vezes considerem divertido. Mas o jogo das palavras suscita também outros desfechos.

O texto da adivinhação que constitui o enigma a exigir solução, uma vez deflagrado, reforça o efeito cifrado das palavras que tomam corpo na voz, sem exigir significados, mas somente o gosto por dizer, memorizar, repetir os sons conjugados, as palavras a um só tempo estranhas e habituais. A solução da primeira adivinhação apresentada constitui uma surpresa “deliciosa” (chocolate). Uma palavra entre tantas que toma forma, cheia de significados. A voz que traz a palavra enuncia mais uma vez o prazer, não só de envolver-se no jogo, mas também de evocar sabores e texturas do chocolate. As sílabas que se apresentam no final de cada verso da adivinha não parecem se conectar ao resultado, à solução do enigma. Neste caso específico, o texto da adivinha traz em si aspectos de um poema: palavras condensadas, sons, ritmo.  Aquilo não é um enigma para aqueles ouvintes, mas unicamente um motivo para dizer também e se divertir com a rima e os sons integrados das palavras. É uma primeira escuta que prepara o interesse por ouvir e dizer. Esse exercício faz parte do processo de leitura; integra, a partir do ouvir, uma conexão com os textos a serem lidos.

Nesses atos de fala, quando a intenção é comunicar e, a partir daí, ampliar os interesses dos ouvintes, não só como tal, mas também como leitores diligentes, ‘buscadores’ de textos, mediadores de leitura constroem suas performances, experimentam textos que melhor estejam adequados aos interesses de seus leitores e deflagrem a ampliação de suas leituras. A performance, como a aqui referida é descrita por Zumthor (1997:33) como a “ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida”.

Atividades planejadas para incentivar a leitura orientam-se a partir da escolha dos textos, apoiando-se nas possibilidades de motivar os ouvintes, participantes da performance oral. Zumthor (1997:33-4), especificando a performance, aproxima-a da existência do poema, que, na sua concepção, se comporia em cinco fases: produção, transmissão, recepção, conservação, (em geral) repetição.  A performance abrange as fases de transmissão e de recepção; em caso de improvisação, estariam em pauta as fases de produção, transmissão e de conservação.

No que se refere a atividades planejadas de incentivo ao reconhecimento de textos literários, com vistas à motivação para a leitura - desde a escolha dos textos até a proposta consolidada - , a performance transita pelas fases acima referidas, impulsionada pelo objetivo a que se propõe,  muitas vezes apoiada na presença ou na existência anterior de um texto escrito conhecido de quem fala (e/ou de quem ouve), confirmando o que afirma Zumthor: “a poesia oral hoje se exerce em contato com o universo da escrita”. Nesse universo de textos escritos que apoiam a voz, reinam os folhetos de cordel.

 

3. Folhetos de cordel : escritura e voz

Ainda percorrendo o universo de textos que se oferecem para compor projetos de leitura,  os folhetos de cordel apresentam variedade ampla de temáticas, personagens e enredos, considerando-se a multiplicidade de motivações de que devem lançar mão os motivadores de leitura. Observe-se que, atualmente, a produção de folhetos endereçados à sala de aula, especialmente às crianças, tem aumentado consideravelmente. Alguns poetas têm composto e publicado seus versos, com a especificação expressa na capa: folheto para crianças, reforçando este mercado que se abre para a aquisição de novos leitores ou de leitores mais novos.

Com crianças que já leem, (não serão mencionados aqui os adultos que também podem se interessar por tais textos), múltiplas possibilidades se abrem e os folhetos de cordel são oferecidos como uma opção rica para realizar a passagem do texto oral para o escrito, demonstrado através da leitura. Se a adivinhação constitui um texto que motiva interações como texto oral, quando memorizado, favorece mais a brincadeira, o jogo de palavras, enigma esperando solução, o folheto, com seu texto rimado e ritmado constitui-se em um texto oral que se revela por escrito.

As sextilhas nos folhetos, cuja trama são entremeadas pelas adivinhações, expõem o jogo nas linhas do enredo, enriquecendo as possibilidades de ampliação da performance quando da leitura do texto. Por tratar-se de textos que se intercruzam e se completam, a rima da sextilha potencializa a adivinhação, ampliando o alcance desse jogo de linguagem. As adivinhas emprestam vigor à trama que se desenrola como enredo.

Na sua condição oral por excelência, revela-se no texto, como escritura, mas ainda assim busca a representação da voz. É na palavra dita que esta ganha força. A sua mobilidade é exposta na performance que o texto do folheto retoma com o diálogo das personagens, representando o embate que, na tradição do discurso, se realiza oralmente. Observe-se no folheto de José Costa Leite (2002), O encontro de João Grilo com a Donzela Teodora, como o título anuncia, duas personagens do folheto se encontram, trazendo as marcas do discurso que as caracterizam: a donzela retoma sua atuação respondendo as perguntas de um rei mau, fato narrado no folheto intitulado Estória da Donzela Teodora, em cuja capa consta a autoria de Leandro Gomes de Barros (1981) e no topo da primeira página está referido como autor João Martins de Athayde (1981). João Grilo é sempre lembrado pelas suas astúcias reveladas no folheto As proezas de João Grilo. Observe-se que na capa do folheto aqui apresentado não consta autoria do texto, somente da xilogravura. Na primeira página do folheto, consta o mesmo João Martins de Athayde como autor dos versos. Neste artigo, porém, não será referida a questão de autoria que se insinua nos exemplares retratados aqui.

 

Capa e texto de JCL

Xilogravura de Stênio

Capa exibindo foto de artista

Capa e texto de JCL Xilogravura de Stênio Capa exibindo foto de artista

 

As duas personagens, construídas a partir da referência da ‘sabedoria’, cada um a seu modo, sendo referendadas pelas mesmas características que as construíram no universo do folheto. A referência textual da donzela revela-se nos seus conhecimentos de história, geografia, matemática, entre outras ciências. O que caracteriza João Grilo, pícaro reconhecido, é a sua capacidade de superar obstáculos ‘levando vantagem’ de todas as pessoas, principalmente as autoridades constituídas, por exemplo, o padre, o rei (entre outros nobres), o dono da ‘venda’, o professor, todos que possam lhe valer uma situação que lhe seja vantajosa. Tome-se, por exemplo, os versos (Leite, 2002: 2-3):

 

Fui no Reino de Apolo

 

Onde a poesia mora

 

Me entregaram um livro

 

Onde eu li quase uma hora

 

O encontro de João Grilo

 

Com a Donzela Teodora

 

[...]

 

João Grilo esteve no Brasil

 

Mas um dia caiu fora

 

Percorreu os estrangeiros

 

Sempre atrás duma melhora

 

E um dia ele encontrou

 

A Donzela Teodora.

 

[...]

 

E perguntou: - o senhor

 

É o João Grilo falado,

 

Que respondeu às perguntas

 

Do rei Jacinto Conrado?

 

Ganhou tudo que ele tinha

 

E quase leva o reinado?

 

[...]

 

Não procurei enganá-lo

 

Algumas apostas fiz

 

Respondi suas perguntas

 

E fiquei muito feliz

 

Que eu sou um sabichão

 

Quase todo mundo diz

 

[...]

 

A moça lhe disse: - Eu sou

 

A Donzela Teodora,

 

Que respondi as perguntas

 

De um rei chato, na hora

 

Fiquei famosa e meu nome

 

Corre pelo mundo afora

 

Mas na verdade eu não sou

 

Sabida como se diz;

 

Sou apenas inteligente

 

Em todo teste que fiz

 

Sempre saí vencedora

 

E fiquei muito feliz

 

O diálogo que travam as duas personagens apoia-se no discurso da tradição, com uso de adivinhas. Esse folheto reconstrói as personagens que se encontram em uma performance que se quer antológica. A presença de duas personagens, consagradas no mundo da cultura popular e do folheto, especificamente, João Grilo e Donzela Teodora, respectivamente ‘sabido’ e culta, antecipa a importância do encontro, no qual já se avizinha um embate de gigantes. Reunindo, em outro espaço, ou outro título de folheto, em outra performance, duas personagens consagradas, é reforçada a tradição que tais personagens sugerem.

No folheto, essa performance é relatada e, pelo fato de o folheto ser um texto, como já foi lembrado, construído para ser lido em voz alta, para um público ouvinte, tome-se como exemplo atual a sala de aula, espelho dos saraus para a escuta desses textos, onde tem-se uma dupla realização da mesma performance: registra-se o jogo da adivinhação do folheto e este mesmo jogo na vocalização do folheto. O enfrentamento do rei por Camões, por exemplo, expõe uma ‘peleja’ que se instaura quando a autoridade lança as adivinhações e esse ‘capiauzinho’ elucida uma após outra e por isso consegue, por exemplo, ganhar o direito e a certeza de casar com a filha do rei e ficar muito rico, herdeiro de todo o reino em questão. Camões conquista, através da palavra, a mão da princesa e a herança do reino. Esse fato exemplifica bem a afirmação: Saber pressupõe poder.

No folheto de Costa Leite (1983), intitulado O casamento de Camões com a filha do rei, duas sextilhas exemplificam tal andamento da narrativa:

 

Disse o rei: diga o que é

que por aqui sempre está

e também está ali

mas não está acolá

quando ela sai daqui

fica sempre por ali

e para aqui volta já.

Disse Camões: Senhor rei

o que está sempre aqui

mas não está acolá

e também está ali

fica aqui não fica lá

e nem fica em acolá

é somente a letra i.

 

Xilo e texto de JCL

Xilo e texto de JCL

 

Da página 2 até a página 16, a última do folheto, todas as sextilhas são compostas por adivinhações, apresentadas pelo rei e devidamente respondidas por Camões. A última estrofe do poema é uma décima em versos igualmente setissilábicos, que compõem um acróstico, marcando a autoria do folheto:

 

Camões ficou no reinado

 

O Rei lhe deu no momento

 

Sua filha em casamento

 

Tânia, um anjo aprimorado

 

A princesa com agrado

 

Lhe beijou sem ter demora

 

E Camões até agora

 

Imortalizado ficou

 

Tudo que o rei perguntou

 

Ele respondeu na hora.

 

O jogo de adivinhações compõe o diálogo refinado das duas personagens. As ameaças lançadas pelo rei são combatidas por Camões com o seu saber que vai lhe abrindo as portas da fortuna e do amor. O fato de o poeta retomar adivinhações por vezes já conhecidas dos leitores (ouvintes) do folheto amplia o interesse, observando também a construção do verso, a forma como o poeta compõe, sem deixar de aquecer a disputa entre as personagens. Essa disputa, longe de ser uma luta corporal ou uma sujeição a castigos físicos, converte-se em uma luta no campo dos ‘saberes’. O domínio dos sentidos que as palavras escondem é que confere poder a quem o detém. Dominar a palavra é o mesmo que dominar o mundo.

Esses folhetos, por apresentar disputa acirrada e inteligentemente composta através dos enigmas apresentados pelas adivinhações, favorecem a interação dos ouvintes com o leitor, mediados pelo próprio texto, apoiados na força expressiva das personagens no seu valor estabelecido. Cada adivinhação é percebida como um texto isolado e ao mesmo tempo integrado na trama que se desenvolve no folheto. Cada adivinhação pode ser, mesmo retirada do texto maior e redefinida, refeita quanto à ordem das palavras e reconhecida em seu formato original, muitas vezes familiar aos ouvintes. Esses recortes favorecem outros formatos de performances, mais dialogadas, incitando os participantes a, como a personagem do folheto, elucidar a adivinhação, antes da resposta dada no texto em questão.

Compostos por desafios em adivinhações, tais folhetos constituem um material bastante rico para integrar projetos de incentivo à leitura. O ritmo que se empresta ao texto lido, em situação de performance oral, favorece a motivação para ampliar as leituras desse gênero textual. O verso rimado cria uma cadência nas palavras, revelando outro formato para a mesma temática por vezes já conhecida. Utilizar a voz, o corpo, e mesmo o gestual, com vistas a favorecer o interesse pela leitura de textos vários, apresenta-se como ponto central da proposta de envolvimento e conquista do leitor em potencial e como forma de permanência do leitor habitual.

 

4. Considerações finais

Verifica-se hoje, no Brasil, um esforço crescente na disseminação do hábito de ler. Pensar proposta de leitura para todas as faixas etárias tem considerado a multiplicidade de gêneros que aponta textos os mais diversos. Na interface da narrativa e do poema, o folheto de cordel se mostra como um suporte importante, que apresenta temáticas variadas temas e personagens. O caráter oral desses textos expõe a sua ‘vocação’ para a performance. A voz que traz a palavra mostra-se como referência na mediação entre texto e leitor.

Em projetos de leitura na escola, o professor, principal mediador de leitura, planeja e, com seus alunos, realiza performances em que gêneros textuais lhes são apresentados, com vistas a que, participando desses exercícios de ouvir, ler e/ou dizer os textos, esses leitores em formação passem a fazer parte das preferências de leitura. Escolher os gêneros a fazer parte desses projetos tem sido ponto importante a considerar. Os folhetos de cordel (suporte e gênero textual), que se constituem em escrituras de textos orais, estão entre aqueles que se adéquam a essas performances, entre tantas outras. O folheto em que está presente o gênero adivinha, aqui denominado folheto de adivinhação, constitui-se como material importante a ter participação em projetos de incentivo à leitura.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Obras Escolhidas; v.1.

LEITE, José Costa. O casamento de Camões com a filha do rei. João Pessoa: MEC/PRONASEC RURAL – SEC/PB – UFPB – FUNAPE, 1981.

____. O encontro de João Grilo com a Donzela Teodora. Fortaleza: Tupynanquim, 2002a

____.  O encontro de Pedro Malazarte com João Grilo e Camões. Campina Grande: FUNCESP, 2002b.

MEY, Jacob L. As vozes da sociedade: seminários de pragmática. Tradução de Ana Cristina de Aguiar e Viviane Veras. Campinas, SP: Mercado da Letras, 2001. (Ideias sobre Linguagem).

OLIVEIRA, Severino G. de. As perguntas do rei e as respostas de Camões. s/ed: s/l, s/d.

ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a poesia popular no Brasil. 2ed. Petrópolis(RJ): Vozes/ Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, [1888], 1977.

SANTOS, Idelette M. Fonseca dos. Memória das vozes: cantoria, romanceiro & cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo/ Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2006.

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. Tradução de Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

________ Introdução à poesia oral. Tradução: Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia D. Pochat, Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.